In partnership with

Batalha do Dia   Batalha do Dia
ED 005

A ordem de rearmar os aviões em Midway

Em junho de 1942, Nagumo manda trocar torpedo por bomba, volta atrás meia hora depois, e o hangar do Akagi segue cheio de munição solta.

Bombardeiros de mergulho americanos caindo sobre um porta-aviões japonês de convés vazio, com fumaça escapando do hangar, no Pacífico central em 1942.

Bombardeiros de mergulho sobre o Kido Butai

 

Trocar o armamento de um bombardeiro embarcado não é apertar um parafuso. O torpedo aéreo japonês Tipo 91 passava dos oitocentos quilos e vinha preso à barriga do avião num berço próprio. A bomba terrestre de 250 quilos usava outro suporte, outra espoleta e outra tabela de lançamento.

O trabalho acontece no hangar, com o navio em movimento. Cada aparelho desce pelo elevador, entra na fila, sobe no macaco, perde a arma que tinha e recebe a outra. Uma esquadrilha inteira consome bem mais de uma hora, e ninguém apressa o serviço sem improvisar em algum ponto.

A parte esquecida da conta é o que sai. A arma retirada precisa voltar ao paiol, dois conveses abaixo, por um monta-cargas estreito, e devolver um torpedo custa quase o mesmo tempo que instalar o próximo. Quando o relógio aperta, a saída óbvia é encostar o que saiu num canto e seguir trabalhando.

Os porta-aviões japoneses cobravam caro por essa saída. O hangar era fechado nos dois níveis, sem portas laterais que deixassem uma explosão escapar para o mar, e as tubulações de gasolina de aviação corriam por dentro do casco sem o enchimento de gás inerte que os americanos adotaram depois.

Some a tudo a natureza do navio. O porta-aviões é a peça mais frágil da esquadra e a que golpeia mais longe, com casco fino e combustível bastante para destruí-lo sozinho.

E cada arma serve a um alvo só. Torpedo e bomba perfurante afundam navio. Bomba terrestre arrasa pista, hangar e depósito, e quase nada faz contra um convés blindado em movimento. Escolher o armamento é escolher, com antecedência, contra quem você vai brigar naquela manhã.

Nada dessa engrenagem pesa num dia sem novidade. Pesa quando alguém no passadiço muda de ideia com o hangar cheio e depois muda outra vez. Numa manhã de junho de 1942, no Pacífico central, quatro conveses japoneses passaram três horas exatamente nessa posição.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Batalha de Hoje

A manhã de 4 de junho no Akagi

A esquadra mais rodada do mundo passou a manhã trocando de ideia sobre o que pendurar nos aviões. Veja o que meia hora de atraso na busca fez com quatro conveses.

Nagumo entrou no dia 4 de junho de 1942 com quatro porta-aviões e duas missões para o mesmo hangar. Às quatro e meia da manhã, cento e oito aparelhos decolaram contra Midway sob o comando do tenente Joichi Tomonaga.

A outra metade ficou embaixo, armada contra navios: torpedo nos bombardeiros do Akagi e do Kaga, bomba perfurante nos de mergulho do Soryu e do Hiryu. Reserva guardada para uma frota que a inteligência japonesa supunha longe.

Às sete da manhã, Tomonaga transmitiu do alto da ilha uma frase curta: havia necessidade de um segundo ataque. As pistas continuavam utilizáveis, e o desembarque japonês dependia delas fora de operação.

Quinze minutos depois, Nagumo mandou rearmar a reserva com bomba terrestre. Os torpedos começaram a sair dos aviões no hangar do Akagi e do Kaga, e os carrinhos de munição foram ocupando o corredor.

Às sete e vinte e oito chegou o rádio que virou a manhã. O avião de busca número quatro do cruzador Tone, que decolara com meia hora de atraso, avistou navios onde o plano japonês não previa nenhum.

"Avistados o que parecem ser dez navios de superfície inimigos, marcação zero um zero graus, distância duzentas e quarenta milhas de Midway."

Avião de busca nº 4 do cruzador Tone, Relatório Nagumo, 1942.

Às sete e quarenta e cinco veio a contraordem: preparar ataque contra unidades navais e deixar o torpedo nos aviões ainda não trocados. Parte do serviço estava feita, e teria de ser desfeita.

Só às oito e vinte o avião do Tone acrescentou o detalhe que faltava: a força inimiga era acompanhada do que parecia ser um porta-aviões.

Às oito e trinta e sete o problema virou aritmética de combustível. O grupo de Tomonaga voltava com pouco no tanque. Nagumo recolheu os aviões primeiro e marcou o ataque coordenado para as dez e meia.

Às nove e vinte, os torpedeiros americanos chegaram em esquadrões separados, sem escolta e voando baixo. O primeiro perdeu os quinze aparelhos sem um acerto, e os dois seguintes também não acertaram.

O saldo apareceu em outro lugar. A patrulha de caças japonesa desceu ao nível do mar atrás dos torpedeiros e ficou lá, e o céu alto sobre o Kido Butai ficou desguarnecido.

Às dez e vinte e cinco, os bombardeiros de mergulho do Enterprise e do Yorktown apareceram nesse céu vazio. Em cerca de seis minutos, o Kaga recebeu quatro bombas, o Soryu três, e o Akagi apenas uma.

A desproporção entre acertos e estrago é o assunto do dia. Uma bomba não afunda um porta-aviões de quarenta mil toneladas. Afunda um cujo hangar fechado guarda aviões abastecidos, mangueiras pressurizadas e munição que ninguém devolveu ao paiol.

Ao anoitecer o Hiryu ainda navegava sozinho, e não passou daquela tarde.

 
 

II  Quem Estava em Campo

Quatro conveses contra três e uma ilha

O placar de conveses dizia quatro contra três, e o Japão saía na frente. A conta que mandava naquela manhã era outra: quantos aviões cada lado punha no ar contra o convés do outro, e nela Midway valia como uma pista que não afundava.

As forças de Nagumo eram as melhores do oceano. Quatro porta-aviões de esquadra, cerca de duzentos e quarenta e oito aviões embarcados e tripulações com seis meses de campanhas ganhas em sequência.

Do outro lado havia três conveses. Enterprise e Hornet formavam a Força-Tarefa 16, sob Raymond Spruance, e o Yorktown vinha na Força-Tarefa 17, com Frank Jack Fletcher no comando tático.

O Yorktown nem deveria estar ali. Saiu do Mar de Coral avariado, com estimativa de três meses de estaleiro, e o arsenal de Pearl Harbor o devolveu ao mar em setenta e duas horas.

Somando os três grupos aéreos, os americanos alinhavam perto de duzentos e trinta e três aviões. Somando a ilha, passavam de trezentos e cinquenta. A vantagem numérica japonesa era ilusão de mapa.

A vantagem japonesa real estava na coesão. O Zero superava o Wildcat em manobra, os pilotos tinham mais horas de voo, e os quatro conveses operavam como uma unidade só.

A vantagem americana estava no que ninguém via. Em Pearl Harbor, a unidade de criptoanálise de Joseph Rochefort lia parte do código naval japonês e suspeitava que o alvo chamado AF fosse Midway.

A confirmação veio de um truque simples. Midway transmitiu em claro que o destilador de água havia quebrado, e dias depois uma mensagem japonesa interceptada informava que AF estava com pouca água.

Nimitz fez então a única jogada que o tabuleiro permitia. Pôs as três forças-tarefa a nordeste da ilha, fora do arco que a busca japonesa varreria, com ordem de atacar porta-aviões.

Yamamoto estava a mais de quinhentos quilômetros atrás, no encouraçado Yamato, em silêncio de rádio, com a esquadra repartida em grupos que não se enxergavam. Acompanhou a manhã sem saber o que acontecia nela.

O terreno daquele dia não era água, era a linha de busca aérea. Sete aviões varriam um arco imenso numa única passagem, e cada minuto de atraso abria um vão por onde uma esquadra cabia.

A comparação honesta termina num lugar incômodo. A experiência estava toda de um lado, a informação estava toda do outro, e o dia foi decidido pela informação.

A régua vale longe do Pacífico. Quem compara inventário compara o que dá para contar, e o que decide costuma ser o que o outro lado sabe da sua posição antes de você saber da dele.

Sobra um exercício fácil de enunciar e chato de responder: na disputa de amanhã, você é grande na coluna que decide, ou na coluna que dá para medir?

Quem banca a edição de hoje

Smart starts here.

You don't have to read everything — just the right thing. 1440's daily newsletter distills the day's biggest stories from 100+ sources into one quick, 5-minute read. It's the fastest way to stay sharp, sound informed, and actually understand what's happening in the world. Join 4.5 million readers who start their day the smart way.

O clique de apoio mantém a edição gratuita

 
 

III  O Plano

Guardar metade do ataque para a frota

O plano japonês: tomar Midway e usar a ilha como isca. Com a base ocupada, a frota americana teria de sair de Pearl Harbor para retomá-la, e cairia numa armadilha montada de antemão.

O plano americano: não disputar a ilha, disputar os conveses. Nimitz aceitou arriscar a base e concentrou tudo em pegar os porta-aviões japoneses com os aviões ainda no hangar.

A ordem que preparou o estrago: às sete e quinze, com a reserva armada contra navios, Nagumo mandou trocar para bomba terrestre. Às sete e quarenta e cinco mandou voltar ao torpedo, e o retirado ficou onde deu.

Vale medir o que a ordem custou a quem executou. As turmas de hangar passaram três horas movendo peças de oitocentos quilos em corredores apertados, com o navio guinando a trinta nós.

Devolver cada arma ao paiol exigia monta-cargas, cabo, escolta e registro. Fazer certo custava tempo que a contraordem já tinha consumido. Encostar no canto custava zero, e a pressa escolheu o canto.

O defeito não estava na indecisão de um homem. Estava numa doutrina que dava duas missões ao mesmo convés na mesma janela: bater na ilha e guardar reserva contra uma frota que talvez nem estivesse ali.

A busca aérea falhou por trinta minutos. O avião do Tone saiu atrasado, e o setor dele era justamente o que continha as três forças-tarefa. O relatório chegou com o hangar já desmontado.

Às oito e trinta houve uma última bifurcação. Do Hiryu, o contra-almirante Tamon Yamaguchi sinalizou que convinha lançar imediatamente o que estivesse pronto, mesmo sem escolta de caça.

Nagumo escolheu o ataque coordenado das dez e meia. Salva completa com escolta valia mais que duas salvas quebradas, e a escolha estaria certa em qualquer manhã em que o inimigo não chegasse antes.

O hangar não pegou fogo por causa da bomba que caiu, pegou por causa do que estava encostado no canto.

Reserva só se distingue de estorvo por três condições: um paiol que aceite devolução no ritmo em que entrega, uma regra que decida sozinha qual missão tem prioridade, e uma busca que traga a notícia com tempo de usar.

Faltando uma das três, a reserva deixa de ser poder guardado e vira carga inflamável no corredor.

A conta final foi mal somada por décadas. O Japão não perdeu ali a nata dos pilotos, foram cerca de cento e dez tripulantes. Perdeu o mais difícil de repor: mecânicos e turmas de hangar formadas em anos.

Quatro conveses no fundo do Pacífico encerraram a fase em que a Marinha Imperial escolhia onde e quando brigar. Dali em diante, quem marcava o encontro era o outro lado.

Fora do mar o teste é o mesmo. Quando o trabalho feito atrapalha o trabalho novo, a pergunta não é quem mandou trocar, é por que o caminho de volta ao paiol nunca foi tão rápido quanto o de ida.

"Quantas contraordens o meu dia aguenta antes de o trabalho já feito virar estorvo?"

 
 
Guia Batalha do Dia · Novo
Capa do guia O Narrador da Mesa

O Narrador da Mesa

A Curva da Virada que faz qualquer história sua prender o jantar até o fim.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

Em cerca de seis minutos de ataque dos bombardeiros de mergulho americanos, em 4 de junho de 1942, quantas bombas atingiram o porta-aviões Akagi?

AQuatro bombas
BUma bomba
CTrês bombas
DDuas bombas

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🏹🏹🏹🏹🏹  ótima 🏹🏹🏹🏹  boa 🏹🏹🏹  ok 🏹🏹  ruim 🏹  péssima
 
Recomendação de Newsletter
A Origem das Palavras

A Origem das Palavras

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero receber 

 
Sua jornada
Nível {{nivel | 0}} · {{rank_nome | Visitante}} {{xp | 0}} XP
 

Faltam {{xp_falta | 5}} XP pro Nível {{nivel_prox | 1}}

Responda o quiz de hoje: +3 XP

{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações

Top {{top_pct | 100}}%: posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Batalha do Dia nesse mês

Quero subir meu nível 

 
 
 

Cessar-fogo até amanhã.

Batalha do Dia

BATALHA DO DIA

Uma batalha por dia

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter