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Os 168 homens escondidos nos galpões da praça

Em 16 de novembro de 1532, Pizarro mirou a captura de Atahualpa dentro de um pátio fechado, e não a vitória em campo aberto.

A praça de Cajamarca, no norte do atual Peru, cercada pelos galpões onde a coluna espanhola esperou escondida em 16 de novembro de 1532.

A praça de Cajamarca, novembro de 1532

 

Um para 476. Era a proporção entre os homens de Francisco Pizarro e o exército que Atahualpa mantinha acampado nas termas a seis quilômetros de Cajamarca em novembro de 1532, e quem fazia essa conta na praça sabia que nenhuma tática de campo aberto sobreviveria a ela.

Exército grande é uma máquina de decisões. Ele marcha, acampa e ataca porque alguém no topo mandou, e cada ordem desce por uma cadeia de curacas, generais e mensageiros até o último carregador de funda.

Quando o topo dessa cadeia é uma pessoa só, a máquina inteira tem um ponto de falha do tamanho de um homem. Não é preciso derrotar dezenas de milhares de soldados, basta impedir que a ordem saia.

No Tahuantinsuyu, o Sapa Inca não era um comandante entre outros. Era o centro religioso, político e administrativo do maior Estado das Américas, com autoridade sobre tributo, tropa e estrada, e ninguém abaixo dele tinha mandato para substituí-lo às pressas.

Pizarro tinha 168 homens, 62 cavalos, uma dúzia de arcabuzes e duas peças pequenas de artilharia. Em campo aberto, contra uma força daquele tamanho, esse conjunto dura o tempo de um cerco curto.

Dentro de um pátio fechado por galpões de pedra, com portas largas o bastante para um cavalo passar a galope, o mesmo conjunto vira outra coisa. Vira emboscada de curta distância contra gente apertada e sem arma na mão.

Existe uma diferença prática entre derrotar um exército e sequestrar o mecanismo que dá ordem a ele. A primeira operação exige tropa equivalente, terreno favorável e tempo. A segunda exige apenas um encontro combinado, uma distância curta e alguém disposto a comparecer sem arma.

A praça de Cajamarca não foi escolhida por acaso, e a comitiva que entrou nela também não foi montada por acaso.

O dia 16 de novembro de 1532 não decidiu qual dos dois lados tinha mais soldados. Decidiu quem sairia daquele pátio segurando o dono das ordens.

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I  A batalha de hoje

Duas horas na praça de Cajamarca

A cidade fica no norte do Peru atual, num vale alto dos Andes a cerca de 2.750 metros de altitude, sobre a estrada imperial que ligava Quito a Cuzco. No centro dela havia um pátio retangular cercado em três lados por galpões compridos de pedra e adobe, cada um com várias portas largas dando direto para a área aberta.

Cajamarca era um posto de apoio do Estado inca: pátio grande para reunir tropa, depósitos cheios de tecido e milho, e um complexo de banhos termais a seis quilômetros, onde Atahualpa estava acampado com o exército que acabara de vencer a guerra civil.

A guerra civil tinha terminado poucas semanas antes. Atahualpa e o meio-irmão Huáscar disputaram o trono desde a epidemia que levou o pai dos dois, Huayna Cápac, por volta de 1527, e os generais de Atahualpa tinham acabado de prender Huáscar perto de Cuzco.

Pizarro desembarcou em Tumbes em maio de 1532, fundou San Miguel na costa e subiu a serra em setembro com uma coluna pequena. Levou dois meses para cruzar as cordilheiras e chegou ao vale em 15 de novembro, encontrando a cidade esvaziada e os galpões livres.

No mesmo dia ele mandou Hernando de Soto, e depois o irmão Hernando Pizarro, até os banhos, para convidar Atahualpa a visitar a praça na tarde seguinte. O Inca aceitou o convite e avisou que iria sem armas.

A ficha do confronto:

Data:16 de novembro de 1532
Local:praça de Cajamarca, norte do atual Peru
Comando espanhol:Francisco Pizarro, governador nomeado
Comando inca:Atahualpa, Sapa Inca
Duração:cerca de duas horas, do fim da tarde ao anoitecer
Fator decisivo:a comitiva inca entrar desarmada num pátio já ocupado por tropa escondida

"O governador mandou que todos estivessem armados e a cavalo dentro dos aposentos, sem sair à praça, até ouvir o sinal."

Francisco de Xerez, em "Verdadera relación de la conquista del Perú", 1534.

A comitiva entrou no fim da tarde do dia 16. Atahualpa vinha numa liteira carregada nos ombros, cercado de milhares de acompanhantes em traje de cerimônia, com cantores e servidores varrendo o caminho à frente; dos espanhóis, ninguém apareceu no pátio.

O frade Vicente de Valverde atravessou o espaço vazio com um intérprete e um breviário na mão, falou de um rei distante e de uma fé nova, e ofereceu o livro. Atahualpa o examinou por alguns instantes e o jogou no chão.

Valverde recuou até os galpões e Pizarro deu o sinal combinado. As duas peças de artilharia atiraram contra a massa apertada, as trombetas tocaram, e a cavalaria saiu pelas portas dos galpões ao mesmo tempo, com guizos amarrados nos peitorais dos cavalos.

O combate durou cerca de duas horas em espaço fechado. A multidão sem armas derrubou um trecho inteiro do muro do pátio tentando escapar, e Pizarro chegou até a liteira, segurou o braço de um dos seus para que ninguém ferisse o Inca e levou um corte na própria mão.

 
 

II  Quem estava em campo

Sessenta e dois cavalos e um Estado inteiro

A diferença entre os dois lados não estava só no número de homens: estava em qual parte do próprio poder cada um levou para dentro daquele pátio.

A coluna espanhola tinha 168 homens pela lista do escrivão da expedição: 62 a cavalo e 106 a pé. O armamento era espada de aço, lança de choque, cerca de vinte bestas, uma dúzia de arcabuzes e duas peças pequenas de artilharia de campanha.

O cavalo era o item decisivo, e não pela força bruta. Nenhum exército andino tinha enfrentado cavalaria antes de 1532: o animal chega rápido, muda de direção sem perder velocidade e coloca o cavaleiro golpeando de cima para baixo contra gente parada.

O aço resolvia o resto a curta distância. Lâmina de dois gumes contra escudo de madeira e túnica acolchoada não encontra resistência, e o peitoral espanhol, mesmo incompleto, aguentava golpe de maça de pedra sem abrir.

Do lado inca, o exército era o maior das Américas: dezenas de milhares de homens sob generais de campanha como Rumiñahui e Chalcuchímac, alimentados pelos depósitos do Estado e deslocados pela rede de estradas imperiais.

O armamento andino era feito para batalha em campo aberto: funda de fibra, maça de pedra ou bronze, lança comprida, machadinha, escudo de madeira e algodão. Tudo trabalha bem a média distância e em formação larga, com espaço para girar a funda.

"Muitos espanhóis se urinaram de puro terror, sem sequer sentir."

Pedro Pizarro, em "Relación del descubrimiento y conquista de los reinos del Perú", 1571.

Nada desse aparato entrou na praça. A comitiva do dia 16 era cerimonial: servidores, músicos, nobres em traje de festa e uma guarda pessoal sem funda e sem lança, porque o Inca vinha receber estrangeiros e não combater com eles.

O exército de verdade ficou nas termas, a seis quilômetros, esperando ordem. Um Estado que concentra a decisão paga a conta no instante em que o centro some: sem palavra do Sapa Inca, nenhum general moveu tropa naquela noite.

O Tahuantinsuyu também chegou rachado ao encontro. A guerra entre Atahualpa e Huáscar tinha acabado de dividir as elites de Cuzco e de Quito, e povos submetidos havia pouco tempo, como os cañaris e os huancas, enxergaram nos recém-chegados uma chance contra o próprio império.

 

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III  O plano

A praça, o sinal e o refém

O plano espanhol: capturar Atahualpa vivo no primeiro encontro, dentro do pátio, e usar a autoridade dele para dar ordens a um império que nenhuma coluna de 168 homens conseguiria enfrentar em campo.

O plano inca: receber a comitiva estrangeira em cerimônia, ver de perto quem eram aqueles homens barbados e seus animais, e decidir com calma o que fazer com eles depois.

A decisão que mudou a conta: entrar desarmado. Atahualpa avisou que viria sem armas para a visita, e a comitiva cumpriu à risca o que tinha sido combinado.

O primeiro passo foi ocupar a cidade vazia. Pizarro entrou em Cajamarca no dia 15 sem encontrar resistência e instalou a coluna inteira dentro dos galpões que cercavam o pátio, longe da vista de quem chegasse pela estrada.

O segundo foi repartir a tropa pelas portas. A cavalaria ficou em dois grupos, sob Hernando de Soto e Hernando Pizarro, a infantaria com Juan Pizarro, e a artilharia de Pedro de Candía subiu para a construção elevada que dominava o pátio.

O terceiro foi o convite. Duas embaixadas foram até os banhos termais em 15 de novembro, com honras, e a proposta era simples: uma visita do Inca à praça na tarde seguinte, para um encontro entre chefes.

O quarto foi a espera. Atahualpa atrasou a saída dos banhos, mandou avisar que viria mais tarde e só entrou na cidade no fim da tarde do dia 16, com a luz já baixando sobre o vale.

O quinto foi a aproximação do frade. Valverde atravessou o pátio deserto com o intérprete, leu a fórmula que a coroa exigia antes de qualquer ataque e, ao mesmo tempo, colocou o alvo a poucos passos das portas onde a cavalaria esperava.

O sexto foi o sinal. Quando o livro caiu no chão, Pizarro mandou disparar a artilharia contra a parte mais densa da multidão, e o estampido serviu de ordem de partida para todos os grupos ao mesmo tempo.

O sétimo foi o choque simultâneo. Trombetas, guizos, tiro de arcabuz e cavalos saindo de três lados ao mesmo tempo produziram um ataque que a comitiva não conseguiu ler nem responder no espaço que tinha.

O oitavo foi manter o refém inteiro. A ordem era clara desde a véspera, ninguém tocava no Inca, e Pizarro pagou por ela com um corte na mão ao afastar a lâmina de um dos seus próprios homens perto da liteira.

O nono foi o uso do prisioneiro. Preso, Atahualpa continuou emitindo ordens que o império obedecia, e ofereceu encher uma sala com ouro até uma linha na parede, e duas vezes com prata, em troca da liberdade.

O ouro chegou de Cuzco, de Pachacamac e de Quito ao longo de oito meses, carregado por comitivas que atravessaram o império sem atacar a coluna espanhola. Atahualpa foi condenado por um tribunal improvisado e executado em 26 de julho de 1533.

Chalcuchímac tinha um exército inteiro a poucos dias de marcha e não o usou enquanto o Inca esteve preso. Os espanhóis entraram em Cuzco em novembro de 1533, e a resistência andina só se organizou de novo depois, em Vilcabamba, onde durou até 1572.

Um Estado que concentra a decisão numa pessoa entrega a quem chegar perto dessa pessoa uma vitória que nenhuma proporção de tropa explica.

"Quanto do que você comanda continua funcionando se você não puder dar a próxima ordem?"

O exército nas termas não saiu do lugar.

 
 

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Quantos homens Francisco Pizarro levou para dentro da praça de Cajamarca em 16 de novembro de 1532?

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