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As lonas que salvaram a pólvora de Clive
Em junho de 1757, em Plassey, uma tempestade encharcou a artilharia do nababo de Bengala e só um dos dois exércitos tinha cobertura de pano.
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Bosque de mangueiras de Plassey, junho de 1757
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Um contra dezessete. Era a proporção de soldados no campo de Plassey, na margem do rio Bhagirathi, em 23 de junho de 1757: cerca de três mil homens sob bandeira da Companhia Inglesa das Índias Orientais diante de aproximadamente cinquenta mil sob bandeira do nababo de Bengala. A conta da artilharia era pior ainda, oito peças de seis libras contra cinquenta e três bocas de fogo pesadas.
A briga tinha começado no ano anterior, dentro de uma cidade. Em junho de 1756, a tropa do nababo tomou Calcutá e o Forte William, a praça comercial e militar da Companhia na foz do Ganges, depois de meses de atrito sobre fortificações erguidas sem licença e sobre mercadores locais que usavam salvo-condutos da Companhia para não pagar imposto.
A Companhia voltou de Madras com esquadra e tropa. Em janeiro de 1757, Calcutá foi retomada, e em fevereiro nababo e ingleses assinaram o tratado de Alinagar, um acordo de papel que devolvia privilégios comerciais e não resolvia nenhuma das desconfianças que tinham produzido o conflito.
O acordo durou quatro meses. Entre abril e junho, a cúpula mercantil e militar de Murshidabad, a capital de Bengala, costurou com a Companhia a troca do próprio governante, e o comandante do exército assinou um documento comprometendo-se a não combater em troca do trono.
Em 21 de junho, a poucos quilômetros de Plassey, o conselho de guerra britânico votou contra atravessar o rio e atacar, por treze votos a sete. O comandante ficou com o lado majoritário na votação, passou uma hora sozinho debaixo de uma árvore e reverteu a decisão dele antes do anoitecer. A primeira seção mostra o que aconteceu no campo depois dessa travessia, e por que uma tempestade de meia hora valeu mais que a diferença de cinquenta e três canhões contra oito.
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I A batalha de hoje
A chuva das três da tarde
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Robert Clive, tenente-coronel a serviço da Companhia Inglesa das Índias Orientais, atravessou o Bhagirathi na noite de 22 de junho de 1757 e instalou a tropa num bosque de mangueiras cercado por um aterro de terra, a cerca de um quilômetro do acampamento do nababo Siraj ud-Daulah.
Aterro de bosque é uma fortificação que ninguém construiu para a guerra. O muro de terra que segurava a água da irrigação das mangueiras virou parapeito de infantaria, e foi atrás dele que a tropa da Companhia passou a maior parte do dia.
A ficha do confronto:
| Data: | 23 de junho de 1757, combate das oito da manhã às cinco da tarde | | Local: | bosque de mangueiras em Palashi, margem leste do rio Bhagirathi, ao sul de Murshidabad, Bengala | | Comando britânico: | tenente-coronel Robert Clive, com os majores James Kilpatrick e Eyre Coote | | Comando bengali: | nababo Siraj ud-Daulah, com Mir Madan e Mohan Lal em combate, e Mir Jafar, Yar Lutuf Khan e Rai Durlabh parados | | Efetivos: | cerca de 3.000 pela Companhia e cerca de 50.000 pelo nababo, com um destacamento francês de artilharia sob Sinfray | | Fontes: | despacho de Robert Clive ao Comitê Seleto de Fort William, 26 de junho de 1757, e Robert Orme, A History of the Military Transactions of the British Nation in Indostan (História das transações militares da nação britânica no Indostão, 1778) |
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"Os ingleses cobriram os canhões e a munição com lonas alcatroadas; a pólvora do inimigo ficou exposta e se estragou."
Robert Orme, A History of the Military Transactions of the British Nation in Indostan, 1778.
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O bombardeio começou às oito da manhã e rendeu pouco. As peças pesadas do nababo, montadas em plataformas puxadas por bois e empurradas por elefantes, disparavam alto demais para acertar tropa deitada atrás do aterro, e a artilharia francesa de Sinfray, bem servida, era pequena demais para mudar a conta sozinha.
A chuva chegou por volta das três da tarde e durou meia hora. Os artilheiros da Companhia puxaram lonas alcatroadas sobre as peças e sobre os barris; o parque de artilharia bengali ficou descoberto, e a pólvora estocada em monte absorveu água de chuva até deixar de pegar fogo com regularidade.
A pólvora molhada inverteu quem tinha o quê. Quando a chuva passou, o exército de cinquenta mil homens tinha canhões que engasgavam e o de três mil tinha canhões que disparavam, e a diferença durou o resto da tarde.
Mir Madan leu a pausa como fraqueza inglesa e carregou. O comandante de cavalaria mais fiel ao nababo avançou sobre o bosque supondo que o fogo do adversário tinha apagado como o dele, recebeu metralha de perto e caiu atingido por um tiro de canhão.
Siraj ud-Daulah perdeu o eixo do comando com aquela baixa. O nababo chamou Mir Jafar à tenda, pediu socorro ao homem que já tinha assinado compromisso com a Companhia, recebeu conselho de recolher a tropa ao acampamento e deu a ordem de recolhimento por volta das três e meia da tarde.
James Kilpatrick avançou sem esperar ordem. O major viu o movimento de retirada bengali, saiu do bosque com duas companhias e duas peças para tomar um tanque de água à frente da posição, e Clive, que descansava numa casa de caça próxima, alcançou a coluna e assumiu o comando do avanço em vez de mandar recuar.
O campo se esvaziou antes das cinco da tarde. A artilharia francesa de Sinfray resistiu mais tempo que o resto, o acampamento do nababo foi tomado com bagagem e canhões, e dois terços do exército bengali deixaram a planície sem ter disparado um tiro durante o dia inteiro.
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II Quem estava em campo
O nababo de vinte e quatro anos contra o escriturário de Madras
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Os dois comandantes de Plassey tinham currículos de guerra curtos e origens opostas: Siraj ud-Daulah herdou o governo de uma província rica aos vinte e três anos, sem campanha própria nas costas, e Robert Clive chegou à Índia como funcionário de escritório e virou oficial numa guerra comercial que ninguém tinha planejado travar.
Siraj ud-Daulah assumiu o trono de Bengala em abril de 1756. Neto e herdeiro escolhido de Alivardi Khan, recebeu a província mais lucrativa do império mogol e um comando militar formado por chefes que serviam ao avô havia décadas e que não deviam lealdade pessoal ao rapaz que tinham visto crescer no palácio.
Robert Clive tinha entrado na Companhia em 1744, aos dezoito anos, como writer (escriturário de escritório). Trocou a escrivaninha pelo posto militar durante a disputa com a França no Carnático, e ficou conhecido em 1751 pela defesa de Arcot, quando segurou uma praça cercada por cinquenta dias com guarnição de algumas centenas de homens.
O lado do nababo
O exército bengali daquele dia tinha três comandos e uma fratura. Mir Madan e Mohan Lal comandavam a parte que combateu, com cavalaria e artilharia própria; Mir Jafar, Yar Lutuf Khan e Rai Durlabh comandavam os contingentes que ficaram formados fora do alcance e imóveis, somando perto de dois terços do efetivo em campo.
O destacamento francês era pequeno e bom. Cerca de quarenta a cinquenta artilheiros sob Sinfray, veteranos da disputa no sul da Índia, serviam quatro peças leves com cadência muito superior à das baterias pesadas bengalis, e foram os últimos a deixar a posição quando a linha do nababo se desfez.
A tropa da Companhia era majoritariamente indiana. Cerca de dois mil e cem cipaios, soldados indianos recrutados e treinados no modelo europeu, formavam com uns oitocentos soldados europeus do regimento de Adlercron e das companhias da Companhia, mais uma pequena força de topasses, artilheiros luso-indianos de Madras.
A conspiração não era um segredo bem guardado no acampamento. Siraj ud-Daulah sabia que Mir Jafar tinha conversado com os ingleses, chegou a exigir juramento de lealdade sobre o Alcorão dias antes da batalha, e mesmo assim manteve o conspirador no comando de uma ala inteira do exército.
A Companhia também jogava com um intermediário. Omichund, mercador de Calcutá que servia de ligação com a corte de Murshidabad, exigiu uma fatia do tesouro para não denunciar o plano, e recebeu um tratado falso assinado em papel vermelho enquanto o verdadeiro, em papel branco, corria sem a cláusula dele.
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