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O barranco que parou a cavalaria de Nemours

Em abril de 1503, Gonzalo de Córdoba cavou uma vala num vinhedo de Cerignola e pôs 1.000 arcabuzeiros atrás dela.

Cavalaria francesa diante da vala e do parapeito espanhol em Cerignola, 1503

A vala do vinhedo, Cerignola, 1503

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Uma em 2. Era a escolha que Louis d'Armagnac, duque de Nemours, tinha na tarde de 28 de abril de 1503, diante da colina de Cerignola, no sul da Itália: atacar com a última luz do dia ou esperar o amanhecer. Ele ficou com a primeira, e a França perdeu ali o reino de Nápoles.

O exército espanhol tinha chegado poucas horas antes. Gonzalo Fernández de Córdoba saíra de Barletta, no litoral do Adriático, e marchara cerca de 40 quilômetros pela planície seca da Apúlia, com soldados caindo de sede na estrada.

Ao chegar, ele não armou tendas. Mandou os homens cavarem. Na encosta havia um vinhedo cortado por uma vala de drenagem, e os soldados a aprofundaram e jogaram a terra para cima, num parapeito (muro baixo de terra que protege quem atira).

Atrás do parapeito ficaram cerca de 1.000 arcabuzeiros, soldados armados de arcabuz (espingarda pesada de pavio, carregada pela boca). Ao lado deles, os lansquenetes (mercenários alemães a pé, armados de lanças compridas) recém-chegados por mar.

Os franceses apareceram com o sol já baixo, cansados de um dia inteiro de estrada. Nemours reuniu os capitães. Queria esperar: não conhecia o terreno, e a luz já ia embora.

Yves d'Alègre, veterano das guerras da Itália, discordou diante de todos e deixou no ar a palavra covardia. O duque não podia parecer prudente na frente dos próprios oficiais. Mandou formar.

Pouco antes da carga, um carro de pólvora explodiu dentro do campo espanhol. Os soldados de Gonzalo viram as chamas subirem e acharam que tinham ficado sem munição para a noite.

A cavalaria pesada francesa partiu em linha, a galope, contra uma encosta onde ninguém tinha visto a vala. Abaixo, a ficha da batalha, os homens dos 2 lados e o desenho de terra que decidiu o dia.

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I  A batalha de hoje

Um vinhedo na planície da Apúlia

A Batalha de Cerignola foi travada em 28 de abril de 1503, ao pé da cidade de Cerignola, na Apúlia, região do sul da Itália. Opôs o exército espanhol de Gonzalo Fernández de Córdoba, a serviço do rei Fernando de Aragão, ao exército francês do rei Luís XII, comandado pelo duque de Nemours.

Em Cerignola, a cavalaria mais temida da Europa parou diante de uma vala de vinhedo que a infantaria espanhola tinha cavado na mesma tarde.

A ficha do confronto:

Data:28 de abril de 1503, ao entardecer
Local:Cerignola, na Apúlia
Comando espanhol:Gonzalo de Córdoba
Comando francês:duque de Nemours
Desfecho:vitória espanhola
Fontes:Guicciardini, Storia d'Italia

A guerra começou com um acordo. Em 1500, pelo Tratado de Granada, Luís XII e Fernando dividiram em segredo o reino de Nápoles: o norte para a França, a Calábria e a Apúlia para a Espanha. O rei Frederico de Nápoles, primo de Fernando, perdeu o trono no ano seguinte.

O tratado deixou sem dono claro a Capitanata, faixa de pasto entre as 2 metades, e a alfândega das ovelhas (o imposto cobrado dos rebanhos que desciam da montanha para passar o inverno na planície). Em 1502, a briga pela renda virou guerra aberta.

Os franceses tinham mais homens e mais cavalos. Gonzalo se fechou em Barletta e passou meses cercado, com pouca comida e sem dinheiro para pagar a tropa.

Em fevereiro de 1503, ainda no cerco, 13 cavaleiros italianos a serviço da Espanha venceram 13 franceses num duelo combinado, o Desafio de Barletta (Disfida di Barletta, em italiano). A vitória não mudou o mapa, mas segurou o ânimo da guarnição.

Em abril chegaram os lansquenetes, contratados com licença do imperador Maximiliano. Na mesma semana, em 21 de abril, outro exército espanhol derrotou o francês Robert Stuart d'Aubigny em Seminara, na Calábria. Gonzalo deixou Barletta e foi atrás de Nemours.

A carga francesa se quebrou na vala. Nemours foi atingido por um tiro de arcabuz entre os primeiros cavaleiros e caiu do cavalo. Os piqueiros suíços avançaram a pé logo depois, bateram no mesmo barranco, e o capitão deles, Chandieu, também foi abatido.

Quando a linha francesa vacilou, a cavalaria espanhola saiu pelos lados e a infantaria desceu o parapeito. Yves d'Alègre deixou o campo com a retaguarda.

Em 16 de maio de 1503, Gonzalo entrou em Nápoles. Em dezembro, venceu os franceses outra vez junto ao rio Garigliano, e o Tratado de Lyon, em 1504, deixou o reino com a Espanha.

 
 

II  Quem estava em campo

Um veterano de Granada contra um duque de 30 anos

Cerignola pôs frente a frente um general que já tinha aprendido a perder e um duque que não podia parecer prudente.

Gonzalo Fernández de Córdoba nasceu em 1453, em Montilla, perto de Córdoba, segundo filho de uma família nobre. A herança e o título iam para o irmão mais velho, Alonso; a ele restava a guerra.

O capitão que aprendeu com a derrota

Lutou 10 anos na guerra de Granada, contra o último reino muçulmano da Península Ibérica, e ajudou a negociar a rendição da cidade em 1492. Falava árabe e conhecia os costumes do inimigo, e os reis o usavam tanto na espada quanto na mesa de acordo.

Em 1495, na primeira campanha da Itália, perdeu para o mesmo d'Aubigny em Seminara. A cavalaria francesa e os piqueiros suíços varreram as tropas espanholas e napolitanas. Gonzalo voltou com uma conclusão: a infantaria espanhola precisava de pique, de arma de fogo e de chão escolhido.

Depois de Cerignola, governou Nápoles como vice-rei até 1507. O rei Fernando desconfiou do poder dele, chamou-o de volta à Espanha e nunca lhe deu outro comando. Gonzalo faleceu em Granada em dezembro de 1515.

As contas do Grande Capitão

Uma história contada na Espanha diz que Fernando pediu a Gonzalo a prestação de contas da campanha, e ele respondeu com uma lista de deboche que começava em “picos, pás e enxadas”. Nenhum documento da época registra a lista. A tradição a trata como lenda, e a expressão “contas do Grande Capitão” ficou no espanhol para conta impossível de conferir.

O duque sem pai

Louis d'Armagnac nasceu em 1472. Cinco anos depois, o pai, Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, foi decapitado em Paris por ordem de Luís XI, acusado de traição. Os filhos perderam terras e títulos, e o rei seguinte os devolveu.

Em 1501, Luís XII nomeou Louis vice-rei de Nápoles. Ele dividia o comando com d'Aubigny, mais velho e mais experiente, e os 2 brigaram a campanha inteira sobre quem mandava em quem.

Com a queda dele em Cerignola, a linha masculina dos duques de Armagnac terminou. O corpo foi achado entre os cavalos, e Gonzalo mandou levá-lo a Barletta para um enterro com honras.

O veterano que pediu a carga

Yves d'Alègre servia os reis da França na Itália desde 1494. Escapou de Cerignola e seguiu na guerra por mais 9 anos. Caiu em combate em Ravena, em 1512, ao lado de um dos filhos.

 

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III  O plano

A vala que a cavalaria não viu

O plano francês: atacar de frente com os gendarmes (cavaleiros com armadura completa) para romper a linha espanhola antes da noite, com os piqueiros suíços logo atrás.

O plano espanhol: esperar atrás da vala, atirar de perto e deixar os lansquenetes segurarem quem conseguisse passar.

A decisão que mudou a conta: atacar na meia-luz, sem mandar ninguém reconhecer a encosta antes.

O primeiro passo foi o chão. Gonzalo escolheu a encosta porque o vinhedo já trazia a vala pronta. Bastava aprofundá-la e virar a terra para o lado de cima.

O segundo passo foi a ordem das tropas. Os arcabuzeiros ficaram na linha da frente, atrás do parapeito. Os lansquenetes formaram logo atrás, com as lanças prontas para o caso de algum cavalo atravessar.

O terceiro passo foi guardar a cavalaria. Gonzalo deixou os cavaleiros espanhóis e os de Próspero Colonna, nobre romano a serviço da Espanha, nos lados da posição, fora da vista do inimigo.

O quarto passo foi aguentar a explosão. Quando o carro de pólvora pegou fogo, os soldados viram a reserva de munição virar fumaça. Gonzalo respondeu com uma frase para o campo inteiro.

“Coragem, essas são as luminárias da vitória.” A frase aparece nas crônicas espanholas do século XVI sobre Gonzalo, como a de Hernán Pérez del Pulgar (Breve parte de las hazañas del Gran Capitán, 1527).

O quinto passo foi o fogo de perto. A cavalaria francesa só viu a vala quando os primeiros cavalos tropeçaram nela. Os arcabuzeiros atiraram a poucos passos, onde a armadura não segurava a bala de chumbo.

A segunda onda, dos suíços a pé, encontrou o mesmo barranco e os mesmos tiros, agora com os lansquenetes na frente. Sem Nemours e sem Chandieu, a linha francesa não tinha quem desse a ordem de recuo.

As perdas francesas não têm conta segura. As crônicas dos 2 lados dão cifras tão diferentes que nenhuma se sustenta, e Guicciardini só registra que a derrota foi completa.

Cerignola entrou nos livros de guerra como a primeira grande batalha decidida pela arma de fogo portátil. A combinação de pique e arcabuz que Gonzalo montou ali virou a base dos terços, as unidades de infantaria que a Espanha usaria pelos 150 anos seguintes.

“Quantos cavalos passam por uma vala que ninguém viu?”

Nemours não chegou ao parapeito.

 
 
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