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A ponte que cortou a coluna de Barreiro

Em agosto de 1819, Bolívar atacou quando a vanguarda espanhola já tinha cruzado o rio e a tropa realista inteira ainda vinha atrás.

Infantaria patriota desce a encosta sobre a coluna realista perto da ponte de pedra de Boyacá, agosto de 1819

Ponte de Boyacá, agosto de 1819

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Treze em cerca de 2.850. Foi a conta de patriotas caídos na ponte de Boyacá, segundo o boletim do Exército Libertador de 8 de agosto de 1819, e ela decidia quem mandaria em Bogotá na semana seguinte. Para um soldado de Simón Bolívar naquela tarde, a chance de ficar no campo foi menor que uma em duzentas.

Três anos antes, a Espanha tinha retomado o vice-reino de Nova Granada, a atual Colômbia. A expedição do general Pablo Morillo chegou em 1815, sitiou Cartagena por mais de cem dias e instalou tribunais que mandaram ao pelotão boa parte da liderança da primeira república.

Bolívar passou o começo de 1819 nas planícies venezuelanas do rio Apure, sem conseguir derrotar Morillo em campo aberto. Em maio, propôs aos oficiais uma saída que parecia loucura: largar a Venezuela, subir a cordilheira oriental em plena estação de chuvas e cair sobre Nova Granada pela porta dos fundos.

A travessia pelo páramo de Pisba (planalto gelado e sem árvores, acima de três mil metros) custou quase todos os cavalos e uma fila de soldados vindos do calor das planícies, muitos descalços e mal agasalhados. Em 6 de julho, o que restava da tropa desceu em Socha, faminto e sem munição seca.

O coronel José María Barreiro comandava a Terceira Divisão realista e tinha a tarefa de fechar aquela porta. Os dois exércitos se chocaram no Pantano de Vargas em 25 de julho, num combate sem vencedor claro, e Barreiro manteve a divisão plantada no caminho da capital.

Em 5 de agosto, Bolívar deu a volta por uma estrada lateral e tomou Tunja, com os depósitos realistas dentro. Barreiro acordou do lado errado do mapa e precisou correr para Bogotá pela estrada real, que cruzava o rio Teatinos numa ponte de pedra estreita. A primeira seção conta o que aconteceu naquela ponte às duas da tarde do dia 7.

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I  A batalha de hoje

Duas da tarde no rio Teatinos

Simón Bolívar, presidente da Venezuela e comandante do Exército Libertador, viu a coluna de José María Barreiro pelo alto do morro de Tunja. Os realistas desciam pela estrada real em fila longa, com a vanguarda bem à frente e o grosso da tropa atrasado cerca de um quilômetro, parado perto de uma casa de telha para descansar.

A estrada obrigava o exército espanhol a passar por um funil. A ponte de Boyacá cabia uma carroça por vez, e quem estivesse de um lado do Teatinos não conseguia socorrer quem estivesse na outra margem em menos de meia hora.

A ficha do confronto:

Data:7 de agosto de 1819, combate entre cerca de duas e quatro da tarde
Local:ponte de Boyacá sobre o rio Teatinos, estrada real entre Tunja e Bogotá, atual departamento de Boyacá, Colômbia
Comando patriota:Simón Bolívar, com Francisco de Paula Santander na vanguarda e José Antonio Anzoátegui na retaguarda
Comando realista:coronel José María Barreiro, com o coronel Francisco Jiménez na vanguarda
Efetivos:cerca de 2.850 patriotas contra cerca de 2.700 realistas, com três canhões do lado espanhol
Fontes:boletim do Exército Libertador, 8 de agosto de 1819, e Daniel Florencio O'Leary, Memorias del General O'Leary (Memórias do general O'Leary, publicadas entre 1879 e 1888)

A vanguarda realista, com o Batalhão Primeiro do Rei e parte da cavalaria, chegou à ponte perto das duas e atravessou sem ver ninguém. Os homens de Santander, escondidos no mato da encosta, esperaram a travessia terminar e desceram sobre ela antes que a coluna se juntasse.

Jiménez formou a vanguarda na margem sul e segurou a ponte. Naquele instante, a tropa realista ficou partida em dois pedaços que não se enxergavam, separados por um rio fundo e por um só ponto de passagem.

Barreiro ouviu os tiros adiante e mandou o grosso acelerar. A coluna chegou esbaforida e desalinhada a uma elevação perto da casa de telha, e ali encontrou Anzoátegui já descendo o morro com a infantaria patriota.

Os batalhões realistas tentaram formar em linha na elevação, com a artilharia no centro. Anzoátegui atacou pela frente com o batalhão Barcelona e os Rifles, enquanto a cavalaria dos llaneros (vaqueiros armados das planícies da Venezuela e de Casanare) contornava pelos flancos com lança.

A resistência do grosso durou cerca de uma hora e meia. A linha cedeu, a cavalaria realista fugiu pela estrada, e a infantaria cercada começou a largar as armas por companhia.

Barreiro tentou escapar a pé por uma ravina. Foi alcançado por um soldado de doze anos, Pedro Pascasio Martínez, que o rendeu, recusou o ouro que o coronel ofereceu para ser solto e o entregou aos oficiais.

Na ponte, Santander desalojou a vanguarda de Jiménez perto das quatro. Os realistas daquela margem, sem notícia do comandante e com a estrada para Bogotá aberta às costas, se dispersaram ou se renderam.

 
 

II  Quem estava em campo

O caraquenho, o gaditano e os cavaleiros do Apure

Os dois comandantes de Boyacá estavam em pontos opostos da carreira: Bolívar, aos 36 anos, já tinha perdido duas repúblicas e fugido para o exílio duas vezes, e Barreiro, aos 26, construíra a carreira americana na reconquista que derrubou os aliados dele.

Simón Bolívar nasceu em Caracas em 1783, numa das famílias mais ricas da capitania, e ficou órfão de pai e mãe antes dos dez anos. Perdeu a Primeira República venezuelana em 1812 e a Segunda em 1814, viveu refugiado na Jamaica e no Haiti e voltou ao continente em 1816 com ajuda do presidente haitiano Alexandre Pétion.

José María Barreiro nasceu em Cádiz em 1793, lutou contra Napoleão ainda adolescente e desembarcou na América com a expedição de Morillo. Era considerado um oficial bravo e metódico, com pouca experiência de comando independente numa região que ele mal conhecia.

O lado patriota

A tropa de Bolívar juntava três origens. Havia a infantaria venezuelana veterana, os batalhões recrutados em Casanare e nos vales de Nova Granada durante a própria campanha, e a Legião Britânica, formada por voluntários britânicos e irlandeses que sobraram das guerras napoleônicas.

Francisco de Paula Santander, nascido em Cúcuta em 1792, era neogranadino (natural de Nova Granada) e tinha organizado em Casanare a base onde a tropa de Bolívar se refez depois da descida do páramo. Conhecia as estradas e as famílias da região.

José Antonio Anzoátegui, nascido em Barcelona, na Venezuela, em 1789, comandava a retaguarda com fama de duro e de disciplinador. Coube a ele a parte mais pesada da tarde, contra o grosso realista.

O lado realista

A Terceira Divisão de Barreiro tinha oficiais espanhóis e tropa quase toda nascida na América, recrutada à força nos vilarejos de Nova Granada. Muitos desses soldados eram vizinhos dos homens que vinham enfrentar.

A divisão realista carregava desvantagem que não aparecia no número de fuzis. Havia perdido os depósitos de Tunja, marchado dois dias seguidos sem descanso e sofrido deserções diárias desde o Pantano de Vargas, e chegou à ponte com a tropa exausta e desconfiada dos próprios oficiais.

O vice-rei Juan Sámano, em Bogotá, tinha reforços a poucos dias de marcha, mas os segurou na capital. Barreiro lutou com a divisão que tinha, sem apoio chegando por trás.

 

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III  O plano

Uma ponte, duas metades

O plano de Barreiro: marchar sem parar pela estrada real, cruzar o Teatinos antes dos patriotas, pôr o rio como barreira contra a perseguição e chegar a Bogotá para somar forças com a guarnição do vice-rei.

O plano de Bolívar: esperar a coluna chegar ao ponto de passagem obrigatório e atacar quando ela estivesse mais esticada, com uma força na ponte e outra sobre o grosso ainda na margem norte.

A decisão que mudou a conta: deixar a vanguarda realista atravessar sem incomodar. Um ataque cedo teria encontrado a coluna inteira; esperar a travessia partiu o inimigo em duas metades que o rio impedia de se reunir.

O primeiro passo foi a marcha por fora até Tunja, que tomou os suprimentos de Barreiro e o obrigou a sair em pressa pela estrada que Bolívar escolheu.

O segundo passo foi a observação do alto do morro, com a tropa patriota escondida na encosta até a vanguarda realista terminar de cruzar a ponte.

O terceiro passo foi o ataque de Santander contra a vanguarda de Jiménez, que prendeu os realistas da margem sul na defesa da própria ponte.

O quarto passo foi a descida de Anzoátegui sobre o grosso de Barreiro, que chegou em fila, sem tempo de formar e sem a vanguarda para apoiá-lo.

O quinto passo foi o cerco da cavalaria pelos flancos, que transformou a retirada realista em rendição em massa.

Os números saíram do boletim do Exército Libertador de 8 de agosto de 1819: 13 patriotas caídos e 53 feridos, contra cerca de 1.600 prisioneiros realistas, incluindo Barreiro, Jiménez e quase toda a oficialidade, com a artilharia, as munições e a bagagem da divisão.

O que os registros não fecham é a quantidade de realistas caídos em combate. O boletim fala em cerca de cem, e as memórias escritas depois dão cifras diferentes, sem rol oficial espanhol daquela tarde que permita conferir.

Sámano soube da derrota em 9 de agosto e fugiu de Bogotá rumo a Cartagena no mesmo dia. Bolívar entrou na capital em 10 de agosto sem disparar um tiro, e Nova Granada deixou de ser território espanhol.

Em dezembro de 1819, o congresso de Angostura proclamou a República da Colômbia, unindo Venezuela e Nova Granada, com Bolívar na presidência e Santander como vice-presidente em Bogotá.

Barreiro e 37 oficiais presos em Boyacá foram fuzilados em Bogotá em 11 de outubro daquele ano, por ordem de Santander, depois de semanas de negociação frustrada de troca de prisioneiros.

"Qual adversário seu fica mais fraco se você deixar ele avançar mais um pouco?"

Barreiro não voltou a Cádiz.

 
 
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Quando os patriotas desceram sobre a ponte de Boyacá, a que distância da vanguarda realista estava o grosso da tropa de Barreiro, parado perto de uma casa de telha?

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