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O canhão que afundou no Vau Amarelo antes da batalha

Em agosto de 1598, Hugh O'Neill cavou uma trincheira coberta de espinheiro e esperou a coluna inglesa atolar perto de Armagh.

Canhão inglês atolado no Vau Amarelo, perto de Armagh, 1598

O sacre atolado no Vau Amarelo, 1598

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Um regimento em 6. Foi a parte da coluna inglesa que ficou parada ao lado do canhão quando ele afundou no barro, na manhã de 14 de agosto de 1598, perto de Armagh, no norte da Irlanda. Os outros 5 seguiram pela estrada sem esperar.

O canhão era um sacre (peça leve de campanha, puxada por bois), e o barro era o de um vau (trecho raso de rio que se atravessa a pé) que os irlandeses chamavam de Béal an Átha Buí, a boca do vau amarelo. A cor vinha da argila que tingia a água.

A coluna pertencia a Henry Bagenal, marechal da Irlanda (o chefe militar da Coroa inglesa na ilha). Marchava de Armagh para socorrer um forte sitiado no rio Blackwater, a poucos quilômetros dali, com cerca de 4.000 soldados a pé e 300 a cavalo.

Na frente, esperando, estava Hugh O'Neill, conde de Tyrone, o senhor mais poderoso do Ulster (a província do norte da ilha). Ele conhecia cada palmo daquela estrada e tinha passado semanas preparando o caminho.

Os homens dele cavaram uma trincheira de cerca de 1,6 quilômetro, funda o bastante para esconder um soldado em pé, e cruzaram com ela a estrada. No alto da terra tirada do buraco, plantaram espinheiro trançado, uma cerca viva que rasgava roupa e pele de quem tentasse passar.

Pelas duas margens da estrada, o mato e o charco escondiam mosqueteiros irlandeses. Atiravam, recuavam e voltavam a atirar, sem aceitar a luta corpo a corpo que os ingleses queriam.

Bagenal tinha dividido o exército em 6 regimentos, com espaço largo de um para o outro, para andar mais rápido. No calor de agosto, com o fogo vindo do mato, o espaço virou buraco.

A trincheira, o charco e o canhão atolado fizeram o trabalho pesado antes de a luta começar a sério. A seguir, a ficha da batalha, os homens que se enfrentaram ali e o plano de O'Neill.

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I  A batalha de hoje

Uma estrada cortada no barro

A Batalha do Vau Amarelo foi travada em 14 de agosto de 1598, no condado de Armagh, no norte da Irlanda, durante a Guerra dos Nove Anos (1593 a 1603). Opôs o exército irlandês de Hugh O'Neill, conde de Tyrone, ao exército inglês de Henry Bagenal.

No Vau Amarelo, a Coroa inglesa sofreu a pior derrota de toda a sua presença na Irlanda até ali.

A ficha do confronto:

Data:14 de agosto de 1598
Local:Armagh, Irlanda
Lado irlandês:Hugh O'Neill
Lado inglês:Henry Bagenal
Desfecho:vitória irlandesa
Guerra:Guerra dos Nove Anos

O alvo da marcha era o forte de Blackwater, posto inglês de terra e madeira erguido em 1597 na beira do rio Blackwater. A guarnição, sob o capitão Thomas Williams, estava cercada havia meses e já comia os próprios cavalos.

Bagenal saiu de Armagh ao amanhecer. A estrada até o forte cortava morros baixos, mato fechado e charco, e não deixava espaço para a coluna se abrir em linha de combate.

O regimento da vanguarda avançou depressa. Passou pelo vau, cruzou a trincheira por um trecho mais baixo e foi parar num campo aberto, longe de qualquer apoio.

Atrás dele, os bois não conseguiam arrancar o sacre da lama. Os soldados da retaguarda pararam para empurrar a peça, e a distância até a vanguarda só cresceu.

Os irlandeses caíram sobre o regimento isolado. Bagenal cavalgou para a frente com reforço e, ao erguer a viseira do elmo para enxergar melhor, levou um tiro de mosquete na cabeça e caiu sem vida.

Pouco depois, um soldado inglês foi encher o polvarinho (frasco de pólvora do mosqueteiro) num barril aberto, com o pavio aceso na mão. Dois barris de pólvora explodiram no meio da tropa.

Sem o comandante e com a reserva de pólvora queimada, os regimentos recuaram. Sir Thomas Wingfield assumiu o comando e reconduziu os sobreviventes a Armagh, sob fogo o caminho inteiro.

Ali ficaram cercados até negociar a saída. O forte de Blackwater se rendeu dias depois, e a guarnição de Williams marchou para o sul deixando as armas pesadas.

Do lado irlandês, as baixas foram poucas. O'Neill tinha escolhido onde e quando lutar, e os homens dele raramente ficavam parados tempo bastante para servir de alvo.

 
 

II  Quem estava em campo

Cunhados em lados opostos

No Vau Amarelo, o comandante inglês e o chefe irlandês eram cunhados, e se odiavam.

Hugh O'Neill nasceu por volta de 1550 no Ulster, neto de Conn O'Neill, primeiro conde de Tyrone. Ainda menino, ficou sob a guarda de famílias inglesas no Pale (a faixa em volta de Dublin sob controle da Coroa) e conheceu de perto o jeito inglês de fazer guerra.

O conde criado entre ingleses

Lutou ao lado da Coroa contra rebeldes irlandeses nos anos 1570 e 1580, e em 1585 recebeu o título de conde. Usou a confiança de Londres para treinar soldados: mantinha uma tropa paga pela rainha e trocava os homens já treinados por recrutas novos, até ter milhares sabendo usar mosquete e pique (lança longa de infantaria).

Um episódio ficou famoso. Ele importou chumbo da Inglaterra para cobrir o telhado do castelo de Dungannon, sua sede. O telhado nunca recebeu o chumbo, que virou bala.

O marechal ofendido

Henry Bagenal herdou do pai, Nicholas Bagenal, o posto de marechal da Irlanda e as terras de Newry, na fronteira sul do Ulster. A família vivia do avanço inglês sobre as terras dos chefes irlandeses, e O'Neill era o maior obstáculo.

Em 1591, O'Neill, viúvo, fugiu com Mabel Bagenal, irmã de Henry, então com cerca de 20 anos, e casou com ela contra a vontade da família.

Henry se recusou a pagar o dote e passou a acusar o cunhado de traição em cartas ao Conselho de Dublin. Mabel morreu em 1595, sem filhos, e a rixa dos cunhados seguiu sem ela.

Em 1598, Bagenal pediu ao Conselho o comando da marcha de socorro. Era a chance de derrotar em campo o cunhado que tinha levado a irmã dele.

O aliado do oeste

Hugh Roe O'Donnell, senhor de Tyrconnell (o atual condado de Donegal), tinha 25 anos e motivo pessoal para lutar. Passou anos preso no castelo de Dublin, fugiu no inverno de 1591 pela neve e perdeu os dois dedões dos pés para o frio.

No Vau Amarelo, ele trouxe os homens do oeste do Ulster. Hugh Maguire, senhor de Fermanagh, comandou a cavalaria irlandesa.

O destino de cada um

O'Neill perdeu a guerra em Kinsale, em 1601, e se rendeu em 1603. Em 1607 deixou a Irlanda num navio com outros chefes do norte, episódio que os irlandeses chamam de Fuga dos Condes, e morreu em Roma em 1616.

Onde Bagenal foi sepultado, os papéis da época não registram com certeza: a retirada foi feita sob fogo, e nenhum relato confiável descreve o enterro.

 

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III  O plano

A estrada escolhida por Tyrone

O plano inglês: marchar de Armagh até o forte de Blackwater, entregar comida e pólvora e voltar.

O plano irlandês: prender a coluna a uma estrada só e quebrá-la no ponto mais apertado.

A decisão que mudou a conta: abrir espaço largo de um regimento para o seguinte.

Bagenal tinha a seu favor a artilharia, a cavalaria pesada e soldados veteranos das guerras nos Países Baixos. Em campo aberto, numa batalha de linhas, os ingleses levavam vantagem, e O'Neill sabia.

O plano irlandês seguiu em 5 passos:

1. Escolher o terreno: entre Armagh e o Blackwater, a estrada passava por morros, mato e charco, sem espaço para a cavalaria inglesa se abrir.

2. Cavar a trincheira cruzando a estrada, com o espinheiro em cima, para frear a coluna onde ela já andava espremida.

3. Espalhar mosqueteiros nos flancos (as laterais da coluna), atirando de perto e sumindo antes de qualquer carga.

4. Deixar a vanguarda passar e atacar quando ela se afastasse do resto.

5. Guardar a cavalaria de Maguire para a hora em que a coluna recuasse.

Quando o sacre atolou, a coluna se partiu em pedaços que não se enxergavam no mato. Cada regimento lutava sozinho contra inimigos que mal via.

O espinheiro cumpriu a parte dele. Para cruzar a trincheira, os soldados ingleses tinham de descer no buraco, subir a terra solta e abrir caminho pela cerca de galhos com as mãos e as espadas, sempre sob tiro.

A cavalaria pesada, a maior vantagem de Bagenal, ficou inútil. Cavalos com armadura afundavam no charco das margens e não tinham como contornar a trincheira pelo mato.

A notícia chegou a Londres nas últimas semanas de agosto. Elizabeth I culpou o Conselho de Dublin pela marcha e, em 1599, mandou para a Irlanda Robert Devereux, conde de Essex, com cerca de 17.000 homens, o maior exército inglês enviado à ilha até então.

Essex fracassou, voltou à Inglaterra sem ordem da rainha e acabou executado em 1601. Quem venceu O'Neill foi Charles Blount, lorde Mountjoy, com uma guerra de fome: queimar plantações e cercar fortes até o Ulster não ter o que comer.

A vitória de 1598 animou a Espanha a mandar tropas, que desembarcaram em Kinsale, no sul da ilha, em 1601. O'Neill marchou até lá no inverno, lutou em campo aberto, o tipo de batalha que tinha evitado no Vau Amarelo, e perdeu.

“Quem voltou ao vau para buscar o canhão?”

Ninguém.

 
 
Quiz da edição

No Vau Amarelo, como Henry Bagenal morreu durante o combate?

AAfogado no barro ao tentar atravessar o vau a cavalo
BAtingido pela explosão dos barris de pólvora
CAtingido por um tiro de mosquete na cabeça ao erguer a viseira do elmo
DFerido por lanças irlandesas ao negociar a retirada

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