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A lama que parou a cavalaria em Azincourt
Em 1415, Henrique V manda cada arqueiro fincar uma estaca num campo recém-arado entre duas matas, e a carga francesa afunda antes de chegar.
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Cavaleiros afundam no barro entre as duas matas
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Um homem de armas do século XV entrava em campo com vinte e cinco a trinta quilos de placa de aço no corpo. Bem distribuído nos ombros e no quadril, o peso não travava o movimento: dava pra correr, montar e levantar do chão sozinho.
A conta muda quando o piso deixa de ser firme. Terra lavrada e encharcada agarra a bota, e cada passo precisa vencer a sucção antes de avançar. O pé sai devagar, com a coxa inteira puxando, e dar um passo à frente vira esforço de fôlego.
A cavalaria pesada resolvia o problema por cima. O cavalo carregava o peso, entregava a massa em velocidade e dispensava o cavaleiro de andar. Por três séculos a carga montada decidiu batalha na Europa, e infantaria pega em campo aberto tinha uma opção só: não estar ali.
Só que cavalo é bicho, não máquina. Ele enxerga ponta afiada apontada pro peito e desvia, e nenhum cavaleiro consegue obrigá-lo a se empalar. Uma fileira de madeira fincada em ângulo não precisa furar nada: basta fazer o animal virar, e carga que virou vira amontoado.
A madeira é o material mais barato da guerra. Qualquer mata no caminho fornece estaca, qualquer soldado com machadinha afia as duas pontas, e o custo da barreira se resume ao tempo de cortar e ao incômodo de carregar.
Falta o detalhe que estraga o plano inteiro. Estaca fincada é arma parada: só serve contra quem vem. Quem tem menos gente e escolhe terreno fechado precisa que o outro lado ataque, e o outro lado só ataca se enxergar presa fácil ou se perder a paciência.
No outono de 1415, um campo de trigo recém-semeado no norte da França juntou as três peças no mesmo lugar: madeira de sobra, chão encharcado e uma hoste com pressa de vencer.
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I A Batalha de Hoje
A manhã entre Azincourt e Tramecourt
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A carga mais cara da Europa se desmanchou antes de encostar na linha inglesa. Veja o que um campo lavrado faz com trinta quilos de aço.
Henrique V chegou àquele campo com um exército doente e a estrada de Calais fechada na frente. Na manhã de 25 de outubro de 1415, dia de São Crispim, os ingleses formaram entre as matas de Azincourt e Tramecourt, no norte da França.
A campanha vinha mal. O cerco de Harfleur consumiu cinco semanas do verão e a disenteria esvaziou boa parte da tropa antes de qualquer combate. O que sobrou marchou mais de quatrocentos quilômetros em duas semanas e meia, com ração curta.
O campo daquela manhã era uma faixa de terra lavrada havia poucos dias e semeada com trigo de inverno, espremida entre duas matas. A chuva caiu a noite inteira sobre a terra revirada, e o que amanheceu ali era barro fundo.
Henrique montou a linha em três corpos de homens de armas a pé, quatro fileiras de profundidade, e pôs os arqueiros nas pontas e nos intervalos, em cunhas. Na frente de cada grupo, as estacas afiadas foram fincadas em ângulo, na altura do peito de um cavalo.
Do outro lado, a hoste francesa formou em três linhas, as duas primeiras a pé, com alas de cavalaria nos flancos reservadas a uma tarefa: passar por cima dos arqueiros ingleses.
Por cerca de quatro horas ninguém se moveu. Aos franceses, esperar era vantagem: reforços chegavam pela estrada e o inimigo enfraquecia a cada hora parada. Henrique não tinha esse tempo.
Então o rei inglês fez o que ninguém esperava de uma posição defensiva. Mandou arrancar as estacas, avançou a linha inteira até o alcance do arco e fincou tudo de novo no barro.
As primeiras flechas saíram dali. A ala montada respondeu na hora, com muito menos gente do que o plano previa: parte dos cavaleiros tinha desmontado ou se afastado durante a espera.
Os cavalos que chegaram perto não bateram nas estacas, viraram antes. Flecha em anca e flanco fez o resto, e a ala montada voltou em pânico por cima da primeira linha de homens de armas, que já avançava a pé.
A linha francesa continuou vindo pelo campo arado. Cada passo afundava até o joelho, o funil entre as matas estreitou a frente, e as fileiras de trás empurravam as da frente contra a massa já parada.
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"Os franceses estavam de tal modo comprimidos uns contra os outros que não conseguiam erguer os braços para golpear o inimigo."
Enguerrand de Monstrelet, Chroniques, c. 1444.
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Foi quando os arqueiros largaram o arco. Leves e andando por cima do barro em vez de dentro dele, pegaram malho, machadinha e faca e entraram pelos flancos da massa comprimida.
As contagens variam muito, e mesmo as estimativas modernas mais contidas deixam oito para um. A lista de nomes impressiona mais: o condestável Charles d'Albret ficou no campo com os duques de Alençon, de Brabante e de Bar, e os de Orléans e de Bourbon saíram prisioneiros.
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II Quem Estava em Campo
Seis mil doentes contra a flor da França
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Contagem de homens era a métrica oficial da época, e a França ganhava nela com sobra. A restrição do dia era um funil de setecentos metros entre duas matas, onde não decide quem tem mais gente, decide quem consegue mostrar frente.
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Os números de Azincourt são disputados até hoje. As crônicas do século XV falam de seis mil ingleses contra vinte a trinta mil franceses, e a pesquisa moderna mais conservadora aperta a conta pra nove mil contra doze mil.
Em qualquer das versões, a composição é a mesma, e a composição é o que interessa. Do lado inglês, quatro em cada cinco homens eram arqueiros. Do lado francês, o peso estava nos homens de armas a pé.
A tropa inglesa chegou em estado ruim. Cinco semanas de cerco em Harfleur, disenteria no acampamento, duas semanas e meia de marcha com ração curta e uma noite inteira debaixo de chuva.
A hoste francesa estava descansada e abastecida, a poucos dias das próprias praças. Ali se reuniu a maior parte da alta nobreza do reino, com o melhor equipamento que o dinheiro da época comprava.
O comando francês, no papel, era do condestável Charles d'Albret e do marechal Boucicaut, dois profissionais experientes. Na prática, o campo tinha uma dúzia de duques e condes com autoridade própria, e o rei Carlos VI, impedido pela doença, não estava lá pra encerrar a discussão.
A disputa não era sobre tática, era sobre lugar. Estar na primeira linha valia honra, e a nobreza se espremeu ali. Os besteiros franceses, que poderiam responder à distância, foram empurrados pra retaguarda e quase não dispararam.
O comando inglês era um só, e estava dentro da linha. Henrique lutou a pé, no centro, com a coroa presa ao elmo pra ser visto de longe, no ponto onde a formação quebraria primeiro se fosse quebrar.
O terreno entrava na comparação e ninguém o comparou. A faixa entre as duas matas tinha entre setecentos e novecentos metros, e afunilava. Exército grande em frente estreita vira coluna, e coluna não usa o próprio tamanho.
Havia ainda o chão. Terra lavrada, semeada de trigo e encharcada pela chuva da noite, é o pior piso pra quem carrega trinta quilos de aço e o melhor pra quem anda leve.
Muito mais gente, muito menos espaço, e o dia foi decidido pelo espaço.
A régua vale fora do campo lavrado. Quem escolhe o terreno escolhe qual atributo vai decidir, e quem só compara tamanho chega na disputa já jogando o jogo do outro.
A França tinha uma resposta pronta pro problema errado. O reino sabia reunir nobreza, cavalo e aço, e repetia a fórmula desde Crécy e Poitiers, em dose maior a cada vez.
Sobra um exercício fácil de enunciar e chato de responder: em qual coluna você é grande, e essa coluna decide alguma coisa no terreno onde a disputa vai acontecer?
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