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ED 024

As dezenove minas que mudaram a geografia

Em 7 de junho de 1917, os britânicos detonaram dezenove minas sob a crista de Messines às três da manhã, depois de quase dois anos de túneis.

Colunas de terra subindo sobre a crista de Messines na detonação das dezenove minas britânicas às três e dez da madrugada de 7 de junho de 1917.

A crista de Messines depois das minas

 

Guerra de trincheira é um problema de aritmética antes de ser um problema de coragem. Entre duas linhas enterradas existe uma faixa de terra aberta, e quem atravessa essa faixa em pé recebe fogo de metralhadora durante todo o percurso, sem ter onde se abrigar.

A conta não fecha por bravura. Um batalhão que sai da trincheira leva cerca de dois minutos para cruzar duzentos metros, e duas metralhadoras bem instaladas disparam mais de mil tiros nesses dois minutos. O ataque acaba no arame farpado, antes de chegar ao parapeito adversário.

A artilharia deveria resolver a parte do arame, e resolve pela metade. Bombardeio longo arrebenta a superfície, avisa o adversário da data aproximada e transforma o terreno em cratera, o que atrasa a própria infantaria que vai avançar por cima dele.

Sobrou um caminho que nenhuma metralhadora varre: por baixo. Terreno de argila azul aguenta galeria escorada, não desaba e abafa o som da picareta, e uma equipe treinada avança alguns metros por dia sem aparecer em nenhuma fotografia aérea.

O preço desse caminho é o calendário. Cavar centenas de metros de galeria a vinte e cinco metros de profundidade leva meses, e a galeria precisa ser guardada o tempo inteiro contra o adversário que também cava, também escuta e detona cargas pequenas só para desabar o túnel do vizinho.

A guerra subterrânea tem regras próprias. Ganha quem escuta melhor, quem mantém a galeria seca e bombeada, e quem consegue guardar um segredo por muito mais tempo do que qualquer exército costuma guardar um segredo.

O pagamento, quando vem, vem de uma vez só. Toneladas de explosivo empilhadas em câmaras sob a posição inimiga não fazem barulho nenhum durante meses e depois entregam, em poucos segundos, o efeito que dois anos de assalto frontal não entregaram.

Numa crista de vinte quilômetros na Flandres belga, o exército britânico decidiu fazer a conta por baixo e trabalhou quase dois anos para comprar uma única madrugada. O relógio dessa madrugada foi acertado com precisão de segundos, e o terreno que ele encontrou nunca mais voltou ao desenho anterior.

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I  A batalha de hoje

Um relógio marcado para as 3h10 na Flandres

Em 7 de junho de 1917, às três horas e dez minutos da madrugada, dezenove minas britânicas subiram quase ao mesmo tempo sob a crista de Messines, no sul da Flandres belga, e o estrondo foi registrado em Londres, a mais de duzentos quilômetros de distância.

As dezenove câmaras carregavam cerca de 455 toneladas de explosivo ammonal, empilhadas sob as posições alemãs ao longo de quinze quilômetros de frente, e algumas delas esperavam ali havia mais de um ano.

A crista de Messines e Wytschaete é uma elevação suave de pouco mais de oitenta metros, ao sul de Ypres. Não parece grande coisa num mapa de relevo, mas quem ocupa a crista enxerga o saliente de Ypres inteiro e corrige o tiro da própria artilharia olhando o alvo, em vez de calcular no escuro.

Os alemães tomaram a crista em 1914 e passaram dois anos e meio fortificando o terreno com concreto armado, abrigos profundos e três linhas de defesa escalonadas pela encosta.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Minas carregadas:21
Minas detonadas em 7 de junho:19
Explosivo acumulado:cerca de 455 toneladas
Peças de artilharia britânicas:cerca de 2.200
Bombardeio preliminar:17 dias
Divisões britânicas no assalto:9

Os números variam conforme a fonte, sobretudo o total de explosivo e o tamanho da guarnição alemã na crista. O que as versões concordam é na ordem de grandeza: nenhuma operação anterior tinha juntado tanta carga subterrânea num mesmo relógio.

O trabalho começou em 1915, com companhias de tunelamento dos Engenheiros Reais reforçadas por australianos, canadenses e neozelandeses. Muitos deles eram mineiros de carvão civis, recrutados pela habilidade e não pela instrução militar.

A técnica principal veio do metrô de Londres. O escavador trabalhava deitado de costas numa cruz de madeira, empurrando a pá com os pés contra a argila azul, um método silencioso o bastante para passar despercebido por escuta a poucos metros.

"O espetáculo mais diabolicamente esplêndido que já vi."

Philip Gibbs, correspondente de guerra britânico, em "From Bapaume to Passchendaele", 1918

Antes das minas veio o bombardeio: dezessete dias de fogo com cerca de três milhões e meio de projéteis, que arrasaram o arame e as posições de superfície sem revelar nada do que estava embaixo.

Quando as câmaras subiram, a infantaria já estava formada nas linhas de partida. Às cinco da manhã a primeira posição alemã tinha caído em quase toda a frente, e por volta das nove horas a crista inteira estava em mãos britânicas.

 
 

II  Quem estava em campo

Um general metódico contra uma linha na encosta errada

A operação foi conduzida por um comandante que preparava cada ataque como quem monta um relógio, e a data do assalto foi definida pelo ritmo dos túneis, não pela pressa do quartel-general.

Do lado britânico estava o Segundo Exército, do general Herbert Plumer, com o major-general Charles Harington como chefe de estado-maior. A dupla tinha reputação de lentidão calculada: nenhum ataque saía antes de a preparação estar completa.

Plumer não acreditava em avanço profundo. A doutrina da casa era morder e segurar: tomar um objetivo limitado, ao alcance da própria artilharia, e consolidar antes que o contra-ataque chegasse.

Por trás dos túneis havia um personagem improvável. John Norton-Griffiths, engenheiro civil e parlamentar, convenceu o Exército em 1915 a formar companhias de tunelamento com mineiros civis, e trouxe para a Flandres a técnica de escavação que ele usava em obras de esgoto e metrô.

Do outro lado estava o 4º Exército alemão, do general Friedrich Sixt von Armin, com o setor da crista sob o comando do general Maximilian von Laffert, do Grupo Wytschaete.

Os alemães sabiam da guerra de minas. Tinham suas próprias companhias de tunelamento, postos de escuta ao longo da crista e um histórico de cargas de contramina detonadas contra galerias britânicas.

"Não sei se amanhã faremos história, mas certamente vamos mudar a geografia."

Charles Harington, chefe de estado-maior do Segundo Exército britânico, aos correspondentes de guerra em 6 de junho de 1917

A leitura alemã do terreno tinha um problema de calendário. Von Laffert avaliava que o risco subterrâneo já havia passado, porque a atividade de escuta caíra nos meses anteriores e nenhuma mina britânica grande subira desde 1916.

A queda da atividade não significava abandono. As galerias principais estavam prontas e carregadas desde o ano anterior, e o trabalho tinha migrado para manutenção silenciosa, bombeamento de água e defesa das galerias contra escavação alemã.

Havia ainda uma discussão aberta no comando alemão sobre recuar a linha principal para a encosta reversa, longe do alcance direto da artilharia britânica. A proposta existia, foi debatida e não foi executada a tempo.

As duas apostas eram claras. Von Laffert apostava que a crista fortificada, com concreto e três linhas escalonadas, absorveria qualquer assalto britânico como havia absorvido os anteriores.

Plumer apostava numa coisa diferente: que a primeira linha alemã deixaria de existir fisicamente antes de o primeiro soldado britânico sair da trincheira, e que a infantaria só teria de caminhar até um terreno já vazio e ocupá-lo antes do contra-ataque.

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III  O plano

Cavar por dois anos para atacar por dez segundos

O plano britânico: detonar todas as minas no mesmo instante, avançar imediatamente atrás de uma barragem de artilharia e parar no topo da crista, sem tentar explorar o sucesso além do alcance das próprias peças.

O plano alemão: segurar a crista com defesa em profundidade, apoiada em concreto e contra-ataques de divisões de reserva posicionadas atrás da encosta.

A decisão que mudou a conta: aceitar dois anos de escavação e um objetivo geograficamente modesto, em troca de um assalto que começaria contra uma linha inexistente.

O primeiro passo foi escolher o terreno pela geologia. As galerias desceram até a camada de argila azul da Flandres, abaixo das areias encharcadas, e ali ganharam estabilidade e silêncio ao mesmo tempo.

O segundo foi trocar picareta por pé. O método de escavação deitado permitia avançar com pouco impacto sonoro, o que importava mais do que velocidade numa frente vigiada por postos de escuta dos dois lados.

O terceiro foi guardar as galerias. Boa parte do esforço subterrâneo não foi cavar em direção ao inimigo, e sim manter galerias falsas, bombear água e detonar pequenas cargas defensivas para desabar túneis alemães que se aproximavam.

O quarto foi carregar cedo e esperar. Várias câmaras ficaram prontas em 1916, carregadas e seladas, e permaneceram assim por mais de um ano, com inspeções periódicas para verificar umidade e continuidade dos cabos de detonação.

O quinto foi bombardear sem revelar. Dezessete dias de fogo pesado destruíram arame e trincheiras na superfície e, de quebra, deram ao comando alemão uma explicação convencional para o que estava sendo preparado.

O sexto foi sincronizar os disparos. As dezenove cargas foram acionadas dentro de uma janela de poucos segundos, para que nenhum setor alemão tivesse tempo de reagir enquanto o vizinho ainda estava intacto.

O sétimo foi mover a infantaria colada na barragem. As nove divisões atacantes avançaram atrás de uma cortina de fogo que caminhava em passos cronometrados, chegando às posições enquanto a poeira ainda não tinha assentado.

O oitavo foi parar no objetivo. Alcançada a linha do topo, as tropas cavaram, instalaram metralhadoras e esperaram, em vez de descer a encosta oposta atrás de terreno adicional.

O nono foi receber o contra-ataque em posição pronta. As reservas alemãs subiram ao longo do dia e encontraram infantaria consolidada, artilharia já registrada no novo terreno e nenhuma coluna exposta em movimento.

Duas das vinte e uma minas não foram detonadas. Uma delas veio à tona em 1955, atingida por um raio, num campo onde não havia ninguém; a outra permanece perdida sob a Flandres até hoje.

Do desenho do terreno restaram as crateras. A de Spanbroekmolen, com mais de setenta metros de diâmetro, virou lago permanente e hoje é conhecida como Pool of Peace, visitada como memorial.

Messines não foi vencida no dia 7 de junho de 1917, foi vencida nos vinte meses anteriores, por equipes que trabalhavam deitadas, no escuro, sem produzir nenhum resultado visível no mapa.

O detalhe que arruína a leitura fácil é que a operação foi um sucesso tático limitado por decisão própria. O exército britânico parou no topo, e a ofensiva grande que veio depois, na mesma região, custou meses e não repetiu o resultado.

A régua serve fora da Flandres. Preparação invisível não aparece em relatório de progresso enquanto está acontecendo, e é exatamente ela que decide qual ataque começa contra uma posição fortificada e qual começa contra terreno vazio.

"O que você está construindo agora aparece em relatório nenhum, ou você só considera trabalho aquilo que dá para mostrar hoje?"

 
 
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