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A reserva deu as costas a Romano IV

Em 1071, perto do lago Van, Romano IV mandou o exército voltar ao pôr do sol, com a reserva nas mãos da família rival.

Mapa de mesa da batalha de Manziquerta, 1071, com peças de madeira e a seta da reserva bizantina recuando

Manziquerta, Armênia, 1071

▼
 

Um imperador em 811 anos. Era a conta dos soberanos de Roma presos vivos por um rei estrangeiro desde 260, quando o persa Sapor I capturou o imperador Valeriano perto de Edessa. Com essa conta, quem governava Bizâncio (o Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla) podia ir à guerra em pessoa e arriscar uma flecha. A corrente parecia fora do cálculo.

Romano IV Diógenes, imperador desde 1068, fez essa aposta na manhã de 26 de agosto de 1071, uma sexta-feira, numa planície perto da fortaleza de Manziquerta, ao norte do lago Van, na Armênia. Montou à frente do exército contra Alp Arslan, sultão dos seljúcidas, a dinastia turca que governava da Ásia Central ao Iraque.

O sultão quis lutar na sexta. Segundo o cronista árabe Ibn al-Athir (1160-1233), um conselheiro religioso lembrou que, nesse dia, os pregadores rezariam pelos combatentes na oração do meio-dia. Alp Arslan vestiu branco, passou no corpo o perfume usado para preparar os mortos e avisou os oficiais que aquela roupa serviria de mortalha se ele caísse.

Do lado bizantino, o exército formou em duas linhas. Na primeira, o imperador ficava no centro, com Nicéforo Briênio na ala esquerda e Teodoro Aliates na direita. Bem atrás vinha a segunda linha, a reserva, com uma tarefa só: proteger as costas e os flancos da primeira se ela precisasse girar.

A reserva estava com Andrônico Ducas, sobrinho do imperador anterior e filho do homem que mais queria Romano fora do trono. Na leitura mais comum dos historiadores, a escolha era uma garantia de corte: com o filho do adversário dentro do exército, o pai pensaria duas vezes antes de tramar na capital. No campo, ela punha a retaguarda do imperador nas mãos de um Ducas.

Aqui embaixo, a fronteira que os turcos atravessavam todo verão, os homens dos dois lados e o dia em que a segunda linha decidiu a batalha sem combater.

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I  A batalha de hoje

Uma fronteira aberta todo verão

A Batalha de Manziquerta opôs o exército do Império Bizantino, comandado pelo imperador Romano IV Diógenes, ao exército do Império Seljúcida, comandado pelo sultão Alp Arslan. Aconteceu em 26 de agosto de 1071, perto da fortaleza de Manziquerta, hoje a cidade de Malazgirt, na província de Muş, no leste da Turquia, e terminou com vitória seljúcida e o imperador preso.

Em Manziquerta, a derrota nasceu de uma retirada mal lida, e o preço maior veio depois, na briga pelo trono que abriu a Anatólia aos turcos.

A ficha da batalha:

Data:26 de agosto, 1071
Local:Manziquerta, Armênia
Bizantinos:Romano IV Diógenes
Seljúcidas:Alp Arslan
Reserva bizantina:Andrônico Ducas
Duração:um dia
Desfecho:vitória seljúcida

Os seljúcidas eram um clã turco das estepes da Ásia Central convertido ao islã sunita. Em 1055, Tughril, tio de Alp Arslan, entrou em Bagdá e recebeu do califa abássida (o chefe religioso dos sunitas) o título de sultão, o governante que detinha o poder militar.

Em 1064, Alp Arslan tomou Ani, a antiga capital do reino armênio, que Bizâncio tinha anexado em 1045. Bandos turcos, uns a serviço do sultão, outros por conta própria, cruzavam a fronteira a cada verão. Em 1067, saquearam Cesareia, na Capadócia, no centro da Anatólia.

Romano fez campanhas em 1068 e 1069 sem pegar o sultão em campo aberto: os turcos recuavam diante do exército e voltavam quando ele ia embora.

Na primavera de 1071, saiu de Constantinopla com o maior exército que o império juntava em décadas: tropas gregas e armênias, mais mercenários normandos, pechenegues e uzos (turcos das estepes, parentes distantes dos seljúcidas). O alvo eram Manziquerta e Khliat, hoje Ahlat, duas fortalezas ao norte do lago Van em mãos muçulmanas.

Alp Arslan estava na Síria, em guerra contra os fatímidas do Egito (a dinastia xiita rival do califa de Bagdá), quando soube do avanço e subiu para o norte com as tropas que tinha à mão.

De 1071 a 1081, Bizâncio viveu uma guerra civil atrás da outra, e os bandos turcos ocuparam a Anatólia cidade por cidade.

Em 1081, Solimão, de outro ramo da família seljúcida, governava de Niceia, a menos de 100 quilômetros de Constantinopla, o estado que ficaria conhecido como Sultanato de Rum (Roma, nome que os turcos davam às terras bizantinas).

Em 1095, o imperador Aleixo I Comneno mandou enviados ao papa Urbano II pedindo soldados contra os turcos. Meses depois, em Clermont, na França, o papa pregou a expedição que a história chamaria de Primeira Cruzada.

Na Turquia, o 26 de agosto é lembrado todo ano com cerimônia oficial em Malazgirt.

 
 

II  Quem estava em campo

Um condenado no trono e um leão valente

Em Manziquerta, quem guardava as costas do imperador era da família que tinha perdido o trono para ele.

O imperador

Romano IV Diógenes nasceu perto de 1030, na Capadócia, numa família militar da Anatólia. Em 1067, já general, foi acusado de conspirar contra os filhos do imperador Constantino X Ducas, morto naquele ano, e condenado à morte.

A imperatriz viúva, Eudócia Macrembolitissa, o perdoou e se casou com ele no primeiro dia de 1068. Ela tinha jurado ao marido que não casaria de novo; o patriarca de Constantinopla a liberou do juramento. Romano virou imperador junto com os enteados, entre eles o herdeiro, Miguel VII Ducas.

Em Manziquerta, tinha uns 41 anos e comandava em pessoa.

O sultão

Alp Arslan, nome turco que quer dizer leão valente, nasceu Maomé, filho de Chagri Beg, perto de 1030. Chegou ao trono em 1063, depois de derrotar outros pretendentes da família.

Governava com o vizir (o primeiro-ministro) persa Nizam al-Mulk, que organizou o Estado e fundou escolas de teologia em Bagdá e outras cidades.

Em 1072, numa campanha além do rio Amu Dária, na Ásia Central, um prisioneiro, o comandante de fortaleza Yusuf al-Kharezmi, o feriu a faca dentro da tenda. Alp Arslan morreu dias depois e foi enterrado em Merv, hoje no Turcomenistão. O filho, Malik Shah, herdou o sultanato.

O homem da reserva

Andrônico Ducas era filho de João Ducas, irmão de Constantino X e césar (o título mais alto da corte depois do imperador). Era primo de Miguel VII, o herdeiro que o casamento de Romano tinha empurrado para o segundo plano.

Andrônico Ducas morreu em 1077. A filha dele, Irene Ducena, casou com Aleixo Comneno, que tomou o trono em 1081. A neta, Ana Comnena, escreveu a Alexíada, a história do reinado do pai.

A ala esquerda

Nicéforo Briênio, general de Adrianópolis, na Trácia, comandava a ala esquerda. Em 1077, se proclamou imperador; no ano seguinte, perdeu para Aleixo Comneno em Calavria e foi cegado. Um descendente homônimo, casado com Ana Comnena, contou a batalha num livro de história escrito décadas depois.

A testemunha

Miguel Ataliates, juiz do exército, estava no acampamento. Contou a campanha na História, terminada perto de 1080, o principal relato bizantino de quem viu o dia. Miguel Pselo, professor de Miguel VII e inimigo de Romano, também a narrou na Cronografia, sem ter estado lá.

Os ausentes

José Tarcaniotes e o normando Roussel de Bailleul tinham partido com boa parte do exército para Khliat, junto ao lago. Nunca chegaram ao campo: Tarcaniotes levou os homens até Melitene, hoje Malatya, longe dali.

Ataliates diz que fugiram ao saber da chegada do sultão; outras versões falam de um choque com tropas turcas. Nenhuma fonte explica quem deu a ordem de recuar, e a pergunta segue sem resposta.

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III  O plano

A bandeira girou ao pôr do sol

O plano bizantino: forçar a batalha campal (o choque de dois exércitos em campo aberto) antes que o sultão escapasse de novo, com a reserva de Andrônico atrás para cobrir as costas.

O plano seljúcida: recusar o choque, recuar em meia-lua diante da linha bizantina e gastar o inimigo com arqueiros a cavalo até ele dar meia-volta.

A aposta seljúcida: uma linha que persegue um inimigo em recuo se afasta do próprio acampamento; na hora de voltar, ela mostra as costas.

O Strategikon, manual de guerra atribuído ao imperador Maurício e escrito perto do ano 600, já avisava que os povos das estepes fingiam fuga para atrair e cercar o inimigo.

Antes da batalha, enviados do sultão vieram oferecer paz. Romano recusou: um tratado o mandaria de volta sem a vitória que segurava o trono dele.

O plano do sultão seguiu três passos:

1. Recuar diante da linha bizantina sem deixar que ela encostasse.

2. Atirar dos flancos enquanto o exército avançava, sem parar para o corpo a corpo.

3. Esperar a tarde acabar e cair sobre a linha quando ela desse meia-volta.

O exército bizantino avançou a tarde inteira contra turcos que recuavam e atiravam. Perto do pôr do sol, chegou ao acampamento do sultão e o encontrou vazio.

Romano estava longe do próprio acampamento, deixado com pouca guarda, e a noite chegava. Mandou girar a bandeira imperial, o sinal para a linha inteira voltar.

Nas pontas, as unidades viram a bandeira girar e leram fuga. Atrás, a reserva de Andrônico não esperou: marchou de volta para o acampamento. Segundo os cronistas bizantinos, a notícia que correu entre os soldados saiu da própria reserva: o imperador tinha morrido.

Os turcos deram meia-volta e cercaram o centro. Briênio tentou segurar a ala esquerda e foi empurrado. Romano ficou com a guarda imperial, lutou a pé, ferido na mão, e caiu preso já de noite.

Na manhã seguinte, levaram o prisioneiro ao sultão. Alp Arslan só acreditou quando prisioneiros bizantinos o identificaram. Pelo costume da vitória, pôs o pé no pescoço do imperador.

Na versão de Ibn al-Athir, depois o fez sentar e perguntou o que Romano faria com os papéis trocados. Romano disse que talvez o executasse ou o exibisse em Constantinopla. O sultão respondeu que a pena dele seria mais pesada: perdoar e soltar.

Romano passou oito dias no acampamento turco, comendo com o sultão. Pelo tratado, segundo o mesmo Ibn al-Athir, pagaria 1,5 milhão de moedas de ouro de resgate e 360 mil por ano, soltaria os prisioneiros muçulmanos e casaria uma filha com um filho de Alp Arslan.

Quando voltou, Constantinopla já tinha outro imperador. O césar João Ducas e Miguel Pselo puseram Miguel VII sozinho no trono e mandaram Eudócia para um convento.

As tropas de Romano perderam duas batalhas para os Ducas, e ele se trancou em Adana, na Cilícia. Em 1072, entregou-se a Andrônico Ducas com a promessa, garantida por três bispos, de que viveria como monge e ninguém tocaria nele.

Em junho de 1072, em Cotieu, hoje Kütahya, homens dos Ducas o cegaram. A ferida infeccionou, e Romano IV Diógenes morreu semanas depois na ilha de Prote, no mosteiro que tinha fundado.

Ninguém julgou Andrônico.

 
 
Quiz da edição

Por que Alp Arslan insistiu em lutar justamente na sexta-feira, 26 de agosto de 1071?

APorque suas tropas estavam exaustas e queriam encerrar a campanha rápido
BPorque esperava reforços do califa de Bagdá só no fim de semana
CPorque um conselheiro religioso lembrou que os pregadores rezariam pelos combatentes na oração do meio-dia
DPorque era a data sagrada de fundação do sultanato seljúcida

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