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O passo atrás no rio Fei

Em 383, o imperador Fu Jian recuou a margem para o inimigo atravessar, e um grito transformou o recuo em fuga.

Soldados do Qin recuam em desordem na margem do rio Fei, 383

Rio Fei, atual Anhui, China, 383

▼
 

Um contra onze. Era a desproporção no rio Fei, no leste da China, no inverno de 383, pela conta do Livro de Jin, a crônica oficial compilada na corte Tang em 648.

De um lado, 80 mil soldados do Jin do Leste, a dinastia chinesa que governava o sul a partir de Jiankang, atual Nanquim. Do outro, o exército de Fu Jian, imperador do Qin Anterior e senhor de todo o norte. O Livro de Jin conta 870 mil homens nessa marcha.

Historiadores modernos desconfiam do número. Mesmo cortado pela metade, ele deixava os jin esmagados no papel.

Os dois exércitos se olhavam por cima da água. A vanguarda do Qin acampava colada à margem norte, em linha fechada, e os jin não tinham como atravessar debaixo de flechas.

Xie Xuan, comandante dos jin em campo, mandou um mensageiro com uma proposta estranha. Pediu que o Qin recuasse um trecho, para os jin passarem o rio e as duas forças lutarem em terreno aberto.

Fu Jian aceitou. Tinha um cálculo: deixar o inimigo entrar na água e atacar quando metade dos homens ainda estivesse no meio da travessia.

Os oficiais do Qin desconfiaram. O imperador insistiu e mandou a linha da frente dar alguns passos para trás.

O exército dele não era um bloco. Tinha soldados recrutados à força entre povos que o Qin vencera poucos anos antes: xianbei, qiang, di e chineses do norte. Muitos marchavam sem vontade.

Quando a primeira fila recuou, a de trás não sabia por quê. Viu as costas dos companheiros e entendeu que a frente estava fugindo.

Nessa hora, um homem dentro das fileiras gritou: “O exército de Qin foi derrotado!” Era Zhu Xu, oficial jin capturado quatro anos antes, que servia agora a Fu Jian.

O passo atrás virou corrida. A corrida virou debandada. Os jin atravessaram o rio atrás de um exército que já não se voltava para lutar.

Aqui embaixo, a travessia em ordem, os homens dos dois lados e o plano que dependia de um inimigo obediente.

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I  A batalha de hoje

Uma margem vazia no rio Fei

A resposta de ontem

Para onde Conon levou as trirremes que escaparam?

Conon levou as oito trirremes para Chipre e se abrigou com Evágoras, rei de Salamina de Chipre, contam Xenofonte e Diodoro. Anos depois, comandou uma frota paga pela Pérsia, venceu os espartanos em Cnido, em 394 a.C., e voltou a Atenas para reerguer as muralhas longas que Lisandro mandara derrubar.

A batalha do rio Fei foi travada em novembro de 383, na margem de um afluente do rio Huai, perto da cidade de Shouyang, atual Shouxian, na província de Anhui. De um lado, o Jin do Leste, a corte chinesa do sul. Do outro, o Qin Anterior, o império que unira o norte da China sob uma família de origem di (povo de pastores do oeste chinês).

No rio Fei, o maior exército da China do século IV se desfez quase sem lutar.

A ficha do confronto:

Data:novembro de 383
Local:rio Fei, atual Anhui
Lado jin:Xie Shi e Xie Xuan
Lado Qin:Fu Jian e Fu Rong
Arma do dia:um recuo ordenado
Desfecho:vitória jin

A China estava partida desde 316, quando povos do norte tomaram Chang'an e a corte Jin fugiu para o sul do rio Yangtzé. Fu Jian passou duas décadas juntando os pedaços do norte. Em 376, já não tinha rival ao norte do rio Huai.

Em 379, tomou Xiangyang, a fortaleza que guardava o rio Han. Foi ali que capturou Zhu Xu, o governador jin da cidade.

Em 383, decidiu terminar a conquista. Os conselheiros pediram que esperasse. Fu Jian respondeu, segundo o Livro de Jin, que os seus soldados podiam fechar o Yangtzé só atirando os chicotes na água.

A vanguarda, comandada pelo irmão dele, Fu Rong, tomou Shouyang em outubro. O resto do exército vinha espalhado por centenas de quilômetros de estrada.

Fu Jian deixou o grosso da tropa para trás e correu até Shouyang com 8 mil cavaleiros leves. Queria estar presente na queda do sul.

Mandou Zhu Xu ao acampamento jin para exigir a rendição. Zhu Xu fez o contrário. Contou a Xie Shi que o exército do Qin ainda não estava reunido e que a hora de bater era aquela.

Os jin atacaram primeiro em Luojian, um posto avançado no rio Luo. Liu Laozhi atravessou o rio à noite com 5 mil homens e desfez um acampamento de 50 mil. O general Liang Cheng caiu na luta.

Do alto das muralhas de Shouyang, Fu Jian olhou o acampamento inimigo. No monte Bagong, viu o capim e as árvores se mexendo ao vento e jurou que eram soldados.

Veio então o pedido de Xie Xuan. O Qin recuou, os jin cruzaram, e a retirada perdeu a forma.

Fu Rong galopou para segurar as fileiras. O cavalo dele tombou, e os soldados jin o cercaram ali mesmo.

Sem o comandante da vanguarda, ninguém mais deu ordem. Fu Jian levou uma flecha e fugiu para o norte do rio Huai.

Os jin perseguiram os fugitivos até Qinggang, a uns 30 quilômetros dali. Recuperaram Shouyang e acharam abandonada a carruagem de mica do imperador.

 
 

II  Quem estava em campo

O imperador, o ministro e o prisioneiro

No rio Fei, um imperador confiante enfrentou uma família de ministros, e o homem que decidiu a batalha estava do lado errado.

O imperador

Fu Jian nasceu em 338, numa família di que governava o Qin. Em 357, tomou o trono do primo Fu Sheng, conhecido pela crueldade, num golpe de palácio.

Governou com o ministro chinês Wang Meng, que reorganizou impostos e escolas. Fu Jian poupava os reis vencidos e lhes dava cargos. Foi generoso com eles, e foi com eles que marchou para o sul.

O irmão

Fu Rong era o irmão mais novo e o melhor general da casa. Antes da campanha, pediu ao imperador que não fosse: o exército era grande demais e leal de menos.

Mesmo contra a guerra, aceitou comandar a vanguarda.

O ministro

Xie An governava o Jin do Leste como primeiro-ministro em Jiankang. Tinha passado a juventude recusando cargos e só entrou na corte depois dos 40 anos.

Quando chegou a carta do rio Fei, ele jogava weiqi (o jogo de tabuleiro que o Ocidente chama de go) com um convidado. Leu, guardou o papel e continuou a partida.

“Os rapazes já derrotaram o inimigo”, respondeu Xie An ao convidado, segundo o Livro de Jin, compilado na corte Tang em 648.

A mesma crônica conta que, ao passar pela porta, ele quebrou o salto do tamanco no degrau e nem percebeu.

Os sobrinhos

Xie Shi, irmão de Xie An, comandava a campanha. Xie Xuan, sobrinho, tinha montado em Guangling o Exército do Norte, recrutado entre refugiados que fugiram do Qin.

Eram soldados com contas a acertar com quem tomara as terras deles.

O prisioneiro

Zhu Xu defendeu Xiangyang por quase um ano. A mãe dele, a senhora Han, mandou as mulheres da cidade erguer um segundo muro por dentro, e o trecho ainda carrega o título de Muro da Senhora.

Capturado, Zhu Xu foi tratado com honra por Fu Jian e recebeu cargo no Qin. No rio Fei, usou o cargo para trair quem o poupou.

Depois da batalha, voltou ao Jin e serviu como governador até o ano 393.

O general que esperou

Murong Chui, príncipe xianbei a serviço do Qin, não entrou na debandada. Manteve os seus 30 mil homens inteiros e acolheu Fu Jian ferido.

No ano seguinte, rompeu com ele e fundou o reino de Yan Posterior.

 

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III  O plano

Deixar atravessar até a metade

O plano do Qin: recuar um pouco, deixar os jin entrarem no rio e atacar quando metade deles ainda estivesse na água.

O plano jin: pedir o recuo, atravessar depressa e bater numa linha em movimento.

A aposta de Fu Jian: trocar a margem segura por uma chance de esmagar o inimigo com os pés molhados.

A ideia não era nova. Sun Tzu, n'A Arte da Guerra, escrita por volta do século V antes de Cristo, recomendava atacar o inimigo que atravessa um rio quando metade dele já passou.

Fu Jian conhecia o conselho. O erro estava em outro lugar.

Recuar em ordem é uma das manobras mais difíceis da guerra. Exige que cada fila saiba que o movimento é planejado e onde vai parar.

O exército do Qin falava várias línguas. Os soldados de trás não ouviam as ordens da frente, e as bandeiras não chegavam a todos.

A manobra precisava de quatro passos:

1. Fazer a linha da frente recuar um trecho curto, sem virar as costas.

2. Parar a retirada num ponto marcado e refazer a formação.

3. Esperar os jin entrarem no rio, com a cavalaria pronta nos flancos.

4. Atacar quando metade do inimigo estivesse entre as duas margens.

O exército cumpriu só o primeiro passo. Quando Zhu Xu gritou, o segundo já não tinha quem o fizesse.

Os soldados que fugiam passaram a noite no mato. Ouviam o vento e o grito dos grous e achavam que eram os jin chegando.

O Livro de Jin guardou a cena, e a China guardou a frase: fengsheng helei (o som do vento e o grito do grou), até hoje um ditado para quem foge do próprio medo.

O império de Fu Jian se desfez em poucos meses. Os povos vencidos fundaram reinos próprios, e o norte se partiu em mais de dez estados.

O sul ficou livre por mais dois séculos. Só em 589 a dinastia Sui reuniu a China de novo.

Fu Jian voltou para Chang'an com o que sobrou. Em 385, foi preso por um dos seus próprios generais.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual dos generais de Fu Jian o prendeu em 385, dois anos depois do rio Fei?

 
 
Quiz da edição

No rio Fei, quem gritou a frase que transformou o recuo do Qin em fuga desenfreada?

AFu Rong, o irmão mais novo de Fu Jian
BXie Xuan, o comandante jin que pediu o recuo
CZhu Xu, o oficial jin capturado e promovido por Fu Jian
DMurong Chui, o príncipe xianbei que manteve suas tropas intactas

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