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Os mil camelos carregados de flechas de Surena

Em 53 a.C., em Carras, Surena reabasteceu os arqueiros a cavalo no meio da luta enquanto Crasso segurava as legiões esperando as flechas acabarem.

Arqueiros a cavalo partas cercando o quadrado das legiões romanas na planície de Carras, na alta Mesopotâmia, em 53 a.C.

Planície de Carras, 53 a.C.

 

Um em quatro. De cada quatro soldados que Marco Licínio Crasso levou para o deserto da Mesopotâmia no verão de 53 a.C., apenas um voltaria vivo e livre para a Síria romana. Dos cerca de quarenta mil homens da coluna, perto de vinte mil ficaram no campo e cerca de dez mil seguiram para o leste como prisioneiros dos partos.

Uma fração dessas nunca aparecia numa campanha romana daquela escala. Legião derrotada costumava perder o dia e recuar em ordem, e o número de Carras se aproxima do que Roma havia perdido em Canas, contra Aníbal, cento e sessenta e quatro anos antes.

O que torna a conta estranha é que os romanos não foram vencidos por uma força maior. O exército parta reunido naquela planície tinha por volta de dez mil cavaleiros, ou seja, um quarto do efetivo romano, sem infantaria pesada, sem máquinas de cerco e sem condições de enfrentar uma legião fechada em combate corpo a corpo.

Nenhum dos dois lados discordava desse cálculo. Crasso acreditava que bastava manter a formação parada, absorver as flechas com o escudo e esperar: um arqueiro a cavalo carrega perto de trinta flechas na aljava, e trinta flechas se esgotam em poucos minutos de tiro contínuo.

A aposta inteira do comandante romano cabia nesse ponto. Ele não precisava vencer os cavaleiros partos, precisava apenas sobreviver até o momento em que eles ficassem sem projétil e tivessem que atacar de perto, onde a espada curta romana decidia qualquer disputa.

Surena tinha lido a mesma conta e resolvido o problema antes da batalha começar. A solução dele não era arma nova nem tática inédita, era transporte: um comboio parado logo atrás da linha de tiro, que os romanos enxergaram no horizonte sem entender para que servia e só decifraram quando a tarde já ia longe e as flechas continuavam chegando na mesma cadência da primeira hora.

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I  A batalha de hoje

Mil camelos atrás da linha de tiro

Marco Licínio Crasso, cônsul romano por duas vezes e o homem mais rico de Roma, tinha cerca de sessenta anos quando atravessou o Eufrates em 53 a.C. à frente de sete legiões, buscando na Pártia a conquista militar que Pompeu e Júlio César já tinham no currículo e ele não.

Carras valia o risco pela estrada. A cidade, a atual Harran, no sudeste da Turquia, guardava a rota que ligava o vale do Eufrates ao interior da Mesopotâmia, e quem a dominasse decidia por onde caravana, tributo e exército entravam no território parta.

O caminho até a planície foi escolha do próprio Crasso. Ele recusou a rota montanhosa ao norte, pela Armênia, sugerida pelo rei Artavasdes II, e seguiu o conselho do chefe árabe osroeno Ariamnes, que prometia terreno firme e inimigo em fuga pelo deserto aberto.

A ficha do confronto:

Data:verão de 53 a.C., planície ao sul de Carras
Local:alto Mesopotâmia, perto da atual Harran, sudeste da Turquia
Comando romano:Marco Licínio Crasso, com o filho Públio Crasso e o questor Caio Cássio Longino
Comando parta:Surena, general do rei Orodes II, sem o próprio rei em campo
Força romana:sete legiões, cerca de quarenta mil homens, com pouca cavalaria
Força parta:cerca de mil catafractários e nove mil arqueiros a cavalo

"E o mais penoso era perceber que, mesmo recuando, eles continuavam ferindo."

Plutarco, Vida de Crasso, início do século II d.C.

A coluna romana chegou ao rio Balissus cansada de marcha e Crasso mandou seguir sem descanso, comendo em pé, até avistar a poeira da cavalaria parta. Ele formou os homens em quadrado oco, com dez coortes por lado, e esperou o choque frontal que treinara a vida inteira.

O choque nunca veio. Os catafractários (cavaleiros cobertos de malha de ferro da cabeça aos pés, montados em cavalos igualmente encouraçados) apareceram na frente, mostraram as armaduras e recuaram, abrindo espaço para os arqueiros a cavalo cercarem o quadrado por fora do alcance do pilo romano.

As flechas partas furavam o escudo. Disparadas por arco composto pesado, elas atravessavam o escudo oval e prendiam a mão do soldado à madeira, ou passavam pela malha e cravavam pé e perna, sem exigir pontaria fina contra milhares de homens ombro a ombro.

Crasso mandou o filho contrabalançar. Públio Crasso saiu com mil trezentos cavaleiros, quinhentos arqueiros e oito coortes para afastar os atiradores, foi puxado para longe do quadrado por uma retirada fingida e viu a coluna ser cercada numa elevação e desfeita.

A cabeça de Públio voltou espetada numa lança parta, erguida diante da linha romana. O exército de Crasso continuou de pé até o anoitecer, quando os partos se afastaram por não combaterem no escuro, e recuou para dentro dos muros de Carras deixando os feridos no campo.

 
 

II  Quem estava em campo

Arqueiros a cavalo contra o quadrado romano

Os dois exércitos apostavam em máquinas diferentes: Roma no soldado de infantaria pesada que decide a poucos passos, com espada curta e escudo; a Pártia no cavaleiro que vence sem encostar, atirando a distância e nunca aceitando o corpo a corpo.

A legião romana de 53 a.C. reunia cerca de cinco mil homens em coortes de aproximadamente quatrocentos e oitenta soldados, treinados para marchar fechados, lançar o pilo a vinte e cinco passos e romper a linha inimiga com o gládio no empurrão seguinte.

A defesa contra projétil tinha nome e limite. A testudo (tartaruga, formação em que os escudos se encaixam por cima e pelos lados) segurava flecha leve, mas comprimia os homens num bloco parado, alvo fácil para o arco composto pesado.

A cavalaria romana era o ponto fraco daquela coluna. Crasso levava cerca de quatro mil cavaleiros, boa parte gauleses trazidos por Públio do exército de Júlio César, em montaria sem armadura e com lança curta, feitos para perseguir e não para duelar com catafractário.

O lado de dentro da poeira

Surena comandava tropa própria, não exército nacional parta. Nobre da casa dos Suren, ele mantinha uma força particular que Plutarco descreve como mil cavaleiros couraçados e milhares de servidores armados, sustentada pelas terras da família.

A conta parta se sustentava em duas armas complementares. Os nove mil arqueiros a cavalo cansavam e sangravam a formação inimiga a distância; os mil catafractários esperavam o momento em que o quadrado se abrisse para cobrar o preço da brecha com a lança pesada.

O arco parta era outro animal. Composto de madeira, chifre e tendão colados em camadas, curto o suficiente para ser manejado sobre o cavalo, ele lançava flecha capaz de perfurar escudo a distância em que o pilo romano caía no chão sem alcançar ninguém.

A tropa de Surena tinha ainda um recurso que Roma não considerou naquele campo: o comboio de abastecimento colado na linha de tiro. Mil camelos carregados de flechas ficaram atrás dos arqueiros, transformando a aljava vazia num contratempo de minutos.

Do lado romano, o comando estava com um general de sessenta anos que não conduzia campanha havia dezessete anos, cercado de oficiais que discordavam dele em voz alta. Do lado parta, Surena comandava em campo, com trinta anos, e o rei Orodes II operava longe dali, invadindo a Armênia de Artavasdes II.

 

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III  O plano

A munição que não acabou

O plano romano: atravessar o Eufrates, atrair os partos para uma batalha campal em terreno plano, prender a cavalaria no alcance do pilo e decidir o dia no corpo a corpo, onde a legião nunca perdia.

O plano parta: nunca encostar na legião, cercar o quadrado com arqueiros a cavalo, sangrar a formação hora após hora e só lançar os catafractários contra a brecha que o cansaço e o pânico abrissem sozinhos.

A decisão que mudou a conta: montar um trem de mil camelos carregados de aljavas cheias a poucos minutos da linha de tiro, apagando o único limite que a tática do arqueiro a cavalo sempre teve.

O primeiro passo foi escolher o terreno. Ariamnes, chefe osroeno aliado de Roma e informante de Surena, conduziu a coluna romana para longe do rio e para dentro da planície descoberta, o único tipo de campo em que dez mil cavaleiros cercam quarenta mil homens a pé.

O segundo foi esconder o tamanho real da força. Surena mandou cobrir as armaduras dos catafractários com peles e panos até a hora do contato, de modo que a vanguarda romana visse apenas uma cavalaria leve e comum e Crasso mantivesse a ideia de que enfrentava um destacamento pequeno.

O terceiro foi abrir a batalha pelo barulho. Os partos usaram tambores de couro com sinos de bronze no lugar da trombeta, um ruído grave e contínuo que Plutarco registra como desconcertante para tropa treinada a obedecer toque de corneta.

O quarto foi manter o tiro ininterrupto. Cada arqueiro esvaziava a aljava de cerca de trinta flechas, girava o cavalo, voltava ao comboio de camelos, enchia de novo e retomava a posição, e o intervalo entre uma salva e outra nunca chegou a dar folga à linha romana.

O quinto foi puxar o destacamento de Públio Crasso. Os cavaleiros partos simularam fuga, atiraram para trás enquanto galopavam (o tiro parto, disparo com o corpo torcido sobre a garupa) e levaram os gauleses longe demais para socorro.

O sexto passo foi devolver a cabeça do filho ao pai, e funcionou como arma. A linha romana viu o troféu erguido na ponta da lança parta e perdeu a coesão que sustentara a tarde inteira, com centúrias encolhendo para dentro e fechando o vão regular entre as fileiras.

O sétimo elemento estava fora do cálculo romano desde o começo. Crasso montara a resistência em torno de um relógio que não existia: a munição parta não acabou naquele dia, e a legião passou de tropa aguardando a hora do contra-ataque a alvo parado sob tiro contínuo.

O desfecho veio na negociação. Crasso aceitou encontrar Surena para tratar da retirada, o encontro virou briga entre as escoltas e o general romano ficou no lugar, enquanto Caio Cássio Longino conseguiu levar cerca de dez mil homens de volta à Síria.

Um ponto segue em aberto: o destino dos dez mil prisioneiros. Plínio, o Velho, registra que os capturados foram assentados em Margiana, no atual Turcomenistão, e nenhuma fonte antiga acompanha o grupo depois disso.

O que sobrou dos dois lados foi um símbolo. As águias das legiões perdidas ficaram em mãos partas e viraram assunto de Estado em Roma por uma geração, citadas em discurso, poema e moeda como dívida aberta.

Uma tática que parece ter limite natural costuma ter, na verdade, um limite logístico, e limite logístico é coisa que o adversário pode ter resolvido antes de a batalha começar.

"Qual vantagem sua depende de o outro lado ficar sem fôlego numa hora que você nunca conferiu?"

As águias voltaram trinta e três anos depois.

 
 

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