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As duas colunas que cortaram a linha em ângulo reto

Em 21 de outubro de 1805, Nelson trocou a linha paralela por duas colunas que aceitaram levar fogo sem responder.

As duas colunas britânicas cortando em ângulo reto a linha franco-espanhola ao largo do cabo Trafalgar, em 21 de outubro de 1805.

Cabo Trafalgar, 21 de outubro de 1805

 

Uma chance em quatro. Era a fatia da linha franco-espanhola que atravessou o 21 de outubro de 1805 sem entrar de fato no combate: oito das trinta e três naus aliadas, a vanguarda do contra-almirante Pierre Dumanoir, ficaram longe do ponto de contato e viraram tarde demais para socorrer o centro que já tinha sido partido.

A conta explica o método que estava sendo testado naquele dia. Havia mais de um século a batalha naval europeia se resolvia por linha paralela: as duas frotas formavam colunas de proa a popa, corriam lado a lado no mesmo rumo e trocavam bordadas até que uma delas cedesse.

A formação era segura e quase estéril. Cada navio guardava o companheiro da frente e o de trás, nenhum ficava sozinho contra dois, e o resultado costumava ser um empate caro, com muitos mortos, muito casco furado e nenhuma frota destruída.

O ataque perpendicular inverte a lógica. Em vez de correr ao lado, o atacante aponta a proa para o meio da coluna inimiga, atravessa a linha em dois ou três pontos e transforma a batalha num amontoado de duelos curtos, em que os navios da retaguarda ficam presos contra os do centro enquanto a vanguarda navega para longe do tiroteio.

A conta desse ataque tem um lado ruim, e ele é pesado. Um navio que avança de proa não pode usar as peças das bordas, que ficam apontadas para o mar vazio, enquanto o inimigo formado de través despeja tudo o que tem contra a proa, o ponto do casco com menos madeira e menos gente para responder.

Naquela manhã, ao largo do cabo Trafalgar, o vento soprava fraco do oeste e a ondulação vinha grossa do Atlântico. As duas colunas britânicas avançaram a menos de três nós, e a distância entre o primeiro tiro aliado e o momento em que a proa britânica cruzou a linha levou perto de quarenta minutos.

Quarenta minutos de aproximação lenta, sem uma peça britânica capaz de responder, com o navio-almirante na ponta da coluna e sem ordem de reduzir o passo. O que aconteceu quando a primeira proa finalmente passou entre duas popas inimigas decidiu o resto do dia.

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I  A batalha de hoje

Quarenta minutos sem resposta ao largo de Cádis

O cabo Trafalgar fica no litoral atlântico da Andaluzia, entre Cádis e o estreito de Gibraltar, e em 1805 era apenas uma referência de navegação num trecho de mar aberto onde a costa vira para o sul.

A frota combinada da França e da Espanha não queria estar ali. Ela tinha saído de Cádis dois dias antes, sob ordens de Paris que mandavam levar tropas ao Mediterrâneo, com um comandante que já sabia estar prestes a ser substituído.

O contexto era a tentativa napoleônica de invadir a Inglaterra. O plano do imperador pedia que a frota francesa atraísse a esquadra britânica para o Caribe, voltasse antes dela e limpasse o canal da Mancha pelo tempo suficiente para a travessia das barcaças de invasão.

Em setembro, o bloqueio britânico se fechou diante do porto. Napoleão desistiu da invasão, virou o exército contra a Áustria e mandou a frota combinada para o Mediterrâneo, uma ordem que obrigava Villeneuve a sair do abrigo e cruzar um mar vigiado.

A ficha do confronto:

Data:21 de outubro de 1805, das onze e meia da manhã ao anoitecer
Local:ao largo do cabo Trafalgar, litoral atlântico da Espanha
Comando britânico:Horatio Nelson, com Cuthbert Collingwood na segunda coluna
Comando aliado:Pierre de Villeneuve, com Federico Gravina na esquadra espanhola
Duração:cerca de cinco horas do primeiro tiro ao fim do combate
Fator decisivo:o avanço em ângulo reto que partiu a linha inimiga em três pedaços

"A Inglaterra espera que cada homem cumpra o seu dever."

Horatio Nelson, no sinal de bandeiras içado na Victory antes do contato, 1805.

A frota britânica avistou os aliados na madrugada e formou duas colunas ainda no escuro. Nelson conduzia a de barlavento na Victory, apontada para o centro da linha inimiga; Collingwood levava a de sotavento na Royal Sovereign, apontada para a retaguarda.

Por volta do meio-dia a Royal Sovereign cruzou a linha pela popa do Santa Ana e disparou a primeira bordada de enfiada, um tiro que varre o navio inimigo de popa a proa por dentro, sem encontrar madeira grossa pela frente. Ela ficou sozinha contra vários adversários por quase quinze minutos, até o navio seguinte da coluna chegar.

A Victory passou pela popa do Bucentaure, o navio-almirante de Villeneuve, por volta de uma da tarde, e desmontou boa parte das peças dele com uma única passagem. Em seguida ficou engalfinhada com o Redoutable, casco contra casco, com as vergas presas umas nas outras.

Foi dali, do cesto de gávea do Redoutable, que partiu o tiro de mosquete que atingiu Nelson no ombro esquerdo por volta de uma e meia da tarde. Ele foi levado para o porão, continuou recebendo notícias do combate e resistiu até o fim da tarde, tempo suficiente para saber que a linha inimiga tinha sido rompida.

O combate virou uma sequência de duelos curtos, exatamente como o plano previa. Ao anoitecer, dezoito naus aliadas tinham sido capturadas ou destruídas, incluindo o Santísima Trinidad de quatro cobertas e o Bucentaure com o comandante aliado a bordo, e nenhum navio britânico havia baixado a bandeira.

 
 

II  Quem estava em campo

Trinta e três naus contra vinte e sete

As duas frotas chegaram ao cabo com uma diferença de tamanho a favor dos aliados, uma diferença de treino a favor dos britânicos, e opiniões opostas sobre o que uma linha de batalha bem formada é capaz de proteger.

Villeneuve alinhou trinta e três naus de linha, das quais quinze espanholas e dezoito francesas, mais cinco fragatas e dois brigues. O peso bruto de artilharia estava do lado dele, com mais de duas mil e seiscentas peças contra pouco menos de dois mil e duzentas na frota adversária.

Nelson levou vinte e sete naus de linha e quatro fragatas. A maior parte dos seus navios era de setenta e quatro peças, o modelo mais comum da guerra naval da época, e três deles eram de três cobertas, entre os quais a Victory, de cento e quatro peças.

"Os navios inimigos combateram com uma bravura que honra os seus oficiais."

Cuthbert Collingwood, no despacho oficial enviado ao Almirantado, 1805.

A diferença estava no tempo de mar. As tripulações britânicas vinham de dois anos de bloqueio contínuo, manobrando dia e noite diante de portos inimigos, enquanto boa parte das guarnições francesas e espanholas passara o mesmo período fundeada, sem poder treinar artilharia em movimento.

As tripulações espanholas tinham outro problema. Uma epidemia de febre amarela varreu Cádis e Andaluzia no ano anterior, e faltaram marinheiros experientes a ponto de vários navios embarcarem soldados de infantaria e recrutas sem prática para servir às peças.

O comando aliado estava dividido em dois idiomas e duas doutrinas. Villeneuve comandava o conjunto e desconfiava do plano que recebera; Federico Gravina liderava os espanhóis e defendia formação em duas linhas; Dumanoir ficou com a vanguarda e com ordens que dependiam de sinais que ele demorou a enxergar.

Entre os capitães espanhóis havia oficiais de primeira linha. Cosme Damián Churruca, do San Juan Nepomuceno, era matemático e cartógrafo, tinha levantado cartas do Caribe para a coroa espanhola e disse aos seus oficiais antes da saída que a frota estava sendo mandada ao mar contra o bom senso.

Do lado britânico, o comando era um grupo que se conhecia por dentro. Nelson tinha reunido os capitães a bordo da Victory duas vezes para explicar o ataque em pessoa, de modo que cada um soubesse o que fazer se a fumaça cortasse a comunicação por bandeiras no meio do combate.

 

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III  O plano

Dois arietes, o centro rompido e a vanguarda longe

O plano britânico: atravessar a linha inimiga em dois pontos, cortar o centro e a retaguarda do resto da frota e resolver a batalha em duelos próximos, onde o treino de artilharia e a experiência de mar pesavam mais do que o número de peças.

O plano aliado: manter a linha de batalha formada, aproveitar o peso de artilharia e a proximidade de Cádis, e devolver bordada por bordada até que o adversário desistisse do ataque.

A decisão que mudou a conta: aceitar levar tiro sem responder. Nelson trocou quarenta minutos de vulnerabilidade total por um contato em condições que a linha paralela nunca oferecia.

O primeiro passo foi escrever o ataque antes de ver o inimigo. Nelson distribuiu aos capitães um memorando com o esquema de avanço em colunas semanas antes do contato, e o documento dizia em texto que nenhum capitão erra muito se puser o seu navio ao lado de um navio inimigo.

O segundo foi dividir a frota em duas colunas de ataque. Uma delas, a de sotavento, sob Collingwood, apontava para a retaguarda inimiga; a outra, sob Nelson, apontava para o centro, e a terceira força prevista no memorando foi absorvida pelas duas porque faltaram navios.

O terceiro foi escolher o ponto de corte pela popa. A popa de uma nau de linha é a parte mais frágil do casco, com janelas em vez de madeira grossa, e um navio que passa rente a ela dispara toda a bordada para dentro do inimigo, de popa a proa, sem encontrar resistência.

O quarto foi aceitar a aproximação lenta. O vento fraco daquela manhã deixou as colunas a menos de três nós, o que multiplicou o tempo exposto ao fogo inimigo, e nenhuma ordem foi dada para adiar o contato até vento melhor.

O quinto foi isolar a vanguarda pelo desenho do ataque. Cortando o centro, os oito navios da frente ficaram com o combate pela popa e com o vento contra, e precisaram de manobra demorada para voltar, tempo que a batalha não devolveu.

O sexto foi o corte propriamente dito. A Royal Sovereign passou pela popa do Santa Ana pouco antes do meio-dia e a Victory pela popa do Bucentaure cerca de uma hora depois, cada uma com uma bordada de enfiada que tirou dezenas de peças inimigas de serviço numa passagem só.

O sétimo foi a virada tardia de Dumanoir. A vanguarda só conseguiu voltar por volta das três da tarde, encontrou o centro já rendido, trocou tiros de passagem com os navios britânicos que ainda tinham mastro e seguiu para o sul com quatro naus, capturadas duas semanas depois ao largo do cabo Ortegal.

Um ataque que aceita perder tempo debaixo de fogo compra em troca o tipo de contato em que o número de peças do adversário deixa de contar.

"Que dano você aceitaria levar sem revidar para pegar o adversário no lugar em que ele é frágil?"

Dumanoir passou ao largo.

 
 

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