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Wellesley cruzou o Kaitna pelo vau entre 2 aldeias

Em 1803, os guias juravam não haver passagem; Wellesley leu as margens e levou 9.500 homens ao flanco de 50 mil maratas.

Coluna britânica cruza o vau do Kaitna em Assaye, 1803

Rio Kaitna, Assaye, setembro de 1803

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Um em seis. Era a fração dos homens no campo de Assaye, na tarde de 23 de setembro de 1803, que marchava com o general Arthur Wellesley: 9.500 contra uns 50 mil maratas.

Para quem estava na coluna britânica, a conta tinha um sentido simples. Um ataque de frente, pelo rio, terminaria na boca de mais de cem canhões.

O rio era o Kaitna, no planalto do Decão, no centro-oeste da Índia. Do lado norte, numa língua de terra entre o Kaitna e um segundo rio, o Juah, estava acampado o exército de Daulat Rao Scindia e do rajá de Berar, os dois chefes da Confederação Marata (a aliança de reinos que dominava o centro da Índia).

Wellesley tinha 34 anos e chegou à margem sul por volta do meio-dia, depois de uma marcha de uns 30 quilômetros. Esperava achar o inimigo partindo. Achou o acampamento inteiro de pé, com a artilharia apontada para a água.

Os guias locais repetiram a mesma resposta. Não havia vau (trecho raso por onde se atravessa a pé) por perto, só o da frente dos canhões.

Wellesley subiu num terreno mais alto com a luneta. Rio abaixo, a leste, viu duas aldeias, uma em cada margem, quase frente a frente: Peepulgaon ao sul e Waroor ao norte.

O raciocínio dele cabe numa frase, e ele mesmo a registrou depois. Duas aldeias não nascem uma diante da outra num rio se os moradores não tiverem por onde passar.

Mandou um oficial de engenharia sondar o leito. O vau estava lá, raso o bastante para a infantaria e para os canhões puxados por bois.

A travessia levou a tropa para a ponta leste da língua de terra, onde os maratas não esperavam ninguém. Os dois rios, que protegiam o acampamento pela frente, passavam a apertar os flancos de quem lutasse ali dentro.

Aqui embaixo, por que a Companhia das Índias Orientais estava em guerra no Decão, quem comandava a infantaria treinada dos maratas e como Wellesley atacou uma linha cinco vezes maior.

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I  A batalha de hoje

A Companhia contra a Confederação

A resposta de ontem

Quem matou o grão-vizir Elmas Mehmed Paxá?

Os próprios janízaros. Quando a meia-lua de Zenta começou a cair, a infantaria do sultão se amotinou, culpou o grão-vizir pelo exército partido em dois e o matou na margem oeste do Tisza. Mustafá II perdeu ali, no mesmo fim de tarde, o primeiro-ministro e a metade do exército que não tinha cruzado.

A batalha de Assaye opôs o exército da Companhia Britânica das Índias Orientais, comandado por Arthur Wellesley, ao exército da Confederação Marata de Daulat Rao Scindia e Raghuji Bhonsle, rajá de Berar. Foi travada em 23 de setembro de 1803, perto da aldeia de Assaye, e terminou com os maratas fora do campo e quase toda a sua artilharia perdida.

Em Assaye, um general de 34 anos, que ainda não era duque nem conhecido na Europa, venceu a primeira grande batalha campal da carreira contra um exército de infantaria treinada no padrão europeu.

A ficha do confronto:

Data:23 de setembro de 1803
Local:Assaye, rio Kaitna
Companhia:Arthur Wellesley
Maratas:Scindia e Bhonsle
Arma do dia:o vau de Peepulgaon
Desfecho:vitória britânica

A Companhia das Índias Orientais era uma empresa de comércio com exército próprio. Em 1803, já governava Bengala, Madras e boa parte do sul, e o governador-geral em Calcutá era Richard Wellesley, irmão mais velho do general.

Os maratas eram o maior poder que ainda restava no centro da Índia. A confederação tinha um chefe nominal, o peshwa (o primeiro-ministro hereditário, sediado em Poona), e grandes senhores que mandavam nos próprios exércitos.

Em 1802, uma guerra entre esses senhores tirou o peshwa Baji Rao II de Poona. Ele fugiu para a costa e assinou com os britânicos o Tratado de Bassein: recuperava o trono e, em troca, aceitava tropas da Companhia no seu território.

Scindia e Bhonsle viram no tratado o fim da independência marata. Juntaram os exércitos no norte do Decão e recusaram recuar para as suas terras.

Em agosto de 1803, a Companhia declarou guerra. Wellesley tomou a fortaleza de Ahmednagar em poucos dias e desceu para o norte atrás do exército marata, com uma segunda coluna, a do coronel James Stevenson, marchando em paralelo.

O plano era juntar as duas colunas e atacar no dia 24. Na manhã do dia 23, Wellesley soube que o inimigo estava a poucas horas e, pelas informações que tinha, prestes a sair dali.

Decidiu não esperar Stevenson. Se os maratas escapassem, a campanha podia se arrastar por meses na estação das chuvas.

No Decão, as monções enchiam os rios entre junho e setembro. Em fins de setembro, o Kaitna ainda corria cheio no meio, e um vau desconhecido valia uma semana de marcha.

 
 

II  Quem estava em campo

O general jovem e o oficial de Hanôver

A infantaria marata em Assaye não era uma horda: eram batalhões treinados e comandados por oficiais europeus, com cerca de cem canhões apontados para o rio.

O general

Arthur Wellesley nasceu em Dublin em 1769, quinto filho de um conde irlandês. A mãe achava que ele não servia para nada, e ele entrou no exército porque a família comprou os postos.

Chegou à Índia em 1797 como coronel do 33º Regimento de Infantaria. A promoção rápida deveu muito ao irmão governador, e os outros oficiais faziam questão de lembrar.

Em 1799, lutou no cerco de Seringapatam, a capital do sultão Tipu de Mysore, e depois governou a cidade. Foi ali que aprendeu a contar bois, arroz e rios antes de contar soldados.

Em Assaye ele comandava 4.500 soldados de linha, britânicos e sipaios (soldados indianos treinados pela Companhia), e uns 5.000 cavaleiros aliados de Mysore e dos maratas fiéis ao peshwa.

Os chefes maratas

Daulat Rao Scindia tinha cerca de 24 anos e herdara do tio-avô, Mahadji Scindia, o exército mais moderno da Índia. Raghuji Bhonsle II governava Berar, a leste.

Os dois deixaram o campo antes ou logo no começo do combate. O comando da batalha ficou na mão dos oficiais da infantaria.

O oficial de Hanôver

Anthony Pohlmann era um ex-sargento do exército de Hanôver, no norte da Alemanha, que tinha passado ao serviço marata. Em 1803 comandava a brigada de infantaria mais forte de Scindia.

Foi ele quem viu a coluna britânica cruzar o vau e mudou a frente de toda a linha, girando os batalhões para leste em pouco tempo. A manobra desfez a surpresa de Wellesley.

Os batalhões treinados

A infantaria regular de Scindia somava cerca de 10.500 homens, em batalhões vestidos e armados à europeia. Atrás deles, a cavalaria marata, dezenas de milhares de cavaleiros, mal entrou na luta.

Os Highlanders

O 74º Regimento, de escoceses das Terras Altas, entrou na batalha pelo lado errado. Seguiu os piquetes (a tropa de guarda avançada) do tenente-coronel William Orrock rumo à aldeia de Assaye, onde estava a maior concentração de canhões.

 

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III  O plano

Dois rios para apertar a linha

O plano de Wellesley: cruzar pelo vau, entrar na língua de terra e atacar a linha pelo flanco.

O plano de Pohlmann: girar a infantaria e esperar o ataque com os canhões na frente.

A aposta britânica: contar com os dois rios para impedir que os maratas usassem o número.

Entre o Kaitna e o Juah, a língua de terra tinha pouco mais de dois quilômetros de largura. Ali dentro, 50 mil homens não cabiam numa frente só, e a cavalaria marata não tinha espaço para cercar ninguém.

O plano tinha quatro passos:

1. Cruzar o Kaitna pelo vau entre Peepulgaon e Waroor, longe dos canhões.

2. Formar a infantaria em duas linhas, de um rio ao outro.

3. Avançar contra a ala direita marata, a mais fraca, e empurrá-la para o Juah.

4. Guardar a cavalaria para a hora de fechar o campo.

Pohlmann girou a frente antes de a infantaria britânica terminar de formar. A linha nova ia de um rio ao outro, com uma centena de canhões à frente e a aldeia de Assaye na ponta norte.

Os sipaios e o 78º Regimento avançaram contra os canhões. A artilharia britânica era pequena demais para responder, e Wellesley mandou seguir sem ela, de baioneta.

Na direita, Orrock levou os piquetes e o 74º para perto de Assaye. Os canhões da aldeia e a cavalaria marata quase destruíram o regimento escocês.

Wellesley lançou o 19º de Dragões Ligeiros, sob o tenente-coronel Patrick Maxwell, em carga para salvar o 74º. A carga empurrou os maratas para o Juah.

No centro, a linha marata se desfez. Muitos artilheiros se fingiram de mortos junto às peças, deixaram a infantaria passar e voltaram a atirar pelas costas dela.

Wellesley voltou com o 78º e a cavalaria para retomar os canhões. Maxwell caiu numa segunda carga, já no fim da tarde.

Os maratas deixaram o campo ao anoitecer, rumo ao norte, cruzando o Juah. Ficaram para trás 98 canhões.

No relatório de Wellesley ao governador-geral, as perdas britânicas foram de 428 mortos e 1.156 feridos, quase um terço da tropa de linha. As maratas ficaram estimadas em uns 6.000 caídos.

Stevenson chegou no dia seguinte. Em novembro, as duas colunas juntas venceram os maratas em Argaum, e em dezembro Scindia e Bhonsle assinaram a paz.

Doze anos depois, Wellesley venceu Napoleão em Waterloo como duque de Wellington. Já velho, ainda dizia que Assaye tinha sido a melhor batalha da carreira dele.

Wellesley passou a tarde inteira na primeira linha, em cima de um cavalo e depois de outro.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quantos cavalos Wellesley perdeu debaixo do corpo durante a tarde de Assaye?

 
 
Quiz da edição

Quem comandava a brigada de infantaria marata que, ao ver a coluna britânica cruzar o vau, girou toda a linha para leste e desfez a surpresa de Wellesley?

ADaulat Rao Scindia
BRaghuji Bhonsle
CAnthony Pohlmann
DWilliam Orrock

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