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O sultão que venceu Alcácer-Quibir dentro de uma liteira fechada

Em agosto de 1578, os oficiais de Abd al-Malik esconderam o corpo atrás da cortina e o exército cercou o quadrado português sem saber.

Liteira fechada no centro do exército saadiano, Alcácer-Quibir, 1578

A liteira de Abd al-Malik, Alcácer-Quibir, 1578

▼
 

Zero em 3. Foi a conta dos reis que saíram vivos do campo de Alcácer-Quibir, no norte do Marrocos, em 4 de agosto de 1578. O primeiro a cair não levou golpe nenhum: estava doente havia semanas e parou de respirar dentro de uma liteira (cadeira coberta, carregada por homens ou animais), antes de as linhas se tocarem.

Era Abd al-Malik, sultão da dinastia saadiana, a família que governava o Marrocos desde meados do século 16. Tinha cerca de 37 anos e uma febre que nenhum médico da corte conseguiu baixar durante a marcha.

Os oficiais mais próximos decidiram rápido. Fecharam as cortinas da liteira, mantiveram o corpo sentado lá dentro e seguiram levando ordens até ela, como se o sultão ainda as desse.

Lá fora, o exército saadiano se abria num grande arco em volta da tropa cristã. Os soldados viam a liteira no centro, com os guardas de sempre, e lutavam por um comandante que achavam vivo.

Diante deles estava o exército português do rei Sebastião I, de 24 anos, formado em quadrado: infantaria nas faces, bagagem e carroças no miolo, cavalaria nas pontas.

Com Sebastião vinha um aliado marroquino, Abu Abdallah Mohammed, sobrinho de Abd al-Malik e sultão deposto, que queria o trono de volta e tinha prometido aos portugueses um porto na costa.

Ao meio da manhã, o calor do verão marroquino já pesava nas armaduras. Os portugueses tinham caminhado dias pelo interior, longe do mar e da água dos navios, e chegavam ao campo com sede. Muitos soldados eram camponeses recrutados à força, sem treino, misturados a mercenários alemães, flamengos e italianos.

O segredo da liteira segurou o arco saadiano inteiro até o quadrado se desfazer. A seguir, a ficha da batalha, os 3 reis que entraram em campo e o plano que levou Portugal tão longe da costa.

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I  A batalha de hoje

Uma planície entre 2 rios

A Batalha de Alcácer-Quibir foi travada em 4 de agosto de 1578, perto da cidade de Ksar el-Kebir, no norte do Marrocos. Opôs o exército português do rei Sebastião I ao exército saadiano do sultão Abd al-Malik.

Em Alcácer-Quibir, Portugal perdeu o rei, boa parte da nobreza e, 2 anos mais tarde, a própria coroa.

A ficha do confronto:

Data:4 de agosto de 1578
Local:Ksar el-Kebir, Marrocos
Desfecho:vitória saadiana
Outro nome:Batalha dos Três Reis

Lado português: Sebastião I

Lado saadiano: Abd al-Malik

Os marroquinos a chamam de batalha de Oued al-Makhazin, o rio que corria junto do campo. O nome em português vem da cidade vizinha: Alcácer-Quibir é a forma portuguesa de al-Qasr al-Kabir, “o grande castelo” em árabe.

O campo era uma planície aberta, cortada pelo rio Lucus e pelo seu afluente Makhazin. Uma única ponte cruzava o Makhazin, e ela ficava nas costas do exército português.

A luta começou no fim da manhã com fogo de arcabuz (espingarda longa de pavio aceso) dos 2 lados. A ala esquerda portuguesa, de cavaleiros nobres, chegou a romper a linha saadiana à sua frente.

O arco saadiano, porém, era longo demais. Os cavaleiros marroquinos contornaram as pontas do quadrado e caíram sobre a retaguarda, onde estavam as carroças, os criados e os padres.

Em poucas horas, o quadrado virou um punhado de grupos isolados. Quem tentou fugir para trás encontrou o rio cheio de gente e a ponte tomada.

Abu Abdallah Mohammed, o aliado de Sebastião, se afogou no Lucus ao tentar atravessar a cavalo. Os vencedores tiraram o corpo da água, esfolaram-no e encheram a pele de palha para exibi-la pelas cidades do reino.

Sebastião foi visto pela última vez avançando com poucos cavaleiros contra as linhas inimigas. Nenhuma testemunha confiável descreveu como ele caiu, e a dúvida atravessou séculos.

Pouquíssimos portugueses voltaram à costa, entre eles alguns cavaleiros que acharam passagem pelo rio antes do cerco fechar. A maior parte do exército ficou no campo ou foi levada como prisioneira para Fez e Marrakech.

A noite caiu sobre um campo onde nenhum dos 3 reis estava de pé. Os vencedores levaram dias recolhendo armas, cavalos, canhões e bagagem.

Os nobres capturados viraram moeda. Famílias de Lisboa venderam terras e joias para trazer filhos e maridos de volta, e o ouro dos resgates encheu os cofres do novo sultão.

 
 

II  Quem estava em campo

Três reis no mesmo campo

Alcácer-Quibir juntou 3 reis num campo só: um jovem que nunca tinha visto batalha, um sultão doente e um herdeiro sem trono.

Sebastião I nasceu em Lisboa em janeiro de 1554, 18 dias após a morte do pai, o príncipe João Manuel. Como chegou quando o reino temia ficar sem herdeiro, o povo o chamou de o Desejado. Era neto de João III e, pela mãe, Joana, neto também do imperador Carlos V.

O rei Desejado

Herdou a coroa aos 3 anos, com a morte do avô, João III. Cresceu sob a regência da avó, a rainha Catarina, e depois do tio-avô, o cardeal Henrique.

Foi educado por padres jesuítas e cresceu com a ideia de cruzada contra o islã no norte da África. Não se casou e não deixou filhos. Em 1574 fez uma primeira viagem ao Marrocos, a Tânger e Ceuta, e voltou convencido de que podia vencer ali.

Luís de Camões dedicou a ele o poema “Os Lusíadas”, publicado em 1572. Na estrofe 6 do Canto I, o rei aparece como “bem nascida segurança / da Lusitana antiga liberdade”.

O sultão doente

Abd al-Malik passou anos no exílio, em Argel e em Istambul, e lutou ao lado dos otomanos (o império turco) em Túnis, em 1574. Com apoio turco, tomou o trono marroquino do sobrinho em 1576.

Falava espanhol, conhecia as táticas europeias e tinha arcabuzeiros treinados à maneira turca. Na marcha até Alcácer-Quibir, já seguia de liteira, sem força para montar. Mesmo assim, recusou adiar o combate: sabia que o sobrinho ganharia apoio entre as tribos se a guerra se arrastasse.

A causa da doença é desconhecida. Os cronistas da época falam de febre e de suspeita de veneno, e nenhum registro médico sobreviveu para tirar a dúvida.

O herdeiro sem trono

Abu Abdallah Mohammed, filho do sultão anterior, governou o Marrocos de 1574 a 1576. Expulso pelo tio, foi pedir ajuda a Filipe II da Espanha, que recusou, e a Sebastião, que aceitou.

Em troca, prometeu a Portugal a cidade costeira de Larache, um porto que os portugueses queriam havia décadas para vigiar a rota do Atlântico.

O irmão que esperava

Ahmad, irmão mais novo de Abd al-Malik, comandava parte da tropa saadiana. Com o sultão morto, os oficiais o aclamaram ainda no campo.

Ganhou o apelido de al-Mansur, “o vitorioso”, e reinou até 1603. Com o ouro dos resgates, ficou conhecido também como al-Dhahabi, “o dourado”.

 

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III  O plano

A marcha longe do mar

O plano português: desembarcar em Arzila, marchar até Larache e entregar o Marrocos a um sultão aliado.

O plano saadiano: atrair os portugueses para longe da frota, cansá-los no calor e cercá-los com cavalaria.

A decisão que mudou a conta: ir por terra, afastando o exército dos navios.

Sebastião desembarcou em Arzila, cidade portuguesa na costa atlântica, em julho de 1578. A frota podia levar a tropa até Larache em poucos dias de navegação. O exército carregava canhões pesados e uma bagagem de corte, com criados, padres e até mulheres.

A marcha seguiu em 5 passos:

1. Os comandantes veteranos pediram que o exército seguisse pela costa, colado aos navios. Sebastião escolheu ir pelo interior, rumo a Alcácer-Quibir.

2. A tropa andou cerca de uma semana no calor de agosto, puxando canhões e carroças, com pouca água e comida contada.

3. Abd al-Malik deixou o inimigo avançar sem combate e juntou o exército dele na planície entre os rios.

4. Na véspera, os portugueses cruzaram o Makhazin pela única ponte e acamparam com o rio às costas.

5. Na manhã de 4 de agosto, o exército formou o quadrado em campo aberto, e o arco saadiano começou a fechar pelas pontas.

Durante toda a luta, a liteira ficou no centro do arco. Só quando o quadrado já estava desfeito a notícia correu entre as tropas, e Ahmad foi aclamado sultão.

Em Portugal, o rei sem filhos deixou um trono vazio. O cardeal Henrique, tio-avô de Sebastião, assumiu aos 66 anos e governou por menos de 2 anos.

Em 1580, Filipe II da Espanha, neto de Manuel I pela mãe, entrou em Portugal com o exército e foi aclamado rei. As 2 coroas ficaram unidas até 1640.

Um corpo dado como de Sebastião foi entregue aos espanhóis em Ceuta e levado em 1582 ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Ninguém provou que era ele: não havia como identificar o corpo na época, e o túmulo nunca passou por exame que resolvesse a dúvida.

No Marrocos, Ahmad al-Mansur usou a vitória e o ouro para reforçar o exército e, em 1591, mandou uma expedição atravessar o Saara até o império songai, no rio Níger.

Da dúvida nasceu o sebastianismo, a crença de que o rei voltaria numa manhã de nevoeiro para salvar Portugal. Pelo menos 4 impostores apareceram dizendo ser ele.

“Quantas ordens um sultão sem vida consegue dar?”

A cortina ficou fechada.

 
 

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Como Abd al-Malik, sultão saadiano, morreu durante a marcha até Alcácer-Quibir?

AGolpe de lança na primeira troca de ataques da batalha
BAfogado no rio Lucus ao tentar atravessar a cavalo
CFebre dentro da liteira, antes de as linhas se tocarem
DVeneno confirmado por exame dos médicos da corte

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