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Em Svensksund, Gustavo III esperou o vento

Em julho de 1790, a flotilha sueca ancorou entre as ilhas do golfo da Finlândia e deixou o vendaval empurrar as galés russas contra os canhões.

Flotilha sueca ancorada entre ilhas em Svensksund, golfo da Finlândia, 1790

Svensksund, golfo da Finlândia, 1790

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Dois canhões russos para cada canhão sueco. Era a conta da artilharia pesada na manhã de 9 de julho de 1790, no golfo da Finlândia: cerca de 900 peças nos barcos russos, cerca de 450 nos suecos. Para os homens de Gustavo III, encurralados havia quatro dias numa enseada de ilhas, a aposta tinha um sentido claro: em mar aberto, perdiam.

Estavam em Svensksund (estreito dos suecos, no idioma deles), uma passagem entre ilhas de pedra na costa sul da Finlândia, perto da atual cidade de Kotka. Seis dias antes, a frota sueca tinha furado o bloqueio russo na baía de Vyborg e pagado caro pela passagem.

O que restou ali era a frota do arquipélago, a esquadra que a Suécia mantinha para lutar entre ilhas e baixios. Eram galés (barcos longos movidos a remo, com velas de apoio), canhoneiras (barcos pequenos com canhão na proa) e fragatas baixas, com remadores nos bancos e soldados no convés.

Às oito da manhã, os batedores suecos deram o aviso: a frota russa vinha do sul. A data pesava em São Petersburgo. O 9 de julho marcava o aniversário da subida de Catarina, a Grande, ao trono, e a frota costeira russa queria festejar o dia com uma vitória.

Os suecos não levantaram âncora. Os barcos ficaram parados numa linha curva entre as ilhas, com a proa apontada para o inimigo, e esperaram os russos entrarem no alcance dos canhões.

Do sudoeste, o vento crescia hora a hora, até soprar como vendaval sobre o golfo.

Para uma frota ancorada, o vento era um incômodo. Para uma frota que precisava remar até o alvo e manter a fila sob fogo, o vendaval funcionava como um terceiro inimigo.

Aqui embaixo, por que a Suécia estava em guerra com a Rússia, quem eram o rei e o príncipe que se enfrentaram naquele estreito, e como uma frota parada desmontou outra em movimento.

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I  A batalha de hoje

A paz assinada 36 dias depois

A Segunda Batalha de Svensksund, chamada Ruotsinsalmi pelos finlandeses (o mesmo estreito dos suecos, na língua deles), opôs a frota do arquipélago de Gustavo III da Suécia à frota costeira russa do príncipe Karl Heinrich von Nassau-Siegen. Aconteceu em 9 e 10 de julho de 1790 e terminou com vitória sueca.

Em Svensksund, uma frota que acabara de escapar de um bloqueio venceu, ancorada, a maior batalha naval já travada no mar Báltico.

A ficha da batalha:

Data:9 e 10 de julho, 1790
Local:Svensksund, Finlândia
Suecos:Gustavo III
Russos:Nassau-Siegen
Força sueca:cerca de 200 barcos
Força russa:mais de 200 barcos
Desfecho:vitória sueca

A guerra tinha começado dois anos antes, por um motivo de dentro de casa. Gustavo III governava como rei absoluto e perdia apoio na nobreza. Uma guerra curta e vencida contra a Rússia deixaria os adversários sem escolha senão apoiar o rei.

Faltava ao rei um pretexto. A lei sueca proibia o monarca de abrir uma guerra de ataque sem o aval dos estados (a assembleia de nobres, clero, burgueses e camponeses). Em 27 de junho de 1788, houve um tiroteio no posto sueco de Puumala, na fronteira da Finlândia, com soldados suecos vestidos de russos.

Os uniformes saíram das mãos de um alfaiate da Ópera Real de Estocolmo. Com o ataque encenado, Gustavo chamou a guerra de defesa.

O plano sueco era chegar a São Petersburgo pelo mar, e a campanha emperrou cedo. Em julho de 1788, a frota sueca empatou com a do almirante russo Samuel Greig na batalha de Hogland. Em agosto, oficiais suecos na Finlândia assinaram a declaração de Anjala, pedindo paz com a Rússia por conta própria.

Em 1790, a frota sueca acabou presa na baía de Vyborg. Na fuga de 3 de julho, um brulote sueco (barco carregado de pólvora e fogo, lançado contra o inimigo) acendeu cedo demais, bateu num navio de linha e numa fragata da própria Suécia, e os três explodiram.

A Suécia deixou para trás navios de linha, fragatas, galés e milhares de homens capturados.

A derrota chegou a Catarina numa hora ruim: a guerra contra os turcos prendia o exército russo no sul, e a imperatriz queria encerrar a frente do norte.

Em 14 de agosto de 1790, 36 dias depois da batalha, os dois países assinaram o Tratado de Värälä, numa aldeia à beira do rio Kymi.

Nenhum dos dois lados ganhou território. Os dois devolveram as conquistas, a Rússia abriu mão do direito de se meter na política interna sueca, herdado do Tratado de Nystad, de 1721, e Catarina reconheceu o governo absoluto de Gustavo III.

Depois da paz, em volta dos fortes russos do lado leste do rio Kymi, cresceu a cidade portuária de Kotka. Em 1948, mergulhadores acharam perto dela o casco quase inteiro da fragata russa Sankt Nikolai, afundada na batalha, e trouxeram dele mais de 2.300 objetos.

 
 

II  Quem estava em campo

Um rei de teatro contra um príncipe errante

Os dois comandantes de Svensksund chegaram ao mar por caminhos tortos: um rei que escrevia para o palco e um príncipe que tinha dado a volta ao mundo num navio francês.

O rei sueco

Gustavo III nasceu em 24 de janeiro de 1746, em Estocolmo, e subiu ao trono em 1771. Em agosto de 1772, deu um golpe sem sangue que tirou o poder do parlamento.

Fundou a Ópera Real em 1773 e a Academia Sueca em 1786, e escreveu peças e libretos (os textos cantados das óperas).

Em Svensksund, quis a batalha contra a opinião de parte dos oficiais e acompanhou a luta de uma chalupa real (um barco leve a remo), perto da linha de fogo.

Menos de dois anos depois da paz, em 16 de março de 1792, levou um tiro nas costas num baile de máscaras da própria Ópera, disparado pelo nobre Jacob Johan Anckarström. Morreu em 29 de março.

O príncipe aventureiro

Karl Heinrich von Nassau-Siegen nasceu em 5 de janeiro de 1743, na França, numa família de príncipes alemães. Em 1766, embarcou na expedição de Louis Antoine de Bougainville, a primeira volta ao mundo de um navio francês, e esteve no Taiti.

Serviu à Espanha no grande cerco a Gibraltar, no comando de brulotes.

Chegou à Rússia em 1786, atrás do favor do príncipe Grigori Potemkin. Em 1788, perto da fortaleza turca de Ochakov, no mar Negro, desbaratou os turcos e ganhou a Ordem de São Jorge.

Em 24 de agosto de 1789, no mesmo estreito de Svensksund, venceu os suecos e recebeu a Ordem de Santo André, a mais alta do império.

Depois da derrota, Catarina o promoveu a almirante mesmo assim. Deixou a Rússia em 1792 e morreu em 1808, nas terras que tinha na Podólia, hoje na Ucrânia.

O capitão de bandeira

Carl Olof Cronstedt nasceu em outubro de 1756, na mansão de Botby, na Finlândia, hoje parte de Helsinque.

Na manhã de 9 de julho, aos 33 anos, o tenente-coronel foi nomeado capitão de bandeira (o oficial que comanda a frota em nome do rei). Entrou no lugar do coronel George de Frese, que defendia a retirada.

Ganhou a promoção a coronel. Dezoito anos depois, comandava a fortaleza de Sveaborg, na entrada de Helsinque, e a entregou aos russos em 3 de maio de 1808, com o mar ainda congelado e nenhum reforço a caminho.

Um tribunal de Estocolmo o condenou à morte por traição, e a pena caiu por iniciativa do imperador russo. Cronstedt morreu em 1820, na sua propriedade de Herttoniemi.

Os chefes das alas

Três chefes dividiam a linha sueca: Victor von Stedingk no centro, Jakob Törning na ala direita e Claes Hjelmstjerna na ala esquerda. Os três serviam ao exército: a frota do arquipélago se chamava Arméns flotta (frota do exército) e respondia aos generais.

 

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III  O plano

A linha presa entre as ilhas

O plano russo: atacar pelo sul com a frota inteira, cortar o caminho sueco para a fortaleza de Svartholm, a oeste, e entregar a vitória no dia de festa da imperatriz.

O plano sueco: ficar ancorado entre as ilhas, esperar o inimigo entrar no arco e atirar de dois lados.

A aposta sueca: parada, a linha não se desmanchava; quem viesse remando contra o vento ia chegar desmanchado.

O plano de Gustavo III e Cronstedt seguiu três passos:

1. Ancorar a frota numa linha curva entre as ilhas de Muslaö e Kutsalö.

2. Erguer baterias de canhão nas ilhotas de Kråkskär e Sandskär.

3. Guardar uma reserva atrás da linha para soltar onde os russos cedessem.

O primeiro passo dependia da curva. Com a linha dobrada, um barco russo que entrasse no arco levava tiro de frente e de lado. No centro ficavam as fragatas do arquipélago e as galés de Stedingk; nas pontas, as canhoneiras de Törning e Hjelmstjerna.

O segundo passo ficou pronto na véspera: as baterias foram concluídas em 8 de julho e cobriam os flancos da linha.

A ancoragem compensava o canhão a menos. Os barcos russos levavam a artilharia no costado (a lateral do casco) e precisavam virar de lado para atirar. A maioria dos barcos suecos levava os canhões na proa e, ancorados de frente para o sul, apontavam sem manobra.

Às oito, a capitânia russa (o barco do comandante) deu o sinal de ataque. Às nove e meia, os primeiros barcos russos chegaram ao alcance no flanco oeste, e o fogo correu a linha inteira.

A ala direita de Törning levou o peso maior. Os suecos soltaram a reserva ali, e o contra-ataque desmanchou a ala esquerda russa.

O vendaval fez o resto do trabalho. As galés russas do centro, que dependiam dos remos para manter a posição, pegaram o vento de lado e foram empurradas para dentro do arco, entre as duas pontas da linha sueca.

Perto das três da tarde, metade dos barcos de Hjelmstjerna cruzou um canal estreito entre as ilhas de Legma e Kutsalö e apareceu atrás da frota russa. Do lado russo, parte da frota leu a manobra como ordem de recuar e deu as costas, deixando o centro sozinho.

Ao entardecer, barcos russos à deriva batiam na linha sueca, pegavam fogo ou encalhavam nas pedras. Às oito da noite, Nassau-Siegen mandou recuar e queimar os barcos à deriva, para os suecos não levarem nenhum.

O combate parou às dez. Na madrugada, o vento caiu, e as canhoneiras suecas caçaram os barcos russos em fuga até as nove da manhã de 10 de julho.

A Rússia perdeu cerca de 50 barcos, entre afundados, queimados e capturados. Entre os capturados estava a Catarina, a capitânia de Nassau-Siegen, com a bagagem do príncipe a bordo.

O historiador finlandês Tapani Mattila contou, num livro de 1983, cerca de 6.000 russos feitos prisioneiros.

A Suécia perdeu seis.

 
 
 

Quiz da edição

Na manhã de 9 de julho de 1790, qual era a proporção aproximada de canhões pesados entre as frotas em Svensksund?

A450 canhões russos contra 900 suecos
B900 canhões russos contra 450 suecos
C600 canhões russos contra 600 suecos
D1200 canhões russos contra 300 suecos

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