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ED 028
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A rampa de terra que encostou na muralha de Massada

Entre 73 e 74 d.C., a Décima Legião desistiu de escalar o rochedo e passou meses empurrando terra pelo esporão oeste.

Rochedo isolado de Massada no deserto da Judeia, a oeste do Mar Morto, com o esporão da encosta oeste onde a Décima Legião ergueu a rampa de assalto entre 73 e 74 d.C.

O rochedo de Massada e a rampa oeste, 73 d.C.

 

Uma em oito. Para cada pessoa que vivia no alto do rochedo de Massada havia cerca de oito soldados romanos acampados na base, e essa conta não decidiu nada por si só. Novecentas e sessenta pessoas em cima, uma legião inteira embaixo, e nenhuma das duas partes conseguindo alcançar a outra por sete meses.

Cerco é uma disputa de estoque contra tempo, e o terreno define quem tem qual dos dois. Quem ocupa a altura costuma ter água guardada, grão guardado e sombra. Quem ocupa a base tem espaço para manobrar, reposição de gente e a estrada aberta para trazer o que faltar.

O que trava a conta é a subida. Uma parede quase vertical anula a superioridade numérica pelo mesmo motivo que um corredor estreito anula: só cabe um homem por vez onde as duas linhas se tocam, e um homem subindo com escudo nas costas perde para qualquer pedra jogada de cima.

Existe uma terceira via, e ela não é militar, é braçal. Se a muralha está alta demais para a escada, o exército pode levantar o chão até a altura da muralha. Não é combate, é obra: medir volume, cortar madeira, mover terra, escorar o aterro para que ele não escorregue.

Uma obra dessas muda o relógio do cerco inteiro. Enquanto ela avança, ninguém ataca e ninguém morre, e os sitiados olham todo dia para um monte que sobe alguns palmos. A ameaça não chega de repente, ela cresce à vista, e o defensor sabe com semanas de antecedência qual será a altura do desfecho.

Entre 73 e 74 d.C., no deserto da Judeia, a Décima Legião Fretensis olhou para um platô isolado com paredes de quatrocentos metros, calculou o custo de escalar e escolheu a obra. O caminho que ela construiu está no lugar até hoje, e é a peça mais visível do episódio inteiro.

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I  A batalha de hoje

Um platô isolado com paredes de quatrocentos metros

No inverno de 73 d.C., a Décima Legião Fretensis montou acampamento na base de um rochedo isolado do deserto da Judeia, a oeste do Mar Morto, e a primeira tarefa que executou não foi atacar, foi cercar.

Massada não tinha sido projetada para resistir a um exército de invasão: era um platô natural de paredes quase verticais que Herodes apenas equipou, e a defesa vinha da própria rocha, não de quem estava em cima dela.

O platô tem formato de losango irregular, cerca de seiscentos metros no eixo mais longo e trezentos no mais largo, plano no topo e cercado por penhascos em todos os lados. A face leste cai direto para a depressão do Mar Morto, mais de quatrocentos metros abaixo.

Entre 37 e 31 a.C., Herodes transformou o topo em refúgio fortificado. Ergueu uma muralha de casamata de cerca de mil e quatrocentos metros com dezenas de torres, dois palácios, armazéns em fileira e um sistema de cisternas escavadas na rocha, abastecidas por aquedutos que capturavam a enxurrada dos vales secos nas poucas chuvas do ano.

Em 66 d.C., no início da revolta contra Roma, um grupo de rebeldes tomou a guarnição romana que ocupava o lugar e passou a viver ali. Depois da queda de Jerusalém em 70 d.C. e da destruição do Templo, Massada ficou como o último ponto ainda fora do controle imperial na província.

A ficha do confronto:

Data do cerco:entre 73 e 74 d.C.
Local:Massada, deserto da Judeia, oeste do Mar Morto
Força romana:Legião X Fretensis mais tropas auxiliares
Ocupantes do platô:960 pessoas, entre combatentes e famílias
Duração estimada:de alguns meses a cerca de um ano
Obra decisiva:rampa de assalto no esporão da encosta oeste

"A rocha era de tal altura e cercada por precipícios tão profundos que nenhum ser vivo podia alcançá-la, exceto por dois caminhos."

Flávio Josefo, em "A Guerra dos Judeus", século I d.C.

Os dois caminhos citados eram uma trilha estreita e sinuosa na face leste, apelidada de serpente pela forma, e uma subida mais curta pelo oeste. Nenhum dos dois comportava coluna de assalto: ambos obrigavam a subir em fila indiana, expostos a quem estivesse no parapeito.

Os romanos fecharam a saída antes de tentar qualquer assalto. Construíram um muro de circunvalação em torno de toda a base do rochedo, com vários quilômetros de extensão, e distribuíram oito campos ao longo dele, dimensionados para abrigar a tropa por tempo indeterminado.

As escavações dirigidas por Yigael Yadin entre 1963 e 1965 encontraram esse cinturão praticamente intacto, junto com os armazéns, as cisternas e a rampa. O deserto preservou o desenho do cerco melhor do que qualquer outro sítio romano conhecido.

 
 

II  Quem estava em campo

Uma legião veterana contra novecentas e sessenta pessoas

A comparação não era entre dois exércitos: era entre um aparato estatal com engenheiros, artilharia e linha de abastecimento e um grupo de famílias armadas com o que havia sobrado de uma guarnição tomada sete anos antes.

O comando romano cabia a Lúcio Flávio Silva, governador da Judeia, que dispunha da Legião X Fretensis, veterana do cerco de Jerusalém, reforçada por coortes auxiliares e por um contingente de prisioneiros usados no trabalho pesado.

O problema mais duro do lado romano era água. O deserto ao redor de Massada não oferece fonte utilizável para milhares de homens, e o abastecimento vinha de longe, em lombo de animal, subindo pela estrada até os campos da base. Manter o cerco custava caravana diária.

O equipamento de ataque era o padrão do exército imperial em cerco: aríete montado em estrutura protegida, torre de assalto revestida de metal contra fogo, catapultas de pedra e máquinas menores de dardo. As escavações de Yadin recolheram centenas de projéteis de pedra caídos no topo do platô.

No alto estavam os sicários, facção radical da revolta, comandada por Eleazar ben Yair, que ocupava Massada desde 66 d.C. Com eles viviam mulheres, crianças e idosos, e o total que Josefo registra é de novecentas e sessenta pessoas.

"Desde o princípio, quando escolhemos a liberdade, nunca servimos aos romanos nem a nenhum outro senhor."

Flávio Josefo, em "A Guerra dos Judeus", século I d.C.

O armamento dos ocupantes vinha da guarnição capturada e do que a fortaleza guardava desde Herodes. Havia arcos, fundas e lanças suficientes para defender o parapeito, e nada que servisse para uma saída ofensiva contra tropa acampada em terreno aberto.

A vantagem deles era estoque. Os armazéns herodianos guardavam grão, tâmaras, azeite e vinho, e as cisternas escavadas somavam capacidade para dezenas de milhares de metros cúbicos, cheias pelas enxurradas dos vales. Fome e sede, as duas armas normais de um cerco, não funcionavam ali.

O impasse era simétrico e travado. Os romanos não conseguiam subir; os ocupantes não conseguiam descer. Nenhum dos dois lados perdia gente, e o cerco poderia se arrastar até que o custo da caravana de água vencesse a paciência do governador.

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III  O plano

Levar o chão até a muralha, cesto por cesto

O plano romano: fechar toda a base com muro e campos, descartar o assalto pelas trilhas e erguer um aterro pela encosta oeste até que uma torre de ataque pudesse encostar na muralha do platô.

O plano dos ocupantes: sustentar o parapeito com o estoque de Herodes, esperar que o custo de manter uma legião no deserto se tornasse alto demais e apostar na duração.

A decisão que mudou a conta: trocar a escalada pela terraplenagem, aceitando meses de obra braçal como caminho mais barato que qualquer assalto pelas duas trilhas.

O primeiro passo foi tirar a variável fuga do tabuleiro. Com o muro de circunvalação fechado e os oito campos ocupados, nenhum grupo poderia descer à noite e sumir no deserto, o que dava ao comando romano o luxo de trabalhar sem pressa.

O segundo foi escolher onde atacar pela topografia, não pela conveniência. A encosta oeste tinha um esporão de rocha que já subia boa parte do caminho, e trabalhar a partir dele reduzia a altura a vencer, encurtando a obra em muitos metros.

O terceiro foi organizar o transporte de material. Pedra, terra e madeira subiam em cesto e em padiola por uma fila contínua de soldados e prisioneiros, dia após dia, sob o alcance das armas de quem estava em cima.

O quarto foi escorar o aterro. Vigas de madeira encaixadas em camadas seguravam o material solto no lugar e impediam que a rampa escorregasse para os lados conforme ganhava altura, o mesmo princípio usado em qualquer terrapleno moderno.

O quinto foi coroar a rampa com uma plataforma de pedra encaixada, capaz de sustentar peso de máquina pesada sem afundar. Sem essa base firme, a torre de assalto tombaria no primeiro golpe do aríete.

O sexto foi montar a torre. Uma estrutura alta, revestida de metal contra fogo, com artilharia nos pavimentos superiores para varrer o parapeito e um aríete embaixo, empurrada rampa acima até tocar a muralha.

O sétimo foi abrir a brecha. Com os defensores obrigados a se abaixar pela artilharia da torre, o aríete trabalhou a muralha de pedra até derrubar um trecho dela, e o caminho para dentro do platô ficou aberto pela primeira vez em meses.

O oitavo passo foi dos ocupantes, e quase funcionou. Eles levantaram atrás da brecha um segundo muro feito de vigas cruzadas com terra socada no meio, uma parede elástica: cada golpe do aríete comprimia o recheio sem partir a estrutura, e a máquina perdia a serventia.

A resposta romana foi trocar de ferramenta. Se o muro absorvia impacto por causa da madeira, então a madeira era o alvo, e a tropa lançou fogo contra ele. Josefo registra que o vento primeiro empurrou as chamas para o lado romano, ameaçando a própria torre, e depois virou e consumiu a parede improvisada.

Na manhã seguinte, os romanos entraram sem encontrar resistência. Josefo relata que os ocupantes tomaram uma decisão coletiva na noite anterior e que a história chegou até ele pelo depoimento de duas mulheres e cinco crianças que se esconderam numa cisterna.

A obra em si é menos discutível, embora também tenha versão contestada. O geólogo Dan Gill, em artigo publicado na revista Nature em 1993, sustentou que o esporão da encosta oeste é uma formação natural de rocha, e que os romanos apenas completaram os metros finais com material solto.

Um cerco não se vence sempre por escalada ou por fome: quando a altura é o obstáculo, o exército que aceita virar canteiro de obras troca sangue por semanas de trabalho e chega ao mesmo lugar.

Os ocupantes viram a rampa crescer todos os dias e não tinham como desmontá-la. Era muito material, alto demais, escorado bem demais, e nenhuma arma daquele século desfazia um aterro.

"Qual é a muralha que você tenta escalar quando o caminho seria levantar o chão até ela?"

A rampa continua lá.

 
 
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Segundo a edição, quem comandou as escavações arqueológicas em Massada entre 1963 e 1965, que revelaram o muro de circunvalação, os armazéns e a rampa quase intactos?

AFlávio Josefo
BYigael Yadin
CLúcio Flávio Silva
DEleazar ben Yair

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