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ED 021

O platô que Napoleão entregou de propósito

Em 2 de dezembro de 1805, a Grande Armée abriu mão das alturas de Pratzen e esperou a coluna aliada descer para retomá-las pelo meio.

Divisões francesas subindo o platô de Pratzen na manhã de 2 de dezembro de 1805, contra o centro aliado que descia a encosta rumo ao sul.

Franceses retomando o platô de Pratzen

 

Uma elevação no meio de um campo de batalha vale por duas razões diferentes, e quem mistura as duas costuma perder a manhã. A primeira razão é balística: de cima, a artilharia alcança mais longe, o tiro de infantaria desce em vez de subir e cada passo do atacante custa fôlego.

A segunda razão é ótica. Do alto se enxerga a ordem de batalha inteira do outro lado, contam-se as bandeiras, vê-se para onde as colunas estão andando antes de elas chegarem.

Quem ocupa a altura recebe as duas vantagens juntas e de graça. Paga também um preço que quase ninguém lança na conta: a elevação é imóvel, e o exército que se apoia nela fica tão parado quanto ela.

Daí sai uma jogada que parece um erro grosseiro e é aritmética fria. Entregar a altura de propósito, deixar o inimigo subir sem custo nenhum, e aceitar que ele fique com a vista e com o alcance.

A troca só fecha se existir um segundo passo: dar ao inimigo um motivo forte para descer de lá por vontade própria. Motivo, em campo, é uma fraqueza visível. Uma ala esticada demais, uma estrada de retirada aparentemente desguarnecida, um flanco com poucos batalhões e nenhuma reserva atrás.

O momento da cobrança é o da marcha. Coluna descendo encosta é um corpo alongado, com a cabeça longe da cauda, sem frente formada e sem artilharia posicionada. Retomar uma altura contra uma coluna nesse estado é um problema completamente diferente de atacá-la quando ela está parada e em ordem.

O risco fica todo do lado de quem entrega. Se o inimigo não morder, a altura foi dada de presente e não volta. Se ele morder devagar, a ala fraca deixa de ser isca e vira uma ala fraca de verdade, com a estrada de retirada cortada logo atrás.

Existe ainda a variável que ninguém controla. Nevoeiro de dezembro esconde tanto quem sobe quanto quem espera, e serve aos dois lados até a hora em que o sol resolve queimá-lo.

Em dezembro de 1805, na Morávia, um exército francês menor do que o adversário acampou diante de um platô largo e simplesmente não o ocupou, deixando a própria ala direita com poucos batalhões e a estrada de Viena atrás dela.

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I  A batalha de hoje

Uma manhã de nevoeiro e uma altura vazia

Em 2 de dezembro de 1805, ao amanhecer, o platô de Pratzen estava ocupado por tropas russas e austríacas, e o exército francês que dormira à vista dele havia recuado dessas alturas dois dias antes, por ordem expressa do próprio comando.

A Grande Armée entrou em campo com cerca de 67.000 homens contra cerca de 85.000 aliados, e com metade da artilharia do adversário, depois de ter cedido de graça o único terreno alto da região.

O campo ficava a leste de Brünn, entre a aldeia de Austerlitz e uma sequência de lagoas congeladas ao sul. O platô cortava o centro do terreno, uma lombada larga e suave, boa para artilharia e péssima para quem precisasse tomá-la de baixo.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Grande Armée em campo:cerca de 67.000
Exército russo-austríaco:cerca de 85.000
Canhões franceses:cerca de 140
Canhões aliados:cerca de 280
Frente de batalha:cerca de 10 km
Duração do combate:cerca de 9 horas

Os números variam conforme a fonte, e o efetivo francês é o mais disputado, porque parte da conta depende de qual corpo já tinha chegado quando o combate abriu. O que as versões concordam é na proporção: os aliados tinham mais homens e muito mais bocas de fogo.

A neblina que subiu do vale do córrego Goldbach cobriu a planície baixa até quase o meio da manhã. Do alto do platô, os observadores aliados enxergavam sol; das posições francesas mais baixas, não se via um regimento a duzentos passos.

A batalha abriu antes das oito, no extremo sul, quando as colunas aliadas atacaram as aldeias de Telnitz e Sokolnitz, no ponto exato onde a linha francesa era mais fina.

Ali estava o corpo do marechal Davout, chegado de Viena depois de uma marcha forçada de cerca de 110 quilômetros em pouco mais de dois dias, com ordem de segurar sem contra-atacar.

"Soldados, estou contente convosco."

Napoleão Bonaparte, proclamação ao exército, 1805

O combate no sul durou horas e consumiu, uma por uma, as colunas que deveriam envolver o flanco francês. Cada nova unidade aliada mandada para lá saía do centro, e o centro ficava no platô.

Por volta das nove da manhã, o alto de Pratzen estava mais vazio do que em qualquer momento desde a véspera, ocupado sobretudo por retaguardas e por unidades ainda em movimento para o sul.

Foi nesse minuto que a neblina começou a se abrir na encosta oeste, e as divisões francesas que esperavam ao pé dela receberam ordem de subir.

 
 

II  Quem estava em campo

Três imperadores e o plano de um coronel austríaco

A batalha foi decidida numa reunião noturna em que o plano aliado foi lido em voz alta, em alemão, para generais russos que precisavam de tradução e receberam as cópias com poucas horas de antecedência.

Napoleão comandava pessoalmente a Grande Armée, formada por corpos de exército sob Soult, Lannes, Bernadotte, Davout e Murat, além da Guarda Imperial mantida em reserva atrás do centro.

Do outro lado havia dois imperadores em campo, Alexandre I da Rússia e Francisco I da Áustria, e um comandante nominal, o general Mikhail Kutuzov, que não tinha autoridade real sobre a decisão de dar batalha.

Kutuzov defendia recuar para leste, esperar os reforços russos que ainda vinham a caminho e deixar as linhas de abastecimento francesas se esticarem no inverno morávio. Perdeu o argumento para o círculo de oficiais jovens que cercava o czar.

O plano aliado foi escrito por Franz von Weyrother, chefe do estado-maior austríaco, e previa uma manobra ampla: descer a maior parte do exército do platô, atravessar a linha de lagoas ao sul e enrolar a ala direita francesa, cortando a estrada de Viena.

Weyrother conhecia o terreno de manobras anteriores, e o plano dependia de coordenação fina entre colunas que falavam idiomas diferentes e nunca tinham operado juntas.

"Se os russos deixarem as alturas de Pratzen para me contornar pela direita, eles estão perdidos sem remédio."

Napoleão Bonaparte, aos marechais na véspera da batalha, 1805

As colunas de ataque do sul ficaram com Buxhöwden, Langeron e Dokhturov. Bagration ficou com a ala norte, junto à estrada de Olmütz, e a Guarda russa do grão-duque Constantino ficou atrás do centro, como reserva.

A leitura que o comando aliado fazia dos franceses vinha reforçada por sinais deliberados. Napoleão tinha pedido armistício, recuado das alturas e deixado a direita visivelmente fraca, tudo em poucos dias.

A impressão que ficou do outro lado foi a de um exército pequeno, longe de casa e disposto a negociar antes de brigar.

As duas apostas eram claras. O comando aliado apostava que a superioridade numérica, aplicada num flanco fino, cortaria a retirada francesa antes do meio-dia.

O outro lado apostava que um exército que desce de uma altura para executar uma manobra longa deixa, por algumas horas, um buraco no próprio centro, e que a distância entre o pé da encosta e o topo podia ser vencida em menos tempo do que a coluna aliada levaria para voltar.

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III  O plano

Entregar Pratzen para retomá-lo pelo meio

O plano aliado: descer a maior parte do exército do platô, atravessar as lagoas ao sul e enrolar a ala direita francesa, cortando a estrada de Viena.

O plano francês: ceder as alturas, engordar a isca no sul, esperar o centro aliado esvaziar e subir o platô em duas divisões, partindo o exército adversário em dois.

A decisão que mudou a conta: trocar uma vantagem de terreno permanente por uma janela de tempo de poucas horas, e apostar que a janela bastaria.

O primeiro passo foi abandonar a altura. Nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro, as tropas francesas desocuparam o platô de Pratzen e recuaram para o terreno baixo a oeste do córrego Goldbach, à vista do inimigo.

O segundo foi afinar a direita de propósito. O flanco sul ficou com pouca tropa e a estrada de Viena logo atrás, desenhando a oportunidade que o plano aliado procurava.

O terceiro foi esconder a chegada de Davout. O corpo vindo de Viena marchou de noite e entrou em posição na madrugada, para que a ala fraca continuasse parecendo fraca até a hora de segurar o ataque.

O quarto foi encurtar a distância. As divisões de Soult ficaram ao pé da encosta oeste, na neblina, a menos de um quilômetro do alto, prontas para subir sem marcha de aproximação.

O quinto foi deixar o sul ferver. Davout resistiu em Telnitz e Sokolnitz, perdendo e retomando aldeias, sem contra-atacar, para consumir o máximo de colunas aliadas no menor espaço possível.

O sexto foi esperar o relógio, não o inimigo. Napoleão perguntou quanto tempo Soult levaria até o topo, ouviu que menos de vinte minutos, e adiou a ordem por mais um quarto de hora, para pegar a coluna aliada mais comprometida na descida.

O sétimo foi subir com o centro. Por volta das nove, as divisões de Saint-Hilaire e Vandamme atacaram o platô, saindo da neblina contra retaguardas e contra unidades que ainda marchavam para o sul.

O oitavo foi manter o alto. A Guarda russa contra-atacou e quase reverteu a posição, e a Guarda Imperial francesa entrou ali, transformando o platô num divisor entre as duas metades do exército aliado.

Com o centro tomado, a artilharia francesa passou a atirar de cima sobre as colunas do sul, presas entre as aldeias que atacavam, as lagoas e uma altura que trocara de dono no meio da manhã.

A retirada aliada se desfez ao longo da tarde, em parte pela linha de lagoas a sudeste, onde o gelo cedeu sob homens e peças. As perdas ali são um dos pontos mais inflados pelos boletins da época.

O que decidiu Austerlitz não foi a diferença de efetivos, e sim o intervalo em que o centro aliado esteve em marcha e não em posição.

O detalhe que arruína a leitura fácil é que a entrega do platô era irreversível. Se o comando aliado tivesse ficado quieto no alto por mais um dia, os franceses estariam em terreno baixo, com menos artilharia e com o inverno chegando.

A régua serve fora da Morávia. Vantagem de posição só vale enquanto ela é ocupada, e quem a abandona para perseguir uma oportunidade fácil devolve, de graça, o único terreno que o adversário não conseguia tomar.

"A altura que você ocupa hoje continua sua, ou você já está descendo dela atrás de uma fraqueza que alguém desenhou para você ver?"

 
 
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Segundo o texto, quem escreveu o plano de ataque do exército aliado em Austerlitz?

AMikhail Kutuzov, o comandante nominal russo
BFranz von Weyrother, chefe do estado-maior austríaco
CNapoleão Bonaparte, para confundir o adversário
DO marechal Davout, após a marcha forçada de Viena

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