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A maré que deixou Magalhães com água na cintura

Em abril de 1521, os botes pararam no recife de Mactan e 49 homens andaram pela água rasa até as flechas de Lapulapu.

Espanhóis com água na cintura diante da praia de Mactan, 1521

A maré baixa no recife de Mactan, 1521

▼
 

Um contra 30. Era a conta da praia de Mactan na manhã de 27 de abril de 1521: 49 europeus de armadura na água contra cerca de 1.500 guerreiros na areia, segundo o cronista italiano Antonio Pigafetta, que estava entre os 49. Para quem vinha de canhão e de aço, a conta parecia boa. Para quem tinha os pés no lodo, ela virou outra.

A frota tinha saído da Espanha em setembro de 1519, com 5 navios e cerca de 270 homens. Em abril de 1521 restavam 3 navios, ancorados diante da ilha de Cebu, no arquipélago que hoje forma as Filipinas.

O comandante era o português Fernão de Magalhães, a serviço do rei Carlos I da Espanha. Em Cebu, o rajá Humabon (rajá: chefe ou rei local) tinha aceitado o batismo cristão poucas semanas antes, junto com centenas de súditos.

Na ilha vizinha, Mactan, um chefe chamado Lapulapu recusou obediência. Não mandaria arroz, nem cabras, nem tributo a um rei que nunca tinha visto.

Magalhães decidiu ir pessoalmente. Saiu à meia-noite com 3 botes e 60 homens, e Humabon seguiu atrás com cerca de 20 canoas cheias de guerreiros.

Chegaram ao largo de Mactan 3 horas antes do amanhecer. A maré estava baixa, e um recife de coral fechava a praia. Os botes não passavam.

Magalhães deixou 11 homens guardando os botes e entrou na água com os outros 49. Pigafetta mediu a distância até a areia em “duas vezes o tiro de uma besta” (arma que dispara uma seta curta de madeira com um arco de aço).

A água chegava às coxas e, nos buracos do coral, à cintura. Os canhões dos navios ficaram longe demais para alcançar a praia. Humabon recebeu ordem de olhar das canoas, sem descer.

Na areia, os homens de Lapulapu esperavam em 3 grupos. Abaixo, a ficha do dia, os 2 chefes que se enfrentaram e o plano que a maré desfez.

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I  A batalha de hoje

Um recife na costa de Cebu

A Batalha de Mactan foi travada em 27 de abril de 1521, na praia leste da ilha de Mactan, diante de Cebu, nas atuais Filipinas. Opôs a expedição espanhola de Fernão de Magalhães aos guerreiros do chefe Lapulapu.

Em Mactan, a primeira expedição a cruzar o Pacífico perdeu o comandante numa praia que os botes não conseguiam alcançar.

A ficha do confronto:

Data:27 de abril de 1521
Local:Mactan, diante de Cebu
Lado europeu:Fernão de Magalhães
Lado de Mactan:Lapulapu
Desfecho:vitória de Mactan
Fonte:Antonio Pigafetta

A viagem tinha um objetivo comercial. A Espanha queria chegar às ilhas Molucas, as ilhas do cravo e da noz-moscada, navegando para oeste, sem passar pelas rotas que os portugueses controlavam.

Em 1520, a frota achou a passagem no extremo sul da América, o estreito que hoje leva o sobrenome do comandante. Depois cruzou o Pacífico em mais de 3 meses sem terra firme, comendo biscoito podre e couro amolecido na água do mar.

Em março de 1521 chegou ao arquipélago. Em Cebu, Magalhães trocou presentes com Humabon, fez missa na praia e plantou uma cruz. Em 14 de abril, o rajá foi batizado e recebeu o nome cristão de Carlos.

A aliança tinha um preço. Humabon queria ver os chefes das ilhas próximas obedecendo a ele, e Magalhães prometeu fazer a obediência valer. Dois chefes de Mactan dividiam a ilha: Zula aceitou mandar presentes; Lapulapu, não.

Zula mandou um filho a Cebu com 2 cabras e um pedido: que os espanhóis fossem lutar, porque ele sozinho não enfrentava Lapulapu. Foi a senha para a expedição da noite de 26 de abril.

A luta durou cerca de uma hora, pelo relato de Pigafetta. Os europeus recuaram pela água, de costas para os botes, e Magalhães ficou na retaguarda para cobrir a retirada.

Ali ele caiu, a poucos metros da linha da maré. Pigafetta contou 8 europeus mortos junto do comandante e 15 guerreiros de Mactan. Os 4 nativos já batizados que lutaram do lado europeu foram abatidos pelos tiros dos próprios navios, que dispararam de longe sem acertar a praia.

Humabon pediu o corpo de Magalhães em troca de mercadorias. Lapulapu respondeu que não entregaria por nada. O corpo nunca foi devolvido, e nenhum registro diz o que foi feito dele.

 
 

II  Quem estava em campo

Um navegador português contra um chefe de Mactan

Mactan pôs frente a frente um navegador que tinha dado meia volta ao mundo e um chefe que defendia uma praia que conhecia pedra por pedra.

Fernão de Magalhães nasceu por volta de 1480, no norte de Portugal, numa família da pequena nobreza. Serviu como pajem na corte da rainha Leonor, em Lisboa.

O soldado das Índias

Em 1505 embarcou para a Índia na armada de Francisco de Almeida. Lutou em Diu em 1509 e em Malaca em 1511, e voltou com uma lança cravada no joelho em Marrocos, em 1513. Mancava desde então.

Em Malaca, ouviu sobre as Molucas e se convenceu de que as ilhas ficavam na metade espanhola do mundo, pela divisão do Tratado de Tordesilhas (acordo de 1494 que repartiu as terras novas entre Portugal e Espanha).

O rei português Manuel I recusou o projeto e um aumento de soldo. Magalhães foi para Sevilha em 1517 e ofereceu a viagem ao jovem Carlos I, que aceitou.

O comandante que enfrentou motim

Em abril de 1520, no porto de San Julián, na atual Argentina, 3 capitães espanhóis se amotinaram contra o comandante português. Magalhães retomou os navios, mandou executar um dos capitães e abandonou outro na costa.

A frota que chegou a Cebu obedecia a ele por medo e por respeito. Pigafetta, que o admirava, escreveu que ele suportava a fome melhor do que ninguém a bordo.

O chefe de Mactan

Quase nada se sabe de Lapulapu antes de 1521. Pigafetta o chama de Cilapulapu, e a única descrição dele vem dos inimigos. A idade, a família e o fim da vida dele são desconhecidos: nenhuma fonte da época os registra, e a tradição oral das ilhas só foi escrita séculos depois.

Hoje ele é herói nacional das Filipinas. Uma estátua de bronze fica na praia de Mactan, e a cidade principal da ilha leva o nome de Lapu-Lapu.

O cronista ferido

Antonio Pigafetta, nascido em Vicenza, na Itália, pagou do próprio bolso para embarcar. Em Mactan levou uma flecha na testa e sobreviveu.

Voltou à Espanha em 1522 a bordo do navio Victoria, comandado por Juan Sebastián Elcano, com 18 sobreviventes. Escreveu a “Relazione del primo viaggio intorno al mondo” (Relato da primeira viagem ao redor do mundo), por volta de 1524.

 

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III  O plano

A água que segurou os botes

O plano europeu: desembarcar na madrugada, queimar as casas da aldeia e assustar Lapulapu até a submissão, sem a ajuda dos guerreiros de Cebu.

O plano de Mactan: esperar na praia, deixar os invasores chegarem cansados pela água e atacar onde a armadura não cobria.

A decisão que mudou a conta: desembarcar na maré baixa, longe do alcance dos canhões.

O primeiro passo foi a recusa de ajuda. Humabon ofereceu cerca de 1.000 guerreiros. Magalhães disse que bastavam os espanhóis, e que os aliados ficassem olhando como os cristãos lutavam.

O segundo passo foi o aviso. Antes do ataque, Magalhães mandou um intérprete a Lapulapu: se aceitasse o rei da Espanha e pagasse tributo, seriam amigos; se não, veriam como as lanças europeias feriam.

Lapulapu respondeu que também tinha lanças, de bambu endurecido no fogo. E pediu que o ataque esperasse a luz do dia, porque assim teria mais homens. Pigafetta suspeitou de armadilha: os nativos teriam cavado buracos na praia durante a noite.

O terceiro passo foi a travessia. Os 49 desceram dos botes ainda escuro e andaram pelo coral com a água pelas coxas, carregando mosquetes e bestas que molhavam a cada tropeço.

O quarto passo foi o fogo. Os mosqueteiros e besteiros atiraram de longe por cerca de meia hora, e os escudos de madeira dos guerreiros seguraram as balas. Magalhães gritou para pararem, e ninguém ouviu.

O quinto passo foi o incêndio. O comandante mandou queimar umas 20 casas da aldeia. Os guerreiros viram as casas arderem e avançaram com mais fúria.

Os homens de Lapulapu perceberam que os corpos dos europeus estavam protegidos e as pernas não. Passaram a mirar abaixo dos joelhos.

“Vendo isto, os nativos atiravam apenas às nossas pernas, que estavam nuas.” A frase é de Pigafetta, na “Relazione del primo viaggio intorno al mondo”, por volta de 1524.

Uma flecha envenenada atravessou a perna direita de Magalhães. Ele mandou recuar devagar, mas a maioria correu para os botes, e ficaram com ele 7 ou 8 homens.

Um guerreiro feriu o comandante no rosto com uma lança de bambu. Ele tentou sacar a espada e só a tirou até a metade, porque tinha o braço ferido. Um golpe de catana (espada larga e curva) na perna esquerda o derrubou de bruços na água.

Pigafetta escreveu que Magalhães se virou várias vezes para ver se os homens já estavam nos botes. Depois os guerreiros caíram sobre ele.

“Quantos tiros de besta separam um navio de uma praia?”

Os botes ficaram no recife.

 
 
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Por que os canhões dos navios não ajudaram os 49 homens na praia de Mactan?

AHumabon ordenou que as canoas não disparassem contra a praia
Ba pólvora tinha molhado durante a travessia pelo Pacífico
Ca maré baixa e o recife de coral deixaram os navios longe demais da areia
DLapulapu capturou os canhões na noite anterior

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