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As 3 subidas de Lorencez no morro de Guadalupe

Em maio de 1862, em Puebla, a artilharia francesa atirou longe demais e a chuva da tarde virou a encosta em lama.

Zuavos franceses subindo na lama o morro de Guadalupe, Puebla, 1862

Zuavos no morro de Guadalupe, Puebla, 1862

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Um em cada 13. Foi a parte do exército francês que ficou caída na encosta do morro de Guadalupe, em Puebla, no México, na tarde de 5 de maio de 1862. Para o soldado que subia, a chance de chegar vivo ao fosso do forte dependia de a artilharia ter aberto a muralha antes. Ela não tinha aberto.

O general Charles Ferdinand Latrille, conde de Lorencez, chegou diante da cidade pela manhã com cerca de 6.000 homens. Comandava a força que o imperador Napoleão III mandara ao México, e a estrada para a capital passava por Puebla.

Ao norte da cidade, dois fortes coroavam o morro: Loreto e Guadalupe, este erguido em volta de uma igreja antiga. Os mexicanos tinham cavado fossos, empilhado sacos de terra e posto canhões nas muralhas.

Lorencez escolheu Guadalupe. Mandou a artilharia abrir fogo de uma posição longe demais do alvo. As balas caíam na encosta ou batiam na pedra sem abrir brecha.

Depois de quase uma hora de bombardeio, metade da munição dos canhões tinha ido embora. O muro continuava de pé.

Os zuavos (infantaria francesa de calças largas, nascida na Argélia) subiram mesmo assim. A encosta era de pedra solta e capim, aberta aos tiros dos dois fortes. Chegaram perto do fosso, alguns com escadas nas costas, e voltaram.

Lorencez mandou subir de novo. Depois, uma terceira vez.

Pelas 3 da tarde, o céu fechou sobre Puebla. A chuva de maio, que no planalto mexicano cai pesada e curta, desabou em cima dos homens na encosta. A terra virou lama, e quem tentava subir escorregava para trás com o fuzil na mão.

Foi nessa hora que a cavalaria mexicana saiu de trás dos fortes.

Os lanceiros desceram pelos dois lados do morro contra uma infantaria que mal ficava de pé. Os franceses recuaram até a planície, carregando os feridos pela lama.

À noite, Lorencez estava de volta ao acampamento, fora do alcance dos canhões mexicanos. A estrada para a capital seguia fechada.

A seguir, a ficha do combate, os homens que estavam no morro e a ordem que Lorencez repetiu três vezes.

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I  A batalha de hoje

Uma tarde de lama em Puebla

A Batalha de Puebla foi travada em 5 de maio de 1862, nos morros ao norte da cidade de Puebla, a uns 130 quilômetros da Cidade do México, durante a Intervenção Francesa no México (1861 a 1867). Opôs o corpo expedicionário francês do conde de Lorencez ao Exército do Oriente, do general mexicano Ignacio Zaragoza.

Em Puebla, o exército tido como o melhor da Europa recuou diante de uma tropa montada às pressas.

A ficha do confronto:

Data:5 de maio de 1862
Local:Puebla, México

Lado francês: Lorencez

Lado mexicano:Ignacio Zaragoza
Desfecho:vitória mexicana
Guerra:Intervenção Francesa

A guerra começou por dinheiro. Em julho de 1861, o presidente Benito Juárez suspendeu por dois anos o pagamento da dívida externa do México, quebrado depois de três anos de guerra civil.

França, Espanha e Grã-Bretanha mandaram tropas para cobrar. Os espanhóis e os britânicos fecharam acordo com Juárez e foram embora em abril de 1862. Os franceses ficaram, porque Napoleão III queria um governo amigo no México.

Zaragoza tinha menos gente. Os números variam entre os relatos, mas o lado mexicano juntava uns 4.500 homens, muitos deles guardas nacionais (milícia de civis armados) recém-chegados das serras.

Ele pôs parte da tropa dentro dos fortes de Loreto e Guadalupe. O grosso ficou na planície, entre o morro e a cidade, cobrindo a estrada.

O primeiro assalto francês saiu pouco antes do meio-dia. Os zuavos subiram em colunas direto contra Guadalupe, enquanto Loreto atirava de lado contra eles.

Uma coluna francesa tentou contornar o morro pela direita, rumo à cidade. Encontrou na planície a brigada do general Porfirio Díaz, que a empurrou de volta.

Na terceira subida, alguns soldados chegaram a pôr escadas no muro de Guadalupe. Foram derrubados lá de cima. Logo depois veio a chuva, e com ela a carga dos lanceiros mexicanos.

Lorencez ficou dois dias na frente da cidade, esperando que Zaragoza descesse para lutar no plano. Zaragoza não desceu. Em 8 de maio, os franceses marcharam de volta para Orizaba, perto da costa.

No relatório do próprio Lorencez, as baixas francesas passavam de 470 homens. O parte (relatório oficial) de Zaragoza contou 83 mortos e 132 feridos do lado mexicano.

Ainda na tarde da batalha, Zaragoza telegrafou ao ministro da Guerra, Miguel Blanco: “Las armas del Supremo Gobierno se han cubierto de gloria” (as armas do Supremo Governo se cobriram de glória).

O 5 de maio virou feriado nacional no México, e a data passou a ser celebrada também pelos mexicanos nos Estados Unidos.

 
 

II  Quem estava em campo

O general de 33 anos

Em Puebla, o vencedor tinha nascido no Texas e não chegou ao fim daquele ano.

Ignacio Zaragoza Seguín nasceu em 24 de março de 1829 em Bahía del Espíritu Santo, um povoado que era México na época e hoje é a cidade de Goliad, no Texas. A família se mudou para o sul quando o Texas se separou do México.

O liberal de Juárez

Zaragoza entrou na guarda nacional em Nuevo León e lutou do lado liberal na Guerra da Reforma (1858 a 1861), a guerra civil entre os liberais de Juárez e os conservadores.

Em 1861, foi ministro da Guerra de Juárez. Largou o cargo para comandar o Exército do Oriente, que tinha a tarefa de barrar os franceses na estrada da costa. Em Puebla, tinha 33 anos.

O conde da Crimeia

Charles Ferdinand Latrille, conde de Lorencez, nasceu em 1814, filho de um general de Napoleão I. Lutou na Argélia e na Guerra da Crimeia (1853 a 1856), no cerco de Sebastopol.

Ele desprezava o adversário e escreveu o que pensava. Em carta de 26 de abril de 1862 ao marechal Randon, ministro da Guerra da França, Lorencez afirmou: “Somos tão superiores aos mexicanos em raça, em organização, em disciplina, em moralidade e em elevação de sentimentos que peço a Vossa Excelência dizer ao imperador que, à frente de 6.000 soldados, já sou senhor do México”.

O conselheiro mexicano

Com os franceses marchava Juan Nepomuceno Almonte, general mexicano conservador que queria derrubar Juárez. Almonte garantiu a Lorencez que Puebla era cidade conservadora e que o povo abriria as portas para os franceses.

Ninguém abriu porta nenhuma. Os conservadores de Puebla ficaram em casa durante o combate.

Os homens da serra

Nos fortes lutaram batalhões de guardas nacionais da Serra Norte de Puebla, de Zacapoaxtla, Tetela e Xochiapulco, muitos deles indígenas nahuas (povo de língua náhuatle, a dos astecas). A memória da cidade guarda os zacapoaxtlas descendo o morro de facão contra os zuavos; os relatos oficiais confirmam a presença deles na defesa, mas não detalham as armas que levavam.

Porfirio Díaz, o comandante da brigada da planície, tinha 31 anos. Anos depois, governou o México como presidente de 1876 a 1911, com um intervalo curto.

O que veio depois

Zaragoza pegou febre tifoide (infecção transmitida por piolho, comum nos acampamentos) e não resistiu, em 8 de setembro de 1862, na cidade de Puebla. A cidade passou a se chamar Puebla de Zaragoza.

Lorencez foi substituído pelo general Élie Forey e voltou para a França.

 

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III  O plano

Canhões longe do muro

O plano francês: tomar o forte de Guadalupe, o ponto mais alto, e deixar a cidade sem defesa embaixo dele.

O plano mexicano: segurar os fortes do morro e a planície, sem descer para o campo aberto.

A decisão que virou o jogo: atacar Guadalupe de frente, com canhões leves atirando de longe.

Lorencez tinha outra opção. Oficiais do estado-maior sugeriram atacar pelo sul e pelo leste, onde a cidade tinha menos muralha. Ele recusou: tomado o morro, achava ele, Puebla cairia sozinha.

O plano francês seguiu em 4 passos:

1. Bombardear Guadalupe até abrir uma brecha na muralha.

2. Subir os zuavos em colunas pela encosta e entrar pela brecha.

3. Mandar uma coluna contornar o morro para isolar a cidade.

4. Esperar que os conservadores de Puebla se levantassem contra Zaragoza.

O passo 1 falhou primeiro. A artilharia francesa era de campanha, com canhões leves feitos para atirar em tropa no campo, não para derrubar pedra. Posta longe do forte, gastou metade da munição sem abrir brecha.

O passo 2 dependia do 1. Sem brecha, os zuavos chegavam ao fosso e não tinham por onde entrar, sob fogo de Guadalupe pela frente e de Loreto pelo lado.

O passo 3 encontrou Porfirio Díaz na planície. O passo 4 dependia de Almonte, e a cidade não se mexeu.

Restava a chuva. A estação das águas no planalto mexicano começa em maio, e as tempestades costumam cair no meio da tarde. Os franceses atacaram com o céu já carregado.

Quando a água desceu, a encosta de terra virou lama, e as colunas que subiam pela terceira vez perderam o pé. Os lanceiros mexicanos saíram dos dois lados do morro e pegaram a infantaria parada no barro.

Zaragoza também errou num ponto: não perseguiu os franceses na retirada. Achou arriscado sair dos fortes com tropa cansada contra um exército que ainda tinha a maior parte dos homens inteiros.

“Quanto tempo a França levou para entrar em Puebla?”

Um ano e 12 dias. Élie Forey cercou a cidade em março de 1863 com cerca de 26.000 homens, e Puebla se rendeu em 17 de maio.

Lorencez já não estava lá.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que aconteceu por volta das 3 da tarde em Puebla, durante a terceira subida francesa ao morro?

AA artilharia francesa finalmente abriu uma brecha no muro de Guadalupe
BChegou um reforço francês vindo de Orizaba
CO céu fechou, a chuva virou a encosta em lama e a cavalaria mexicana atacou
DLorencez ordenou a retirada imediata para a Cidade do México

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