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As barcaças que desceram o rio até Quebec sem remar

Em setembro de 1759, James Wolfe usou a maré vazante e um oficial que falava francês para chegar ao pé do penhasco do Foulon.

Barcaças britânicas descendo o São Lourenço rumo ao Foulon, 1759

Barcaças britânicas no São Lourenço, 1759

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Uma resposta errada em 2 perguntas. Era a margem que separava cerca de 1.700 soldados britânicos, sentados no escuro em barcaças de fundo chato, de um tiro de alarme na margem norte do rio São Lourenço, perto de Quebec, na madrugada de 13 de setembro de 1759.

As barcaças tinham saído por volta das 2 horas da manhã dos navios ancorados rio acima, perto de Cap-Rouge. Ninguém remava. A maré vazante (a descida da água quando o mar recua) puxava o rio para o Atlântico e levava os barcos junto, sem barulho de pá na água.

Na barcaça da frente ia o general James Wolfe, 32 anos, comandante do exército britânico que cercava Quebec desde o fim de junho. Três meses de cerco não tinham aberto a cidade, e o outono do Canadá já esfriava as noites.

O destino era a Anse au Foulon (a enseada do Foulon), uma prainha estreita a uns 3 quilômetros da muralha de Quebec. Dali, uma trilha subia o penhasco de cerca de 53 metros até um planalto de pasto chamado Planícies de Abraão.

Ao longo da margem, os franceses mantinham postos de vigia. Naquela noite, as sentinelas esperavam barcos passando: um comboio de mantimentos vindo de rio acima, com farinha e carne para a cidade cercada.

O comboio tinha sido cancelado. Ninguém avisou as sentinelas.

No escuro, uma voz gritou da margem: “Qui vive?” (Quem vem lá?). Um capitão escocês das Terras Altas, que tinha servido no exército holandês e falava francês, respondeu sem hesitar que era a França. A sentinela perguntou de qual regimento. Ele citou um regimento francês que de fato estava rio acima.

Mais adiante, um segundo vigia gritou. O mesmo oficial respondeu que eram barcos de mantimentos e pediu silêncio, para os ingleses não ouvirem.

A sentinela deixou passar.

Ao amanhecer, os britânicos estavam formados no alto do penhasco. A seguir, a ficha da batalha, quem comandava cada exército e o plano que levou Wolfe até ali.

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I  A batalha de hoje

Quinze minutos no pasto

A Batalha das Planícies de Abraão foi travada em 13 de setembro de 1759, no planalto a oeste da cidade de Quebec, no atual Canadá, durante a Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763). Opôs o exército britânico de James Wolfe ao exército francês de Louis-Joseph de Montcalm.

Nas Planícies de Abraão, a França perdeu em menos de meia hora a capital do Canadá francês.

A ficha do confronto:

Data:13 de setembro de 1759
Local:Quebec, Canadá
Lado britânico:James Wolfe
Lado francês:Montcalm
Desfecho:vitória britânica
Guerra:Guerra dos Sete Anos

A primeira barcaça encostou na prainha um pouco a jusante (rio abaixo) do ponto planejado. Vinte e quatro voluntários da infantaria leve, sob o coronel William Howe, subiram o paredão agarrados em raízes e arbustos, por fora da trilha.

No topo, o posto francês era comandado pelo capitão Louis Du Pont Duchambon de Vergor. Ele tinha uns 100 homens, e parte da milícia (soldados civis convocados) estava em casa, com licença para colher o trigo. Os voluntários de Howe pegaram o posto de surpresa, e Vergor saiu ferido e preso.

Com a trilha livre, as barcaças voltaram aos navios para buscar mais gente. Até as 8 horas, cerca de 4.400 britânicos estavam em linha no planalto, de costas para o rio e de frente para a cidade.

Montcalm estava acampado em Beauport, a leste de Quebec, onde esperava o ataque havia semanas. Recebeu a notícia ao amanhecer, atravessou a cidade com as tropas e decidiu atacar sem esperar o reforço que vinha de Cap-Rouge.

Por volta das 10 horas, cerca de 4.500 franceses avançaram, misturando soldados regulares e milicianos. A linha francesa se desfez na marcha: os milicianos paravam para atirar e deitavam no chão para recarregar, e os regulares seguiam em frente.

Os britânicos esperaram. Wolfe tinha mandado pôr 2 balas em cada mosquete, e a ordem era só atirar a cerca de 40 metros. A descarga saiu quase ao mesmo tempo ao longo da linha, e a frente francesa quebrou.

A luta durou cerca de 15 minutos. Wolfe levou um tiro no pulso, outro no corpo e caiu. Morreu no campo, depois de ouvir que os franceses fugiam.

Montcalm foi atingido na retirada, montado a cavalo, e entrou ferido pela porta de Saint-Louis. Não passou da manhã seguinte. Cada lado teve perto de 650 homens fora de combate.

Quebec se rendeu em 18 de setembro. Montreal caiu um ano depois, e em 1763 o Tratado de Paris entregou o Canadá francês à Grã-Bretanha.

 
 

II  Quem estava em campo

Dois generais longe de casa

Nas Planícies de Abraão, os dois comandantes caíram no mesmo campo e na mesma manhã.

James Wolfe nasceu em 1727 em Westerham, no condado de Kent, na Inglaterra, filho de um oficial do exército. Entrou na tropa aos 14 anos e lutou na Europa e na Escócia antes dos 20.

O general doente

Wolfe era magro, ruivo e vivia doente. No verão de 1759, febres e dores nos rins o deixaram de cama por dias, e ele escrevia cartas de quem achava que não voltaria para casa.

Em 1758, ajudou a tomar a fortaleza de Louisbourg, na ilha do Cabo Bretão, e ganhou do primeiro-ministro William Pitt o comando contra Quebec. Tinha só 32 anos e passou por cima de oficiais mais velhos.

Na véspera do desembarque, segundo o relato de John Robison, aluno de marinha que estava num dos barcos, Wolfe recitou versos da “Elegia escrita num cemitério de aldeia”, do poeta inglês Thomas Gray, publicada em 1751: “The paths of glory lead but to the grave” (os caminhos da glória levam apenas ao túmulo).

O marquês do sul da França

Louis-Joseph de Montcalm-Gozon, marquês de Montcalm, nasceu em 1712 no castelo de Candiac, perto de Nîmes, no sul da França. Chegou ao Canadá em 1756 e ganhou batalhas seguidas, como a de Carillon, em 1758, contra um exército britânico bem maior.

Montcalm vivia em atrito com o governador Pierre de Rigaud, marquês de Vaudreuil, nascido no próprio Canadá. Vaudreuil confiava na milícia e nos aliados indígenas; Montcalm queria uma guerra de soldados europeus, em linha. Os dois mandavam cartas a Versalhes acusando um ao outro.

O coronel que ficou rio acima

Louis-Antoine de Bougainville comandava cerca de 3.000 homens em Cap-Rouge, encarregados de vigiar a margem norte rio acima. Era ele quem tinha marcado o comboio de mantimentos daquela noite.

Na manhã da batalha, Bougainville só soube do desembarque tarde, e chegou ao campo quando os franceses já tinham recuado para dentro da muralha. Anos depois, virou navegador e deu a volta ao mundo entre 1766 e 1769.

O destino de cada um

Vergor foi julgado por um conselho de guerra pelo posto perdido e saiu absolvido.

Vaudreuil entregou Montreal aos britânicos em 1760 e voltou à França. Ficou preso na Bastilha durante o processo sobre a corrupção na administração da colônia e foi absolvido em 1763.

 

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III  O plano

A trilha que ninguém vigiava

O plano francês: segurar a margem norte até o inverno fechar o rio e obrigar a frota britânica a partir.

O plano britânico: pôr o exército em terra firme entre Quebec e as estradas de abastecimento.

A decisão que mudou a conta: desembarcar no Foulon, onde o penhasco parecia alto demais para alguém subir.

Wolfe tinha tentado o caminho óbvio em 31 de julho, num ataque às margens de Montmorency, a leste de Beauport. Perdeu cerca de 440 homens no barro e na chuva, e não chegou ao alto da encosta.

Em agosto, a frota do almirante Charles Saunders levou navios rio acima, passando sob os canhões da cidade. Os franceses tiveram de espalhar tropas ao longo de dezenas de quilômetros de margem, e foi nessa folga que o Foulon ficou fraco.

O plano britânico seguiu em 5 passos:

1. Espalhar navios rio acima e rio abaixo, para Montcalm não saber onde viria o golpe.

2. Na noite do dia 12, mandar os barcos de Saunders fazerem barulho na frente de Beauport, como se o desembarque fosse ali.

3. Soltar as barcaças na maré vazante, sem remar, para descerem em silêncio até o Foulon.

4. Responder às sentinelas em francês, com o regimento certo e a história do comboio de mantimentos.

5. Subir os voluntários de Howe primeiro, tomar o posto de Vergor e só então trazer o grosso do exército.

O passo 2 funcionou. Montcalm passou a noite em Beauport, olhando os barcos de Saunders, e manteve a maior parte das tropas a leste da cidade.

O passo 4 dependia de sorte. O comboio de mantimentos era real e tinha sido cancelado poucas horas antes, e a notícia não desceu pela margem até os postos de vigia.

O diário do capitão John Knox, oficial britânico que publicou em 1769 o relato da campanha, conta a troca com as sentinelas. Os nomes do oficial que respondeu variam entre os relatos: Simon Fraser em uns, Donald McDonald em outros, ambos capitães do regimento escocês de Fraser.

Montcalm ainda tinha uma saída: esperar atrás da muralha e chamar Bougainville para atacar os britânicos pelas costas. Escolheu atacar logo, com medo de que Wolfe cavasse trincheiras e trouxesse canhões até o planalto.

“Onde os dois generais foram enterrados?”

Montcalm, num buraco que uma bomba britânica abriu no chão da capela das Ursulinas, em Quebec.

Wolfe, em Greenwich.

 
 
Quiz da edição

Quantas balas Wolfe mandou carregar em cada mosquete britânico antes da descarga que quebrou a linha francesa?

A1 bala
B2 balas
C3 balas
D4 balas

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