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Os dois beduínos que mentiram a Ramsés II

Em 1274 a.C., diante de Kadesh, o faraó acampou com uma só divisão enquanto o exército hitita esperava escondido atrás da cidade.

Carros de guerra hititas cruzando o rio Orontes diante da cidade fortificada de Kadesh, na Síria, em 1274 a.C.

Vau do Orontes diante de Kadesh, 1274 a.C.

 

Uma em quatro. Das quatro divisões que o exército egípcio levava para Kadesh na primavera de 1274 a.C., apenas uma estava montada ao lado de Ramsés II quando os carros hititas cruzaram o rio Orontes. As outras três vinham espalhadas pela estrada ao sul, separadas por quilômetros de marcha, e nenhuma delas chegaria ao acampamento a tempo de defendê-lo.

Uma fração dessas não é detalhe de logística. O poder de choque de um exército da Idade do Bronze tardia morava nos carros de guerra reunidos num punhado só, e um faraó com um quarto da sua força na mão tinha menos carros disponíveis do que o adversário conseguia lançar de uma vez.

O caminho até ali explica a dispersão. A coluna egípcia havia saído da capital no delta do Nilo e subido o Levante por semanas, atravessando Canaã e o vale do Orontes, com cada divisão partindo em dia diferente para não disputar poço, pasto e vau com a divisão da frente.

Uma marcha assim se aperta de novo quando o inimigo aparece. Foi para saber onde ele estava que a vanguarda egípcia interrogou dois beduínos shasu (pastores nômades do Levante) capturados perto de Shabtuna, no vau do Orontes, a poucas horas de Kadesh.

Os dois contaram a mesma história: o rei hitita teria recuado de medo e estaria longe, na terra de Alepo, a mais de duzentos quilômetros ao norte. Nenhum egípcio conferiu a versão por outro caminho, e o faraó cruzou o vau adiante das próprias tropas para ocupar o campo antes que o adversário voltasse.

O adversário nunca tinha saído. Muwatalli II mantinha o exército hitita inteiro atrás do morro onde ficava a cidade, com a massa de carros escondida do lado leste do rio, a menos de uma hora de carga do lugar onde a tenda de Ramsés II estava sendo levantada.

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I  A batalha de hoje

Dois beduínos e o vau do Orontes

Ramsés II, terceiro faraó da XIX dinastia egípcia, tinha cerca de vinte e cinco anos e estava no quinto ano de reinado quando marchou para o norte com o objetivo declarado de retomar Kadesh e a região de Amurru, perdidas para o império hitita nas décadas anteriores.

Kadesh valia a campanha por posição. A cidade ficava num morro artificial junto ao Orontes, controlando a estrada que ligava o Egito à Síria interior, e quem a segurasse decidia por onde caravana, tributo e exército passavam entre os dois impérios.

A vanguarda tinha uma vantagem e a perdeu. Chegando primeiro ao vau de Shabtuna, os egípcios capturaram os dois shasu, aceitaram a informação de que o inimigo estava em Alepo e trataram o resto do dia como uma ocupação tranquila de terreno vazio.

A ficha do confronto:

Data:primavera de 1274 a.C., quinto ano de reinado de Ramsés II
Local:planície a oeste de Kadesh, junto ao rio Orontes, na atual Síria central
Comando egípcio:o próprio faraó Ramsés II, com quatro divisões em marcha separada
Comando hitita:Muwatalli II, rei de Hatti, com tropas de dezenas de reinos vassalos
Força egípcia presente no primeiro choque:uma divisão, a de Amon, mais a guarda do faraó
Fator decisivo:informação falsa plantada por dois beduínos capturados de propósito

"Não há oficial comigo, nenhum cocheiro, nenhum soldado da infantaria, nenhum porta-escudo."

Escriba Pentaur, Poema de Kadesh, século XIII a.C.

O acampamento subiu a noroeste da cidade, cercado por escudos encostados uns nos outros. A divisão de Amon montou tenda, soltou os cavalos e começou a cozinhar, com a divisão de Rá ainda em coluna de marcha a alguns quilômetros ao sul.

A verdade apareceu tarde e por acaso. Patrulhas egípcias prenderam dois batedores hititas nas cercanias e, sob espancamento, os dois revelaram que Muwatalli II estava com todo o exército atrás do morro de Kadesh, a poucos quilômetros dali.

O ataque veio antes que qualquer reforço se movesse. Os carros hititas atravessaram o Orontes ao sul e caíram sobre o flanco da divisão de Rá enquanto ela marchava em fila, partiram a coluna ao meio e empurraram os sobreviventes em fuga para dentro do acampamento egípcio.

O acampamento foi rompido no mesmo impulso. Os carros hititas passaram por cima da cerca de escudos, e o faraó ficou com a guarda pessoal e um punhado de carros contra uma força que os relevos egípcios descrevem como vinda de todos os lados.

Dois fatos seguraram a linha. Parte dos carros hititas parou para saquear o acampamento, perdendo o impulso da carga, e uma coluna egípcia de elite, os nearin, chegou pela estrada da costa naquela mesma tarde, pegando os atacantes desorganizados entre ela e a guarda do faraó.

Muwatalli II recolheu os carros para a margem oposta do rio e lançou levas sucessivas ao longo do fim da tarde, todas contidas. A divisão de Ptah chegou ao anoitecer, a de Sutekh só no dia seguinte, e o combate do segundo dia terminou sem rompimento de nenhum dos dois lados.

 
 

II  Quem estava em campo

Quatro divisões espalhadas, dois mil e quinhentos carros

Os dois exércitos apostavam em máquinas diferentes: o egípcio em carro leve de dois tripulantes, rápido e feito para atirar flecha em movimento; o hitita em carro pesado de três homens, feito para bater de frente e quebrar formação com lança.

O exército de Ramsés II reunia cerca de vinte mil homens divididos em quatro corpos de marcha batizados com nomes de deuses: Amon, Rá, Ptah e Sutekh, cada um com infantaria própria, carros próprios e ordem de acampar por conta quando parasse.

O carro egípcio pesava pouco e corria muito. Levava um cocheiro e um arqueiro, tinha caixa aberta atrás, rodas de seis raios bem afastadas do eixo dianteiro e servia como plataforma móvel de tiro com arco composto, evitando o contato corpo a corpo.

A infantaria egípcia trazia lança curta, machado e escudo alto, com contingentes mercenários incorporados, entre eles os sherden, marinheiros do Mediterrâneo oriental capturados em campanhas anteriores e alistados na guarda do próprio faraó.

O lado de dentro da muralha

Muwatalli II chegou a Kadesh à frente de uma coalizão, não de um exército nacional. Os relevos egípcios listam contingentes de dezenas de reinos e cidades vassalas, entre elas Arzawa, Masa, Dardany, Ugarit, Alepo e Karkemish, reunidos sob o comando hitita para a campanha.

A conta de carros hititas varia conforme a fonte que a registrou. Os textos egípcios de Ramsés II falam em dois mil e quinhentos carros no primeiro choque e mais mil na segunda leva, e nenhum documento hitita sobrevivente confirma ou desmente esses totais.

O carro hitita era outro animal. Com três tripulantes, cocheiro, lanceiro e portador de escudo, e eixo posicionado mais ao centro da caixa, ele perdia em velocidade e ganhava em massa, servindo como aríete contra infantaria em formação.

A coalizão hitita mantinha ainda um trunfo que o Egito não tinha naquele campo: a própria cidade. Kadesh era base fortificada, depósito e refúgio, e permitia esconder um exército inteiro atrás do morro sem depender de acampamento montado em terreno aberto.

Do lado egípcio, o comando de campo estava na mão do faraó, que combatia pessoalmente do carro, com o vizir e os chefes de divisão dispersos pela coluna. Do lado hitita, Muwatalli II comandou de trás, do outro lado do rio, e manteve consigo a infantaria de reserva enquanto os carros atacavam.

 

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III  O plano

A mentira plantada e a coluna que vinha da costa

O plano egípcio: subir o Levante com quatro divisões, ocupar a planície diante de Kadesh antes do inimigo, cercar a cidade com o exército reunido e forçar a rendição ou a batalha campal com toda a força concentrada.

O plano hitita: esconder o exército atrás do morro da cidade, deixar o faraó acampar dividido e atacar com a massa de carros exatamente na hora em que as divisões egípcias estivessem mais afastadas umas das outras.

A decisão que mudou a conta: mandar dois homens se entregarem de propósito à vanguarda egípcia com a versão de que o rei hitita havia fugido para Alepo, comprando o avanço apressado que o resto da manobra exigia.

O primeiro passo foi escolher os mensageiros. Dois beduínos shasu, gente que os egípcios estavam habituados a interrogar como pastores locais sem lealdade fixa, tinham a aparência exata de informante neutro e não levantavam a suspeita que um prisioneiro hitita levantaria.

O segundo foi calibrar a mentira. Alepo ficava a mais de duzentos quilômetros ao norte, distância que garantia semanas de folga ao exército egípcio, e a história do rei acovardado combinava com o que a corte do faraó já esperava ouvir.

O terceiro foi esconder a força inteira. O exército hitita ficou do lado leste do Orontes, com o morro e as muralhas de Kadesh entre ele e a planície, invisível para quem chegasse pelo sul e não mandasse batedor contornar a cidade.

O quarto foi esperar a coluna se esticar. Cada divisão egípcia acampava sozinha ao fim do dia, e o intervalo entre Amon, já instalada, e Sutekh, ainda longe ao sul, chegou a corresponder a mais de um dia de marcha.

O quinto foi atacar o meio da fila. A carga hitita não foi contra o acampamento fortificado, foi contra a divisão de Rá em coluna aberta, sem formação e sem escudo montado, o alvo mais frágil de todo o dispositivo egípcio.

O sexto passo era tomar o acampamento, e falhou. Os carros hititas entraram, encontraram carga, gado e tenda real e pararam para saquear, dando ao faraó o intervalo necessário para reunir a guarda e contra-atacar em pequenos grupos.

O sétimo elemento não estava no cálculo hitita. Uma coluna egípcia de elite chamada nearin (os jovens), destacada semanas antes pela rota costeira vindo de Amurru, apareceu no flanco no fim da tarde e transformou o saque em armadilha.

O desfecho ficou empatado no terreno. Ramsés II manteve o campo, cobriu as paredes de Abu Simbel, Karnak e do Ramesseum com relevos de vitória, e voltou para o Egito sem tomar a cidade, que continuou sob controle hitita por gerações.

Um ponto segue em aberto: como os hititas contaram a própria batalha. Todo relato detalhado do combate vem de textos egípcios encomendados pelo vencedor declarado, e os arquivos de Hattusa preservaram menções ao episódio sem uma narrativa comparável.

O que sobrou dos dois lados foi um acordo. Cerca de quinze anos depois, Ramsés II e o rei hitita Hattusili III assinaram um tratado de paz cujo texto sobreviveu em duas versões, uma em hieróglifo no Egito e uma em tábua de argila em Hattusa.

Uma informação que confirma exatamente o que o comando já queria acreditar é a mais barata de plantar e a mais cara de conferir tarde demais.

"Qual informação recente você aceitou sem checar por outra fonte, só porque ela combinava com o plano que você já tinha traçado?"

Kadesh continuou hitita.

 
 

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