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ED 026

O corredor de areia que engoliu a coluna holandesa

Em abril de 1648, nos montes Guararapes, uma tropa menor deixou o inimigo entrar num caminho onde só se andava em fila.

Montes Guararapes em Pernambuco, com trilha estreita de areia entre mangue e colinas baixas, terreno da emboscada de abril de 1648.

Os montes Guararapes em abril de 1648

 

Um exército em marcha só existe como exército enquanto consegue se espalhar. A força de uma tropa treinada vem da linha: fileiras lado a lado, fogo coordenado, o vizinho da direita cobrindo o vão da esquerda. Tire a largura e o mesmo contingente vira uma corda de homens.

O nome técnico do lugar onde a largura acaba é desfiladeiro. Não precisa ser montanha: serve um vau de rio, uma ponte, uma trilha entre pântanos, qualquer faixa firme cercada de terreno que não sustenta bota nem carreta.

Dentro dele, a conta de efetivo perde valor. Se o caminho comporta três homens de frente, o número de fuzis que podem atirar no mesmo instante é três, e os outros quatro mil ficam atrás esperando a vez, sem enxergar o que acontece na cabeça da coluna.

Existe um detalhe pior. Coluna estreita não recua rápido: quem está na frente tenta voltar e esbarra em quem ainda está entrando, a ordem de retirada leva minutos para percorrer a fila inteira, e nesses minutos a tropa fica parada onde não deveria estar.

Por isso todo manual manda examinar o terreno antes de entrar. E por isso a defesa que conhece o terreno tem um incentivo estranho: em vez de bloquear a passagem, deixar o adversário entrar até o fim e só então ocupar as saídas.

Essa jogada exige um tipo raro de disciplina. Ver a coluna inimiga passar a poucos metros sem disparar é contra o instinto de todo soldado, e basta um tiro cedo demais para o inimigo perceber a armadilha e voltar enquanto ainda cabe voltar.

No litoral de Pernambuco, em abril de 1648, uma tropa em desvantagem numérica encontrou um pedaço de terra assim, entre um mangue e um grupo de colinas baixas, e resolveu apostar a campanha inteira nele. O que veio depois mudou o dono do açúcar do Nordeste.

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I  A batalha de hoje

Uma passagem de areia entre o mangue e a colina

Em 19 de abril de 1648, uma coluna holandesa saiu do Recife rumo ao sul e entrou na faixa de terreno firme que corta os montes Guararapes, hoje na cidade de Jaboatão dos Guararapes.

O terreno fazia o trabalho que a tropa luso-brasileira não tinha gente para fazer: mangue de um lado, colinas do outro, e no meio um caminho arenoso onde a coluna inimiga só cabia enfileirada.

A região era uma sequência de morros baixos, nenhum deles impressionante em altura, cercados por brejo salgado e vegetação fechada. Fora da trilha, o pé afunda, a carreta atola e a formação se desmancha em poucos passos.

A campanha vinha se arrastando havia dois anos. Depois da revolta de 1645, os holandeses tinham perdido o interior de Pernambuco e ficado presos ao Recife e a alguns fortes no litoral, dependentes de abastecimento por mar.

A saída de abril tinha objetivo econômico. A coluna ia até a região de Barreta e do Cabo de Santo Agostinho para retomar terreno e garantir açúcar e mantimentos, o que obrigava a atravessar exatamente o corredor dos Guararapes.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Data do confronto:19 de abril de 1648
Local:montes Guararapes, PE
Contingente holandês estimado:cerca de 4.500 homens
Contingente luso-brasileiro:cerca de 2.200 homens
Duração do combate:menos de um dia
Baixas holandesas estimadas:em torno de 500

Os números variam conforme a fonte, e as crônicas do lado vencedor tendem a inflar a perda alheia e a encolher a própria. O que as versões concordam é na proporção: o lado menor emboscou o lado maior num ponto onde o tamanho não podia ser usado.

A escolha do ponto não foi improviso. A tropa luso-brasileira conhecia a passagem, tinha percorrido aquele trecho em deslocamentos anteriores e sabia onde a trilha estreitava e onde as encostas ofereciam cobertura.

"Aquele sítio era o mais acomodado que se podia desejar para o efeito."

Frei Rafael de Jesus, em "Castrioto Lusitano", 1679

A tropa se posicionou nas encostas dos dois lados e ficou parada, escondida na vegetação, enquanto a cabeça da coluna holandesa avançava. Ninguém atirou na vanguarda, o que permitiu ao grosso do inimigo entrar inteiro no corredor.

O combate durou algumas horas e terminou com a coluna holandesa recuando desordenada para o Recife, deixando bandeiras, armas e uma parte considerável do efetivo pelo caminho. O lado luso-brasileiro contou baixas em torno de oitenta homens.

 
 

II  Quem estava em campo

Um exército de três origens contra a melhor infantaria da Europa

De um lado, uma força profissional europeia acostumada a campo aberto e apoio de artilharia; do outro, uma reunião improvisada de senhores de engenho, indígenas e negros libertos que só sabia lutar do jeito que o terreno permitia.

A tropa luso-brasileira era comandada por Francisco Barreto de Meneses, mestre de campo general, oficial de carreira que tinha assumido o comando da resistência pernambucana com autoridade delegada e recursos escassos.

Sob ele estavam quatro nomes que a memória militar brasileira transformou em símbolo. João Fernandes Vieira, senhor de engenho e um dos articuladores da revolta de 1645, financiava boa parte do esforço com recursos próprios.

André Vidal de Negreiros vinha da Paraíba e trazia experiência de campanha regular, o único do grupo com formação militar comparável à dos oficiais do outro lado.

Filipe Camarão comandava o terço de indígenas potiguares, tropa leve especializada em emboscada, deslocamento silencioso e combate em mata fechada, exatamente o tipo de guerra que aquele terreno pedia.

Henrique Dias comandava o terço de homens negros, formado por libertos e escravizados que ganhavam liberdade pelo serviço, unidade que já tinha reputação de brigar em posições que ninguém mais aceitava.

"Não é o número dos soldados o que vence as batalhas, senão o valor dos que pelejam."

Frei Manuel Calado, em "O Valeroso Lucideno", 1648

Do outro lado estava a Companhia das Índias Ocidentais, com tropa regular europeia sob o comando do coronel Sigismund von Schoppe, veterano de campanhas na Europa e um dos oficiais mais experientes da colônia holandesa.

Essa tropa era boa no que tinha sido treinada para fazer. Formação em bloco, descarga coordenada, manobra de pique e mosquete, tudo aprendido nas planícies dos Países Baixos e nas guerras alemãs da geração anterior.

A assimetria de doutrina estava no chão. O soldado holandês precisava de espaço lateral para valer o que valia, e o corredor dos Guararapes não oferecia espaço lateral nenhum.

Havia também uma diferença de motivação difícil de medir. Os terços de Camarão e de Dias brigavam por terra e por condição pessoal, não por soldo, e o adversário deles era uma companhia de comércio pagando salário atrasado a soldado contratado.

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III  O plano

Deixe a coluna entrar inteira e feche as encostas

O plano luso-brasileiro: ocupar as encostas dos dois lados do corredor, deixar a coluna holandesa entrar até o fundo sem disparar um tiro e só então abrir fogo cruzado de cima, cortando a saída.

O plano holandês: atravessar rápido a passagem estreita, alcançar terreno aberto ao sul e retomar a região produtora de açúcar antes que a resistência conseguisse reunir gente suficiente.

A decisão que mudou a conta: trocar o bloqueio pela armadilha, aceitando o risco de ter o inimigo dentro da posição em troca de anular a superioridade numérica dele.

O primeiro passo foi escolher o ponto pelo formato, não pela altura. A tropa não procurou o morro mais alto da região, procurou o trecho onde o mangue chegava mais perto da encosta e apertava a trilha.

O segundo foi dividir a força em corpos separados nas duas encostas. Cada terço recebeu um setor próprio, com ordem de agir por conta assim que o sinal fosse dado, sem esperar mensageiro no meio do combate.

O terceiro foi impor silêncio absoluto na espera. A ordem era não disparar contra a vanguarda inimiga, por mais próxima que ela passasse, para que o corpo principal também entrasse no corredor.

O quarto foi definir um único gatilho. O combate começaria quando o grosso da coluna estivesse no interior da passagem, e não quando o primeiro alvo aparecesse na mira de alguém.

O quinto foi atirar de cima e de perto. As descargas partiram das duas encostas ao mesmo tempo, contra uma formação que não tinha para onde se abrir e não conseguia responder com fogo organizado.

O sexto foi usar a tropa leve para fechar o fundo. Os potiguares de Camarão se moveram pela mata, pelo lado que os europeus consideravam intransitável, e apareceram onde a coluna esperava ter retaguarda livre.

O sétimo foi empurrar o inimigo para o brejo. Quem saía da trilha para escapar do fogo entrava no mangue, perdia a arma na lama e ficava sem condição de brigar ou de correr.

O oitavo foi manter a pressão no recuo. A perseguição continuou pelo caminho de volta ao Recife, o que transformou uma retirada em debandada e multiplicou a perda holandesa depois do combate principal.

O que veio depois confirmou a régua. Dez meses mais tarde, em fevereiro de 1649, os holandeses tentaram a mesma travessia com tropa reforçada, e o segundo confronto nos Guararapes terminou com resultado ainda pior para eles.

O prejuízo da Companhia das Índias Ocidentais não foi apenas de efetivo. Com duas derrotas no mesmo lugar, a diretoria em Amsterdã perdeu o argumento de que a colônia se pagava, e o dinheiro para sustentar a ocupação secou.

O desfecho veio pela conta financeira, não pela espada. A guarnição holandesa do Recife capitulou em janeiro de 1654, sem que houvesse batalha decisiva no litoral, porque manter a posição tinha ficado caro demais.

A vitória não veio do valor da tropa, veio da geometria do lugar: quem escolhe o campo escolhe quantos homens do adversário podem lutar ao mesmo tempo.

O detalhe que arruína a leitura fácil é a fragilidade do plano. Bastava um sentinela holandês subir a encosta certa, ou um soldado ansioso disparar cedo, para que a coluna voltasse e a tropa menor ficasse exposta em campo aberto.

A régua serve fora do mangue. Quando o adversário é maior, o trabalho não é enfrentar o tamanho dele, é encontrar o ponto onde ele só consegue usar uma fração do que tem.

"Em que ponto do seu mercado o concorrente maior só consegue colocar um homem de frente?"

 
 
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