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ED 053
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Os 15 mil homens que desceram o monte Matsuo

Em 1600, Kobayakawa Hideaki esperou a manhã inteira num morro de Sekigahara e, ao meio-dia, atacou o lado que tinha jurado defender.

Samurais descem um morro coberto de neblina sobre o vale de Sekigahara, em 1600

Monte Matsuo, Sekigahara, 1600

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Uma em duas. Era a chance que Ishida Mitsunari e Tokugawa Ieyasu davam, na manhã de 21 de outubro de 1600, de Kobayakawa Hideaki cumprir a promessa que tinha feito a cada um deles. O rapaz de 18 anos tinha jurado lealdade aos dois lados.

Ele comandava cerca de 15 mil soldados, acampados no alto do monte Matsuo, um morro de encosta íngreme na borda sul do vale de Sekigahara. De lá via o campo inteiro, e todo mundo no campo via a bandeira dele.

O vale ficava na província de Mino, no centro do Japão, num cruzamento de estradas entre Kyoto e o leste do país. Naquela madrugada, uma neblina grossa cobria o terreno encharcado pela chuva da véspera.

Os dois exércitos quase se chocaram no escuro. Quando a neblina levantou, perto das oito da manhã, os soldados de Ii Naomasa, general de Ieyasu, abriram fogo contra a linha de Ukita Hideie, do lado de Ishida.

Kobayakawa não se mexeu. Na posição que ocupava, bastava descer o morro para cair sobre o flanco de qualquer um dos lados.

Ishida tinha mandado sinais de fogo pedindo o ataque. Ieyasu, no acampamento dele, mandava mensageiros perguntando quando Kobayakawa ia cumprir o acordo secreto que tinham feito semanas antes.

Durante toda a manhã, os dois comandantes olharam para o mesmo morro. Nenhum dos dois sabia de que lado aquela bandeira ia descer.

A demora tinha motivo. Kobayakawa era sobrinho adotivo de Toyotomi Hideyoshi, o homem que tinha unificado o Japão, e devia tudo à família Toyotomi. Mas carregava uma mágoa antiga de Ishida, e Ieyasu tinha prometido terras em troca da traição.

Ao meio-dia, a bandeira desceu. Os 15 mil homens de Kobayakawa atacaram o flanco direito do exército ocidental, o de Ishida.

Em poucas horas, a batalha que decidia quem mandaria no Japão tinha acabado. Abaixo, como o dia correu, quem estava em cada morro e por que a escolha de um só homem valeu mais que dezenas de milhares de soldados.

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I  A batalha de hoje

Seis horas num vale encharcado

A Batalha de Sekigahara foi travada em 21 de outubro de 1600, no vale de Sekigahara, na província de Mino, no Japão central. Opôs o exército do leste, de Tokugawa Ieyasu, ao exército do oeste, organizado por Ishida Mitsunari em nome do herdeiro menino dos Toyotomi.

Sekigahara é a batalha mais conhecida da história japonesa: decidiu quem governaria o país pelos 268 anos seguintes, até 1868.

A ficha do confronto:

Data:21 de outubro de 1600 (15º dia do 9º mês do ano Keichō 5, no calendário japonês)
Local:vale de Sekigahara, província de Mino, atual Gifu
Comando do leste:Tokugawa Ieyasu
Comando do oeste:Ishida Mitsunari, com Mōri Terumoto como chefe nominal
Efetivos:cerca de 75 mil homens do leste contra cerca de 80 mil do oeste, segundo o historiador Anthony J. Bryant em Sekigahara 1600 (1995)
Fontes:Anthony J. Bryant, Sekigahara 1600 (1995); Conrad Totman, Tokugawa Ieyasu: Shogun (1983)

O Japão vinha de mais de um século de guerra civil, o período Sengoku (Estados Combatentes). Hideyoshi tinha unificado o país e morrido em 1598, deixando um filho de 5 anos, Hideyori, e um conselho de cinco daimyō (senhores feudais) para governar até o menino crescer.

Ieyasu era o mais rico dos cinco e começou a agir como regente único. Ishida, um administrador de confiança de Hideyoshi, montou uma aliança para frear o avanço dele. Em 1600, os dois blocos marcharam um contra o outro.

O exército do oeste chegou primeiro ao vale e ocupou os morros em volta, num arco em forma de meia-lua. No papel, o exército do leste entrava numa armadilha, com inimigos na frente e nos dois lados.

Durante a manhã, a linha do oeste segurou bem. Ukita Hideie, com cerca de 17 mil homens, empurrou as tropas de Fukushima Masanori para trás várias vezes.

O problema estava nos morros. Além de Kobayakawa, o contingente do clã Mōri, no monte Nangū, também ficou parado. Kikkawa Hiroie, que comandava a vanguarda dos Mōri, tinha negociado em segredo com Ieyasu e bloqueou a estrada para as tropas atrás dele.

Atrás de Kikkawa estava Mōri Hidemoto, com milhares de homens prontos para descer. Quando os mensageiros de Ishida cobraram o ataque, Hidemoto respondeu que as tropas estavam almoçando. A desculpa virou provérbio no Japão para quem finge ocupação e não sai do lugar.

Depois que Kobayakawa desceu, a linha do oeste desmontou pelo flanco direito. Perto das duas da tarde, o exército de Ishida estava em fuga.

 
 

II  Quem estava em campo

O rapaz do morro e o homem da aliança

Três homens decidiram Sekigahara: o que armou a aliança, o que a derrubou por dentro e o que esperou os dois errarem.

Kobayakawa Hideaki nasceu em 1582, sobrinho da esposa de Hideyoshi. Foi adotado pelo próprio Hideyoshi quando menino e, depois, dado em adoção ao clã Kobayakawa, um ramo aliado dos Mōri.

A mágoa que vinha da Coreia

Em 1597, Hideyoshi mandou Kobayakawa, ainda adolescente, como comandante na segunda invasão da Coreia. Voltou acusado de ter agido com imprudência em combate.

Hideyoshi tirou dele parte das terras e o transferiu para um domínio menor, em Echizen. Kobayakawa atribuiu o castigo a relatórios de Ishida, que cuidava da administração da campanha. Ieyasu intercedeu depois a favor do rapaz, e as terras foram devolvidas.

O administrador que ninguém amava

Ishida Mitsunari, nascido em 1560, subiu como funcionário, não como guerreiro. Cuidava de cadastros de terra, de suprimentos e de impostos, e tinha fama de rígido e arrogante entre os generais de campo.

Vários dos daimyō que lutaram por Ieyasu em Sekigahara, como Fukushima Masanori e Katō Kiyomasa, eram antigos servidores de Hideyoshi que odiavam Ishida. A aliança dele reunia mais soldados, mas pouca confiança.

Ishida sabia do risco. Nas semanas anteriores, ofereceu a Kobayakawa o cargo de regente até Hideyori completar 15 anos, além de duas províncias perto de Osaka. A oferta chegou tarde e não apagou a mágoa da Coreia.

O general que esperou

Tokugawa Ieyasu, nascido em 1543, tinha passado a vida sobrevivendo a senhores mais fortes do que ele. Serviu como aliado de Oda Nobunaga e depois de Hideyoshi, sem nunca perder o próprio exército.

Semanas antes da batalha, os agentes dele já tinham acertado acordos secretos com Kobayakawa e com Kikkawa. Mesmo assim, Ieyasu não sabia se os dois cumpririam a palavra.

A tradição japonesa conta que, irritado com a espera, Ieyasu mandou disparar arcabuzes (armas de fogo de mecha, carregadas pela boca) contra o monte Matsuo para forçar a decisão. O historiador japonês Shiramine Jun questiona o episódio, que não aparece nos documentos da época. Não se sabe ao certo o que fez Kobayakawa descer naquela hora.

 

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III  O plano

A meia-lua que se fechou para dentro

O plano do oeste: manter o exército do leste preso no fundo do vale e atacá-lo dos morros, com Kobayakawa e os Mōri descendo pelos lados.

O plano do leste: atacar a linha central de frente e confiar que os aliados secretos nos morros ficariam parados ou mudariam de lado.

A decisão que mudou a conta: Kobayakawa desceu contra o oeste, e a armadilha preparada por Ishida virou cerco contra ele mesmo.

O primeiro passo foi a guarda de Ōtani Yoshitsugu. Doente e quase cego, esse aliado de Ishida desconfiava de Kobayakawa e tinha posto as tropas dele de frente para o monte Matsuo. Segurou a primeira descida e empurrou os atacantes morro acima.

O segundo passo foi a virada em cadeia. Quatro daimyō menores postados embaixo de Ōtani, entre eles Wakisaka Yasuharu e Kutsuki Mototsuna, também trocaram de lado e atacaram o flanco dele. Ōtani, cercado, tirou a própria vida em campo.

O terceiro passo foi o colapso do centro. Sem o flanco direito, as tropas de Ukita, Konishi Yukinaga e do próprio Ishida recuaram e se desfizeram na fuga pelas montanhas.

Ukita Hideie, o general que tinha segurado o centro a manhã inteira, escapou do campo e se escondeu por quase três anos. Entregue aos Tokugawa, foi exilado na ilha de Hachijō, ao sul de Edo, onde viveu até 1655.

O quarto passo foi a saída dos Shimazu. O clã do sul do Japão, com poucas centenas de homens, rompeu a linha do leste pela frente, e o velho Shimazu Yoshihiro voltou para casa com uma escolta de sobreviventes.

Sekigahara durou cerca de seis horas e foi decidida sem que os soldados dos morros precisassem vencer ninguém: bastou escolherem para onde descer.

Ishida fugiu para as montanhas e foi capturado dias depois. Em 6 de novembro de 1600, foi executado em Kyoto, junto com Konishi Yukinaga e o monge Ankokuji Ekei.

Ieyasu recebeu do imperador o título de shōgun (chefe militar supremo do Japão) em 1603. Os Tokugawa governaram o país até 1868.

Kikkawa Hiroie tinha negociado a neutralidade em troca da garantia de que os Mōri manteriam as terras. Depois da vitória, Ieyasu cortou o domínio dos Mōri para menos de um terço do tamanho original, alegando que o chefe do clã tinha comandado o lado inimigo.

Kobayakawa ganhou o que tinha sido prometido: o domínio de Okayama, um dos mais ricos do oeste. Viveu nele pouco mais de dois anos e se foi em 1602, aos 20 anos, sem filhos.

Sem herdeiro, o clã Kobayakawa foi extinto e as terras voltaram para as mãos dos Tokugawa.

"Quanto vale a sua palavra quando os dois lados esperam por ela?"

O morro ficou vazio.

 
 
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Quiz da edição

Quando os mensageiros de Ishida cobraram o ataque das tropas de Mōri Hidemoto, paradas no monte Nangū, qual foi a desculpa dada?

AQue as tropas estavam sem munição
BQue as tropas estavam almoçando
CQue aguardavam reforços do leste
DQue a neblina ainda cobria o morro

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