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O muro de Mirabello aberto na madrugada

Em fevereiro de 1525, Francisco I carregou pela frente dos próprios canhões e encontrou os arcabuzeiros imperiais no parque de Pavia.

Cavalaria pesada francesa carrega dentro do parque murado de Mirabello enquanto arcabuzeiros imperiais atiram do arvoredo, em Pavia, fevereiro de 1525

Parque de Mirabello, fevereiro de 1525

 

Um rei em quinhentos anos. Era a conta dos reis da França levados presos de um campo de batalha até aquela manhã, e o único nome da lista chamava-se João II, capturado em Poitiers em 1356. Em 24 de fevereiro de 1525, no parque de caça murado de Mirabello, ao norte de Pavia, Francisco I entrou na conta como o segundo, e nenhum soldado do campo francês imaginava que o próprio comando pudesse acabar a manhã sob guarda inimiga.

O cerco já durava quase quatro meses quando aquela madrugada começou. O exército francês tinha chegado diante de Pavia em 28 de outubro de 1524, enfrentado um inverno de chuva na planície lombarda e cavado trincheiras contra uma cidade que não abria os portões, defendida por uma guarnição espanhola e alemã que recusava proposta de rendição.

Dentro das muralhas, a resistência se pagava com prata derretida. Antonio de Leyva, comandante da guarnição, mandou fundir a prataria das igrejas de Pavia e cunhar moeda para manter os infantes alemães em serviço, episódio registrado por Francesco Guicciardini na Storia d'Italia (História da Itália), obra publicada em 1561.

Fora das muralhas, um segundo exército esperava havia três semanas. A força imperial de socorro tinha acampado a poucos quilômetros do parque no começo de fevereiro, trocado tiros de artilharia com os franceses sem atacar de frente e chegado ao mesmo aperto de dinheiro: dos dois lados, tropa mercenária sem soldo atrasava pouco e desertava logo.

Aquele impasse tinha um relógio próprio, e quem ficasse parado perdia a tropa antes de perder o terreno: infante sem pagamento em dia abandonava o acampamento por conta própria, dos dois lados do muro. A primeira seção mostra o que a força imperial fez com a muralha do parque antes do amanhecer, e por que a carga de cavalaria que respondeu ao ataque trabalhou contra a própria artilharia francesa.

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I  A batalha de hoje

A carga que apagou os próprios canhões

Francisco I, rei da França desde 1515, comandava em pessoa o cerco de Pavia e mantinha o grosso do exército acampado dentro do parque de Mirabello, terreno de caça dos Visconti fechado por uma muralha de tijolo de vários quilômetros, ao norte da cidade.

A muralha que protegia o acampamento francês do lado de fora era a mesma que limitava a manobra do lado de dentro. Um parque murado dá abrigo contra ataque de surpresa e tira do cavaleiro pesado o campo aberto de que ele precisa para escolher a direção da carga.

A ficha do confronto:

Data:24 de fevereiro de 1525, com a entrada imperial começando ainda no escuro
Local:parque de Mirabello, ao norte de Pavia, ducado de Milão
Comando francês:o rei Francisco I, com Guilherme Gouffier de Bonnivet, Jacques de La Palice e Luís II de la Trémoille
Comando imperial:Carlos de Lannoy, vice-rei de Nápoles, com Fernando de Ávalos, marquês de Pescara, e Jorge de Frundsberg à frente dos lansquenês (infantes alemães de pique e espada, contratados por soldo)
Dentro de Pavia:Antonio de Leyva, com guarnição espanhola e alemã sitiada desde outubro de 1524
Efetivos:disputados; as cifras dos cronistas do século XVI não têm confirmação documental
Fontes do episódio:Martin du Bellay, Mémoires (Memórias, século XVI), e Francesco Guicciardini, Storia d'Italia (1561)

"De tudo, só me restaram a honra e a vida, que está salva."

Francisco I, carta a Luísa de Saboia, 1525.

Os sapadores imperiais trabalharam a noite inteira num trecho do muro do parque, perto de uma construção conhecida como Torre del Gallo, e abriram brechas largas o bastante para passar coluna de infantaria com artilharia leve atrás.

A resposta francesa veio pelo lado mais forte da casa: a cavalaria pesada da guarda do rei. Francisco I montou, reuniu os gendarmes (cavaleiros encouraçados da casa real) e carregou contra a infantaria imperial já formada dentro do parque, no melhor terreno que restava.

A carga acertou o alvo e desligou a artilharia francesa no mesmo movimento. Os canhões batiam nas colunas imperiais desde o começo da manhã, e precisaram cessar fogo quando o próprio rei passou na frente das bocas, porque atirar com a cavalaria da casa naquele campo significava acertar a cavalaria da casa.

Do arvoredo do parque saiu a resposta que ninguém do lado francês tinha como bloquear. Os arcabuzeiros espanhóis de Pescara, infantes armados com arcabuz (arma de fogo portátil, apoiada no ombro e disparada com mecha acesa), atiraram de perto contra homem e montaria em armadura completa, e a couraça de placa não segurava aquele projétil na distância curta.

Os piqueiros suíços contratados pela França recuaram cedo. Aquela infantaria vinha de meses sem soldo integral, tinha perdido contingentes que voltaram para casa nas semanas anteriores e cedeu terreno diante dos lansquenês de Frundsberg antes que a linha francesa conseguisse se firmar.

A retaguarda francesa deixou o parque sem entrar na luta. O duque Carlos IV de Alençon comandava a reserva do lado do rio Ticino e conduziu aquela parcela do exército para fora do parque, o que fechou a conta do combate com o rei cercado por infantaria imperial no meio do terreno.

A montaria de Francisco I caiu sob ele e o rei foi cercado a pé, ainda de armadura, por soldados espanhóis que disputavam a captura. Ele se entregou a Carlos de Lannoy, vice-rei de Nápoles, o oficial de posto mais alto no lugar, e o combate estava resolvido antes do meio da manhã.

 
 

II  Quem estava em campo

O rei contra os veteranos de Leyva

Os dois exércitos chegaram ao parque de Mirabello com apostas opostas: a França confiava na melhor cavalaria pesada da Europa e em infantaria suíça alugada, e a força imperial trazia arcabuzeiros espanhóis treinados para atirar em formação misturada com pique, mais uma guarnição sitiada que conhecia cada palmo daquele terreno.

Francisco I tinha vinte e nove anos e uma vitória grande nas costas, Marignano, em 1515, ganha logo no início do reinado com carga de cavalaria e artilharia contra piqueiros suíços. Aquela vitória ensinou ao rei que o choque montado ainda decidia batalha, e Pavia cobrou o preço da lição desatualizada.

O lado imperial do muro

A força de socorro juntava três corpos com comandos separados. Carlos de Lannoy respondia pelo exército em nome do imperador Carlos V, Fernando de Ávalos, marquês de Pescara, comandava os terços espanhóis, e Jorge de Frundsberg respondia pelos lansquenês alemães, que serviam por soldo em atraso permanente.

Os arcabuzeiros espanhóis eram a peça nova naquele tabuleiro. Pescara empregava infantes de arma de fogo em grupos soltos, atrás de moita, tronco e valado, com ordem de atirar de perto contra cavalaria e recuar para trás dos piques enquanto recarregavam.

A guarnição de Pavia funcionava como quarto corpo do exército imperial. Antonio de Leyva segurava a cidade desde outubro, mantinha os defensores pagos com a prata das igrejas e fez uma saída pelos portões durante o combate, o que prendeu parte da tropa francesa longe da luta principal.

O tempo pesava mais do que o efetivo dos dois lados. Nenhum dos dois exércitos conseguia pagar o inverno seguinte, e o comando imperial atacou porque manter tropa alemã parada sem soldo diante de um cerco era perder o exército sem combate nenhum.

Do lado francês houve aviso e houve recusa. Martin du Bellay, que serviu na campanha e escreveu as Mémoires, registra que capitães experientes defendiam recuar para posição fortificada e esperar o inimigo se desmanchar sozinho, e o rei recusou porque abandonar o cerco depois de quatro meses valia como derrota declarada diante da Europa inteira.

 

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III  O plano

O muro aberto antes do amanhecer

O plano imperial: furar a muralha do parque na madrugada, entrar com infantaria e artilharia leve pelo ponto mais afastado do acampamento francês, formar dentro do terreno antes do amanhecer e deixar que a cavalaria do rei viesse carregar contra arcabuz escondido no arvoredo.

O plano francês: manter o cerco de Pavia intacto, usar o parque murado como acampamento protegido e responder a qualquer entrada inimiga com a carga da cavalaria pesada, a arma que tinha decidido Marignano dez anos antes.

A decisão que mudou a conta: carregar cedo demais e pela frente da própria artilharia. Os canhões franceses já batiam nas colunas imperiais e calaram no instante em que o rei entrou no campo de tiro.

O primeiro passo foi o trabalho de picareta. Sapadores imperiais abriram brechas no muro do parque perto da Torre del Gallo durante a noite, sem o barulho de artilharia que denunciaria o ponto escolhido.

O segundo foi a ocupação do terreno. As colunas espanholas e alemãs passaram pelas brechas em fila, marcharam pelo interior do parque no escuro e tomaram posição em campo de arvoredo e vala, com artilharia leve junto, longe das trincheiras francesas.

O terceiro foi a carga francesa. Francisco I levou os gendarmes contra a infantaria imperial já formada, rompeu a primeira linha de cavalaria leve inimiga, avançou fundo no parque e perdeu ali o apoio dos canhões, da infantaria suíça e da retaguarda de Alençon, tudo ao mesmo tempo.

O quarto foi o tiro de perto. Os arcabuzeiros de Pescara atiraram do arvoredo contra cavaleiro parado ou em manobra curta, os lansquenês fecharam com pique pela frente e a cavalaria francesa ficou presa entre arma de fogo e ponta de ferro, num terreno onde nem recuar em ordem era possível.

O desfecho para o comando francês está documentado nome por nome. Guilherme Gouffier de Bonnivet, Jacques de La Palice e Luís II de la Trémoille ficaram no campo, junto com Ricardo de la Pole, pretendente inglês exilado a serviço da França; Ana de Montmorency e Henrique de Albret, rei de Navarra, saíram prisioneiros.

Francisco I foi tratado como prisioneiro de alto valor desde a primeira hora. Escreveu à mãe, Luísa de Saboia, regente do reino, seguiu sob guarda para Pizzighettone e depois para a Espanha, onde ficou preso em Madri por cerca de um ano.

A conta política foi cobrada em janeiro de 1526. Pelo Tratado de Madri, o rei renunciou a Milão, à Borgonha e às pretensões sobre Nápoles, e deixou os dois filhos mais velhos como reféns na Espanha para garantir a soltura.

O tratado não sobreviveu ao regresso. De volta à França, o rei declarou nula uma assinatura dada sob prisão, entrou na Liga de Cognac ainda em 1526, e a Borgonha nunca foi entregue.

O que não se sabe com precisão é a contagem de baixas daquela manhã. Os cronistas do século XVI dão cifras muito distantes entre si, sem registro administrativo que confirme nenhuma delas, e a historiografia moderna trata todas como estimativa de época.

Cavalaria pesada durou mais um século, e nunca mais decidiu sozinha uma batalha campal na Europa ocidental.

"Qual carga você está tocando na frente dos seus próprios canhões?"

Milão nunca mais foi francesa.

 
 

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Quiz da edição

No parque de Mirabello, em 24 de fevereiro de 1525, por que a artilharia francesa precisou cessar fogo?

AOs canhões ficaram sem pólvora depois de quase quatro meses de cerco
BOs sapadores imperiais abriram o muro e tomaram as baterias durante a noite
CO rei e a cavalaria da casa real passaram na frente das bocas dos canhões
DA guarnição de Leyva saiu pelos portões de Pavia e capturou as peças

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