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Batalha do Dia   Batalha do Dia
ED 023

O mapa que separou três colunas na madrugada

Em 1º de março de 1896, os italianos amanheceram divididos diante de Adua, guiados por cartas erradas e por dois montes de nome idêntico.

Colunas italianas isoladas nas alturas de Adua diante do exército de Menelik em 1º de março de 1896.

Colunas italianas dispersas nas alturas de Adua

 

Mapa de campanha não é retrato do terreno. É uma aposta sobre ele, desenhada por alguém que passou depressa, mediu pouco e completou o resto com o que os guias contaram no caminho.

Enquanto o exército anda de dia, a aposta se corrige sozinha. O oficial levanta os olhos, vê que a colina está mais à direita do que a carta promete, ajusta a marcha e ninguém registra o erro em lugar nenhum.

De noite, essa correção some. O terreno vira uma sucessão de vultos pretos, o guia local fala uma língua que o oficial não domina, e a única referência que sobra é a folha dobrada dentro da bolsa.

Some a isso um detalhe de nomenclatura e a conta desanda de vez. Em região montanhosa, nome de acidente geográfico se repete: dois picos vizinhos podem carregar o mesmo nome de igreja, de santo ou de vale, e o cartógrafo estrangeiro marca só um deles.

Uma coluna recebe ordem de ocupar a altura tal. Chega lá, planta a bandeira, cumpre a ordem à risca. Só que está na altura errada, a quatro quilômetros da que o comandante tinha em mente, e o comandante não tem como saber.

Marcha noturna em três colunas paralelas multiplica esse defeito. Cada coluna anda no seu ritmo, com sua tropa, seu terreno e seus guias, e o intervalo entre elas depende de todo mundo ter entendido a mesma coisa da mesma carta.

Se uma anda rápido demais e outra deriva para o vale ao lado, o amanhecer não devolve um exército articulado. Devolve três destacamentos isolados, cada um sozinho na sua encosta, com quilômetros de mato entre um e outro.

E aí a aritmética muda de dono. Um exército de dezessete mil homens concentrado é uma coisa; três grupos de cinco ou seis mil, separados por horas de marcha, são outra completamente diferente contra um adversário que pode jogar dezenas de milhares em cima de cada um por vez.

Em março de 1896, no norte da Etiópia, um corpo expedicionário europeu marchou a noite inteira confiando numa carta levantada às pressas e amanheceu exatamente assim.

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I  A batalha de hoje

Três colunas separadas por quilômetros ao amanhecer

Em 1º de março de 1896, pouco depois das seis da manhã, a brigada do general Matteo Albertone abriu fogo sozinha nas alturas a oeste de Adua, quilômetros à frente do resto do exército italiano, contra a vanguarda etíope que já descia em massa das encostas.

Cerca de 17.700 italianos e askaris eritreus, com 56 peças de artilharia, encararam um exército etíope estimado entre 80.000 e 100.000 homens, com aproximadamente 40 canhões modernos.

Adua fica no Tigré, planalto no extremo norte da Etiópia, a cerca de 2.000 metros de altitude. O terreno é um emaranhado de montes íngremes, gargantas estreitas e vales cegos, sem estrada digna do nome e com povoados presos às encostas.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Corpo expedicionário italiano:cerca de 17.700
Exército etíope:80.000 a 100.000
Canhões italianos:56
Canhões etíopes:cerca de 40
Distância da marcha noturna:cerca de 14 km
Duração do combate:cerca de 6 horas

Os números etíopes variam muito conforme a fonte, porque o exército de Menelik reunia contingentes de vários ras que chegaram e partiram em datas diferentes. O que as versões concordam é na proporção: pelo menos quatro etíopes para cada italiano em campo.

A vantagem material italiana estava no fuzil e na disciplina de fogo. A tropa carregava o Vetterli-Vitali de repetição, os askaris eritreus eram veteranos de anos de campanha, e a artilharia de montanha tinha sido treinada para atirar em encosta.

Nada disso se sustentava isolado. Menelik contava com dezenas de milhares de fuzis modernos comprados na Europa nos anos anteriores, com peças Hotchkiss servidas por instrutores russos, e podia empilhar toda essa força sobre uma brigada de cada vez.

"A Etiópia não precisa de ninguém. Ela estende as mãos para Deus."

Menelik II, circular às potências europeias, 1891

O combate começou pela esquerda italiana, com Albertone adiantado demais e sem apoio de flanco, e a brigada resistiu cerca de duas horas antes de ser envolvida pelos dois lados e desfeita.

Por volta das nove da manhã, a brigada do general Vittorio Dabormida, que devia proteger a direita, tinha derivado para o vale errado, ao norte, e travava um combate próprio contra a ala de Ras Mikael sem contato visual com ninguém.

Enquanto Albertone era esmagado a oeste e Dabormida sumia a nordeste, o centro do general Giuseppe Arimondi e a reserva do general Giuseppe Ellena ainda subiam as encostas, tentando entender por telefone de campanha e mensageiro onde estava cada um.

 
 

II  Quem estava em campo

Um imperador com cem mil homens e um general com pressa

O exército etíope não estava ali por acaso: Menelik convocou o chitet, a mobilização geral do império, quase um ano antes, e passou meses acumulando fuzis, munição e mantimento no Tigré.

Do lado italiano estava o general Oreste Baratieri, governador da colônia da Eritreia e comandante do corpo expedicionário, veterano garibaldino com carreira feita na África e crédito político em Roma.

O plano italiano nem era plano militar, era cálculo político. Baratieri queria um golpe de efeito antes que a comida acabasse, pressionado por telegramas de Roma que exigiam ação imediata contra um adversário que ele mesmo sabia ser muito maior.

Baratieri tinha proposto recuar. Reuniu os quatro generais de brigada na véspera, ouviu de todos que o recuo seria uma humilhação e mudou de ideia na mesma noite, marcando o avanço para poucas horas depois.

Do outro lado havia um império inteiro com uma cabeça só. Menelik II reinava sobre um mosaico de reinos e chefias que ele havia unificado à força, e cada ras trouxe seu contingente próprio para o planalto do Tigré.

Ao lado dele estavam a imperatriz Taytu Betul, com tropa própria e voz no conselho, e comandantes como Ras Alula, Ras Makonnen, Ras Mengesha e Ras Mikael, que trazia a cavalaria de Wollo.

"Esta é uma tísica militar, não uma guerra."

Francesco Crispi, telegrama ao general Baratieri, 1896

A raiz da guerra estava num artigo de tratado. O texto de Wuchale, assinado em 1889, dizia em italiano que a Etiópia deveria tratar com estrangeiros por meio de Roma, e em amárico que poderia fazê-lo se quisesse, o que transformava protetorado em favor opcional.

A leitura italiana do adversário vinha de relatórios coloniais e de vitórias anteriores contra forças pequenas. O corpo expedicionário esperava um exército mal armado, faminto e prestes a se dispersar por falta de mantimento.

Menelik, por sua vez, lia a posição italiana como frágil e passageira. Sabia que a coluna tinha ração para poucos dias, que a linha de suprimento era longa e que o tempo jogava contra o invasor, não contra ele.

As duas apostas eram claras. Baratieri apostava que um avanço noturno colocaria suas brigadas em três alturas dominantes antes do amanhecer, obrigando os etíopes a atacar encosta acima contra fuzil e artilharia entrincheirados.

Menelik apostava no contrário: que o mato do Tigré desmancharia a marcha noturna e entregaria as brigadas separadas, uma de cada vez, ao alcance de um exército que podia se deslocar em massa sobre terreno que conhecia desde criança.

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III  O plano

Marchar de noite para alturas nunca vistas

O plano italiano: avançar 14 quilômetros na madrugada em três colunas paralelas, ocupar as alturas de Enda Chidane Meret, Rebbi Arienni e Semayata e esperar o ataque etíope em posição alta.

O plano etíope: manter o exército reunido nos vales atrás de Adua, deixar o adversário se estender no terreno quebrado e jogar massa sobre cada fração italiana assim que ela aparecesse isolada.

A decisão que mudou a conta: não disputar as alturas com a coluna inteira, e sim atacar cada brigada no momento em que ela ficou sem vizinho à vista, transformando um exército em três combates separados.

O primeiro passo foi a ordem de marcha. Baratieri mandou as brigadas partirem por volta das nove da noite de 29 de fevereiro, em três eixos paralelos, com a reserva atrás do centro, sem reconhecimento prévio das alturas de destino.

O segundo foi a carta errada. O levantamento italiano do Tigré era sumário, feito de longe, e colocava os acidentes principais fora do lugar por vários quilômetros, sem que ninguém no estado-maior soubesse a extensão do desvio.

O terceiro foi o nome repetido. Existiam dois montes chamados Enda Chidane Meret na região, e a brigada de Albertone, guiada por informantes locais, seguiu para o mais distante, avançando quilômetros além do ponto que Baratieri havia marcado.

O quarto foi a perda de contato. Por volta das quatro da manhã, o intervalo entre as colunas já era grande demais para apoio mútuo, o terreno cortava a comunicação e cada brigada passou a operar como se fosse um exército pequeno.

O quinto foi a informação etíope. Camponeses e batedores do Tigré levaram a Menelik, ainda de madrugada, a direção de cada coluna, enquanto o comando italiano seguia sem saber onde estavam as próprias brigadas.

O sexto foi bater a esquerda primeiro. As tropas de Ras Alula e Ras Mengesha caíram sobre Albertone logo cedo, envolveram a brigada pelos dois flancos e a desfizeram antes de qualquer reforço chegar.

O sétimo foi virar contra o centro. Com a esquerda desmontada, a massa etíope subiu contra Arimondi e Ellena nas alturas de Rebbi Arienni, atacando de frente e pelos flancos abertos que a ausência de Albertone tinha deixado.

O oitavo foi isolar Dabormida. A brigada da direita, presa no vale de Mariam Shavitu, combateu horas contra a cavalaria de Ras Mikael sem contato com o resto do exército, e foi cercada por completo no fim da manhã.

Por volta do meio-dia, Baratieri deu ordem de retirada geral. O que restava das brigadas desceu o planalto em desordem, perseguido pela cavalaria oromo.

O saldo italiano foi de cerca de 6.000 baixas fatais, 1.500 feridos e quase 3.000 prisioneiros, incluindo generais, e o corpo expedicionário deixou de existir como força organizada em um único dia.

O que decidiu Adua não foi a diferença de efetivos, e sim uma marcha noturna sobre uma carta errada, que entregou um exército de dezessete mil em três porções fáceis de engolir.

O detalhe que arruína a leitura fácil é que cada brigada italiana cumpriu a ordem que recebeu. Ninguém desobedeceu, ninguém fugiu no início, e as três se bateram com competência, cada uma no lugar errado.

A régua serve fora do Tigré. Plano que só funciona se todo mundo entender a mesma referência da mesma forma não é plano, é sorteio, e a conta chega no amanhecer.

"Todo mundo no seu time está olhando para o mesmo mapa, ou cada um está subindo o monte que acha que é o certo?"

 
 
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Qual general comandava a brigada que abriu fogo sozinha nas alturas a oeste de Adua, por volta das seis da manhã de 1º de março de 1896?

AVittorio Dabormida
BGiuseppe Arimondi
CMatteo Albertone
DGiuseppe Ellena

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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