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Varsóvia leu o Gênesis na frequência russa

Em agosto de 1920, a estação polonesa tomou o canal do comando soviético com a Bíblia, e as ordens de Tukhachevsky se perderam.

Estação de rádio militar polonesa em Varsóvia, agosto de 1920

O rádio de Varsóvia, agosto de 1920

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Uma em duas. Na manhã de 15 de agosto de 1920, era a chance de uma ordem do comando soviético alcançar o 4º Exército pelo rádio: das duas estações da unidade, a de Ciechanów tinha acabado de cair nas mãos da cavalaria polonesa. Para os operadores russos, sobrava um aparelho e uma frequência.

Naquela manhã, a frequência já tinha dono.

Ciechanów é uma cidade pequena ao norte de Varsóvia, a uns 90 quilômetros da capital. O 4º Exército soviético tinha montado ali o quartel-general, longe da frente, num prédio com antena no telhado.

Na madrugada do dia 15, um regimento de ulanos (cavalaria ligeira polonesa, armada de lança e carabina) entrou na cidade a galope. Os poloneses levaram mapas, papéis e o transmissor.

Ficou um segundo aparelho, de reserva, com outro grupo do quartel-general. Era ele que precisava ouvir o que vinha de Minsk, onde estava o comando da Frente Ocidental soviética.

Em Varsóvia, dentro da Cidadela (a velha fortaleza russa às margens do Vístula), a principal estação de rádio polonesa ligou o transmissor na mesma frequência.

E começou a ler.

O texto escolhido era o primeiro livro da Bíblia. No princípio, Deus criou o céu e a terra. Depois a luz, as águas, os animais, Adão, o dilúvio, Abraão. O operador lia em morse, letra por letra, sem parar.

Do outro lado, o receptor russo só pegava aquilo. Toda mensagem cifrada que chegava do comando batia contra o mesmo texto e virava sopa de pontos e traços.

A leitura durou dois dias, pelos registros do serviço de rádio do exército polonês. Quando o canal ficou livre, a ordem que importava já tinha passado da hora.

A ordem mandava o 4º Exército virar ao sul e fechar o flanco do ataque soviético a Varsóvia. O 4º Exército seguiu para o oeste, rumo ao rio Vístula, longe da batalha.

Nesses dois dias, Józef Piłsudski abriu o contra-ataque polonês pelo sul.

A seguir, a ficha da batalha, os homens dos dois lados e o desenho da manobra que virou a guerra.

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I  A batalha de hoje

Duas semanas às portas da capital

A Batalha de Varsóvia foi travada entre 13 e 25 de agosto de 1920, nos arredores da capital polonesa e ao longo dos rios Vístula, Wkra e Wieprz. Foi o confronto decisivo da Guerra Polaco-Soviética, que opôs a Polônia de Józef Piłsudski ao Exército Vermelho da Rússia soviética, cuja Frente Ocidental era comandada por Mikhail Tukhachevsky.

Em Varsóvia, a Polônia venceu primeiro no ar, entre as antenas, e só depois no chão.

A ficha do confronto:

Data:13 a 25 de agosto de 1920
Local:Varsóvia e rio Vístula
Lado polonês:Józef Piłsudski
Lado soviético:Mikhail Tukhachevsky
Arma secreta:rádio e cifra quebrada
Desfecho:vitória polonesa

A guerra começou em 1919, quando os dois países, recém-saídos da Primeira Guerra, disputaram as terras entre eles: a atual Bielorrússia, a Lituânia e a Ucrânia ocidental.

Em abril de 1920, Piłsudski avançou sobre a Ucrânia e tomou Kiev em maio. A ofensiva durou pouco. Em junho, a cavalaria soviética rompeu a frente sul, e os poloneses recuaram centenas de quilômetros.

No norte, Tukhachevsky lançou a Frente Ocidental em julho. Em seis semanas, os soviéticos atravessaram a Bielorrússia e chegaram ao Vístula. Lênin via em Varsóvia a porta para levar a revolução à Alemanha.

No começo de agosto, quatro exércitos soviéticos desciam sobre a capital. O 4º, o mais ao norte, contornava a cidade pelo alto para cruzar o Vístula a oeste e cortar a ligação polonesa com o porto de Gdańsk.

Em 13 de agosto, o 16º Exército soviético atacou Radzymin, a 23 quilômetros de Varsóvia. A cidade caiu, foi retomada e caiu de novo em dois dias de luta.

Ao norte, o 5º Exército polonês, sob Władysław Sikorski, atacou no rio Wkra no dia 14 para segurar o flanco. Foi a cavalaria desse setor que tomou Ciechanów e o transmissor do 4º Exército.

Em 16 de agosto, a força de choque polonesa saiu do rio Wieprz, a sudeste, e subiu para o norte. Encontrou na frente o grupo de Mozyr, a unidade soviética mais fraca, e passou por ela quase sem combate.

Em três dias, os poloneses estavam atrás das linhas soviéticas. Os exércitos de Tukhachevsky, que esperavam ordens de Minsk, começaram a recuar em desordem para o leste.

O 4º Exército, o mais distante, foi o último a saber. Quando entendeu, tinha poloneses entre ele e a Rússia.

Em 25 de agosto, a batalha terminou. Os soviéticos tinham perdido dezenas de milhares de prisioneiros e quase toda a artilharia do avanço.

 
 

II  Quem estava em campo

O marechal e o decifrador

Em Varsóvia, o general mais jovem da Rússia enfrentou um marechal sem escola militar e um tenente que lia as cartas dele.

Mikhail Tukhachevsky tinha 27 anos em 1920. Ex-tenente da guarda do czar, fugiu cinco vezes de prisões alemãs na Primeira Guerra e entrou para o Exército Vermelho em 1918.

O homem de Minsk

Tukhachevsky comandava a Frente Ocidental de Minsk, a mais de 450 quilômetros de Varsóvia. Falava com seus exércitos por telégrafo e rádio, e as linhas de telégrafo tinham ficado para trás no avanço.

O rádio era o único laço rápido. Por esse motivo, o que saía de Minsk ia cifrado, para os poloneses não lerem.

O tenente que lia as cifras

Jan Kowalewski era tenente do Estado-Maior polonês e estudara química. Em 1919, decifrou por hobby uma mensagem soviética interceptada e acabou chefiando a seção de rádio-inteligência do exército.

A equipe dele quebrou as cifras do Exército Vermelho uma atrás da outra. Em agosto de 1920, os poloneses liam as ordens de Tukhachevsky às vezes antes dos próprios destinatários.

Foi essa leitura que mostrou a Piłsudski a direção do 4º Exército e o vazio deixado no flanco sul soviético. Kowalewski recebeu a Virtuti Militari, a mais alta condecoração militar da Polônia.

O marechal sem diploma

Józef Piłsudski nunca passou por academia militar. Tinha sido revolucionário socialista, preso na Sibéria pelos russos, e formou as Legiões Polonesas na Primeira Guerra.

Em 1920, era chefe de Estado e comandante supremo. Com ele trabalhava o chefe do Estado-Maior, o general Tadeusz Rozwadowski, que organizou a defesa da capital e a distribuição das tropas.

O que veio depois

A Polônia e a Rússia soviética assinaram a paz em Riga, em março de 1921. A fronteira ficou bem a leste da linha que os soviéticos queriam impor em agosto.

Edgar Vincent, Lord D'Abernon, diplomata britânico que estava em Varsóvia durante a batalha, chamou o confronto de "a décima oitava batalha decisiva da história do mundo" no livro que publicou em 1931 sobre ela.

Tukhachevsky virou marechal da União Soviética em 1935. Em 1937, foi preso nos expurgos de Stálin e fuzilado.

Piłsudski governou a Polônia até 1935. Kowalewski seguiu no serviço de inteligência e se exilou em Londres na Segunda Guerra.

 

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III  O plano

A Bíblia no canal inimigo

O plano soviético: cercar Varsóvia pelo norte e pelo oeste com quatro exércitos coordenados de Minsk pelo rádio.

O plano polonês: segurar a capital de frente e atacar pelo sul, no buraco entre as duas frentes soviéticas.

A decisão que virou o jogo: calar o rádio do 4º Exército na hora em que Minsk mandava ele virar.

O ataque soviético tinha um problema de desenho. A Frente Ocidental de Tukhachevsky descia pelo norte; a Frente Sudoeste, com a cavalaria de Semyon Budyonny, estava presa em Lwów, centenas de quilômetros ao sul.

Entre as duas, ficava o grupo de Mozyr, poucos milhares de homens espalhados numa linha longa. A rádio-inteligência polonesa sabia disso pelas mensagens decifradas.

Piłsudski tirou tropas de outras frentes e juntou uma força de choque no rio Wieprz, de frente para esse buraco. O resto do exército tinha de segurar Varsóvia sem recuar enquanto a força se formava.

Em Minsk, Tukhachevsky percebeu o risco tarde. No dia 14, mandou o 4º Exército parar o avanço para o oeste e descer para o sudeste, contra o flanco polonês.

A mensagem precisava viajar pelo rádio. O serviço polonês interceptou a ordem, entendeu o que ela pedia e decidiu que ela não chegaria.

O bloqueio funcionou em três tempos:

1. A cavalaria de Sikorski tomou Ciechanów e levou a estação principal do 4º Exército.

2. A estação da Cidadela entrou na frequência da estação de reserva e passou a transmitir sem pausa.

3. Para ocupar o canal com texto longo e conhecido, os operadores leram o livro do Gênesis em morse, sem interrupção.

Os operadores russos tentaram trocar de frequência. Os poloneses, que ouviam tudo, iam atrás.

O 4º Exército seguiu as últimas ordens que tinha recebido: avançar para o oeste, rumo a Płock e ao baixo Vístula. Cada dia de marcha o afastava da batalha que decidia a guerra.

Quando Shuvayev, comandante do 4º Exército, enfim recebeu a ordem de recuar, a força de choque de Piłsudski já tinha cortado as estradas para o leste.

O Gênesis tinha sido escolhido por ser comprido e conhecido: o operador lia sem errar, e o texto não acabava antes do turno.

O 4º Exército ficou sem saída.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Para onde marchou o 4º Exército soviético quando enfim entendeu a ordem de recuar?

 
 
Quiz da edição

Qual texto a estação de rádio polonesa na Cidadela de Varsóvia escolheu para ocupar a frequência do 4º Exército soviético em agosto de 1920?

AO primeiro livro da Bíblia, o Gênesis
BO hino nacional polonês
CUm discurso de Józef Piłsudski
DUma lista aleatória de números em morse

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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