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Metade dos turcos já tinha cruzado o Tisza às 17h

Em 1697, Eugênio de Saboia soube por um paxá preso onde ficava a ponte de barcas e atacou com duas horas de luz.

Tropa imperial ataca a ponte de barcas de Zenta, 1697

Zenta, no rio Tisza, setembro de 1697

▼
 

Uma em duas. Era a chance de um soldado otomano estar na margem leste do Tisza às cinco da tarde de 11 de setembro de 1697, a salvo atrás do rio, e não na margem oeste, preso entre a água e o exército do imperador.

A travessia tinha começado cedo, em Zenta, uma vila no sul da Hungria (hoje Senta, na Sérvia). Os engenheiros do sultão Mustafá II tinham lançado sobre o rio uma ponte de barcas, botes amarrados lado a lado com tábuas por cima, e o exército passava por ela em fila.

Primeiro foram o sultão, a guarda dele e boa parte da cavalaria. Na margem oeste ficaram os janízaros (a infantaria de elite do sultão), os canhões, os carros de bagagem e uma trincheira em meia-lua, com as duas pontas no rio, para cobrir quem ainda esperava a vez.

Eugênio de Saboia, príncipe nascido em Paris e general do imperador Leopoldo I, seguia os turcos havia dias sem saber onde eles iam cruzar. Naquela manhã, os hussardos (cavaleiros ligeiros húngaros) dele trouxeram um prisioneiro: Cafer Paxá, um comandante otomano pego numa patrulha.

Ameaçado de execução, Cafer falou. O exército do sultão estava partido em dois, e a ponte era o único caminho entre as metades.

Eugênio pôs a tropa em marcha forçada. Chegou diante da trincheira de Zenta perto das cinco da tarde, com umas duas horas de luz pela frente.

Ele não esperou a manhã seguinte. Abriu o exército em arco, de uma ponta a outra da meia-lua, e mandou atacar.

Para quem estava dentro da trincheira, a ponte passou a ser a única saída, e nela cabia uma fila de homens por vez.

Aqui embaixo, por que Viena e Istambul brigavam pela Hungria havia 14 anos, quem comandava cada metade do campo e o plano de Eugênio para chegar à ponte pelo rio baixo de setembro.

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I  A batalha de hoje

Viena e Istambul disputavam a Hungria

A batalha de Zenta opôs o exército do Sacro Império, comandado por Eugênio de Saboia, ao exército otomano do sultão Mustafá II, no dia 11 de setembro de 1697. Durou cerca de duas horas, na margem oeste do rio Tisza, e terminou com a destruição da metade otomana que não tinha cruzado.

Em Zenta, o Império Otomano perdeu o exército de campo que ainda mantinha na Hungria; dois anos depois, assinou a maior cessão de terras da sua história até ali.

A ficha do confronto:

Data:11 de setembro de 1697
Local:Zenta, no rio Tisza
Império:Eugênio de Saboia
Otomanos:sultão Mustafá II
Arma do dia:a ponte de barcas
Desfecho:vitória imperial

A guerra tinha começado em 1683, quando o grão-vizir (o primeiro-ministro do sultão) Kara Mustafá cercou Viena por dois meses. Um exército de socorro, com o rei polonês João III Sobieski à frente, desfez o cerco em 12 de setembro daquele ano.

Dali em diante, os otomanos recuaram. Buda, a cidade que hoje forma Budapeste junto com Peste, caiu para os imperiais em 1686, depois de 145 anos sob o sultão. Belgrado caiu em 1688.

Em 1690, os otomanos retomaram Belgrado. A guerra parou de andar: o imperador tinha regimentos presos no Reno, contra a França de Luís XIV, e os comandantes da frente húngara trocavam quase todo ano.

Mustafá II subiu ao trono em 1695 e decidiu comandar o exército em pessoa. No mesmo ano, venceu os imperiais em Lugos, no Banato (a planície entre os rios Tisza, Danúbio e Mureș), e retomou fortalezas na fronteira.

Em 1697, ele voltou com o maior exército da campanha para entrar de novo na Hungria. Em Viena, Leopoldo I deu o comando da frente a Eugênio em julho. O príncipe tinha 33 anos.

Eugênio encontrou as tropas sem soldo e sem pão. Juntou os regimentos espalhados perto de Petrovaradin, a fortaleza imperial no Danúbio, e esperou o sultão mostrar o caminho.

Mustafá II subiu o Danúbio, ameaçou Petrovaradin, desistiu do cerco e virou para o norte, pela margem do Tisza. O alvo provável era Szeged, rio acima, porta da planície húngara.

Eugênio foi atrás pela mesma margem, em marchas longas, com a cavalaria na frente. Os dois exércitos andaram dias a poucas horas um do outro, sem se ver.

Em Zenta, o sultão mudou de plano e mandou cruzar o rio para o leste, rumo à Transilvânia, onde não havia exército imperial à espera. A ponte de barcas ficou pronta na véspera do dia 11.

 
 

II  Quem estava em campo

O príncipe recusado e o sultão na margem

Em Zenta, um príncipe que Luís XIV recusou no exército francês derrotou um sultão que assistiu a tudo da margem leste, sem poder voltar pela ponte.

O príncipe

Eugênio de Saboia nasceu em Paris em 1663, filho de um príncipe da Casa de Saboia e de Olímpia Mancini, sobrinha do cardeal Mazarino. Pediu um posto no exército francês, e Luís XIV o recusou.

Em 1683, ele fugiu para Viena e se ofereceu ao imperador. Lutou no socorro da cidade naquele mesmo ano e subiu de posto a cada campanha contra os turcos.

Nunca deixou de se ver como estrangeiro em todas as cortes. Assinava misturando três línguas: Eugenio von Savoie, em italiano, alemão e francês.

O sultão

Mustafá II tinha 33 anos em Zenta. Era filho de Mehmed IV, o sultão deposto em 1687, depois de quatro anos de derrotas que começaram em Viena, e queria devolver ao exército a fama de antes.

Na tarde da batalha, ele já estava na margem leste, com a guarda e a cavalaria. Assistiu ao ataque sem ter como mandar socorro por uma ponte entupida de gente fugindo.

O grão-vizir

Elmas Mehmed Paxá (paxá era o título de governador e general otomano) comandava a margem oeste. Era grão-vizir desde 1695 e tinha fama de bom administrador, rápido com números e cartas.

Coube a ele segurar a trincheira até a última barca. A ordem de cruzar o rio partido em dois, com o inimigo por perto, também passou por ele.

O prisioneiro

Cafer Paxá caiu nas mãos dos hussardos na manhã do dia 11. Deu a Eugênio três informações: a posição da ponte, o desenho da trincheira e a notícia de que o sultão já tinha passado.

Sem ele, Eugênio teria chegado a Zenta com a tropa cansada e sem saber se valia atacar antes da noite.

O general da ala esquerda

Guido von Starhemberg, primo do defensor de Viena em 1683, comandava a ala esquerda imperial, encostada no rio ao sul da trincheira. Foi a tropa dele que decidiu a tarde.

Os janízaros

Os janízaros eram a infantaria permanente do sultão, recrutada desde meninos e paga pelo tesouro. Em Zenta, formavam a maior parte da tropa presa na meia-lua, com a artilharia e os carros.

 

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III  O plano

Chegar à ponte pela margem baixa

O plano de Eugênio: atacar a meia-lua de ponta a ponta e chegar à ponte antes dos turcos.

O plano de Elmas Mehmed Paxá: segurar a trincheira até o fim da travessia e cruzar com a noite.

A aposta otomana: confiar que nenhum exército atacaria uma trincheira com duas horas de luz.

Eugênio tinha pouco tempo. Um ataque só pelo centro daria aos turcos a noite inteira para passar a ponte; ele precisava fechar a saída antes do escuro.

O Tisza estava baixo naquele fim de verão. Entre o pé da trincheira e a água, aparecia uma faixa de areia e lama que os otomanos não tinham fortificado.

O plano tinha quatro passos:

1. Abrir o exército em arco, com as duas pontas encostadas no rio.

2. Bater a trincheira com a artilharia e prender os janízaros na linha.

3. Mandar a ala esquerda pela faixa de areia, abaixo do muro de terra.

4. Tomar a cabeça da ponte e fechar a única saída.

A artilharia imperial abriu fogo, e os otomanos responderam de dentro da meia-lua. A infantaria imperial avançou no centro e prendeu os defensores nos parapeitos.

Na ala esquerda, os soldados de Starhemberg desceram para a areia e avançaram com água pelos joelhos, abaixo da linha de tiro da trincheira. Entraram na meia-lua por trás, entre os defensores e a ponte.

Dentro da trincheira, a ordem se desfez. Os janízaros correram para a ponte, que não aguentava tanta gente. Barcas afundaram, e muitos homens tentaram cruzar o rio a nado, com armas e roupas.

O combate na margem durou até o anoitecer. No relatório ao imperador, Eugênio escreveu que os corpos no rio eram tantos que formavam uma espécie de ilha.

As perdas imperiais ficaram em algumas centenas de homens. As otomanas se contaram em dezenas de milhares, entre os caídos na trincheira e os afogados no Tisza.

Os imperiais tomaram a artilharia, a bagagem, o tesouro do exército e o selo do grão-vizir, o carimbo com que ele assinava ordens em nome do sultão.

Mustafá II recuou com a cavalaria até Temesvár (hoje Timișoara, na Romênia). Nunca mais comandou um exército em campo.

Em janeiro de 1699, o Tratado de Karlowitz deu aos Habsburgo quase toda a Hungria e a Transilvânia. Eugênio voltou a Viena como o primeiro general do império.

Elmas Mehmed Paxá não cruzou a ponte. O corpo dele ficou na margem oeste.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem matou o grão-vizir Elmas Mehmed Paxá antes da travessia?

 
 
Quiz da edição

Quem revelou a Eugênio de Saboia a localização exata da ponte de barcas em Zenta?

AElmas Mehmed Paxá, o grão-vizir otomano
BCafer Paxá, um comandante capturado pelos hussardos
CGuido von Starhemberg, general da ala esquerda imperial
DUm soldado janízaro desertor

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