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Em Tanga, um aviso por escrito deu 3 dias a Lettow-Vorbeck

Em novembro de 1914, 8 mil soldados da Índia britânica desembarcaram num porto africano defendido por mil homens e voltaram aos navios.

Soldados indianos desembarcam na praia de Tanga, 1914

Tanga, África Oriental Alemã, novembro de 1914

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Um para oito. Era a conta de Paul von Lettow-Vorbeck na manhã de 4 de novembro de 1914, em Tanga, na costa da África Oriental Alemã: uns mil homens dele contra uns 8 mil soldados do Exército da Índia britânica, trazidos por um comboio de navios.

Para quem estava nas trincheiras alemãs, a conta tinha um sentido prático. Se Tanga caísse, os ingleses ganhavam o porto e a ponta da ferrovia de Usambara, que subia mais de 300 quilômetros até o pé do Kilimanjaro, e a colônia ficava aberta pelo norte.

Dois dias antes, a conta era bem pior. Na manhã de 2 de novembro, o cruzador britânico HMS Fox entrou na baía com os transportes atrás. Na cidade havia uma única companhia de askaris (soldados africanos a serviço da Alemanha), umas poucas centenas de homens com algumas metralhadoras.

O capitão do Fox, Francis Caulfeild, mandou um bote ao cais com uma mensagem. Tanga vivia sob uma trégua desde agosto: os navios ingleses não atacavam o porto, e o porto não servia à guerra. Londres nunca tinha aceitado o acordo, e Caulfeild avisou por escrito ao funcionário alemão da cidade: a trégua tinha acabado. Deu uma hora para a resposta.

O funcionário pediu tempo para consultar os superiores e mandou um telegrama para o interior. A cidade não se rendeu.

Os ingleses passaram o resto do dia procurando minas na baía, sem achar nenhuma. Só começaram a pôr gente em terra à noite, em botes, numa praia de mangue a leste da cidade, e o desembarque se arrastou até o dia 4.

Enquanto os botes iam e voltavam, os trens desciam a serra. Lettow-Vorbeck tirava companhias das montanhas do norte e as embarcava na ferrovia, vagão por vagão, rumo ao porto. Ele próprio chegou a Tanga na noite de 3 de novembro e saiu de bicicleta, no escuro, para ver de perto as linhas inimigas.

Aqui embaixo, por que existia uma trégua num porto em plena guerra, quem desembarcou naquelas praias e como um enxame de abelhas entrou na batalha.

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I  A batalha de hoje

Uma trégua num porto em guerra

A Batalha de Tanga opôs a Força Expedicionária Indiana B, do major-general Arthur Aitken, à Schutztruppe (a força colonial alemã) do tenente-coronel Paul von Lettow-Vorbeck. Foi travada de 2 a 5 de novembro de 1914, na cidade de Tanga, hoje na Tanzânia, e terminou com o reembarque britânico.

Em Tanga, a batalha não se decidiu na praia: decidiu-se nos três dias entre o aviso de Caulfeild e o primeiro tiro, quando a ferrovia trabalhou para o lado alemão.

A ficha da batalha:

Data:2 a 5 de novembro de 1914
Local:Tanga, África Oriental Alemã
Britânicos:Arthur Aitken
Alemães:Paul von Lettow-Vorbeck
Força britânica:cerca de 8 mil
Força alemã:cerca de mil
Desfecho:vitória alemã

A África Oriental Alemã ocupava as terras da atual Tanzânia continental, de Ruanda e de Burundi. Ao norte ficava a África Oriental Britânica, o atual Quênia, com a ferrovia de Uganda correndo a poucas dezenas de quilômetros da fronteira.

Quando a guerra estourou na Europa, em agosto de 1914, as duas colônias tinham poucas tropas e nenhuma vontade de lutar entre si. O governador alemão, Heinrich Schnee, queria manter a colônia fora do conflito para proteger os colonos e o comércio.

Em 8 de agosto, o cruzador britânico HMS Astraea bombardeou Dar es Salaam, a capital, e destruiu a estação de rádio. Nos dias seguintes, oficiais da marinha britânica e autoridades alemãs fecharam acordos locais: Dar es Salaam e Tanga não seriam atacadas, desde que não servissem de base militar.

O Almirantado (o comando da marinha britânica, em Londres) nunca ratificou esses acordos. Para ele, os portos alemães podiam abastecer o cruzador Königsberg, que estava solto no oceano Índico afundando navios ingleses.

Em Londres e em Simla, a capital de verão da Índia britânica, decidiu-se tomar a colônia alemã com tropas indianas. A Força B embarcou em Bombaim em meados de outubro e passou mais de duas semanas no mar, em navios lotados, sob o calor do oceano Índico.

O plano previa duas pontas. A Força B tomaria Tanga, subiria pela ferrovia de Usambara e tomaria as montanhas do norte. Uma segunda força, a C, atacaria a partir do Quênia, no sopé do Kilimanjaro.

A Força C atacou em Longido, em 3 de novembro, e foi repelida. Em Tanga, a Força B ainda estava nos botes.

Caulfeild, do Fox, considerava que a trégua o obrigava a avisar antes de atacar. Aitken aceitou a escala no porto para o aviso. Foi dali em diante a decisão mais cara da campanha: ela entregou ao inimigo o tempo e a direção exata do golpe.

 
 

II  Quem estava em campo

Os homens das duas praias

Nenhum dos dois comandantes tinha lutado contra o outro, e só um deles conhecia o terreno onde ia lutar.

O comandante alemão

Paul von Lettow-Vorbeck nasceu em 1870, em Saarlouis, filho de general. Lutou na China contra a revolta dos Boxers, em 1900, e no sudoeste africano contra os hereros e os namas, em 1904, onde levou um tiro no olho.

Chegou à África Oriental em janeiro de 1914 para comandar a Schutztruppe. Passou os meses de paz percorrendo a colônia a pé e de trem, conhecendo as companhias e o mato.

Ele discordava do governador Schnee. Para Lettow-Vorbeck, a colônia não ia decidir a guerra, mas podia prender na África tropas que a Grã-Bretanha mandaria para a França. Ignorou a trégua e concentrou soldados no norte.

O general britânico

Arthur Edward Aitken nasceu em 1861 e fez a carreira inteira no Exército da Índia. Nunca tinha lutado na África.

Em Mombaça, antes de seguir para Tanga, recusou a oferta de um batalhão dos King's African Rifles (os fuzileiros africanos do rei, a tropa colonial britânica da região), que conhecia o mato e a língua local. Também dispensou o desembarque dos cavalos e das mulas dos navios.

As tropas da Índia

A Força B juntava a 27ª Brigada de Bangalore e a Brigada do Serviço Imperial, formada por soldados dos estados principescos da Índia. Entre os batalhões estavam o 13º de Rajputs, o 61º de Pioneiros e os Fuzileiros da Caxemira.

O único batalhão inglês era o 2º do Loyal North Lancashire. Várias unidades indianas eram de segunda linha, com oficiais novos e soldados que nunca tinham disparado contra outro exército.

Muitos homens desceram dos navios doentes de enjoo, depois de semanas no mar. Desembarcaram num mangue, à noite, sem mapa confiável da cidade.

Os askaris

As companhias da Schutztruppe eram de askaris recrutados na própria colônia e comandados por oficiais alemães. Cada companhia tinha entre 150 e 200 homens e levava metralhadoras.

Eram tropas treinadas para o mato e acostumadas ao clima. Os voluntários alemães, colonos e funcionários de fazenda chamados às pressas, completavam a força.

O capitão do Fox

Francis Wade Caulfeild comandava o cruzador e a escolta do comboio. A artilharia do navio era o maior canhão da batalha, e o mesmo navio seria o caminho de volta da Força B.

 

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III  O plano

Abelhas no seringal

O plano britânico: desembarcar a leste, atravessar as plantações até a cidade e tomar a estação da ferrovia.

O plano alemão: segurar a borda da cidade e o corte da ferrovia, e guardar uma companhia para bater no flanco inimigo.

A aposta britânica: oito soldados contra cada defensor bastavam para atravessar uma linha de mato.

O plano alemão seguiu três passos:

1. Trazer de trem, em três dias, todas as companhias possíveis do norte.

2. Deixar o inimigo avançar até o corte da ferrovia, onde as metralhadoras cruzavam fogo.

3. Lançar a reserva contra o flanco esquerdo britânico quando a linha dele estivesse presa no combate.

O primeiro passo funcionou. Na manhã de 4 de novembro, Lettow-Vorbeck tinha em Tanga perto de mil homens. Pouco depois do meio-dia, a Força B começou a avançar pelas plantações de seringueira e de sisal (a planta de onde se tira fibra para corda).

O segundo passo também deu certo. No corte da ferrovia, o 13º de Rajputs e o 61º de Pioneiros caíram sob as metralhadoras e recuaram em desordem. À direita, o Loyal North Lancashire e os Fuzileiros da Caxemira entraram na cidade e lutaram de casa em casa até a alfândega.

No meio do tiroteio, as balas acertaram as colmeias penduradas nas árvores das plantações. Enxames de abelhas africanas atacaram os dois exércitos. Soldados largaram os fuzis e correram, e a imprensa inglesa apelidou o combate de Batalha das Abelhas.

Os britânicos acreditaram por anos numa armadilha alemã com colmeias. Nenhum documento alemão sustenta a tese, e os askaris também foram picados: a explicação aceita é o acaso de colmeias comuns nas fazendas da região.

No fim da tarde veio o terceiro passo. A companhia de reserva saiu do mato e caiu sobre o flanco esquerdo britânico. A linha rompeu, e os soldados correram para a praia.

O Fox abriu fogo para cobrir a fuga. Parte dos tiros caiu na cidade, inclusive perto do hospital, onde estavam feridos dos dois lados.

Durante a noite, um toque de corneta mal entendido fez parte das tropas alemãs recuar da cidade. Aitken não soube. Na manhã de 5 de novembro, mandou reembarcar a Força B.

Os britânicos deixaram na praia fuzis, metralhadoras, centenas de milhares de cartuchos e suprimentos de campanha. Lettow-Vorbeck armou com eles as companhias da colônia pelos meses seguintes.

As perdas britânicas passaram de 800 homens, entre mortos, feridos e desaparecidos. As alemãs ficaram perto de 150. Num cessar-fogo combinado no dia 5, os feridos britânicos foram entregues aos navios.

A Schutztruppe de Lettow-Vorbeck lutou até novembro de 1918 e só depôs as armas em Abercorn, na Rodésia do Norte, duas semanas depois do armistício na Europa. Nunca foi derrotada em campo.

Aitken foi tirado do comando e rebaixado a coronel.

Ele nunca mais comandou.

 
 
Quiz da edição

No aviso escrito que o capitão Caulfeild mandou à cidade de Tanga avisando que a trégua tinha acabado, quanto tempo ele deu para a resposta alemã?

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B3 dias
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