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A poeira que enganou Talbot em Castillon

Em 1453, John Talbot mandou assaltar o campo de Jean Bureau, com cerca de 300 canhões atrás do muro, por uma nuvem de poeira.

Campo de artilharia francês diante de Castillon, 1453

Castillon, Gasconha, 17 de julho de 1453

▼
 

Uma em duas. Era a aposta de John Talbot, conde de Shrewsbury, na manhã de 17 de julho de 1453, diante de Castillon: ou a poeira que subia do acampamento francês era um exército em fuga, ou era só a criadagem indo embora com os canhões ainda no lugar.

O recado chegou a galope. Um batedor contou que via cavalos e carroças deixando o campo francês, perto do rio Dordogne, e que a nuvem de pó cobria a estrada. Para ele, os franceses batiam em retirada.

Talbot tinha acabado de vencer um primeiro choque. Ao amanhecer, depois de marchar a noite inteira desde Libourne, seus cavaleiros tinham surpreendido os arqueiros franceses aquartelados no priorado de Saint-Laurent, perto da cidade, e posto os sobreviventes para correr até o acampamento.

Os homens dele estavam cansados, e a infantaria ainda vinha pela estrada. Ele mandou abrir barris de vinho e preparar a missa. A notícia da poeira mudou o dia: Talbot largou a missa, juntou quem estava à mão e mandou avançar.

O batedor tinha visto outra cena. Jean Bureau, mestre da artilharia do rei Carlos VII, mandara embora os serviçais, os cavalos de carga e a gente que não lutava, para limpar o terreno. Os soldados continuavam todos lá dentro.

Estavam atrás de um fosso e de um muro de terra que os sapadores (os cavadores do exército) tinham levantado em poucos dias. Por trás do muro, cerca de 300 bocas de fogo, das bombardas pesadas às culverinas (canhões compridos de cano fino), apontavam para o único lado por onde um inimigo chegaria.

Talbot chegou a esse lado com os homens de armas desmontados e os arqueiros ingleses, o estandarte na frente. Ele mesmo montava um palafrém (cavalo de passeio, baixo e manso) e não vestia armadura.

Aqui embaixo, como uma guerra de 116 anos terminou num campo cavado à beira do Dordogne, quem eram os homens dos dois lados do muro e o plano de Bureau, feito para esperar o ataque parado.

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I  A batalha de hoje

O último campo da Guerra dos Cem Anos

A batalha de Castillon opôs o exército anglo-gascão de John Talbot, primeiro conde de Shrewsbury, ao exército do rei Carlos VII da França, cuja artilharia estava nas mãos de Jean Bureau. O campo ficava a leste da cidade de Castillon, hoje Castillon-la-Bataille, uns 50 quilômetros a leste de Bordeaux.

Em Castillon, a pólvora atrás de um muro de terra encerrou o domínio inglês na Gasconha e, com ele, a Guerra dos Cem Anos.

A ficha do confronto:

Data:17 de julho de 1453
Local:Castillon, Gasconha
França:Jean Bureau e capitães
Inglaterra:John Talbot
Arma do dia:cerca de 300 canhões
Desfecho:vitória francesa

A Gasconha (a região de Bordeaux, no sudoeste da França) era inglesa havia três séculos. Chegou à coroa inglesa em 1152, quando Leonor da Aquitânia casou com Henrique Plantageneta, coroado rei da Inglaterra dois anos depois como Henrique II.

Bordeaux vivia do vinho vendido a Londres. Os comerciantes da cidade faziam mais negócio com os ingleses do que com Paris, e a lealdade seguia a balança do porto.

Nos anos 1440, a guerra virou contra a Inglaterra. Carlos VII reorganizou o exército, criou companhias pagas o ano inteiro e entregou a Jean Bureau e ao irmão dele, Gaspard, o comando dos canhões. A Normandia caiu entre 1449 e 1450.

Em 1451, os franceses entraram na Gasconha. Bordeaux se rendeu naquele verão, sem grande luta.

A cidade não gostou dos novos senhores. Vieram impostos e funcionários do norte. Em 1452, um grupo de notáveis de Bordeaux atravessou o mar para pedir socorro ao rei Henrique VI.

O socorro mandado de Londres foi Talbot. Ele desembarcou perto de Bordeaux no outono de 1452, os moradores abriram as portas e expulsaram a guarnição francesa, e várias cidades da região voltaram ao lado inglês.

Carlos VII tratou a volta de Bordeaux como traição de súditos, não como guerra entre reis, e preparou a resposta durante o inverno inteiro.

Na primavera de 1453, Carlos VII mandou três exércitos para o sul. Um deles cercou Castillon, cidade que controlava o vale do Dordogne e a estrada fluvial para Bordeaux.

Os moradores de Castillon pediram ajuda a Talbot. Ele saiu de Bordeaux com a tropa que tinha pronta, sem esperar os reforços, e chegou na madrugada de 17 de julho.

Foi a última batalha campal da guerra entre as duas coroas. Nenhum tratado a encerrou: a Inglaterra guardou Calais e o título de rei da França, mas não mandou outro exército ao sul.

 
 

II  Quem estava em campo

O velho conde, o tesoureiro e os bretões

Em Castillon, um conde perto dos 70 anos, preso a um juramento, atacou o homem que tinha trocado a muralha pelo canhão.

O conde

John Talbot nasceu por volta de 1387, em Shropshire, e passou quatro décadas lutando na França. Os franceses o temiam pelo ataque rápido e o apelidaram de Aquiles inglês. Ganhou o título de conde de Shrewsbury em 1442.

Conheceu a derrota cedo. Foi capturado em Patay, em 1429, no ano em que Joana d'Arc levantou o cerco de Orléans, e só voltou ao campo depois de quatro anos de cativeiro.

O juramento

Em 1449, quando Rouen se rendeu aos franceses, Talbot ficou como refém da rendição. Solto em 1450, jurou a Carlos VII nunca mais vestir armadura contra o rei da França.

Em Castillon, ele cumpriu a letra do juramento e quebrou o espírito dele. Comandou o ataque sem armadura, a cavalo, à vista dos canhões.

O filho

John Talbot, visconde de Lisle, filho do segundo casamento do conde, lutava ao lado do pai. Os cronistas contam que o pai mandou o rapaz fugir quando o ataque desandou, e ele ficou. Caiu no mesmo campo que o pai.

O tesoureiro

Jean Bureau não vinha de família de cavaleiros. Era um burguês de Paris, homem das finanças, que Carlos VII fez tesoureiro da França e mestre da artilharia.

Com Gaspard, transformou o canhão de máquina de cerco em arma de campo. Na Normandia, as baterias dos irmãos derrubaram muralhas em dias, onde um cerco antes levava meses.

Bureau tratava a pólvora como tratava as contas do reino: comprava salitre com antecedência, pagava artilheiros o ano inteiro e mantinha carroças só para levar os canos.

Os capitães

O comando francês em Castillon não tinha um chefe único. Bureau cuidava dos canhões e do campo, e capitães como Jacques de Chabannes, grão-mestre da casa do rei, comandavam os homens de armas.

Os bretões

Um corpo de cavaleiros bretões, mandados pelo duque da Bretanha, aliado de Carlos VII, esperava fora do muro, numa elevação ao norte do campo.

O arqueiro

O cavalo de Talbot foi atingido por um tiro de canhão e caiu por cima dele. Um arqueiro francês, chamado Michel Perunin pela tradição, acabou com ele a golpes de machado.

O corpo só foi reconhecido depois, pelo arauto do conde, que o identificou por um dente que faltava na boca.

 

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III  O plano

Esperar atrás do muro de terra

O plano de Bureau: cavar um campo fechado, encher o muro de canhões e deixar o inimigo vir até ele.

O plano de Talbot: atacar antes de o cerco tomar Castillon e pegar o inimigo de surpresa.

A aposta inglesa: acreditar na poeira e atacar sem esperar a infantaria inteira.

Bureau não montou o campo colado às muralhas. Escolheu um terreno a leste da cidade, protegido de um lado pelo riacho Lidoire, e fechou os outros lados com o fosso e a terra tirada dele.

O traçado não era reto. O muro fazia curvas e reentrâncias, e os canhões ficavam em pontos que cruzavam o fogo: quem atacava um trecho recebia tiro de frente e de lado.

Os canhões atiravam pedra e ferro. As culverinas, mais leves, giravam no reparo (a armação de madeira que segura o cano) e seguiam o alvo; as bombardas, pesadas, cobriam a entrada do campo.

A manobra tinha quatro passos:

1. Cavar o fosso e jogar a terra para dentro, formando o muro.

2. Pôr os canhões em ângulo, para o fogo cruzar diante do fosso.

3. Guardar arqueiros e besteiros atrás do muro, para quem chegasse perto.

4. Deixar a cavalaria bretã fora do campo, pronta para descer no flanco.

O terceiro passo pedia sangue-frio. Os franceses tinham que deixar os ingleses chegarem à beira do fosso antes de soltar tudo.

O assalto começou com o estandarte de Talbot na frente. Os primeiros homens chegaram ao fosso e alguns subiram o muro. A artilharia abriu fogo à queima-roupa, e cada tiro abria um buraco na fileira.

Talbot não recuou. A infantaria que vinha da estrada chegou aos poucos e entrou no ataque em grupos, sem formar linha, direto para o mesmo fogo.

Os bretões desceram da elevação e bateram no flanco direito inglês. A linha cedeu, e os sobreviventes correram para o Dordogne. Muitos se afogaram tentando atravessar o rio.

Sem o comandante, a tropa se desfez. Castillon se rendeu poucos dias depois, e os franceses marcharam sobre Bordeaux, cercando a cidade por terra e pelo rio.

Bordeaux aguentou o verão e o começo do outono. Em 19 de outubro, três meses depois da batalha, sem notícia de frota inglesa, os notáveis negociaram a rendição.

Bordeaux se rendeu.

 
 
Quiz da edição

Em Castillon, o que a nuvem de poeira que o batedor avistou no acampamento francês realmente era?

AO exército francês recuando rumo a Bordeaux
BA cavalaria bretã chegando para reforçar o cerco
CJean Bureau mandando embora os serviçais, os cavalos de carga e quem não lutava
DOs canhões sendo retirados de trás do muro de terra

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