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Os 7 encouraçados de Tegetthoff no vão de Lissa

Em julho de 1866, o almirante italiano trocou de navio sem avisar, e a esquadra austríaca entrou pela fila partida.

Encouraçado austríaco abalroando o Re d'Italia em Lissa, 1866

O Re d'Italia abalroado em Lissa, 1866

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Dois em 12. Foi a parte dos encouraçados italianos (navios de guerra com casco blindado de ferro) que foi ao fundo diante da ilha de Lissa, no mar Adriático, na manhã de 20 de julho de 1866. Para o marinheiro do Re d'Italia, a nau capitânia, a chance de voltar para casa dependia de uma bandeira no mastro certo. A ordem não veio do mastro dele.

O almirante Carlo Pellion di Persano comandava a maior esquadra que a Itália já tinha posto no mar. Fazia dois dias que os navios bombardeavam os fortes da ilha, hoje chamada Vis, na Croácia.

Pouco depois das 8 da manhã, um navio de vigia avisou: fumaça a noroeste. Era a esquadra austríaca, que vinha de Fasana, perto de Pola, com sete encouraçados e um bando de navios de madeira.

Persano mandou formar linha. Os navios se puseram um atrás do outro, em fila, para que os canhões laterais pudessem atirar juntos.

Então ele fez uma escolha. Desceu do Re d'Italia, embarcou num escaler (bote a remo) e passou para o Affondatore, um encouraçado novo, com torres de canhão e um esporão de ferro na proa.

Para a passagem, o Re d'Italia e os navios de trás reduziram a marcha. Os três da frente continuaram no mesmo ritmo. Abriu-se um vão na fila.

Ninguém avisou os comandantes dos outros navios. A bandeira de almirante não subiu no Affondatore, e os capitães continuaram olhando para o mastro do Re d'Italia à espera de ordens.

Do outro lado, o contra-almirante Wilhelm von Tegetthoff vinha em três grupos em forma de V, a ponta apontada para os italianos. Da proa do navio dele, o vão apareceu limpo.

Ele mandou acelerar.

A seguir, a ficha do combate, os dois almirantes e a manobra que deixou uma esquadra inteira sem chefe.

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I  A batalha de hoje

Uma manhã de bruma no Adriático

A Batalha de Lissa foi travada em 20 de julho de 1866, nas águas ao norte da ilha de Lissa, no Adriático, durante a Terceira Guerra de Independência Italiana. Opôs a Regia Marina (Marinha Real) da Itália, do almirante Carlo Pellion di Persano, à marinha imperial da Áustria, do contra-almirante Wilhelm von Tegetthoff.

Em Lissa, a esquadra mais fraca afundou dois navios e voltou com todos os seus.

A ficha do confronto:

Data:20 de julho de 1866
Local:Lissa (Vis), Adriático
Lado italiano:Carlo Persano
Lado austríaco:Tegetthoff
Encouraçados:12 contra 7
Desfecho:vitória austríaca

A guerra era maior que a ilha. Em junho de 1866, a Itália se aliou à Prússia contra o Império Austríaco, de olho em Veneza e no Vêneto, que ainda eram austríacos.

Em terra, a campanha começou mal. Em 24 de junho, o exército italiano perdeu em Custoza, perto de Verona. Em Florença, então capital do reino, o governo passou a cobrar de Persano uma vitória no mar.

Persano escolheu Lissa, a ilha fortificada que os austríacos usavam como base no Adriático. Em 18 de julho, a esquadra italiana começou a bombardear os fortes. No dia 19, tentou desembarcar tropas e não conseguiu.

Tegetthoff recebeu o aviso pelo telégrafo e saiu de Fasana com a esquadra. Fazia semanas que ele treinava as tripulações em manobras de abalroamento no canal de Fasana.

Na manhã do dia 20, o mar estava agitado e uma bruma baixa cobria a água. Os austríacos surgiram dela já em formação de ataque.

O choque começou pouco antes das 11 horas. Os primeiros navios austríacos passaram pelo vão aberto na linha italiana, atirando para os dois bordos.

Na confusão, o Re d'Italia teve o leme avariado e perdeu o governo. O navio de Tegetthoff, o Erzherzog Ferdinand Max, foi direto contra ele na velocidade máxima e abriu um rombo no casco com o esporão.

O Re d'Italia adernou e afundou em poucos minutos, levando a maior parte da tripulação.

Pouco depois, o encouraçado Palestro, atingido por granadas, pegou fogo. O incêndio chegou ao paiol (o depósito de pólvora do navio), e o Palestro explodiu.

Um navio de madeira austríaco, o Kaiser, chegou a abalroar o encouraçado Re di Portogallo. Saiu com a proa destroçada e o mastro em chamas, mas conseguiu entrar no porto de Lissa.

Pelo meio da tarde, Persano recolheu a esquadra e rumou para Ancona. Os austríacos ficaram com o mar.

As contas oficiais deram mais de 600 mortos italianos, quase todos do Re d'Italia e do Palestro. Do lado austríaco, foram 38.

Persano chegou a Ancona anunciando vitória, e os jornais italianos chegaram a comemorar. A notícia verdadeira saiu nos dias seguintes.

 
 

II  Quem estava em campo

O almirante sem bandeira

Em Lissa, o vencedor tinha 38 anos e comandava a frota mais pobre.

Wilhelm von Tegetthoff nasceu em 23 de dezembro de 1827 em Maribor, hoje na Eslovênia, então parte do Império Austríaco. Entrou no colégio naval de Veneza ainda adolescente.

O comandante de Heligolândia

Em maio de 1864, na guerra contra a Dinamarca, Tegetthoff comandou uma pequena esquadra austríaca no mar do Norte, perto da ilha de Heligolândia. O combate terminou sem vencedor claro, mas a atuação dele valeu a promoção a contra-almirante.

Em 1866, a marinha austríaca tinha pouco dinheiro. Os canhões raiados encomendados à Krupp, na Prússia, ficaram retidos pela guerra. Tegetthoff mandou pendurar correntes de âncora nos costados dos navios de madeira para protegê-los.

O sinal do Ferdinand Max

Tegetthoff sabia que os canhões dele mal arranhavam a blindagem italiana. Apostou no esporão. Antes do choque, mandou içar no Erzherzog Ferdinand Max a ordem: “Panzerschiffe den Feind anrennen und zum Sinken bringen” (encouraçados, investir contra o inimigo e afundá-lo).

O capitão do Ferdinand Max era Maximilian Daublebsky von Sterneck, que anos depois comandou toda a marinha austríaca.

Depois do choque, Sterneck deu marcha à ré, soltou o esporão do casco do Re d'Italia e se afastou enquanto o navio italiano adernava por cima do dele.

O conde de Persano

Carlo Pellion di Persano nasceu em 11 de março de 1806 em Vercelli, no Piemonte. Fez carreira na marinha da Sardenha e, em 1860, apoiou do mar a expedição de Garibaldi ao sul da Itália.

Foi ministro da Marinha em 1862. Chegou a Lissa com 60 anos, fama de vaidoso e pouca experiência de combate com esquadra grande.

A esquadra sem chefe

O Affondatore (o nome quer dizer “o afundador”) tinha chegado da Inglaterra, onde fora construído, poucos dias antes. Persano o queria porque o navio era rápido e ficava fora da fila, livre para correr a batalha.

O problema foi o sinal. A marinha da época comandava por bandeiras, e os capitães estavam treinados para ler o mastro da nau capitânia. Sem a insígnia de almirante no Affondatore, os navios continuaram olhando para o Re d'Italia.

O vice-almirante Giovanni Battista Albini, que comandava os navios de madeira italianos, ficou longe do combate. Alegou depois não ter recebido ordem clara.

O que veio depois

Tegetthoff foi promovido a vice-almirante logo depois de Lissa. Em 1868 passou a comandar a marinha austríaca inteira. Pegou pneumonia e não resistiu, em 7 de abril de 1871, em Viena, aos 43 anos.

Persano voltou a Ancona sob acusação, e o governo entregou o caso ao Senado.

 

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III  O plano

A cunha contra a fila

O plano italiano: manter a esquadra em linha e usar a vantagem de canhões e de navios.

O plano austríaco: furar a linha em cunha e abalroar a curta distância.

A decisão que virou o jogo: a troca de navio de Persano, sem aviso, com o inimigo à vista.

Tegetthoff montou o ataque em três ondas, cada uma no formato que os austríacos chamavam Keil (cunha, em alemão):

1. Na frente, os sete encouraçados, para abrir caminho.

2. Atrás, os navios grandes de madeira, puxados pelo Kaiser.

3. Por último, as canhoneiras menores, para cobrir os flancos.

A linha italiana tinha outro desenho. Com um navio atrás do outro, ela só atira bem para os lados. Para quem chega de frente, mostra as proas, e da proa sai pouco canhão.

Persano tinha mais encouraçados, mais canhões e canhões mais modernos. A vantagem dependia de a fila ficar fechada e de os capitães obedecerem ao mesmo mastro.

A troca de navio quebrou as duas condições. O Re d'Italia reduziu a marcha, a linha se partiu, e os capitães esperaram ordens de onde elas não sairiam.

Alguns sinais chegaram a subir no Affondatore. Poucos capitães os viram, e quem viu não sabia de quem vinham. O próprio Affondatore investiu contra o Kaiser e desviou no último trecho.

A bruma ajudou a cunha. Os austríacos chegaram perto enquanto os artilheiros italianos ainda acertavam a distância.

Tegetthoff também tinha um limite: com navios lentos e canhões fracos, só ganharia em combate fechado. Se a linha italiana se mantivesse inteira e afastada, a batalha seria de artilharia, e a artilharia era dos italianos.

Na manhã de Lissa, a linha não ficou inteira nem afastada.

Três meses depois, a guerra acabou. Pelo Tratado de Viena, de outubro de 1866, a Áustria entregou o Vêneto à França, que o repassou à Itália. A esquadra vencida em Lissa ganhou Veneza na mesa.

Persano não ganhou nada. Em 1867, o Senado do Reino se reuniu como tribunal para julgar o almirante.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual foi a sentença do Senado italiano contra o almirante Carlo Persano em 1867?

 
 
Quiz da edição

Ao trocar de navio no meio do combate, pra qual encouraçado Persano embarcou?

ARe d'Italia
BAffondatore
CErzherzog Ferdinand Max
DPalestro

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