|
O plano romano: fechar toda a base com muro e campos, descartar o assalto pelas trilhas e erguer um aterro pela encosta oeste até que uma torre de ataque pudesse encostar na muralha do platô.
O plano dos ocupantes: sustentar o parapeito com o estoque de Herodes, esperar que o custo de manter uma legião no deserto se tornasse alto demais e apostar na duração.
A decisão que mudou a conta: trocar a escalada pela terraplenagem, aceitando meses de obra braçal como caminho mais barato que qualquer assalto pelas duas trilhas.
O primeiro passo foi tirar a variável fuga do tabuleiro. Com o muro de circunvalação fechado e os oito campos ocupados, nenhum grupo poderia descer à noite e sumir no deserto, o que dava ao comando romano o luxo de trabalhar sem pressa.
O segundo foi escolher onde atacar pela topografia, não pela conveniência. A encosta oeste tinha um esporão de rocha que já subia boa parte do caminho, e trabalhar a partir dele reduzia a altura a vencer, encurtando a obra em muitos metros.
O terceiro foi organizar o transporte de material. Pedra, terra e madeira subiam em cesto e em padiola por uma fila contínua de soldados e prisioneiros, dia após dia, sob o alcance das armas de quem estava em cima.
O quarto foi escorar o aterro. Vigas de madeira encaixadas em camadas seguravam o material solto no lugar e impediam que a rampa escorregasse para os lados conforme ganhava altura, o mesmo princípio usado em qualquer terrapleno moderno.
O quinto foi coroar a rampa com uma plataforma de pedra encaixada, capaz de sustentar peso de máquina pesada sem afundar. Sem essa base firme, a torre de assalto tombaria no primeiro golpe do aríete.
O sexto foi montar a torre. Uma estrutura alta, revestida de metal contra fogo, com artilharia nos pavimentos superiores para varrer o parapeito e um aríete embaixo, empurrada rampa acima até tocar a muralha.
O sétimo foi abrir a brecha. Com os defensores obrigados a se abaixar pela artilharia da torre, o aríete trabalhou a muralha de pedra até derrubar um trecho dela, e o caminho para dentro do platô ficou aberto pela primeira vez em meses.
O oitavo passo foi dos ocupantes, e quase funcionou. Eles levantaram atrás da brecha um segundo muro feito de vigas cruzadas com terra socada no meio, uma parede elástica: cada golpe do aríete comprimia o recheio sem partir a estrutura, e a máquina perdia a serventia.
A resposta romana foi trocar de ferramenta. Se o muro absorvia impacto por causa da madeira, então a madeira era o alvo, e a tropa lançou fogo contra ele. Josefo registra que o vento primeiro empurrou as chamas para o lado romano, ameaçando a própria torre, e depois virou e consumiu a parede improvisada.
Na manhã seguinte, os romanos entraram sem encontrar resistência. Josefo relata que os ocupantes tomaram uma decisão coletiva na noite anterior e que a história chegou até ele pelo depoimento de duas mulheres e cinco crianças que se esconderam numa cisterna.
A obra em si é menos discutível, embora também tenha versão contestada. O geólogo Dan Gill, em artigo publicado na revista Nature em 1993, sustentou que o esporão da encosta oeste é uma formação natural de rocha, e que os romanos apenas completaram os metros finais com material solto.
Um cerco não se vence sempre por escalada ou por fome: quando a altura é o obstáculo, o exército que aceita virar canteiro de obras troca sangue por semanas de trabalho e chega ao mesmo lugar.
Os ocupantes viram a rampa crescer todos os dias e não tinham como desmontá-la. Era muito material, alto demais, escorado bem demais, e nenhuma arma daquele século desfazia um aterro.
"Qual é a muralha que você tenta escalar quando o caminho seria levantar o chão até ela?"
A rampa continua lá.
|