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As seis galeaças rebocadas à frente da linha

Em 7 de outubro de 1571, a Liga Santa pôs seis navios lentos na frente da própria frota antes do primeiro choque de remos.

As seis galeaças venezianas rebocadas para a frente da linha da Liga Santa no golfo de Patras, em 7 de outubro de 1571.

Golfo de Patras, 7 de outubro de 1571

 

Sm para 212. Era a fatia da frota cristã que não era galera de remo comum na manhã de 7 de outubro de 1571, menos de três por cento do total, e foi exatamente essa fatia que a Liga Santa amarrou a cabos e arrastou para a frente de todo o resto.

Combate de galera no Mediterrâneo do século XVI é briga de infantaria em cima de água. O casco existe para levar homens até o casco inimigo, a proa carrega duas ou três peças de artilharia que disparam uma vez, e o que decide o dia é quem embarca em quem com mais gente armada.

Por causa disso, a formação vale mais que a soma dos canhões. Galeras avançam lado a lado, remo quase encostando em remo, e a linha inteira precisa chegar junta no inimigo. Uma galera que abre distância das vizinhas fica cercada por três e é tomada em minutos.

Uma frota que ataca em linha fechada tem um único momento de decisão: onde furar. Enquanto o adversário também estiver em linha, a conta é simétrica e ganha quem tem mais casco e mais soldado a bordo.

O problema veneziano em 1571 era esse. Contra uma frota otomana ligeiramente maior, com tripulações veteranas e comando unificado havia décadas, a simetria não jogava a favor da Liga.

A galeaça era a resposta que o Arsenal de Veneza tinha na mão. Um navio mercante de grande porte, reforçado, com casemata de artilharia dos dois bordos e na popa, capaz de atirar em qualquer direção em vez de só pela proa.

O defeito dela era o peso. A galeaça manobrava mal, avançava devagar e chegaria atrasada a qualquer choque de linha, o que fazia dela um estorvo em toda batalha planejada até então.

A Liga resolveu o defeito com uma decisão administrativa, não tática: se o navio não alcança a linha, a linha espera por ele. Cada galeaça foi presa a cabos de galeras leves e rebocada para cerca de um quilômetro à frente da própria frota, parada, antes de qualquer contato.

O resultado é que a frota otomana precisou responder a uma pergunta nova antes de encostar um remo no inimigo. Passar por dentro, por fora, ou parar.

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I  A batalha de hoje

Quatro horas no golfo de Patras

O golfo de Patras é a entrada do golfo de Corinto, no oeste da Grécia, um corredor de água estreito entre a costa continental ao norte e o Peloponeso ao sul. Quem controla a boca dele controla a passagem para dentro do Egeu.

A frota otomana estava ancorada em Náfpaktos, a cidade que os italianos chamavam de Lepanto, no fundo do corredor, e saiu dele na madrugada de 7 de outubro para encontrar a Liga em água aberta.

A guerra tinha começado no ano anterior por Chipre. Selim II reivindicou a ilha, que era colônia veneziana desde 1489, desembarcou tropa em julho de 1570 e tomou Nicósia em setembro. Famagusta, a última praça, resistiu ao cerco por onze meses e caiu em agosto de 1571.

A Liga Santa foi assinada em Roma em 25 de maio de 1571, com Filipe II da Espanha, a República de Veneza, os Estados Pontifícios de Pio V, Gênova, Saboia e a Ordem de Malta. O comando geral coube a Dom Juan de Áustria, meio-irmão do rei espanhol, com 24 anos.

A ficha do confronto:

Data:7 de outubro de 1571
Local:golfo de Patras, oeste da Grécia
Comando cristão:Dom Juan de Áustria, capitão geral da Liga Santa
Comando otomano:Müezzinzade Ali Paxá, kapudan paxá da frota
Duração:cerca de quatro horas, do meio da manhã ao meio da tarde
Fator decisivo:seis galeaças rebocadas a um quilômetro à frente da linha cristã

"A maior ocasião que viram os séculos passados, os presentes, nem esperam ver os vindouros."

Miguel de Cervantes, no prólogo de "Don Quijote de la Mancha, segunda parte", 1615.

Por volta das dez da manhã o vento virou. Até então soprava do leste e favorecia os otomanos; passou a soprar do oeste, encheu as velas da Liga e empurrou a fumaça da pólvora contra a linha adversária durante o resto do combate.

As galeaças abriram fogo com a frota otomana ainda em aproximação. Atirando dos dois bordos contra uma linha que vinha de frente, elas trabalharam por quase meia hora sem receber resposta à altura, porque a artilharia de proa das galeras só alcança bem quando já está quase em cima.

A linha otomana se abriu para contornar os seis navios parados. Foi o que a Liga esperava: as divisões que passaram por fora e as que passaram por dentro chegaram ao contato em tempos diferentes, e a frente única virou três choques separados.

O combate durou cerca de quatro horas, com cascos presos uns aos outros e infantaria atravessando de convés em convés. A galera capitânia otomana, a Sultana, foi abordada duas vezes e tomada na terceira; a Liga capturou ou destruiu a maior parte da frota adversária e libertou milhares de remadores cristãos acorrentados nos bancos.

 
 

II  Quem estava em campo

Duzentas e doze velas contra duzentas e oitenta

Os dois lados chegaram ao golfo com números parecidos de casco e de homem, e com ideias opostas sobre o que um navio de guerra serve para fazer.

A Liga alinhou 206 galeras e 6 galeaças, com cerca de 40 mil marinheiros e remadores e perto de 28 mil soldados embarcados. Espanha e seus territórios italianos entraram com a maior parte dos cascos, Veneza com o segundo maior contingente e com o Arsenal que construiu as galeaças.

A frota otomana somava algo em torno de 220 galeras e 60 galeotas, com tripulação veterana das campanhas de Chipre e do Adriático. Em número de proas, ela era maior que a cristã; em peso de artilharia embarcada, era menor.

A diferença de fogo é a chave da conta. Pelo levantamento do historiador John Francis Guilmartin em "Gunpowder and Galleys", de 1974, a Liga levou aproximadamente 1.800 peças de artilharia contra cerca de 750 do lado otomano, e as galeaças concentravam sozinhas uma fração desproporcional desse total.

"Lepanto foi o fim de um complexo de inferioridade cristão e o fim de uma supremacia turca real."

Fernand Braudel, em "O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II", 1949.

Os remadores contavam como recurso e como risco. Nas galeras otomanas remavam sobretudo cativos cristãos, gente que não tinha motivo nenhum para desejar a vitória de quem os acorrentava; nas venezianas, uma parte considerável era de homens livres pagos, que podiam receber arma na hora do choque.

O comando otomano não era um bloco só. Müezzinzade Ali Paxá vinha da corte e assumira a frota havia pouco; Uluç Ali, governador de Argel na ponta esquerda, era marinheiro de carreira, com trinta anos de corso no Mediterrâneo ocidental e método próprio.

Do lado da Liga, a rachadura era política. Espanha queria a frota inteira preservada para o Norte da África, Veneza queria Chipre de volta naquele ano, e Gênova cobrava dinheiro atrasado; a aliança tinha quatro meses de idade quando entrou no golfo.

Dom Juan resolveu a desconfiança pela mistura. Em vez de deixar cada república com a sua divisão, ele distribuiu galeras espanholas entre as venezianas e vice-versa, de modo que nenhum contingente pudesse abandonar a linha sem deixar aliados de outra bandeira expostos ao lado.

 

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III  O plano

O reboque, a salva e a linha aberta

O plano cristão: desorganizar a formação otomana antes do primeiro contato de casco, usando artilharia pesada colocada onde ela não poderia ser ignorada, e só depois disputar a abordagem com infantaria melhor armada.

O plano otomano: avançar em linha larga, envolver as pontas cristãs pelos flancos e transformar a batalha numa sequência de abordagens, onde a veterania das tripulações pesava mais.

A decisão que mudou a conta: rebocar. As galeaças não conseguiam alcançar posição sozinhas, então foram arrastadas até ela por galeras leves e largadas paradas na frente, à espera.

O primeiro passo foi a conversão dos cascos. O Arsenal de Veneza pegou seis grandes galeras mercantes, cortou o convés para abrir casematas de tiro nas laterais e na popa, reforçou a estrutura e armou cada uma com dezenas de peças, muito além do que qualquer galera de guerra carregava.

O segundo foi a distribuição por divisão. Duas galeaças para a divisão esquerda de Agostino Barbarigo, duas para o centro de Dom Juan e duas para a direita de Gianandrea Doria, de modo que cada trecho da linha tivesse a própria barreira de fogo à frente.

O terceiro foi o reboque na hora certa. Com as frotas já à vista uma da outra, galeras leves passaram cabos às galeaças e as puxaram para cerca de um quilômetro à frente da linha, uma manobra lenta que só é possível porque o adversário ainda estava longe.

O quarto foi ficar parado. A galeaça não perseguiu ninguém, não avançou e não tentou manobrar: virou obstáculo fixo em cima da rota de aproximação, com artilharia apontada para os dois lados.

O quinto foi a salva de abertura. Com a frota otomana em aproximação, os seis navios atiraram contra a massa de galeras que vinha de frente, afundando algumas e desmontando fileiras inteiras antes que qualquer proa alcançasse a linha cristã.

O sexto foi a abertura da linha adversária. Comandantes otomanos desviaram para os lados dos navios parados, e as divisões que contornaram por fora perderam contato com as que passaram por dentro.

O sétimo foi o choque em tempos separados. A esquerda de Barbarigo travou perto da costa norte, o centro se enroscou casco a casco em torno das duas capitânias, e a direita de Doria abriu um vão largo tentando cobrir o flanco.

O oitavo foi a decisão no centro. A Real de Dom Juan e a Sultana de Ali Paxá se prenderam uma na outra, a infantaria espanhola tomou o convés inimigo no terceiro assalto, e o estandarte otomano desceu à vista das duas frotas.

O nono foi o buraco na direita. Uluç Ali aproveitou o vão deixado por Doria, atacou por dentro dele, tomou a capitânia da Ordem de Malta e o estandarte dela, e saiu do golfo com cerca de trinta galeras intactas quando o resto já estava perdido.

Nenhum dos dois impérios ficou com o Mediterrâneo depois daquele dia. Chipre continuou otomana, Veneza assinou paz separada em 1573 e o Arsenal de Constantinopla reconstruiu a frota em um ano, mas a guerra de galeras nunca mais teve outra batalha desse tamanho.

Uma arma lenta demais para entrar na formação deixa de ser um estorvo quando alguém aceita gastar tempo colocando ela onde o inimigo é obrigado a passar.

"O que você tem parado no depósito por ser lento demais para o seu ritmo atual?"

As seis voltaram a reboque.

 
 

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