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Os navios afundados de Blas de Lezo

Em 1741, em Cartagena das Índias, o almirante espanhol fechou o canal de Bocachica com os próprios cascos e segurou 186 velas inglesas.

Navios espanhóis afundados no canal de Bocachica, Cartagena, 1741

Bocachica, Cartagena das Índias, 1741

▼
 

Um navio de linha espanhol para cada 31 velas inglesas. Era a conta na entrada de Cartagena das Índias em março de 1741, quando a esquadra do almirante Edward Vernon apareceu no horizonte do Caribe.

Do lado espanhol, Blas de Lezo tinha seis navios de guerra ancorados dentro da baía. Do lado inglês, chegavam 186 embarcações, entre navios de linha, fragatas, bombardeiras e transportes de tropa.

Cartagena era o porto por onde saía a prata do vice-reinado de Nova Granada, a atual Colômbia. Quem tomasse a cidade abria caminho para o resto da América espanhola.

A cidade ficava no fundo de uma baía comprida. Para chegar aos muros, a esquadra tinha de passar por um canal estreito ao sul, chamado Bocachica (boca pequena), guardado por fortes de pedra dos dois lados.

Lezo tinha 51 anos e faltavam-lhe uma perna, um olho e o movimento de um braço. Os marinheiros o chamavam de Mediohombre (meio homem).

Ele sabia que seis navios não ganhariam uma batalha em mar aberto contra 186. Então desistiu de lutar no mar.

Mandou alinhar os navios atravessados no canal, com correntes de ferro presas de um casco ao outro, e deixou os canhões virados para a entrada.

Durante duas semanas, os ingleses bombardearam os fortes de Bocachica. Quando as muralhas cederam, Lezo deu a ordem que nenhum comandante gosta de dar: abrir o fundo dos próprios navios.

Os cascos desceram na água rasa do canal e ficaram ali, com os mastros de fora, fechando a passagem.

A esquadra inglesa levou dias para abrir caminho entre os destroços. Cada dia parado era um dia a mais de calor, mosquito e água podre a bordo.

A seguir, o cerco que durou de março a maio, os dois almirantes frente a frente e o plano de Lezo, que trocou navios por tempo.

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I  A batalha de hoje

Dois meses presos na baía

O cerco de Cartagena das Índias aconteceu entre 13 de março e 20 de maio de 1741, na costa caribenha da atual Colômbia. Foi o maior combate da Guerra da Orelha de Jenkins, travada entre a Grã-Bretanha e a Espanha pelo comércio nas colônias americanas.

Em Cartagena, a maior esquadra que a Grã-Bretanha já tinha mandado à América voltou para casa sem a cidade.

A ficha do confronto:

Data:mar. a mai. 1741
Local:Cartagena das Índias
Lado espanhol:Blas de Lezo
Lado inglês:Edward Vernon
Arma do dia:navios afundados
Desfecho:vitória espanhola

A guerra ganhou o apelido por um episódio de 1731. Um guarda-costas espanhol abordou o navio do capitão inglês Robert Jenkins no Caribe e cortou-lhe uma orelha. Em 1738, Jenkins mostrou a orelha conservada no Parlamento, em Londres.

Em 1739, Vernon tomou Portobelo, no atual Panamá, com apenas seis navios. Em Londres, ruas e tavernas ganharam o nome Portobello, e o almirante virou herói popular.

Animado, o governo britânico montou para ele uma força muito maior. Vieram soldados da Inglaterra e milicianos das colônias da América do Norte, sob o comando terrestre do general Thomas Wentworth.

A esquadra chegou diante de Cartagena em 13 de março. Os ingleses desembarcaram tropas perto de Bocachica e montaram baterias de canhão em terra.

O forte de San Luis caiu em 5 de abril. Foi então que os navios espanhóis desceram ao fundo do canal.

Abertos os destroços, a esquadra entrou na baía interna. Lezo repetiu a manobra mais perto da cidade: afundou outros navios no estreito entre o Castillo Grande (castelo grande) e a ponta de Manzanillo.

Vernon achou que a vitória estava no papel. Mandou um navio rápido à Inglaterra com a notícia, e em Londres cunharam medalhas comemorativas antes da hora.

Numa delas, Lezo aparece de joelhos diante de Vernon. Ao redor, a inscrição em inglês anuncia o orgulho da Espanha humilhado pelo almirante Vernon.

Faltava o castelo de San Felipe de Barajas, a fortaleza no morro de San Lázaro que protegia a cidade por terra.

Na madrugada de 20 de abril, Wentworth mandou o assalto. Os soldados subiram o morro no escuro e encontraram as escadas curtas demais para os muros.

Os espanhóis tinham cavado um fosso ao pé da muralha, mais fundo do que os ingleses calcularam. Do alto, os defensores atiravam em quem tentava subir.

O ataque fracassou antes do dia clarear. Os ingleses recuaram para os navios.

Começaram então as chuvas. A febre amarela e a disenteria se espalharam pelos acampamentos e pelos porões, e os doentes passaram a ser mais numerosos que os soldados de pé.

Em maio, Vernon reembarcou as tropas, destruiu os fortes que tinha tomado e levantou âncora. Em 20 de maio, os últimos navios deixaram a baía.

 
 

II  Quem estava em campo

O meio homem e o herói de Portobelo

Em Cartagena, um basco mutilado em três guerras enfrentou o almirante mais popular da Inglaterra.

O homem de Pasajes

Blas de Lezo y Olavarrieta nasceu em 1689 em Pasajes, no País Basco. Entrou na marinha francesa ainda menino, como guarda-marinha (aprendiz de oficial).

Aos 15 anos, na batalha de Vélez-Málaga, em 1704, uma bala de canhão levou-lhe a perna esquerda. Em Toulon, perdeu o olho esquerdo. Em 1714, no cerco de Barcelona, um tiro deixou o braço direito sem movimento.

Antes de Cartagena, comandou esquadras no Mediterrâneo e no Pacífico. Em 1737, foi nomeado comandante-geral do porto de Cartagena das Índias.

O almirante popular

Edward Vernon tinha 56 anos e era também deputado no Parlamento. Na tropa, o chamavam de Old Grog, pelo casaco de grogram (tecido grosso de seda e lã) que vestia no convés.

Em 1740, mandou misturar água no rum dos marinheiros para reduzir a bebedeira a bordo. A mistura ficou conhecida como grog.

Vernon tinha pressa e falava alto. Contava com a fama de Portobelo para fechar a campanha em poucas semanas.

O vice-rei

Sebastián de Eslava, vice-rei de Nova Granada, estava dentro da cidade e tinha o comando geral. Lezo e Eslava discordaram durante o cerco inteiro, sobre onde pôr os canhões e quando abandonar os fortes.

O vice-rei mandava em terra. Lezo mandava nos navios.

O general

Thomas Wentworth comandava os soldados ingleses. Vernon o achava lento, e Wentworth achava que a esquadra não o apoiava com fogo de canhão.

Os dois brigaram por cartas durante o cerco. Cada um culpou o outro pelo assalto fracassado.

O tenente da Virgínia

Entre os milicianos das colônias estava Lawrence Washington, meio-irmão mais velho de George Washington. Voltou para a Virgínia e batizou a fazenda da família de Mount Vernon, em homenagem ao almirante.

O jovem George herdou a fazenda anos depois e viveu nela até 1799.

Uma testemunha

Tobias Smollett, então assistente de cirurgião num dos navios, escreveu anos depois sobre o cerco.

“Os doentes ficavam deitados uns sobre os outros, sem ar e sem cuidado”, descreveu Tobias Smollett no romance As Aventuras de Roderick Random, publicado em 1748.

O que veio depois

Vernon voltou à Inglaterra e continuou no Parlamento. As medalhas da vitória ficaram como peça de colecionador.

Lezo adoeceu na cidade poucos meses depois do cerco e morreu em 7 de setembro de 1741.

 

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III  O plano

Trocar navios por semanas

O plano inglês: forçar a entrada da baía com a esquadra, tomar os fortes um a um e cercar a cidade por terra e por mar.

O plano espanhol: segurar cada canal o máximo possível e deixar o clima do Caribe trabalhar contra o invasor.

A troca de Lezo: usar os navios como barreira em vez de arma, e afundá-los quando a posição caísse.

Lezo sabia o que a esquadra inglesa mais temia. Em abril e maio, começava a estação das chuvas, e com ela a febre amarela.

Os soldados vindos da Europa não tinham defesa contra a doença. Os moradores de Cartagena, em geral, já tinham passado por ela.

Cada semana de atraso, portanto, valia mais do que um navio inteiro.

A defesa seguiu quatro passos:

1. Fechar Bocachica com os navios atravessados e correntes de ferro entre os cascos.

2. Quando os fortes do canal caíssem, afundar os navios ali mesmo.

3. Recuar para a baía interna e repetir o bloqueio no canal de Castillo Grande.

4. Entregar a última linha ao castelo de San Felipe, no alto do morro.

Os ingleses gastaram dias desmontando cada barreira. Tiravam destroços com cabos e âncoras, sob fogo dos fortes que ainda resistiam.

Nesse intervalo, as tropas esperavam em terra ou nos porões dos transportes. A água a bordo apodrecia, e a comida salgada estragava no calor.

No castelo de San Felipe, os engenheiros espanhóis cavaram o fosso e rebaixaram o terreno em volta. As escadas inglesas, medidas de longe, ficaram curtas.

Depois do assalto de 20 de abril, Vernon ainda pensou em atacar a cidade pelo mar. Os navios afundados no canal interno impediam os grandes de chegar perto dos muros.

As chuvas chegaram. Nos acampamentos, os doentes se amontoavam em barracas encharcadas.

Vernon reuniu um conselho de guerra a bordo. Decidiram levantar o cerco.

Os oficiais contaram as tripulações e viram que já faltavam marinheiros para manobrar todos os navios na viagem de volta. Alguns navios avariados foram queimados ali mesmo, por falta de gente para levá-los.

Na volta, a esquadra deixou na baía os fortes demolidos e os destroços dos navios espanhóis.

Lezo foi enterrado em Cartagena, num lugar que ninguém registrou.

O túmulo nunca foi achado.

 
 
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Quantos navios formavam a esquadra inglesa que cercou Cartagena em março de 1741?

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