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No Khalkhin Gol, Jukov escondeu 500 tanques atrás de barulho

Em agosto de 1939, alto-falantes soviéticos tocaram obra toda noite na Mongólia até os japoneses pararem de ouvir.

Tanques soviéticos avançam na estepe do Khalkhin Gol, 1939

Rio Khalkhin Gol, Mongólia, agosto de 1939

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Dois para um. Era a vantagem em homens que Georgy Jukov tinha juntado na margem do rio Khalkhin Gol, na Mongólia, em meados de agosto de 1939: cerca de 57 mil soldados soviéticos e mongóis contra cerca de 30 mil japoneses. Em tanques, a conta era pior para Tóquio: perto de 500 contra quase nenhum.

Para os japoneses entrincheirados nas dunas a leste do rio, a vantagem só pesava se alguém a enxergasse a tempo. Uma força daquele tamanho levava semanas para chegar, por estrada de terra, a partir de uma ferrovia soviética a mais de 600 quilômetros da frente.

Jukov não podia esconder os caminhões. Resolveu esconder o barulho deles.

No começo de agosto, mandou instalar alto-falantes potentes ao longo da linha soviética. Toda noite, eles tocavam gravações de bate-estacas, de motores de tanque e de aviões em voo baixo. O som atravessava o rio e chegava aos postos japoneses de escuta.

Nas primeiras noites, os japoneses anotaram tudo e mandaram patrulhas. Esperavam um ataque, e o ataque não vinha. Com o passar das semanas, o barulho entrou na paisagem, como o vento da estepe, e os postos pararam de registrar o que ouviam.

Enquanto os alto-falantes tocavam, os motores reais se misturavam ao som gravado. Tanques, canhões e munição cruzavam a estepe à noite, de faróis apagados, e se escondiam em ravinas cobertas por redes antes de clarear.

O rádio soviético também trabalhava para a encenação. Mensagens em códigos fáceis de quebrar falavam em cavar abrigos para o inverno e pediam material de construção. Os oficiais japoneses leram as mensagens e concluíram que o inimigo se preparava para esperar.

Na madrugada de domingo, 20 de agosto, às 5h45, a artilharia soviética abriu fogo. Pouco depois, perto de 500 tanques avançaram pelos dois flancos da linha japonesa.

Aqui embaixo, por que dois impérios brigavam por um rio no meio da estepe, quem estava em cada margem e como o cerco se fechou em seis dias.

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I  A batalha de hoje

Um rio na fronteira errada

A Batalha de Khalkhin Gol opôs o 1º Grupo de Exércitos soviético e mongol, comandado por Georgy Jukov, ao 6º Exército japonês, que tinha no campo a 23ª Divisão do tenente-general Komatsubara Michitaro. Os combates foram de maio a setembro de 1939, na fronteira entre a Mongólia e a Manchúria, e terminaram com vitória soviética. No Japão, o confronto ficou conhecido como Incidente de Nomonhan, nome de uma aldeia perto do rio.

No Khalkhin Gol, o golpe de 20 de agosto não começou naquela madrugada: começou nas semanas em que o barulho gravado ensinou o inimigo a não ouvir.

A ficha da batalha:

Data:maio a setembro de 1939
Local:rio Khalkhin Gol, Mongólia
Soviéticos:Georgy Jukov
Japoneses:Komatsubara Michitaro
Força soviética:cerca de 57 mil
Força japonesa:cerca de 30 mil
Desfecho:vitória soviética

Desde 1932, o Japão controlava a Manchúria por meio do Manchukuo, um Estado fantoche (governo de fachada, mandado por Tóquio) com um imperador chinês no trono. A Mongólia, vizinha, era uma república aliada da União Soviética, com tropas soviéticas no território desde um pacto de ajuda mútua assinado em 1936.

Os dois lados discordavam sobre a linha. Para os japoneses, a fronteira corria pelo próprio rio Khalkhin Gol. Para os mongóis, ficava uns 20 quilômetros a leste, perto de Nomonhan. A faixa disputada era estepe e duna, quase sem gente.

Em 11 de maio de 1939, cavaleiros mongóis entraram na faixa para dar água aos cavalos e foram expulsos pela cavalaria do Manchukuo. Voltaram com reforço, e cada lado trouxe mais tropa.

O Exército de Kwantung (a força japonesa estacionada na Manchúria, que muitas vezes agia sem ordem de Tóquio) tratou o caso como uma chance de dar uma lição aos soviéticos. No fim de maio, um destacamento japonês foi cercado e destruído perto do rio.

Em junho, Moscou mandou Jukov assumir o comando. No começo de julho, os japoneses atravessaram o rio e tomaram o monte Bain Tsagan, na margem oeste. Jukov lançou a 11ª Brigada de Tanques contra eles sem esperar a infantaria, perdeu muitos blindados e empurrou os japoneses de volta para a margem leste.

Ainda em julho, o Kwantung perdeu boa parte dos seus dois regimentos de tanques e os retirou da frente. Dali em diante, a 23ª Divisão lutava cavada nas dunas, com canhões e metralhadoras e quase sem blindados.

Em agosto, o Kwantung preparava uma nova ofensiva para o dia 24. Jukov chegou quatro dias antes.

 
 

II  Quem estava em campo

Um general novo e uma divisão nova

Os dois comandantes de campo tinham chegado à fronteira poucos meses antes, e só um deles recebeu do seu governo tudo o que pediu.

O comandante soviético

Georgy Konstantinovich Jukov nasceu em 1896, numa aldeia perto de Kaluga, filho de sapateiro. Serviu na cavalaria do czar na Primeira Guerra Mundial e no Exército Vermelho na guerra civil russa.

Em 1939, era vice-comandante do distrito militar da Bielorrússia e tinha escapado dos expurgos de Stálin, que tiraram do caminho boa parte dos generais soviéticos entre 1937 e 1938. Chegou à Mongólia no começo de junho para inspecionar as tropas e ficou com o comando.

Pediu tanques, aviões, caminhões e artilharia, e Moscou mandou. Para abastecer a ofensiva, juntou milhares de caminhões num vaivém de mais de 1.200 quilômetros, ida e volta, entre a ferrovia e a frente.

O comandante japonês

Komatsubara Michitaro nasceu em 1886 e tinha servido como adido militar (o oficial que representa o exército numa embaixada) em Moscou, onde aprendeu russo. Comandava a 23ª Divisão desde 1938.

A divisão era recente, formada naquele mesmo ano, e nunca tinha combatido. Fora treinada para guarnição de fronteira, não para enfrentar tanques em campo aberto.

Os soldados soviéticos e mongóis

Do lado de Jukov havia divisões de fuzileiros, brigadas de tanques e de carros blindados e duas divisões de cavalaria do Exército Popular Mongol.

Os tanques eram em boa parte BT-5 e BT-7, rápidos e de blindagem fina, com motor a gasolina que pegava fogo com facilidade sob o sol do verão. Os soldados japoneses aprenderam a atacá-los com garrafas incendiárias.

Os soldados japoneses

A infantaria japonesa tinha disciplina dura e a ordem de não se render. Lutava em trincheiras e casamatas nas dunas a leste do rio, com pouca água e reforço lento, porque a ferrovia japonesa também ficava longe.

Os oficiais do Kwantung desprezavam o Exército Vermelho. Achavam que os expurgos tinham deixado as tropas soviéticas sem comando capaz.

O céu

No ar, os pilotos japoneses venceram os primeiros combates. Em agosto, a força aérea soviética já tinha recebido aviões novos e pilotos veteranos da Guerra Civil Espanhola, e passou a disputar o céu de igual para igual.

 

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III  O plano

A pinça na estepe

O plano soviético: prender o centro japonês com fogo e infantaria e fechar dois braços de tanques atrás dele.

O plano japonês: segurar as dunas a leste do rio e lançar a própria ofensiva no dia 24.

A aposta soviética: os japoneses, acostumados ao barulho, não iam ver a concentração a tempo.

O plano de Jukov seguiu três passos:

1. Esconder por semanas a chegada das tropas, com barulho gravado, rádio falso e movimento só à noite.

2. Atacar pelo centro com artilharia e infantaria, para prender a 23ª Divisão no lugar.

3. Mandar os tanques pelos flancos norte e sul e fechar o cerco perto de Nomonhan, na fronteira reivindicada pela Mongólia.

O primeiro passo funcionou. Na manhã de 20 de agosto, um domingo, vários oficiais japoneses estavam de folga na retaguarda. O fogo começou às 5h45, com artilharia e centenas de bombardeiros sobre as posições inimigas.

O segundo passo prendeu o centro. A infantaria soviética avançou devagar contra as dunas e perdeu muita gente, mas os japoneses não puderam tirar tropas do meio para reforçar as pontas.

O terceiro passo levou mais tempo. No sul, os tanques romperam a linha das tropas do Manchukuo, mais fracas, e avançaram rápido. No norte, a resistência japonesa numa colina atrasou a coluna por alguns dias.

Em 25 de agosto, os dois braços se encontraram perto de Nomonhan. A 23ª Divisão ficou presa num bolsão entre o rio e a linha soviética.

Komatsubara tentou romper o cerco por fora, com tropas trazidas de outras divisões, e não conseguiu. Dentro do bolsão, os soldados japoneses lutaram posto por posto até o fim do mês. Em 31 de agosto, a faixa disputada estava limpa de tropas japonesas.

No dia seguinte, 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia, e a guerra começou na Europa.

Moscou e Tóquio assinaram um cessar-fogo em 15 de setembro de 1939. A fronteira ficou na linha que os mongóis reivindicavam.

O levantamento de Grigori Krivosheev, publicado em 1993 com base nos arquivos militares soviéticos, contou 9.703 soldados soviéticos mortos e desaparecidos na campanha. A 23ª Divisão japonesa saiu do bolsão praticamente destruída.

Komatsubara foi afastado do comando e passou à reserva no começo de 1940. Jukov recebeu o título de Herói da União Soviética.

Em abril de 1941, Japão e União Soviética assinaram um pacto de neutralidade. Em dezembro, os aviões japoneses atacaram Pearl Harbor, no Pacífico, e Jukov defendia Moscou com divisões trazidas da Sibéria.

Tóquio nunca voltou.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que as mensagens de rádio soviéticas, em códigos fáceis de quebrar, diziam para convencer os japoneses de que o Exército Vermelho ficaria parado?

AQue as tropas soviéticas estavam sem combustível e aguardavam reforço
BQue o Exército Vermelho cavava abrigos para o inverno e pedia material de construção
CQue a ofensiva tinha sido cancelada por ordem direta de Moscou
DQue o inverno forçaria a retirada das tropas soviéticas para a Sibéria

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