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ED 017

O exército que acampou longe da água

Em julho de 1187, a coluna cruzada deixou as fontes de Séforis e parou num planalto seco, com Saladino sentado nas nascentes de Hattin.

Coluna cruzada em marcha sob sol pleno no planalto seco de Hattin, em julho de 1187, com fumaça de mato ardendo e arqueiros a cavalo nas laterais.

Fumaça sobe entre os Chifres de Hattin

 

Um exército medieval não seca pelo homem. Seca pelo cavalo. Um cavalo de guerra em trabalho pesado bebe algo entre 30 e 50 litros por dia, e o cavaleiro que perde a montaria vira infantaria pesada sem treino de infantaria.

No Levante em julho, a água não está espalhada pela paisagem. Ela está concentrada em pontos com nome próprio: uma fonte, um poço, uma cisterna de aldeia. Cada ponto desses aparece em qualquer mapa de campanha da região, e os dois lados sabem exatamente onde ficam.

Quem senta em cima de um desses pontos não ganha só a bebida. Ganha o relógio da campanha inteira. O adversário passa a ter um prazo, e todo movimento que ele faz depois disso é contado em horas de sede, não em quilômetros de estrada.

A regra prática da marcha é curta. Uma coluna pesada atravessa um dia longe da água com sofrimento. Dois dias sem, ela deixa de ser exército e vira uma multidão de homens tentando chegar a algum lugar antes do corpo desistir.

Some a isso o que o cavaleiro carrega no corpo. Cota de malha sobre acolchoado, elmo fechado, escudo, lança e espada. É roupa de forno num planalto de rocha basáltica que devolve calor até depois do pôr do sol.

Falta um último ingrediente, e ele é de graça. Em julho, o mato do planalto está seco a ponto de pegar fogo com uma faísca. Quem controla o vento decide para que lado a fumaça sopra, e fumaça em rosto sedento faz o trabalho de meia batalha antes do primeiro choque.

Nenhuma dessas peças é segredo militar. Todas estão à vista de qualquer comandante experiente da região, dos dois lados da linha. A diferença aparece na hora em que um dos exércitos precisa escolher entre ficar parado onde a água é abundante e caminhar até onde a água já tem dono.

Foi exatamente essa escolha que caiu no colo do exército do reino de Jerusalém no início de julho de 1187, num conselho de guerra que virou a noite discutindo um trajeto de menos de trinta quilômetros.

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I  A batalha de hoje

O planalto seco acima do lago de Tiberíades

Nos primeiros dias de julho de 1187, o exército do reino de Jerusalém estava acampado em Séforis, na Galileia, num sítio com fontes fartas, pasto e sombra, capaz de sustentar homens e cavalos por semanas.

A cerca de vinte e seis quilômetros a leste, Saladino havia tomado a cidade de Tiberíades e mantinha a cidadela sob cerco, com a esposa de Raimundo III de Trípoli presa lá dentro pedindo socorro por mensageiro.

Entre um ponto e o outro havia um planalto árido, cortado por uma estrada antiga, com um único ponto de água confiável no caminho: as fontes da aldeia de Turan, mais ou menos na metade do trajeto.

No dia 3 de julho, a coluna cruzada saiu de Séforis e começou a atravessar esse planalto sob sol pleno, em formação de marcha, com a infantaria protegendo os flancos da cavalaria.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Cavaleiros pesados cruzados:cerca de 1.200
Total do exército cruzado:cerca de 20 mil
Exército de Saladino:cerca de 30 mil
Cavalaria de Saladino:cerca de 12 mil
Distância de Séforis a Tiberíades:cerca de 26 km

Os números dos cronistas medievais são estimativas e variam de autor para autor. O que nenhuma fonte contesta é a composição: o lado muçulmano tinha muito mais arqueiros a cavalo, e o lado cruzado tinha uma força de choque concentrada em poucos cavaleiros.

Durante toda a travessia, cavalaria ligeira muçulmana trabalhou as laterais da coluna com flechas, obrigando a marcha a parar, se reorganizar e recomeçar dezenas de vezes ao longo do dia.

Ao fim da tarde, o exército não havia chegado a Tiberíades nem voltado para Séforis. Parou num terreno alto perto da aldeia de Hattin, sem fonte, sem poço e sem cisterna disponível.

"Os francos foram tomados de sede violenta e a paciência deles se esgotou."

Ibn al-Athir, em Al-Kamil fi'l-Tarikh, século XIII

Naquela noite, a coluna dormiu cercada. Fogueiras muçulmanas foram acesas em círculo ao redor do acampamento, e homens do outro lado passaram a madrugada gritando e batendo tambor para que ninguém descansasse.

Ao amanhecer de 4 de julho, o mato seco do planalto foi incendiado a favor do vento, e a fumaça entrou na formação cruzada antes das flechas.

O combate durou algumas horas. A infantaria se separou da cavalaria subindo em direção aos dois picos que dão nome aos Chifres de Hattin, as cargas de cavaleiros saíram desconexas, e a tenda vermelha do rei acabou cercada e derrubada.

 
 

II  Quem estava em campo

Guy, Raimundo e o conselho que virou a noite

A decisão que definiu Hattin não foi tomada no campo. Foi tomada numa tenda em Séforis, na noite de 2 para 3 de julho, quando o exército escolheu sair de onde a água era farta.

Saladino tinha 49 anos e comandava, pela primeira vez desde que unificara Egito e Síria sob a mesma autoridade, um exército de campanha reunido das duas metades do seu território.

A estratégia dele vinha sendo a mesma havia anos: forçar o reino de Jerusalém a uma batalha campal única. Enquanto os cruzados ficassem atrás de muralhas e fontes, o número maior não valia nada.

Guy de Lusignan era rei havia pouco mais de um ano, chegou ao trono por casamento e carregava a fama de ter recuado sem lutar numa campanha anterior, o que naquele reino contava como acusação de covardia.

Raimundo III de Trípoli era o comandante mais experiente da assembleia e conhecia o terreno melhor que ninguém. Ele defendeu abertamente que o exército ficasse em Séforis, mesmo com a própria esposa cercada na cidadela de Tiberíades.

O argumento dele era frio e correto. Uma cidade se reconstrói e uma esposa se resgata depois. Um exército de campo perdido no planalto não se refaz em menos de uma geração.

Contra essa posição pesaram Gerardo de Ridefort, mestre dos Templários, e Reinaldo de Châtillon, os dois defendendo marcha imediata e acusando Raimundo de simpatia pelo inimigo por causa de tréguas antigas.

Ridefort tinha motivo próprio. Semanas antes havia perdido quase todos os cavaleiros da sua ordem numa carga malfeita em Cresson e precisava de uma vitória grande para apagar aquele saldo.

O exército cruzado levava consigo a relíquia da Vera Cruz, carregada pelo bispo de Acre no centro da formação. A peça funcionava como estandarte religioso, e a sua presença tornava o recuo politicamente muito mais difícil.

Do lado muçulmano, a força era feita de contingentes egípcios, sírios e mesopotâmicos, com arqueiros a cavalo capazes de atirar em movimento e recuar antes do contato.

As duas apostas eram opostas. Saladino apostava que a sede resolveria a batalha antes das armas. O comando cruzado apostava que uma carga de cavalaria pesada, dada na hora certa, ainda decidia qualquer campo.

A carga pesada realmente funcionava, e funcionou até no fim daquele dia, quando Raimundo rompeu o cerco com o próprio contingente. O problema é que ela precisa de cavalos com força, e cavalo sem água não tem força para carga nenhuma.

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III  O plano

A fonte tomada e o mato aceso a favor do vento

O plano de Saladino: atacar Tiberíades para obrigar o exército cruzado a sair de Séforis, ocupar toda a água do trajeto e receber a coluna já desidratada num terreno escolhido por ele.

O plano cruzado: atravessar o planalto em formação fechada num único dia de marcha, alcançar o lago e travar a batalha decisiva com o exército inteiro reunido.

A decisão que mudou a conta: não brigar pela cabeça da coluna, e sim pelos pontos de água e pelo tempo que ela levava para andar.

O primeiro passo foi criar a isca. O cerco à cidadela de Tiberíades tinha valor militar pequeno e valor político enorme, porque colocava uma cidade cristã e a família de um barão no relógio do conselho de guerra.

O segundo foi ocupar a água do meio do caminho. Quando a coluna cruzada chegou perto de Turan, as fontes já estavam sob controle muçulmano, e a única alternativa era seguir em frente ou voltar sob ataque.

O terceiro foi frear a marcha sem travar combate. Arqueiros a cavalo trabalhavam as laterais, atiravam e recuavam, e cada parada da coluna para se reorganizar custava minutos de sol a homens de armadura.

O quarto foi fechar a estrada atrás. Contingentes muçulmanos se colocaram entre a coluna e Séforis, transformando o recuo numa segunda batalha em vez de uma retirada organizada.

O quinto foi tirar o sono. O cerco de fogueiras, o barulho a noite inteira e a proximidade das linhas garantiram que ninguém do lado cruzado descansasse antes do dia decisivo.

O sexto foi usar o vento. Na manhã de 4 de julho, o mato seco do planalto foi incendiado do lado de onde o vento soprava, e a fumaça cegou a formação cruzada bem quando ela precisava enxergar para manobrar.

O sétimo foi separar as duas partes do exército. A infantaria sedenta quebrou formação subindo em direção aos Chifres, deixando a cavalaria sem a cobertura de arqueiros e lanceiros que a protegia das flechas.

O oitavo foi esperar a carga chegar fraca. Os cavaleiros cruzados ainda atacaram, mas em grupos separados e com montarias exaustas, sem massa suficiente para abrir a linha inimiga em nenhum ponto.

O resultado apareceu no alto do planalto. A tenda do rei foi cercada e derrubada, Guy de Lusignan foi capturado com boa parte da nobreza do reino, e a relíquia da Vera Cruz mudou de mãos naquela mesma manhã.

Em poucos meses, cidade após cidade do reino latino se rendeu por falta de exército de campo para socorrer, e Jerusalém abriu os portões em outubro do mesmo ano.

O que decidiu Hattin não foi a batalha do dia 4. Foi a lista de pontos de água do trajeto, resolvida antes de qualquer contato, enquanto o outro lado ainda discutia se marchava ou não.

O detalhe que arruína a leitura fácil é que o lado derrotado tinha em campo o homem que sabia disso. O erro não veio de ignorância técnica, veio de um conselho onde a acusação de covardia pesou mais que o mapa das fontes.

A régua serve fora da Galileia. Quem escolhe o terreno escolhe metade do resultado, e a pressão para agir agora costuma ser o mecanismo que arrasta um lado inteiro para fora do lugar onde ele era forte.

"Que decisão você está prestes a tomar por pressa ou por orgulho, saindo do único lugar onde a sua posição é forte?"

 
 
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No conselho de guerra em Séforis, na noite de 2 para 3 de julho de 1187, quem defendeu que o exército ficasse parado, mesmo com a própria esposa cercada na cidadela de Tiberíades?

AGuy de Lusignan
BRaimundo III de Trípoli
CGerardo de Ridefort
DReinaldo de Châtillon

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