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Em 1815, as escadas ficaram no depósito de Nova Orleans

O regimento das escadas passou direto pelo reduto, e a coluna de Pakenham chegou à vala de Jackson sem ter como subir.

Coluna britânica avança contra a vala de Jackson, 1815

Chalmette, Nova Orleans, janeiro de 1815

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Um em três. Foi a proporção de soldados britânicos da coluna de assalto caídos na planície de Chalmette, abaixo de Nova Orleans, na manhã de 8 de janeiro de 1815: perto de 2 mil em uns 5.300.

Para quem marchava no meio da coluna, a conta queria dizer o seguinte. Quem estivesse na primeira fileira, ao chegar à vala americana, não tinha por onde subir nem por onde voltar.

A vala era o canal Rodriguez, um fosso seco e lamacento de uns três metros de largura, cavado entre o rio Mississippi e um pântano de ciprestes. Atrás dele, o general americano Andrew Jackson ergueu um parapeito (muro de terra para proteger quem atira) com terra, troncos e fardos de algodão.

Para atravessar uma defesa assim, o exército britânico usava duas ferramentas simples. Fascinas, feixes de cana e lenha amarrados, jogadas dentro da vala para firmar o fundo. E escadas de assalto, encostadas no parapeito para a infantaria subir.

As duas ficaram guardadas num reduto (pequena fortificação de terra) avançado, a umas centenas de metros da linha americana. A tarefa de levá-las ao ataque cabia a um regimento só, o 44º de Infantaria, o East Essex, sob o tenente-coronel Thomas Mullins.

Na madrugada do dia 8, o 44º passou pelo reduto no escuro e seguiu em frente. Quando o erro apareceu, o regimento voltou para buscar a carga, e a coluna do general Samuel Gibbs já esperava em posição.

Às seis da manhã, um foguete subiu como sinal de ataque. A neblina sobre a planície se abriu cedo, e os casacas-vermelhas avançaram pelo canavial colhido, em campo aberto, diante de uns 4 mil defensores.

Aqui embaixo, por que britânicos e americanos lutavam no Mississippi em pleno inverno, quem estava atrás do parapeito e como um plano de três frentes desmanchou antes das sete da manhã.

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I  A batalha de hoje

Oito quilômetros abaixo da cidade

A resposta de ontem

Quantos cavalos Wellesley perdeu em Assaye?

Dois. O primeiro caiu atingido por um tiro de canhão perto do Kaitna; o segundo, Diomed, um árabe cinzento, foi varado por uma lança na carga final contra a linha marata. Wellesley saiu da tarde sem um ferimento e, já como duque de Wellington, chamou Assaye da batalha mais sangrenta, para o número de homens, que ele já tinha visto.

A Batalha de Nova Orleans opôs o exército britânico do major-general Sir Edward Pakenham às tropas americanas do major-general Andrew Jackson. Foi travada em 8 de janeiro de 1815, na fazenda de Chalmette, uns oito quilômetros rio abaixo de Nova Orleans, e terminou com a retirada britânica.

Em Nova Orleans, a maior derrota do exército britânico na guerra contra os Estados Unidos aconteceu duas semanas depois da assinatura da paz, sem ninguém na planície saber dela.

A ficha do confronto:

Data:8 de janeiro de 1815
Local:Chalmette, Luisiana
Britânicos:Edward Pakenham
Americanos:Andrew Jackson
Arma do dia:a vala de Rodriguez
Desfecho:vitória americana

A guerra tinha começado em junho de 1812. Os Estados Unidos declararam guerra ao Reino Unido por causa do bloqueio ao comércio americano e do recrutamento forçado de marinheiros americanos para a Marinha Real.

Por dois anos, Londres tratou o conflito como frente secundária. A prioridade era Napoleão, na Europa.

Com Napoleão exilado na ilha de Elba em abril de 1814, sobraram regimentos e navios. Em agosto daquele ano, uma força britânica entrou em Washington e queimou o Capitólio e a Casa Branca.

O passo seguinte mirava o sul. Nova Orleans controlava a saída do Mississippi, e quem fechasse a foz do rio fechava o comércio de todo o vale, do Ohio ao Tennessee.

A frota do vice-almirante Alexander Cochrane chegou ao lago Borgne em dezembro de 1814. Os britânicos remaram por pântanos e canais até as margens do Mississippi e acamparam na fazenda Villeré, ao sul da cidade.

Jackson atacou o acampamento na noite de 23 de dezembro, no escuro, e recuou para uma linha de defesa ao longo do canal Rodriguez. Ali seus homens cavaram por duas semanas.

Em 24 de dezembro, em Gante, na atual Bélgica, diplomatas dos dois países assinaram o tratado de paz. O Senado americano só o ratificou em 16 de fevereiro de 1815, e a notícia levou semanas para cruzar o Atlântico em navio a vela.

Os britânicos testaram a linha americana duas vezes antes do assalto final: uma sondagem em 28 de dezembro e um duelo de artilharia no dia 1º de janeiro. Nos dois casos, os canhões de Jackson responderam melhor.

 
 

II  Quem estava em campo

O cunhado de Wellington e o general do Tennessee

Do lado britânico estavam veteranos das campanhas contra Napoleão na Espanha; atrás do parapeito, uma mistura de milícias de fronteira, soldados regulares, ex-escravizados livres e piratas.

O general britânico

Edward Pakenham tinha 36 anos e era irmão de Kitty Pakenham, mulher do duque de Wellington. Serviu com o cunhado na Guerra Peninsular, na Espanha, e comandou a divisão que rompeu a linha francesa em Salamanca, em 1812.

Chegou à Luisiana no dia de Natal de 1814 para assumir um exército já desembarcado, em terreno escolhido por outros, a poucos quilômetros de um inimigo entrincheirado.

Tinha à mão uns 8 mil homens, entre eles regimentos das Índias Ocidentais, soldados negros recrutados no Caribe, que sofriam com o frio úmido do inverno no delta.

O general americano

Andrew Jackson tinha 47 anos, era advogado e senhor de terras no Tennessee e não tinha formação militar regular. Ficou conhecido como general em 1814, ao vencer os creeks, um povo indígena do Alabama, em Horseshoe Bend.

Em Nova Orleans, declarou lei marcial (o governo da cidade passa às mãos dos militares) e recrutou quem encontrou pela frente.

A linha de Jackson

Na margem leste estavam uns 4 mil homens: regulares do exército, fuzileiros do Tennessee e do Kentucky, milícias da Luisiana e dois batalhões de homens livres de cor, negros e mestiços nascidos livres ou libertos.

O pântano protegia a ponta esquerda da linha, e o rio, a direita. Entre os dois, cerca de um quilômetro e meio de parapeito, com oito baterias de canhões espalhadas ao longo dele.

Os canhões ficaram em parte na mão dos baratarianos, os contrabandistas e piratas de Jean Lafitte, que trocaram a artilharia deles pelo perdão das acusações federais.

O 44º e o tenente-coronel

Thomas Mullins comandava o 44º Regimento, o East Essex. Na noite de 7 de janeiro, recebeu a ordem de pegar as fascinas e as escadas no reduto e levá-las à frente da coluna de Gibbs.

O regimento tinha lutado na Espanha e em Washington. Mullins, segundo depoimentos no julgamento dele, tratava a tarefa como serviço de carregador, indigno da tropa.

Os Highlanders

O 93º Regimento, de escoceses das Terras Altas, deveria avançar pela margem do rio. No meio do ataque, recebeu a ordem de cruzar a planície em diagonal para socorrer a coluna de Gibbs, e marchou de flanco diante do parapeito.

 

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III  O plano

Feixes, escadas e uma margem errada

O plano de Pakenham: atacar a linha de Jackson em três pontos ao mesmo tempo, com a artilharia americana tomada da margem oeste.

O plano de Jackson: esperar atrás do parapeito e atirar em campo aberto.

A aposta britânica: chegar à vala ainda no escuro, com a neblina cobrindo a marcha.

O plano tinha quatro passos:

1. Atravessar o rio à noite com 1.400 homens, sob o coronel William Thornton, e tomar os canhões americanos da margem oeste.

2. Lançar a coluna de Gibbs contra o lado da linha americana encostado no pântano, com o 44º à frente levando fascinas e escadas.

3. Avançar com a coluna do general John Keane pela margem do rio.

4. Guardar a reserva do general John Lambert para explorar a brecha.

O primeiro passo falhou na margem. Para levar os barcos do pântano ao rio, os marinheiros alargaram um canal, e as paredes de terra desabaram. Os barcos encalharam na lama, e só uns 600 homens de Thornton cruzaram, horas atrasados, levados rio abaixo pela correnteza.

O segundo falhou no reduto. Quando o 44º voltou com as fascinas, Gibbs já avançava, e o regimento chegou à frente aos pedaços, com parte da carga largada no caminho.

A coluna de Gibbs alcançou a vala. Sem feixes para firmar o fundo e sem escadas para o parapeito, os soldados ficaram parados na borda, sob fogo de fuzil a poucos metros.

O major Thomas Wilkinson subiu no parapeito com um punhado de homens e caiu lá em cima. Os fuzileiros americanos atiravam em fileiras alternadas, uma recarregando e outra disparando.

Pakenham avançou a cavalo para reorganizar a coluna. Foi atingido duas vezes e morreu ao pé de um carvalho, poucos minutos depois.

Gibbs caiu com ferimentos fatais. Keane levou um tiro no pescoço. O 93º, marchando de flanco, perdeu mais da metade dos homens sem chegar ao parapeito.

Na margem oeste, Thornton enfim pôs os americanos em fuga e tomou os canhões. Já era tarde: Lambert, no comando, mandou suspender o ataque e chamou a tropa de volta.

No relatório de Lambert a Londres, as perdas britânicas somaram 291 mortos, 1.262 feridos e 484 desaparecidos, mais de 2 mil homens. Do lado americano, na linha principal, as baixas não chegaram a vinte.

Os britânicos levantaram acampamento em 18 de janeiro e voltaram aos navios. A notícia da paz de Gante chegou à frota em fevereiro.

Jackson virou herói nacional e, em 1829, presidente dos Estados Unidos. O corpo de Pakenham voltou à Irlanda num barril de bebida, segundo os relatos da época.

Em 1815, uma corte marcial em Dublin julgou o tenente-coronel Thomas Mullins pela carga esquecida no reduto. Foi considerado culpado de negligência.

Mullins perdeu a patente.

 
 
Quiz da edição

Qual regimento britânico recebeu a ordem de carregar as fascinas e as escadas de assalto até a frente da coluna de Gibbs, mas passou pelo reduto no escuro e seguiu adiante sem buscar a carga?

AO 93º Regimento, de escoceses das Terras Altas
BOs regimentos das Índias Ocidentais, recrutados no Caribe
CO 44º Regimento, o East Essex, sob o tenente-coronel Thomas Mullins
DOs batalhões de homens livres de cor, atrás do parapeito americano

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