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O regimento escondido no bosque de Kulikovo
Em 1380, Dmitri de Moscou deixou um sexto do exército atrás dos carvalhos e só o soltou quando a linha russa estava quase rompida.
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Bosque de carvalhos, Kulikovo, 1380
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Um regimento em seis. Na manhã de 8 de setembro de 1380, essa era a parte do exército de Moscou que ninguém do outro lado conseguia ver. Para quem estava na linha, a conta pesava: lutar a manhã inteira sabendo que um sexto dos companheiros assistia de longe, parado.
O campo se chamava Kulikovo, que em russo quer dizer "campo das narcejas" (uma ave de brejo). Ficava na margem do rio Don, onde o riacho Nepryadva deságua nele, ao sul de Moscou.
De um lado estava Dmitri Ivanovich, grão-príncipe de Moscou, com 30 anos. Do outro, as tropas de Mamai, o chefe militar que mandava de fato na metade ocidental da Horda de Ouro, o império mongol que cobrava tributo das cidades russas havia mais de um século.
Dmitri armou a linha com cinco regimentos à vista. O sexto, sob o comando do primo Vladimir Andreyevich e do voivoda (comandante militar) Dmitri Bobrok-Volynsky, entrou num bosque de carvalhos à esquerda do campo e sumiu entre as árvores.
A ordem era uma só: não sair antes do sinal. Nem se os companheiros estivessem caindo na frente deles.
A névoa da manhã só levantou perto das onze. A luta começou logo depois, e durante horas a cavalaria de Mamai bateu na linha russa sem parar.
O regimento da esquerda foi o primeiro a ceder. Os homens recuaram na direção do Nepryadva, e a cavalaria da Horda foi atrás deles, empurrando cada vez mais fundo.
Dentro do bosque, os cavaleiros de Vladimir viam os seus perdendo o campo. As crônicas contam que o jovem príncipe quis sair e que Bobrok segurou o cavalo dele.
O motivo era o vento. Soprava contra os russos, de frente, e Bobrok queria esperar que ele virasse.
Quando o vento virou, a tropa da Horda já tinha passado pelo bosque e estava de costas para as árvores. O regimento saiu no flanco e na retaguarda de quem achava que a batalha estava ganha.
Abaixo, como o dia correu, quem estava no bosque e por que a espera valeu mais que qualquer carga daquela tarde.
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I A batalha de hoje
Um dia inteiro na beira do Don
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A Batalha de Kulikovo foi travada em 8 de setembro de 1380, no campo de Kulikovo, na confluência do rio Don com o Nepryadva. Opôs o exército do grão-principado de Moscou, sob Dmitri Ivanovich, às tropas de Mamai, da Horda de Ouro.
Kulikovo foi a primeira grande vitória de um exército russo em campo aberto contra a Horda de Ouro, depois de 140 anos pagando tributo.
A ficha do confronto:
| Data: | 8 de setembro de 1380, festa da Natividade de Maria | | Local: | campo de Kulikovo, entre o Don e o Nepryadva | | Comando de Moscou: | grão-príncipe Dmitri Ivanovich | | Comando da Horda: | Mamai, chefe militar da Horda de Ouro | | Efetivos: | desconhecidos; as crônicas falam em centenas de milhares, e o historiador Charles Halperin, em Russia and the Golden Horde (1985), trata esses números como exagero sem base | | Fontes: | Zadonshchina (A Batalha Além do Don), poema do fim do século 14; Skazanie o Mamaevom poboishche (Relato do Massacre de Mamai), do século 15 |
Desde a invasão de Batu, neto de Gengis Khan, entre 1237 e 1240, os principados russos pagavam tributo à Horda de Ouro. O grão-príncipe só governava com o iarlyk (a carta de autorização) do cã.
Nos anos 1370, a Horda estava rachada. Cãs se sucediam e caíam em poucos meses, e Mamai governava a parte ocidental em nome de cãs que ele mesmo escolhia.
Dmitri aproveitou a divisão. Parou de pagar o tributo completo e, em 1378, derrotou um exército de Mamai no rio Vozha.
Mamai respondeu em 1380 com uma campanha grande. Fez aliança com Jogaila, grão-duque da Lituânia, e com Oleg, príncipe de Ryazan, e marchou para o norte.
Antes de partir, Dmitri foi ao mosteiro da Trindade, onde o abade Sérgio de Radonezh abençoou a campanha e, segundo a tradição, mandou com ele dois monges guerreiros, Peresvet e Oslyabya.
Dmitri decidiu atravessar o Don para lutar antes que os aliados se juntassem a Mamai. Depois da travessia, mandou desmontar as pontes, o que fechava o caminho da fuga para os próprios soldados.
Nenhum dos dois aliados chegou a tempo. As tropas de Jogaila ainda estavam a cerca de um dia de marcha quando a batalha terminou, e voltaram para casa.
A luta começou perto do meio-dia e só acabou no fim da tarde. A Horda fugiu para o sul, perseguida por dezenas de quilômetros até o rio Krasivaya Mecha.
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II Quem estava em campo
O príncipe no meio da fileira
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Três homens decidiram Kulikovo: o grão-príncipe que lutou como soldado comum, o príncipe jovem que queria sair do bosque e o velho voivoda que não deixou.
Dmitri Ivanovich nasceu em 1350, em Moscou, neto de Ivan Kalita, o príncipe que tinha feito de Moscou a cidade mais rica da região. Herdou o trono aos 9 anos e passou a infância sob a tutela do metropolita Alexei, chefe da Igreja russa.
A armadura trocada
Antes da batalha, Dmitri tirou a armadura de grão-príncipe e a vestiu no boiardo (nobre da corte) Mikhail Brenok. Brenok assumiu o posto sob o estandarte negro do comando, e Dmitri foi lutar na fileira do regimento da frente, vestido como os outros.
O estandarte atraiu o ataque mais pesado do dia. Brenok caiu embaixo dele, vestido com a armadura do grão-príncipe.
Depois da batalha, ninguém achava o grão-príncipe. Dois soldados o encontraram no fim da tarde, desacordado sob uma bétula derrubada, com a armadura amassada e sem ferida grave.
Pela vitória na beira do Don, Dmitri ganhou o apelido de Donskoi, "do Don", e é assim que a história russa o chama.
O primo e o velho da Volínia
Vladimir Andreyevich, príncipe de Serpukhov, era primo de Dmitri e tinha 26 anos. Recebeu o regimento de emboscada, a tropa escolhida a dedo para o golpe final. Pela carga daquela tarde, ficou conhecido como Vladimir, o Valente.
Dividia o comando com ele Dmitri Mikhailovich Bobrok-Volynsky, nobre vindo da Volínia, na atual Ucrânia, casado com uma irmã do grão-príncipe. Era o comandante mais experiente do exército.
O Skazanie conta a conversa dentro do bosque. Vladimir chorava vendo os russos caírem, e Bobrok respondeu: "Espera um pouco, príncipe; o nosso tempo ainda não chegou." (Skazanie o Mamaevom poboishche, século 15.)
O chefe que não era cã
Mamai era da família Kiyat e não descendia de Gengis Khan. Pela lei da Horda, não podia ser cã; por isso governava como beklarbek (comandante-chefe) de um cã fantoche.
Ele acompanhou a batalha de uma colina chamada Krasny Kholm, o "morro vermelho", ao sul do campo. De lá viu a própria cavalaria dar as costas ao bosque.
O exército dele misturava cavaleiros tártaros, povos do Cáucaso, como alanos e circassianos, e infantaria paga, vinda das colônias genovesas da Crimeia.
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