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Batalha do Dia   Batalha do Dia
ED 009

Os navios amarrados dois a dois em Humaitá

Em fevereiro de 1868, para furar a curva do rio Paraguai sob as baterias de Humaitá, cada monitor sobe amarrado ao costado de um encouraçado.

Encouraçados brasileiros subindo a curva do rio Paraguai de madrugada, sob o fogo das baterias da fortaleza de Humaitá.

Encouraçados na volta do rio sob as baterias

 

Uma fortaleza de rio não vive do calibre das peças. Vive do tempo que consegue manter um casco inimigo dentro do alcance útil delas. Contra alvo parado, o artilheiro do século XIX acerta; contra alvo que passa depressa, ele tem poucos minutos de trabalho e o resto é sorte.

Por essa razão a fortaleza fluvial quase nunca é levantada num trecho reto. É levantada na curva, onde o arco obriga o leme a trabalhar, leme trabalhando custa velocidade, e a barranca alta do lado de fora aceita bateria com bom campo de tiro.

A correnteza fecha a conta. Uma máquina que empurra o casco a oito nós na água, contra três nós de corrente, entrega cinco nós de avanço real. Mil e quinhentos metros de curva nessa marcha viram quase dez minutos debaixo de fogo.

Nem todo casco aguenta a travessia. O monitor fluvial é feito para receber tiro, não para vencer água: convés quase rente à linha d'água, torre única, máquina pequena e leme curto. Num remanso de curva, ele simplesmente deixa de obedecer.

Daí a saída que soa absurda no papel de ordem: atar o barco fraco ao costado do barco forte. O par ganha uma máquina grande para dois cascos, e o maior fica entre o menor e a barranca inimiga, servindo de anteparo.

O preço da amarra não costuma ser escrito na ordem. Dois navios atados formam um alvo só, obedecem a um leme só e dependem de um cabo. Cortado o cabo no pior ponto, o menor fica no meio do canal, com a máquina que já não bastava.

Existe ainda a escolha de não atirar. Girar torre e disparar custa segundos, e o clarão do próprio tiro marca a posição para quem espera na margem. Quem decide passar troca o troco pelo relógio e atravessa sem devolver um tiro.

Numa ferradura de mil e quinhentos metros do rio Paraguai, em fevereiro de 1868, uma divisão brasileira fez as três apostas na mesma madrugada: amarrou os cascos dois a dois, escolheu o escuro e mandou passar sem responder ao fogo.

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I  A Batalha de Hoje

Duas horas de fevereiro na volta de Humaitá

Seis navios sobem uma curva de mil e quinhentos metros com a fortaleza inteira do outro lado da água. Veja o que a amarra fez com o tempo de exposição de cada casco.

A divisão subiu em três pares, cada monitor atado ao costado de bombordo de um encouraçado, o bordo oposto ao das baterias, com ordem de não parar e de não responder ao fogo. Cada par que vencia a curva soltava um foguete, e só então o seguinte largava.

A esquadra estava parada abaixo de Humaitá havia meses, cobrada pelo exército em terra e pelo Rio de Janeiro. Para 19 de fevereiro de 1868 o comando marcou também um ataque de distração por terra.

A cheia de fevereiro tinha resolvido metade do problema. As sete correntes que fechavam o rio estavam sob doze a quinze pés de água, depois de cinco meses de encouraçados afundando os pontões que as sustentavam.

O primeiro par largou de madrugada: o Barroso, de Artur Silveira da Mota, com o monitor Rio Grande no costado. Por volta das quatro horas o foguete subiu; os dois tinham passado por cima das correntes sem tocar em nada.

O segundo par era o do chefe da divisão. O Bahia, capitânea de Delfim Carlos de Carvalho, levava o Alagoas amarrado. Na altura da bateria Cadenas, um tiro cortou o cabo, e às quatro e cinquenta o Bahia venceu a curva sozinho.

O Alagoas ficou onde a amarra tinha acabado: no meio do canal, com trezentas e quarenta e duas toneladas e uma máquina pequena contra a corrente. Desceu o rio, e do comando veio ordem para desistir.

"Tudo na guerra é muito simples, mas a coisa mais simples é difícil."

Carl von Clausewitz, em Da Guerra, 1832.

O primeiro-tenente Joaquim Antônio Cordovil Mauriti não aceitou a ordem. Subiu de novo e passou sozinho sobre a linha das correntes. Um tiro das baterias avariou a máquina, e o monitor desceu segunda vez, à deriva.

Consertou e voltou a subir. Foram cinco arrancadas até o casco ficar acima da fortaleza, cerca de duas horas debaixo de artilharia pesada. Perto de vinte canoas tentaram abordá-lo e recuaram sob a metralha da torre.

Às cinco e meia o Alagoas completou a passagem. Dos quarenta e três homens a bordo, nenhum ficou pelo caminho, e o casco saiu marcado por balas de sessenta e oito libras.

O terceiro par, Tamandaré e Pará, fechou a fila, e o dia já clareava quando os últimos cascos venciam a ferradura. A luz descobriu o que faltava no mapa brasileiro.

Em Timbó, alguns quilômetros acima, havia uma bateria nova em plataformas de madeira quase rente à água, com seis canhões de oito polegadas e oito de trinta e duas libras.

O Tamandaré levou perto de cento e dez tiros, o Bahia oitenta, o Pará vinte e cinco. Seis navios fundearam acima de Humaitá naquela manhã, e a divisão contou dez feridos.

 
 

II  Quem Estava em Campo

Seis cascos contra cento e vinte bocas de fogo

O papel dizia perto de cento e vinte bocas de fogo contra seis navios. A conta que decidiu foi outra: quantas daquelas bocas conseguiam baixar a mira o bastante para acertar um casco raso que passava depressa.

Humaitá era chamada de Gibraltar da América do Sul. Oito baterias fluviais em sequência cobriam a curva, e a guarnição era estimada entre dezoito e vinte mil homens, sob o comando do coronel Paulino Alén.

A peça central era a bateria Londres: dezesseis canhões em canhoneiras, atrás de muros de oito metros e vinte de espessura. A Cadenas alinhava dezoito bocas, a Coimbra oito, o Itapirú sete, e o perímetro de terra somava mais quarenta.

O rio fazia o resto do trabalho. A curva desenhava uma ferradura de mil e quinhentos metros, o canal navegável estreitava para duzentos, e a corrente batia perto de três nós, com remansos que anulavam o leme.

Havia dois canais em frente à fortaleza: o mais fundo, de corrente mais forte, colado nas baterias; o mais raso, semeado de torpedos. O comando escolheu o fundo, que passava a distância de tiro de pistola das canhoneiras.

As correntes eram sete, torcidas juntas, com elos de até sete polegadas e meia, sustentadas por pontões e canoas. Durante cinco meses os encouraçados afundaram os flutuadores um por um, até a barreira deitar no lodo.

Do lado brasileiro, os encouraçados eram cascos de porte: Barroso com mil trezentas e cinquenta e quatro toneladas, Bahia com mil e oito, Tamandaré com novecentas e oitenta. Máquina de sobra e cinturão blindado.

Os três monitores eram outra coisa. Trezentas e quarenta e duas toneladas, calado de um metro e cinquenta e dois, um único canhão Whitworth de setenta libras em torre giratória e quarenta e três homens a bordo.

O defeito estava na máquina. O monitor foi projetado para rio raso e combate a curta distância, não para arrancar contra três nós de corrente numa ferradura estreita.

Os nomes da noite cabem numa linha. Delfim Carlos de Carvalho ia no Bahia, Artur Silveira da Mota no Barroso, Augusto César Pires de Miranda no Tamandaré, Custódio José de Melo no Pará e Mauriti no Alagoas.

Do outro lado da barranca, as peças estavam montadas para bater navio de casco alto, com muros de canhoneira que limitavam o ângulo de descida do tubo. Alvo rente à água, em movimento, no escuro, era o pior caso possível.

A régua vale longe do Paraguai. Contar peças e contar navios compara o total; o que decide costuma ser a fração que consegue trabalhar nos minutos em que os dois ficam ao alcance um do outro.

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III  O Plano

Atar o fraco ao forte e não atirar

O plano paraguaio: prender a esquadra dentro da ferradura com sete correntes e torpedos, e fuzilar do alto da barranca um casco que não teria como manobrar.

O plano brasileiro: não disputar a curva com o rio. Passar de madrugada pelo canal fundo, com a barreira de correntes já enterrada pela cheia e por cinco meses de trabalho miúdo.

A ordem que mudou a geometria: atar cada monitor ao costado de bombordo de um encouraçado, subir em três pares independentes, com foguete de sinal a cada par vencido, e passar sem parar e sem responder ao fogo.

Vale medir o que a amarra comprou. Uma máquina grande passou a puxar dois cascos, e o encouraçado ficou entre o monitor e a barranca, servindo de anteparo pela curva inteira.

E vale medir o que ela custou. Dois navios atados manobram como um corpo largo dentro de um canal de duzentos metros, e o par pendura a própria integridade num cabo exposto.

Às quatro e cinquenta o defeito virou fato. A bateria Cadenas cortou o cabo do Alagoas na pior posição possível, e o menor da fila ficou no canal com a máquina que o plano tinha decidido não bastar.

A ordem seguinte foi coerente: desistir. Mauriti fez o contrário, e o plano nunca previu insistência. Cinco arrancadas depois, o Alagoas estava acima da fortaleza.

Não responder ao fogo foi a segunda economia. Girar torre, apontar e disparar custa segundos que o par não tinha, e o clarão marca a posição para quem espera na barranca.

A vantagem do escuro quase se desfez. Os paraguaios acenderam fogueiras na margem do Chaco e lançaram foguetes rasantes na água; a resposta foi colar a fila na margem oposta, onde a maioria dos tiros caiu em terra.

A amarra não venceu Humaitá por dar velocidade ao monitor. Venceu por transformar seis cascos em três alvos, cada um com máquina de sobra e um anteparo do lado certo do canal.

A manobra dependia de três condições: água alta que enterrasse a barreira, escuridão que encurtasse o tempo de pontaria, e canhoneiras que não baixassem a mira até o convés do monitor.

Faltando uma delas, a conta vira. Sem cheia, a fila para na corrente; sem escuro, cada par leva a curva inteira de fogo ajustado; sem o limite do ângulo, o casco raso vira alvo fácil.

O efeito estratégico foi imediato. Com navios acima da fortaleza, o abastecimento fluvial paraguaio acabou, Assunção foi evacuada em poucas semanas e Humaitá caiu em 25 de julho de 1868.

As recompensas registraram a diferença entre plano e episódio. Delfim Carlos de Carvalho recebeu o título de Barão da Passagem, e Mauriti, promoção e pensão.

Fora do rio, o teste continua o mesmo. Atar o fraco ao forte resolve potência e proteção de uma vez, e cria em troca um ponto único de falha que arrebenta no pior lugar do trajeto.

"O que na minha operação depende de um cabo só?"

 
 
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