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As catapultas que limparam a ponte do Sajó
Em abril de 1241, os mongóis bateram na ponte com máquinas de arremesso enquanto outra coluna cruzava o rio ao sul e fechava o cerco.
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Rio Sajó, abril de 1241
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Uma passagem em todo o trecho de rio que o acampamento conseguia vigiar. O Sajó descia cheio no começo de abril de 1241, fundo demais para cavalaria pesada em armadura, e o exército do rei Béla IV da Hungria pendurou a defesa inteira numa única ponte de madeira, com uma guarda de mil homens escalada para a noite, segundo Rogério de Várad no Carmen Miserabile (Canto Lamentoso), relato escrito por volta de 1244 por quem foi capturado na campanha e escapou.
Quem dormia daquele lado do rio acreditava estar do lado seguro da conta. O acampamento húngaro ficava na planície de Mohi, na margem oeste, com as carroças encostadas umas nas outras em círculo e as cordas das tendas emendadas, num aperto que Tomás de Split descreve na Historia Salonitana como um curral de gente.
Aquele aperto foi escolha de comando, não descuido de tropa. A concentração servia para impedir deserção durante a noite e para manter cavaleiros e infantes ao alcance da voz dos capitães, e funcionou exatamente ao contrário quando o inimigo não precisou mais procurar alvo: bastava atirar para dentro do círculo.
O reino tinha perdido semanas antes a única cavalaria capaz de responder na mesma moeda. Köten, líder dos cumanos acolhidos por Béla IV em 1239, foi morto por uma multidão em Pest sob acusação de espionagem a favor do invasor, e os cumanos saíram da Hungria saqueando o caminho para o sul, levando embora os arqueiros a cavalo do rei.
Do outro lado do Sajó estava um exército que fazia aquela guerra havia trinta anos. Batu, neto de Gêngis Khan, comandava a campanha do oeste com Subutai como general de campo, o mesmo oficial que conduzira colunas pela Ásia Central, pelo Cáucaso e pelas estepes russas, e a força trazia engenheiros e máquinas de arremesso aprendidos nas guerras contra o norte da China.
A primeira seção mostra o que aconteceu naquela ponte antes do amanhecer, e por que segurar a passagem não decidiu nada.
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I A batalha de hoje
A ponte limpa antes do amanhecer
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Béla IV, rei da Hungria desde 1235, marchou de Pest com o exército do reino e acampou na planície de Mohi, perto da confluência do Sajó com o Hernád, no atual nordeste da Hungria, em 10 de abril de 1241.
A posição parecia boa no papel. O rio corria entre o acampamento e os mongóis, a única travessia próxima era a ponte de madeira, e um destacamento grande guardava aquele estreito enquanto o resto da força dormia atrás das carroças.
A ficha do confronto:
| Data: | 11 de abril de 1241, com o ataque começando ainda no escuro |
| Local: | planície de Mohi, margem oeste do rio Sajó, nordeste da Hungria |
| Comando húngaro: | o rei Béla IV, o irmão Kálmán, duque da Eslavônia, e Ugrin Csák, arcebispo de Kalocsa |
| Comando mongol: | Batu, neto de Gêngis Khan, com Subutai no campo e colunas sob Shiban e Kadan |
| Efetivos: | disputados; as cifras dos cronistas do século XIII não têm confirmação documental e os cálculos modernos variam muito para os dois lados |
| Fontes do episódio: | Rogério de Várad, Carmen Miserabile (c. 1244), e Tomás de Split, Historia Salonitana (meados do século XIII) |
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"Os tártaros não os cercaram por todos os lados, mas deixaram uma passagem aberta."
Tomás de Split, Historia Salonitana, meados do século XIII.
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O ataque começou pela frente, e de longe. As máquinas de arremesso mongóis, engenharia de cerco usada em campo aberto, bateram na cabeça de ponte com pedra e com projétil incendiário até a guarda húngara ceder terreno, e a coluna de Batu passou por cima da madeira limpa.
Aquela não era a única travessia daquela noite, e é esse o ponto que o destacamento da ponte não tinha como saber. Enquanto a guarda apanhava de frente, a coluna de Subutai atravessava o Sajó mais ao sul, por uma passagem improvisada, para aparecer na retaguarda do acampamento.
A reação húngara veio rápida e voltou cedo. Kálmán e o arcebispo Ugrin Csák saíram com tropa montada, empurraram os primeiros que cruzaram e chegaram a contê-los, mas voltaram ao acampamento para reforço e encontraram uma parte do exército ainda nas tendas, sem armadura e sem ordem de formar.
A segunda investida achou o inimigo em número maior. A coluna do sul já tinha completado a volta, os mongóis fecharam o anel em torno das carroças e passaram a atirar para dentro do círculo, onde cavalo, carroça e homem ocupavam o mesmo espaço.
Rogério de Várad descreve o efeito do fogo naquele espaço fechado: projétil incendiário caindo entre tendas de pano, cavalos soltos derrubando o que restava de formação e uma tropa que não conseguia se organizar para uma carga porque não tinha campo para tomar impulso.
O cerco durou a manhã inteira e não precisou de assalto final. Faltava água, faltava saída e faltava ordem, e o que decidiu a batalha foi a abertura deixada de propósito no anel, do lado que dava para o pântano e para a estrada de Pest.
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II Quem estava em campo
O rei sem os arqueiros cumanos
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Os dois exércitos chegaram ao Sajó com preparos opostos: a Hungria juntava cavalaria pesada de nobres, contingentes de bispos e infantaria de aldeia reunida às pressas, e a força mongol era um corpo profissional de arqueiros montados com estrutura de comando decimal e engenheiros de cerco agregados.
O exército húngaro tinha sido montado em poucas semanas. Béla IV convocou a nobreza em março, e boa parte dela chegou sem entusiasmo, porque o rei passara os primeiros anos de reinado retomando terras da coroa doadas pelo pai e mandara queimar as cadeiras dos barões na sala do conselho.
A cavalaria pesada era boa no choque e ruim na perseguição. Cavaleiro em cota de malha, com lança e montaria encouraçada, vence contato direto e não alcança arqueiro montado que atira para trás em galope e recua sem aceitar a colisão.
A perda dos cumanos tirou a única resposta possível. Aqueles quarenta mil recém-chegados, contados por família e não por combatente nas fontes do período, lutavam do mesmo jeito que o invasor, e a morte de Köten em Pest empurrou o grupo inteiro para fora do reino semanas antes da campanha.
O lado mongol do rio
A força do oeste era a ponta de um império em expansão contínua. Batu comandava o ulus ocidental (parcela de território e de tropa herdada da família), e Subutai, então com mais de sessenta anos, tinha por trás campanhas contra o império Jin, contra o Corásmio e contra os principados russos, que caíram entre 1237 e 1240.
O corpo se movia dividido para atacar junto. Uma coluna sob Kadan e outra sob Baidar entraram pela Polônia e derrotaram o duque Henrique II da Silésia em Legnica em 9 de abril, dois dias antes do Sajó, o que impediu qualquer socorro vindo do norte para a Hungria.
Os engenheiros vinham junto e mudavam o cálculo. As máquinas de arremesso que abriram a ponte foram aprendidas nas guerras do norte da China, e nenhum comandante europeu daquela geração esperava artilharia de cerco empregada contra uma guarda de travessia em campo aberto.
A informação também chegou antes, e isso pesou tanto quanto a flecha: os mongóis conheciam o terreno, os vaus e a disposição do acampamento por batedores e por prisioneiros, enquanto o comando húngaro descobriu a travessia do sul depois de ela estar feita.
Do lado húngaro houve aviso ignorado. Rogério de Várad registra que um desertor vindo do campo inimigo avisou o rei sobre o ataque noturno pela ponte, e a informação chegou a tempo de armar o destacamento, mas não de considerar a hipótese de uma segunda coluna cruzando rio abaixo.
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