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O flanco que os carluques abriram no rio Talas

Em julho de 751, o contingente aliado do exército Tang mudou de lado no meio do combate e desmontou a própria linha.

Vale do rio Talas, perto de Taraz, na fronteira entre o Cazaquistão e o Quirguistão, onde as linhas Tang e abássida se enfrentaram em julho de 751.

O vale do rio Talas, julho de 751

 

Uma em três. De cada três combatentes que a coluna imperial chinesa levou para o vale do Talas, algo próximo de um vinha de tribos aliadas contratadas para a campanha, e não das guarnições regulares que o império pagava e treinava.

Tropa aliada é a mais barata de conseguir e a mais cara de perder. Ela chega montada, conhece o terreno, dispensa a marcha de meses desde as províncias do interior e não pesa no orçamento das guarnições. O preço aparece depois, e aparece inteiro.

Uma guarnição paga responde à cadeia de comando enquanto o soldo existir. Um contingente aliado responde ao cálculo do próprio chefe, e o cálculo é refeito todo dia: quanto vale ficar, quanto vale sair, quem paga melhor no mês que vem, quem vai administrar esta região quando as duas colunas forem embora.

Enquanto o exército avança, os dois cálculos apontam para o mesmo lado e ninguém percebe que existem dois. A separação aparece na primeira hora em que o resultado fica em dúvida, e ela aparece exatamente no ponto da linha onde o aliado está posicionado.

Distância multiplica esse risco. A mil quilômetros da base mais próxima, nenhum comandante consegue substituir um contingente que sai, nem punir depois quem saiu, nem oferecer mais dinheiro sem autorização que levaria semanas para chegar. A fidelidade fica sendo o único mecanismo de controle disponível, e fidelidade não é mecanismo.

Terreno fecha a conta. Um exército que perde um terço da linha numa planície aberta recua e se refaz. O mesmo exército preso entre um rio e um desfiladeiro de montanha atravessa um corredor único na retirada, e o corredor decide quantos chegam à outra vertente da serra.

Em julho de 751, às margens de um rio na fronteira entre as terras de língua turca e o Ferghana, dois impérios que nunca tinham se enfrentado alinharam suas forças, e o terço alugado de uma delas trocou de exército no quinto dia.

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I  A batalha de hoje

Cinco dias de julho às margens de um rio

O vale do rio Talas corre no pé norte das montanhas Tian Shan, na região onde hoje se encontram o Cazaquistão e o Quirguistão, perto da cidade de Taraz, e servia de rota entre as cidades comerciais do Ferghana e as estepes do norte.

Dois impérios que nunca tinham se cruzado chegaram ali pelo mesmo motivo: as cidades-oásis da Transoxiana, ricas em prata, cavalos e rotas de caravana, tinham acabado de trocar de dono duas vezes em vinte anos.

O império Tang chegara ao Talas vindo do leste, através do Protetorado de Anxi, uma linha de guarnições na bacia do Tarim que sustentava a presença chinesa a oeste do deserto de Taklamakan. O califado abássida chegara do oeste, tendo tomado o poder ao clã omíada três anos antes e herdado as províncias do Khorasan e da Transoxiana.

Entre os dois havia um cinturão de principados pequenos, Ferghana, Chach, Tashkent, Sogdiana, que negociavam proteção com quem estivesse mais perto e trocavam de patrono conforme a coluna que aparecesse no horizonte.

O estopim foi um desses principados. O governante de Chach, na região de Tashkent, entrou em disputa com o de Ferghana, aliado dos Tang. A coluna chinesa tomou Chach, e o herdeiro do governante deposto atravessou o deserto para pedir apoio ao governador abássida em Samarcanda.

A ficha do confronto:

Data:julho de 751
Local:vale do rio Talas, perto de Taraz, na atual fronteira Cazaquistão e Quirguistão
Comando Tang:Gao Xianzhi, protetor-geral de Anxi
Comando abássida:Ziyad ibn Salih, governador de Samarcanda sob Abu Muslim
Duração:cinco dias de combate
Fator decisivo:a virada do contingente carluque no meio da linha

"Os exércitos das duas potências se encontraram no rio Talas, e o combate durou cinco dias."

Ibn al-Athir, em "al-Kamil fi al-Ta'rikh", século XIII.

O combate se arrastou por cinco dias sem que nenhuma das linhas cedesse. As duas forças eram parecidas em composição, com infantaria no centro e cavalaria leve nas alas, e nenhuma delas tinha vantagem de armamento suficiente para romper a outra pelo choque frontal.

No quinto dia, o contingente carluque, que ocupava posição na retaguarda e nas alas do dispositivo Tang, atacou a própria linha que integrava. A infantaria chinesa ficou presa entre a cavalaria abássida à frente e os antigos aliados atrás, e a formação perdeu coesão em poucas horas.

As fontes discordam do tamanho das forças em uma ordem de grandeza. Du You, no "Tongdian", concluído em 801, trabalha com dezenas de milhares do lado Tang; as crônicas árabes trazem números muito maiores para os dois lados. Historiadores modernos que reconstruíram a logística da rota trabalham com algo entre vinte e trinta mil de cada lado, e nada além.

 
 

II  Quem estava em campo

Um exército emprestado de aliados

A comparação não era entre um exército grande e um pequeno: era entre uma coluna imperial montada com tropas contratadas a mil quilômetros da própria base e uma força que operava dentro da província que a abastecia.

Do lado Tang, o comando cabia a Gao Xianzhi, general de origem coreana, do reino de Goguryeo, que tinha subido na hierarquia militar chinesa pela competência em campanhas de montanha. Três anos antes ele conduzira uma travessia do Pamir a mais de quatro mil metros de altitude para submeter o reino de Gilgit, feito que virou referência entre os oficiais da fronteira.

A tropa dele reunia regimentos regulares do Protetorado de Anxi, guarnições de Kucha e Kashgar, contingentes de principados vassalos do Ferghana e um corpo numeroso de cavaleiros carluques, confederação turca que ocupava as pastagens ao norte do Tian Shan.

Cada bloco tinha comando próprio, língua própria e interesse próprio na região disputada. Os carluques não estavam ali por lealdade ao imperador: estavam por pagamento, por promessa de pasto e pela expectativa de dividir o controle das rotas quando a campanha terminasse.

Do lado abássida, o comando de campo era de Ziyad ibn Salih, governador de Samarcanda, subordinado a Abu Muslim, o homem que organizara a revolução que derrubara os omíadas no Khorasan. A força dele combinava tropas árabes do Khorasan, contingentes persas convertidos e soldados recrutados nas próprias cidades da Transoxiana.

"Os chineses tinham chegado longe demais de suas guarnições, e nas terras entre os rios cada cidade escolhia o senhor que estivesse mais perto."

Al-Tabari, em "Ta'rikh al-rusul wa'l-muluk", século X.

O armamento não separava os dois exércitos. Os dois usavam cavalaria leve de arco, infantaria com lança e escudo, e proteção de couro laminado ou cota. O que separava era o suprimento: a coluna abássida recebia de Samarcanda em dias, e a chinesa dependia de comboios que atravessavam o Tarim em semanas.

A retaguarda também os separava. Atrás dos abássidas ficavam as cidades da Transoxiana, com oficinas, grãos e cavalos. Atrás dos Tang ficavam os desfiladeiros do Tian Shan e, além deles, o deserto que separava as guarnições de Anxi da China interior.

A composição da coluna chinesa era, na prática, uma sociedade temporária. Ela funcionava enquanto todos os sócios enxergassem lucro no mesmo desfecho, e nenhum comandante tinha instrumento para segurar quem visse lucro maior na outra ponta do campo.

 

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III  O plano

Marchar mil quilômetros com o flanco alugado

O plano Tang: avançar até o Talas antes que a força abássida se organizasse, forçar combate frontal em terreno aberto e usar a cavalaria aliada nas alas para envolver a linha adversária.

O plano abássida: concentrar as tropas do Khorasan em Samarcanda, subir pelo vale do Zarafshan, segurar o centro no choque e ganhar tempo enquanto os contatos com os chefes turcos amadureciam.

A decisão que mudou a conta: os chefes carluques aceitaram a oferta abássida durante os dias de impasse e viraram as armas contra a linha que integravam, no ponto exato onde ela não tinha reserva para tapar o vão.

O primeiro passo foi a tomada de Chach. A coluna chinesa ocupou a cidade, depôs o governante local e confiscou o tesouro, o que resolveu a disputa a favor do Ferghana e criou um herdeiro disposto a atravessar o deserto atrás de qualquer patrono alternativo.

O segundo foi a marcha para oeste. Gao Xianzhi partiu de Kucha e cobriu perto de mil quilômetros até o Talas, atravessando passos de montanha com comboio de suprimento, o que consumiu semanas e esticou a linha de abastecimento até o limite.

O terceiro foi a resposta de Samarcanda. Abu Muslim autorizou Ziyad ibn Salih a subir com a força do Khorasan, que percorreu uma distância bem menor e chegou ao vale ainda descansada e perto dos próprios depósitos.

O quarto foi o impasse. Durante quatro dias as duas linhas se testaram sem romper, com trocas de flecha, escaramuça de cavalaria e nenhuma vantagem consolidada em qualquer ponto da frente.

O quinto foi a negociação paralela. Enquanto as linhas se enfrentavam, emissários abássidas trataram com os chefes carluques, oferecendo participação no controle das pastagens e das rotas comerciais que a vitória chinesa entregaria a outro patrono.

O sexto foi a virada. No quinto dia, os cavaleiros carluques atacaram a retaguarda chinesa, ocupando o espaço entre a infantaria de linha e o comboio, e desligaram o comando das próprias tropas.

O sétimo foi o cerco pelos dois lados. A infantaria Tang, pressionada de frente pela cavalaria abássida e por trás pelos antigos aliados, perdeu a formação cerrada e passou a combater em grupos separados.

O oitavo foi a retirada pelo corredor. Os sobreviventes recuaram por um desfiladeiro estreito rumo ao leste, com o comboio abandonado no vale, e Gao Xianzhi só conseguiu atravessar porque um oficial abriu caminho empurrando para o lado as carroças que entupiam a passagem.

Da coluna que partira de Kucha, uma parte pequena voltou às guarnições de Anxi. O protetorado perdeu a capacidade de projetar força a oeste do Tian Shan, e nenhuma expedição chinesa voltou a cruzar aquela linha nos séculos seguintes.

Quatro anos depois, a rebelião de An Lushan obrigou o império a puxar as guarnições da fronteira ocidental para defender as próprias capitais. A Transoxiana ficou definitivamente na órbita do mundo islâmico, e as cidades-oásis passaram a negociar com Bagdá.

Entre os prisioneiros levados para oeste estava Du Huan, que passou anos viajando pelo califado e escreveu o "Jingxingji" ao voltar. Com os cativos foram também artesãos que dominavam a fabricação de papel, ofício que se instalou em Samarcanda e de lá seguiu para Bagdá e para o Mediterrâneo.

Aliado alugado não muda de lado por traição: ele muda quando o cálculo que o trouxe passa a apontar para a outra ponta do campo, e quem contratou não tem instrumento nenhum para mudar esse cálculo de volta.

"Qual parte da sua operação depende hoje de alguém que refaz a conta todo mês e pode ir embora no meio?"

Nenhum exército chinês voltou a atravessar o Pamir.

 
 

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