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Estigarribia cercou Boquerón e esperou 20 dias

Em setembro de 1932, o coronel paraguaio parou os assaltos de frente, fechou o mato com trincheiras e deixou a sede trabalhar.

Trincheiras paraguaias no mato em volta do fortim de Boquerón, 1932

Trincheiras paraguaias em Boquerón, 1932

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Um em 25. Era a fatia boliviana dos homens em armas em volta do fortim de Boquerón no fim de setembro de 1932: perto de 600 sitiados para mais de 15 mil paraguaios no mato. Para quem estava dentro, a conta tinha outra cara. Cada dia a mais custava água, e a água não voltava.

Boquerón fica no Chaco Boreal, a planície seca e espinhosa disputada por Bolívia e Paraguai. Em 1932, era um fortim (posto militar de troncos e terra) com algumas cabanas, uma clareira e poços rasos de água salobra.

O Chaco tem dois humores. No verão, chuva e lama. No resto do ano, poeira, calor acima de 40 graus e quilômetros de mato fechado onde um homem perdido não acha água por dias.

Quem controlava os poços controlava a guerra. Um batalhão sem água durava pouco. Um caminhão-tanque valia mais que um canhão.

Em julho, tropas bolivianas tinham tomado o fortim, até então paraguaio. Os soldados do Paraguai chamavam o lugar de Boquerón por causa da abertura no mato, uma boca larga de capim cercada de quebracho (árvore de madeira dura típica do Chaco).

Em 9 de setembro, os paraguaios chegaram. Atacaram de frente, em ondas, atravessando o capim aberto contra metralhadoras escondidas nos troncos.

Os bolivianos tinham cavado bem. Os ninhos de metralhadora ficavam rente ao chão, cobertos de galhos, e só se mostravam quando abriam fogo.

Nos primeiros dias, os paraguaios perderam centenas de homens sem passar da borda da clareira.

Os mortos ficavam no capim, ao sol, porque nenhum dos lados conseguia buscar os corpos sem levar tiro. O cheiro chegava às trincheiras dos dois exércitos.

O coronel paraguaio que comandava a operação olhou as baixas e mudou de método. Parou de mandar gente contra o fogo e mandou gente cavar.

A seguir, a ficha do cerco, os dois comandantes e o desenho do anel que decidiu Boquerón.

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I  A batalha de hoje

Vinte dias de sede

A Batalha de Boquerón foi travada entre 9 e 29 de setembro de 1932, no fortim de Boquerón, no Chaco Boreal. Foi o primeiro grande combate da Guerra do Chaco, que opôs a Bolívia, com a guarnição do tenente-coronel Manuel Marzana, ao Paraguai, sob o comando do tenente-coronel José Félix Estigarribia.

Em Boquerón, o exército maior venceu quando parou de atacar.

A ficha do confronto:

Data:9 a 29 de setembro de 1932
Local:Boquerón, Chaco Boreal
Lado paraguaio:José Félix Estigarribia
Lado boliviano:Manuel Marzana
Homens no cerco:15 mil contra 600
Desfecho:vitória paraguaia

A guerra nasceu de uma fronteira nunca traçada. A Bolívia tinha perdido a saída para o Pacífico para o Chile em 1884 e queria chegar ao rio Paraguai, por onde seus produtos desceriam ao Atlântico.

O Paraguai via o Chaco como território seu desde o século 19. Os dois países foram empurrando fortins para dentro do mato durante os anos 1920.

Em junho de 1932, uma patrulha boliviana tomou o fortim paraguaio Carlos Antonio López, na lagoa Pitiantuta. Em julho, o presidente boliviano Daniel Salamanca autorizou a tomada de Boquerón e de outros dois fortins.

O Paraguai mobilizou. Em poucas semanas, juntou milhares de reservistas e mandou para o Chaco por trem e caminhão.

Os assaltos de 9 a 12 de setembro fracassaram. Os paraguaios avançavam em linha pelo capim e caíam diante dos ninhos de metralhadora.

A partir do dia 13, o método mudou. Os batalhões paraguaios abriram picadas (trilhas estreitas cortadas a facão) pelo mato em volta e cavaram trincheiras ligadas umas às outras.

O anel foi fechando. Os caminhos que levavam ao forte boliviano de Yujra e à retaguarda foram ocupados um a um.

A Bolívia tentou romper o cerco por fora. Colunas de socorro bateram contra as linhas paraguaias e voltaram. Aviões bolivianos jogaram munição, comida e remédio sobre a clareira, e parte caiu do lado paraguaio.

Dentro do fortim, os poços secaram ou ficaram sob a mira dos atiradores. Os feridos se amontoavam sem curativo. Os soldados lambiam o orvalho das folhas de madrugada.

Na manhã de 29 de setembro, Marzana mandou levantar a bandeira branca.

Os paraguaios fizeram mais de 400 prisioneiros, muitos sem força para andar.

Os soldados paraguaios que entraram no fortim encontraram trincheiras cheias de feridos, cartuchos vazios e poços raspados até a lama. Deram água aos prisioneiros primeiro, e só depois vieram as perguntas.

A notícia chegou a Assunção na mesma tarde. Houve festa nas ruas. Em La Paz, multidões cercaram o palácio do governo cobrando explicações de Salamanca.

 
 

II  Quem estava em campo

O coronel que estudou em Paris

Em Boquerón, o vencedor tinha aprendido guerra na França e o vencido aprendeu sede no Chaco.

José Félix Estigarribia nasceu em 1888, em Caraguatay, no interior do Paraguai. Estudou agronomia antes de entrar no exército.

A escola dos franceses

Estigarribia fez curso militar no Chile e, nos anos 1920, cursou a Escola Superior de Guerra de Paris, a mesma que formava os oficiais de estado-maior da França.

Voltou ao Paraguai com uma ideia fixa: no Chaco, quem vencesse a logística vencia a guerra. Água, caminhão e estrada pesavam mais que coragem.

Em agosto de 1932, recebeu o comando das tropas do Chaco. Tinha 44 anos e nunca tinha conduzido uma batalha grande.

O homem do fortim

Manuel Marzana Oroza era oficial de carreira do exército boliviano. Em Boquerón, comandava uma guarnição de soldados de várias regiões, muitos vindos do altiplano, gente acostumada ao frio da montanha e não ao calor do mato.

Marzana não tinha artilharia de peso nem reservas de água. Tinha troncos, pás e metralhadoras, e soube usar os três.

Recebeu ordem de resistir até chegar o socorro. Resistiu. O socorro nunca passou.

Nos últimos dias, mandou racionar a água em goles contados por soldado. Os mais fracos recebiam primeiro.

Quem mandava de longe

Do lado boliviano, a guerra era dirigida de La Paz pelo presidente Daniel Salamanca, que via o Chaco no mapa e cobrava vitórias rápidas dos generais.

Do lado paraguaio, o presidente Eusebio Ayala deixou o comando de campo inteiro com Estigarribia e cuidou de comprar caminhões e munição.

A diferença pesou. Um comandante tinha liberdade para mudar o plano no terreno; o outro respondia a telegramas da capital, a centenas de quilômetros do mato.

O que veio depois

Marzana passou o resto da guerra como prisioneiro no Paraguai. Voltou à Bolívia depois da paz e foi recebido como herói da resistência.

Estigarribia seguiu avançando pelo Chaco até 1935, quando a guerra parou. Virou marechal e, em 1939, presidente do Paraguai.

Em setembro de 1940, o avião em que viajava caiu perto de Altos, no interior do país. Estigarribia não sobreviveu.

O tratado de paz de 1938 deu ao Paraguai a maior parte do Chaco Boreal.

 

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III  O plano

O anel no mato

O plano boliviano: segurar o fortim com metralhadoras enterradas até o socorro chegar.

O plano paraguaio: fechar o mato em volta e deixar a guarnição sem água, comida e munição.

A decisão que virou o jogo: Estigarribia trocou o assalto de frente pela trincheira.

O fortim de Boquerón ficava numa clareira cercada de mato espinhoso. Quem atacava pela clareira ficava exposto. Quem estava no mato via pouco, mas também era pouco visto.

Os bolivianos tinham montado a defesa para a clareira. As metralhadoras miravam o capim aberto, por onde qualquer ataque normal teria de vir.

Estigarribia leu essa regra e jogou outro jogo. Os paraguaios deixaram o capim em paz, ficaram no mato e cavaram.

O cerco funcionou em três tempos:

1. Os batalhões abriram picadas no mato, longe do alcance das metralhadoras, contornando a clareira pelos dois lados.

2. As picadas viraram trincheiras, ligadas entre si, até formar um anel completo em volta do fortim.

3. Patrulhas paraguaias ocuparam os caminhos de fora e bloquearam cada coluna boliviana de socorro antes que chegasse perto.

Com o anel fechado, o tempo passou a lutar do lado paraguaio. Os sitiados não tinham para onde ir, e cada dia gastava a água que restava.

A aviação boliviana tentou suprir o forte pelo ar. Os aviões da época carregavam pouco, e a clareira era pequena. Parte das cargas caiu no mato paraguaio.

Os paraguaios também sofriam com a sede. Mas tinham caminhões rodando entre a retaguarda e as trincheiras, e a água chegava em tambores.

A ferrovia que descia de Puerto Casado, no rio Paraguai, levava homens e água até perto da frente. Do lado boliviano, a base mais próxima ficava muito mais longe, e as estradas de terra viravam areia funda no calor.

O fortim era um bom lugar para defender e um lugar ruim para esperar. Quem tinha os poços de fora, tinha o relógio.

No cerco, o paraguaio cavava de dia e dormia na trincheira. O boliviano, preso na clareira, não tinha sombra nem lugar para recuar. Cada noite, alguns tentavam escapar pelo mato e acabavam presos nas picadas paraguaias.

A queda de Boquerón abriu o Chaco para o avanço paraguaio. Nos meses seguintes, os bolivianos recuaram fortim por fortim até a linha de Saavedra.

Os paraguaios tinham perdido mais homens que os bolivianos durante o cerco, quase todos nos assaltos dos primeiros dias.

O fortim nunca mais voltou à Bolívia.

★ RARO

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