|
|
A muralha que César virou para fora em Alésia
Em 52 a.C., com Vercingetórix cercado e um exército gaulês a caminho, César ergue uma segunda linha e prende as legiões entre duas paredes.
|
As duas linhas romanas em torno de Alésia
|
| ▼ |
| |
|
Metade do ofício romano era cavar. O legionário marchava com a dolabra na bagagem, uma picareta de cabo curto que arrancava pedra, cortava raiz e derrubava paliçada. Ao fim de cada jornada de marcha, antes do rancho, o acampamento da noite ganhava fosso e trincheira.
Cerco é obra de comprimento, e comprimento trabalha contra quem cerca. A linha não vale pelo trecho mais forte, vale pelo mais fraco. Basta um vão de trinta passos com vigia sonolenta para o cerco inteiro deixar de existir naquela madrugada.
Cada metro erguido cobra homens parados em cima dele. Torre, reduto, sentinela em turno, patrulha andando de um posto ao outro. Quanto mais longa a linha, mais fina a guarnição, e mais distante fica a reserva do ponto onde o problema vai aparecer.
Some a despesa que não entra na planta da obra. Exército parado come a região ao redor até o fundo. O forrageamento sai cada dia mais longe do acampamento, com escolta cada dia maior, e o calendário passa a jogar do lado de quem está trancado dentro.
E há a posição em si. Quem cerca fica de costas para o campo aberto. Se um segundo exército aparecer atrás dele, o sitiante vira sitiado sem ter saído do lugar, preso entre a muralha que ele quer tomar e a coluna que vem tomá-lo.
A saída clássica é levantar acampamento. Abandonar a obra, virar a frente para o inimigo novo e brigar em campo limpo, ou recuar antes que as duas forças se juntem. Perde-se o trabalho de semanas, salva-se o exército, e todo manual antigo recomenda a troca.
Numa colina da Borgonha, no ano de 52 a.C., um general romano recusou a troca. Mandou cavar de novo, agora do lado de fora, e ficou preso de propósito entre as duas paredes que ele mesmo levantou.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Batalha de Hoje
O outono de 52 a.C. em Mont Auxois
|
|
Um exército gaulês se tranca no alto de um morro, e o exército que veio prendê-lo descobre que outro vem chegando pelas costas. Veja o que os romanos mandaram cavar entre uma coisa e outra.
Depois de perder um combate de cavalaria em campo aberto, Vercingetórix recolheu a tropa para o oppidum de Alésia, no alto do Mont Auxois. Levou cerca de oitenta mil infantes e encontrou lá o povo mandúbio, dono do lugar.
A ordem romana foi cavar. A linha interna fechou onze mil passos, perto de dezesseis quilômetros, com torres a cada oitenta pés e vinte e três redutos guarnecidos de dia por postos e de noite por destacamentos.
Antes de o círculo fechar, Vercingetórix mandou a cavalaria embora numa noite, com ordem de cada chefe convocar na própria terra todo homem em idade de pegar em armas.
César soube do plano pelos desertores. Seguiu com a obra de dentro e mandou levantar outra, do lado de fora, virada para o campo aberto de onde o socorro apareceria.
|
"Concluídas essas obras, tomando o terreno mais plano que a natureza do lugar permitia, abarcou catorze mil passos e completou fortificações iguais e do mesmo gênero, voltadas para o lado oposto, contra o inimigo de fora."
Júlio César, Comentários sobre a Guerra das Gálias, Livro VII, c. 51 a.C.
|
O desenho explica o preço. Dois fossos de quinze pés de largura, o interno cheio de água desviada do rio onde o terreno deixava, e atrás deles um aterro com paliçada de doze pés, ameias e forquilhas de tronco.
À frente vinha o pior. Cinco fileiras de troncos com galhos afiados dentro de valas de cinco pés, oito fileiras de covas com estaca no fundo, e blocos de madeira com farpa de ferro espalhados pelo chão.
Somadas, as duas linhas passavam de trinta e cinco quilômetros de terraplenagem. Os legionários batizaram as covas de lírios.
Dentro do morro a comida acabou primeiro. No conselho, o arverno Critognato propôs que os inúteis para a guerra alimentassem os que ainda lutavam. A assembleia preferiu expulsar os mandúbios do próprio povoado, e eles ficaram na faixa entre as duas paredes.
O socorro apareceu semanas depois, nas colinas a oeste. Veio primeiro um combate de cavalaria na planície, resolvido ao fim da tarde pelos germanos contratados por César, e depois um ataque noturno com fascinas e ganchos contra a linha externa.
O golpe sério veio ao meio-dia seguinte. Sessenta mil escolhidos sob Vercassivelauno subiram por um morro ao norte, o único trecho que a linha não conseguira abraçar, enquanto Vercingetórix atacava o mesmo setor por dentro.
César despachou Labieno com seis coortes e foi atrás. As legiões reconheceram pela cor do manto quem chegava no reforço, e a cavalaria germânica caiu nas costas dos atacantes.
O exército de socorro se desfez ali mesmo. No dia seguinte, Vercingetórix mandou abrir o portão e entregou as armas na frente da linha que o prendia.
|
|
|
|
|
II Quem Estava em Campo
Dez legiões entre dois exércitos gauleses
|
|
O placar dizia dez legiões contra oitenta mil homens no morro e um socorro que César contou aos duzentos e quarenta mil. A conta que mandava era outra: quantos homens cabiam de frente num trecho de parede, e quanto tempo a reserva levava para chegar lá.
|
As forças romanas eram dez legiões desfalcadas por uma campanha inteira, mais auxiliares e a cavalaria germânica contratada depois de Gergóvia. Estimativas modernas põem o total entre quarenta e sessenta mil homens sob armas romanas.
Vercingetórix tinha trinta e poucos anos e comandava havia menos de um ano. Arverno, eleito chefe da coalizão, tinha imposto a César a única derrota clara da campanha, em Gergóvia, poucos meses antes.
A doutrina dele era queimar. Terra arrasada à frente do invasor, comboio romano atacado na estrada, batalha aberta recusada por princípio. Alésia foi a exceção, e a exceção começou com um combate de cavalaria que ele não precisava dar.
Dentro do morro havia oitenta mil infantes, os chefes de dezenas de povos e a população mandúbia inteira. Comida para trinta dias, contada com rigor, era o que o depósito da cidade suportava.
O socorro veio de mais de quarenta povos, com contingente fixado por assembleia. O comando ficou com quatro homens: Cômio, o atrebate, os éduos Viridômaro e Eporédorix, e Vercassivelauno, primo de Vercingetórix.
Os números do socorro são de César, e é ele quem ganhou. Duzentos e quarenta mil infantes e oito mil cavaleiros é o que está escrito no livro sétimo. Historiadores modernos trabalham com algo entre oitenta e cento e vinte mil.
Nenhuma das duas contas muda o problema tático. A planície a oeste tinha cerca de três mil passos, e nem duzentos mil nem cem mil homens conseguiam atacar ao mesmo tempo num corredor daquele tamanho.
O terreno que decidiu era outro. Um morro ao norte, hoje chamado Mont Réa, subia alto demais para caber no traçado, e o acampamento romano da encosta ficou com a linha em desvantagem de altura.
Vercassivelauno passou a noite marchando para alcançar aquela encosta por trás. Dos dois lados o mesmo pedaço de terreno foi lido do mesmo jeito, e o dia inteiro se resumiu a quem chegava primeiro ali em cima.
A vala existe no chão. Napoleão III mandou escavar Alise-Sainte-Reine entre 1861 e 1865, sob o coronel Stoffel, e apareceram os fossos, as covas de estaca, armas e moedas na posição descrita pelo texto antigo.
Uma campanha franco-alemã entre 1991 e 1997, dirigida por Michel Reddé e Siegmar von Schnurbein, confirmou o traçado das duas linhas em volta do Mont Auxois.
A régua serve longe da Borgonha. Quem compara efetivo compara o que dá para contar, e o que decide costuma ser a largura da frente de contato e o tempo que a reserva leva para cobrir o ponto fraco.
|
|
|