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Em Dien Bien Phu, Giap trocou o assalto por 46 dias de pá

Em janeiro de 1954, o general vietnamita mandou recuar horas antes do ataque e pôs os soldados a cavar até o arame francês.

Trincheiras vietnamitas no vale de Dien Bien Phu, 1954

Vale de Dien Bien Phu, Vietnã, março de 1954

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Cem em cem. Era a certeza de vitória que Ho Chi Minh pediu ao general Võ Nguyên Giáp antes da batalha de Dien Bien Phu, no noroeste do Vietnã: atacar só com o resultado garantido e, sem garantia, não atacar. Para os soldados do Viet Minh (a frente de independência vietnamita) acampados nas colinas em volta do vale, a exigência decidia quantos deles iam correr de peito aberto contra o arame farpado francês.

O ataque estava marcado para as 17h de 26 de janeiro de 1954. O plano tinha nome curto, ataque rápido, vitória rápida: ondas de infantaria contra o campo entrincheirado francês, combate de duas noites e três dias, e a guarnição destruída antes de receber reforço pelo ar.

As tropas já estavam nas posições de partida. Os conselheiros militares chineses, que acompanhavam o comando vietnamita, apoiavam o plano.

Giap passou a noite anterior acordado. Os relatórios dos batedores diziam que os franceses tinham reforçado os postos nas semanas de espera, com mais casamatas, mais arame e mais campos minados. A infantaria teria de atravessar centenas de metros de terreno aberto sob fogo de metralhadora.

Na manhã do dia 26, ele chamou o chefe dos conselheiros chineses, Wei Guoqing, e disse que não podia garantir a vitória. Depois reuniu o comitê do partido na frente e propôs suspender o ataque.

A ordem desceu às divisões poucas horas antes do horário marcado. Os soldados, prontos para avançar, receberam a instrução de voltar.

O novo método também tinha nome curto: atacar firme, avançar firme. Os soldados iam cavar trincheiras do alto das colinas até a planície, metro a metro, até encostar na borda do arame francês, e só então atacar, um posto de cada vez.

A espera durou sete semanas. O primeiro assalto saiu em 13 de março.

Aqui embaixo, por que os franceses estavam naquele vale, quem comandava cada lado e como a pá decidiu o cerco.

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I  A batalha de hoje

O vale escolhido por Navarre

A Batalha de Dien Bien Phu opôs o Exército Popular do Vietnã, comandado pelo general Võ Nguyên Giáp, ao Corpo Expedicionário francês do Extremo Oriente, que tinha no vale uma guarnição sob o coronel Christian de Castries. O cerco durou de 13 de março a 7 de maio de 1954 e terminou com a rendição francesa. Foi a última grande batalha da Guerra da Indochina, travada desde 1946 entre a França e o Viet Minh.

Em Dien Bien Phu, a decisão mais pesada de Giap foi a de não atacar: o recuo de 26 de janeiro comprou as sete semanas de pá que derrubaram a guarnição.

A ficha da batalha:

Data:março a maio de 1954
Local:Dien Bien Phu, Vietnã
Vietnamitas:Võ Nguyên Giáp
Franceses:Christian de Castries
Força vietnamita:cerca de 50 mil
Força francesa:até cerca de 16 mil
Desfecho:vitória vietnamita

O vale fica no noroeste do Vietnã, perto da fronteira com o Laos. É uma planície comprida, cortada por um rio, com uma pista de pouso dos tempos da ocupação japonesa e colinas de mata fechada em volta.

O general Henri Navarre, comandante francês na Indochina desde maio de 1953, queria uma base ali para cortar o caminho do Viet Minh rumo ao Laos e atrair as divisões de Giap para uma batalha campal. No dia 20 daquele novembro, a Operação Castor lançou milhares de paraquedistas sobre a pista.

A ideia de Navarre era um campo entrincheirado abastecido por avião: uma rede de postos fortificados em volta da pista, com tropas, comida e munição chegando de Hanói. Os franceses acreditavam que o Viet Minh não teria como manter uma força grande tão longe das suas bases, em terreno de montanha.

Os postos receberam nomes de mulher: Béatrice, Gabrielle, Anne-Marie, Huguette, Claudine, Dominique, Eliane e, mais ao sul, Isabelle. Cada um era um conjunto de trincheiras, casamatas e arame em cima de uma elevação.

Giap aceitou o convite. Em dezembro, mandou para as colinas quatro divisões de infantaria, abastecidas por dezenas de milhares de carregadores a pé e de bicicleta, por trilhas na mata.

Em janeiro, a guarnição francesa olhava para as encostas e via pouco. Os batedores vietnamitas, escondidos na mata, contavam postos, metralhadoras e fileiras de arame.

O ataque de 26 de janeiro teria lançado essa infantaria contra a planície aberta. O que veio depois do recuo foi uma obra: a planície virou um labirinto de valas cavadas à noite.

Em 13 de março, ao anoitecer, a infantaria vietnamita saiu das trincheiras a poucos metros do arame de Béatrice. O posto caiu antes da manhã seguinte. Gabrielle caiu na noite de 14 para 15.

 
 

II  Quem estava em campo

Um professor contra um cavaleiro

Os dois comandantes tinham trajetórias opostas: um nunca passou por escola militar, o outro vinha de uma família de marechais.

O comandante vietnamita

Võ Nguyên Giáp nasceu em 1911, na província de Quang Binh, no centro do Vietnã. Estudou direito em Hanói e dava aulas de história num colégio particular da cidade. Lia sobre as campanhas de Napoleão e nunca frequentou academia militar.

Entrou cedo no movimento de independência. Em 1944, Ho Chi Minh o encarregou de formar a primeira unidade armada do Viet Minh, com 34 homens. Dez anos depois, comandava divisões.

Já tinha perdido batalhas contra os franceses em 1951, no delta do rio Vermelho, quando lançou ondas de infantaria contra posições fortificadas. Conhecia o custo do ataque rápido.

O comandante francês

Christian de Castries nasceu em 1902, em Paris, numa família aristocrática com marechais e um ministro na árvore. Oficial de cavalaria e campeão de hipismo, foi ferido na Segunda Guerra Mundial e assumiu o vale em dezembro de 1953.

Navarre o escolheu por ser um oficial de cavalaria acostumado a contra-atacar com blindados. No vale havia dez tanques leves americanos, trazidos de avião em peças e montados junto à pista.

Promovido a general durante o cerco, comandava por rádio de um abrigo subterrâneo no centro do campo.

Os conselheiros chineses

A China comunista mandava armas, caminhões e conselheiros ao Viet Minh. O chefe do grupo, Wei Guoqing, defendia o ataque rápido de janeiro, conforme a experiência chinesa na Coreia.

Depois do recuo, os chineses aceitaram a mudança. Giap escreveu nas suas memórias que suspender o ataque foi a decisão mais difícil da sua vida de comandante.

Os soldados vietnamitas

A infantaria de quatro divisões, em boa parte camponeses do norte, treinava para avançar à noite e cavar rápido. Cada soldado levava uma pá curta na mochila.

Os carregadores civis, homens e mulheres, levavam arroz e munição nas costas e em bicicletas reforçadas, empurradas a pé pelas trilhas.

Os soldados franceses

A guarnição juntava legionários estrangeiros, paraquedistas franceses, soldados argelinos e marroquinos, tropas da etnia tai (um povo das montanhas do noroeste) e vietnamitas do exército aliado de Paris. Muitos legionários eram alemães veteranos da Segunda Guerra.

 

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III  O plano

Cavar até o arame

O plano vietnamita: cercar o campo com trincheiras e tomar os postos um por um.

O plano francês: segurar os postos, abastecer pelo ar e esmagar cada assalto em terreno aberto.

A aposta vietnamita: a pá ia chegar ao arame antes de os franceses entenderem a obra.

O plano de Giap seguiu três passos:

1. Recuar as tropas de assalto em 26 de janeiro e reorganizar as divisões nas colinas.

2. Cavar uma trincheira principal em volta do campo e, dela, valas de aproximação rumo a cada posto.

3. Atacar um posto por vez, saindo da trincheira a poucos metros do arame.

O primeiro passo custou caro ao moral. Soldados prontos para o combate desmontaram posições e voltaram à mata. Os franceses chegaram a acreditar que o Viet Minh tinha desistido.

O segundo passo levou semanas. As equipes cavavam à noite, em turnos, com pá curta e enxada. A vala de aproximação tinha largura para um homem e profundidade para correr curvado.

Quando a vala chegava perto de um posto, os sapadores (soldados de engenharia de combate) abriam passagem no arame com cargas explosivas.

De dia, os franceses viam a terra remexida pelos binóculos e mandavam patrulhas e aviões. Os vietnamitas recuavam, e de noite voltavam a cavar.

O terceiro passo começou em 13 de março. Béatrice e Gabrielle caíram nos dois primeiros dias. Anne-Marie foi abandonada pelos soldados tai que a guarneciam.

Ainda em março, as trincheiras alcançaram a pista de pouso. Os aviões franceses não conseguiam mais pousar, e a guarnição dependia só de paraquedas.

Em abril, os dois lados disputaram as colinas do leste, as Eliane, posto por posto, de trincheira a trincheira. A monção chegou e alagou as valas dos dois lados.

Na noite de 6 de maio, a ofensiva final tomou as últimas colinas. Na tarde de 7 de maio, os vietnamitas ocuparam o abrigo de Castries. Cerca de 11 mil soldados franceses e aliados foram feitos prisioneiros.

No dia seguinte, a conferência de Genebra começou a discutir a Indochina. Os acordos de 21 de julho de 1954 dividiram o Vietnã na altura do paralelo 17 e tiraram os franceses do norte.

Navarre perdeu o comando da Indochina em junho de 1954, um mês depois da rendição.

Castries foi solto em setembro de 1954 e voltou à França.

Giap viveu até 2013.

 
 
 

Quiz da edição

No vale de Dien Bien Phu, quem comandava a guarnição francesa diretamente no local, enquanto Henri Navarre coordenava toda a Indochina a partir de fora do cerco?

AWei Guoqing
BVõ Nguyên Giáp
CChristian de Castries
DHenri Navarre

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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