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ED 031
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A ladeira que desmontou a parede de escudos

Em 14 de outubro de 1066, a ala bretã de Guilherme fugiu colina abaixo e a linha inglesa desceu atrás.

A crista de Senlac, a onze quilômetros de Hastings, onde a linha inglesa e a força normanda se enfrentaram em 14 de outubro de 1066.

A crista de Senlac, 14 de outubro de 1066

 

Nove em dez. A parede de escudos inglesa venceu nove das dez horas de luz do dia 14 de outubro de 1066, e a décima hora apagou as outras nove.

Uma parede de escudos é uma linha de homens ombro a ombro, escudo sobreposto ao escudo do vizinho, lança e machado por cima. Ela não avança, não persegue, não desfecha golpe brilhante. Ela fica parada e cobra caro de quem sobe.

A força dela vem de uma condição só: ninguém sai do lugar. Cada escudo protege metade do corpo do homem à direita, e um homem que dá três passos à frente abre um vão que não é dele, é do vizinho.

Cavalaria não quebra uma linha assim pelo choque. Cavalo treinado recusa correr contra ponta de lança fechada, e cavaleiro que insiste chega sozinho a uma parede de machados. Arqueiro também não resolve, porque a flecha em arco alto bate no escudo levantado.

O que quebra a linha é convite. Quem está na crista vê o inimigo virar as costas e correr ladeira abaixo, ouve o grito de que o comandante adversário caiu, e sente a chance de terminar o dia ali mesmo. O impulso de perseguir é individual, e a linha só existe enquanto ninguém age por conta própria.

O terreno dobra a aposta. Uma linha na crista de uma elevação estreita tem os dois flancos protegidos por encosta e mato, e quem ataca precisa subir cansando cavalo e homem. A mesma encosta trabalha contra o defensor no instante em que ele desce, porque cada metro descido é um metro de proteção entregue.

Numa crista a onze quilômetros de Hastings, um exército inglês montou essa linha ao amanhecer e a manteve intacta até o meio da tarde. Ela saiu do alto em pedaços, e cada pedaço saiu por vontade própria.

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I  A batalha de hoje

Nove horas na crista de Senlac

O lugar fica no interior de Sussex, na costa sul da Inglaterra, numa elevação alongada que os documentos normandos posteriores chamaram de Senlac e que hoje é ocupada pela cidade de Battle. A crista corre no sentido leste e oeste, com encostas em três lados e um istmo estreito ao norte.

A Inglaterra de 1066 tinha três homens reivindicando o mesmo trono, e os três se moveram no mesmo ano: um rei coroado em Londres, um rei norueguês pelo norte e um duque normando pelo sul.

Eduardo, o Confessor, morreu em janeiro sem filho. A assembleia inglesa entregou a coroa a Harold Godwinson, o nobre mais poderoso do reino. Guilherme, duque da Normandia, alegou promessa anterior de Eduardo e juramento prestado pelo próprio Harold em solo normando.

Harald Hardrada, rei da Noruega, alegou herança de acordos dinásticos antigos e desembarcou no norte em setembro. Harold marchou para o norte, venceu em Stamford Bridge no dia 25 de setembro, e três dias depois a frota normanda encostou em Pevensey, no sul.

A ficha do confronto:

Data:14 de outubro de 1066
Local:crista de Senlac, a onze quilômetros de Hastings, em Sussex
Comando inglês:Harold Godwinson, rei da Inglaterra
Comando normando:Guilherme, duque da Normandia
Duração:do meio da manhã ao anoitecer
Fator decisivo:a linha inglesa deixar a crista para perseguir uma ala em fuga

"Os bretões e os auxiliares da ala esquerda voltaram as costas, e quase todo o corpo do duque cedeu com eles."

Guilherme de Poitiers, em "Gesta Guillelmi", século XI.

O combate começou por volta das nove da manhã. Guilherme abriu com salvas de arqueiros, seguiu com infantaria pesada e fechou com cavalaria, e as três ondas subiram a encosta contra escudos encaixados sem abrir brecha em nenhum ponto.

No fim da manhã, a ala esquerda normanda, formada por contingentes bretões, cedeu terreno e desceu em desordem. Correu pelo campo a notícia de que o duque tinha caído. Parte da linha inglesa desceu atrás dos fugitivos, e a encosta que protegia os ingleses passou a separá-los da própria formação.

Guilherme levantou o elmo para mostrar o rosto às próprias tropas, reuniu a cavalaria e voltou contra os perseguidores em campo aberto. Os ingleses que tinham descido morreram longe da crista, e a linha lá em cima ficou com menos homens para cobrir a mesma extensão.

 
 

II  Quem estava em campo

A pé contra a sela

A comparação não era entre um exército maior e um menor: era entre uma linha inteira de infantaria que só sabia defender e uma força de três armas combinadas que podia atacar de três maneiras diferentes.

O núcleo inglês eram os housecarls, tropa profissional do rei, com cota de malha, escudo redondo e o machado dinamarquês de cabo longo, arma capaz de partir escudo e cavalo em um golpe. Ao redor deles ficava o fyrd, a convocação regional de homens livres, com equipamento variado e treino de campanha curta.

Nenhum desses blocos tinha cavalaria de combate. Os ingleses usavam cavalo para chegar ao campo e desmontavam para lutar, tradição escandinava herdada de duas gerações de guerra no norte.

A tropa de Harold chegou cansada. Ela tinha lutado em Stamford Bridge no dia 25 de setembro, no Yorkshire, e coberto perto de quatrocentos quilômetros até Londres e mais oitenta até Sussex em menos de três semanas. Parte do fyrd ainda estava a caminho quando a linha se formou na crista.

Do lado normando havia três corpos com funções separadas. Arqueiros e besteiros abriam o ataque a distância, infantaria pesada subia para o corpo a corpo, e cavaleiros com lança e cota entravam quando a linha adversária mostrasse falha. As alas reuniam bretões à esquerda e flamengos e franceses à direita.

"O rei Haroldo reuniu um grande exército e veio contra ele no lugar da macieira grisalha."

Crônica Anglo-Saxônica, versão D, século XI.

Guilherme comandava havia quase trinta anos um ducado que ele mesmo pacificara à força, e tinha atravessado o Canal com uma frota montada às pressas depois de semanas esperando vento favorável em Saint-Valery. A campanha dele não admitia empate: um exército invasor sem porto seguro apodrece.

A posição de Harold admitia. Bastava manter a crista até o anoitecer, dormir no alto e esperar os reforços do norte e do oeste que chegariam nos dias seguintes, enquanto o invasor gastava cavalo, flecha e comida numa costa hostil.

Os dois comandantes sabiam disso, e a assimetria explica o dia inteiro. Guilherme precisava de um erro inglês antes do escuro, e Harold precisava apenas de que nenhum dos seus homens cometesse esse erro.

 

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III  O plano

A fuga que virou manobra

O plano inglês: ocupar a crista de Senlac antes do amanhecer, fechar a parede de escudos de encosta a encosta, receber os ataques sem sair da posição e entregar o campo intacto ao anoitecer.

O plano normando: desgastar a linha com arqueiros, pressionar com infantaria, abrir espaço com cavalaria e, faltando brecha, produzir uma.

A decisão que mudou a conta: depois que a fuga bretã puxou parte dos ingleses para fora do alto e custou caro a eles, Guilherme mandou repetir o movimento de propósito, com esquadrões que corriam encosta abaixo e voltavam em ordem.

O primeiro passo foi a escolha do terreno pelos ingleses. Harold posicionou a linha no ponto mais estreito da crista, onde a frente cabia inteira na tropa disponível e os flancos ficavam guardados por encosta íngreme e terreno alagado.

O segundo foi o ataque em ondas. Os arqueiros normandos atiraram de baixo para cima, ângulo que joga a flecha contra a face do escudo, e a infantaria subiu contra machados que abriam elmo e cota.

O terceiro foi a quebra da ala esquerda. Os bretões cederam e correram, com o boato da morte do duque atrás deles, e a ala direita inglesa desceu em perseguição sem ordem para descer.

O quarto foi a reação pessoal de Guilherme. Ele descobriu a cabeça diante das próprias tropas para provar que estava vivo, remontou a cavalaria e cercou os perseguidores no terreno plano ao pé da elevação.

O quinto foi a leitura do episódio. O que começou como pânico tinha aberto na linha inglesa exatamente a falha que nenhum ataque frontal conseguira abrir em quatro horas de subida.

O sexto foi a repetição deliberada. Ao longo da tarde, esquadrões normandos avançaram, simularam colapso, desceram a encosta e se reformaram embaixo, arrastando a cada ciclo mais um pedaço da linha do alto para o plano.

O sétimo foi o efeito acumulado. A parede encurtou, os intervalos entre escudos aumentaram, e os cavaleiros passaram a encontrar vãos em vez de bordas fechadas.

O oitavo foi o ataque combinado do fim da tarde. Arqueiros voltaram a atirar em ângulo alto sobre a linha encurtada enquanto a cavalaria entrava pelos vãos, e a formação inglesa deixou de ser uma linha para virar grupos isolados no alto.

O nono foi a queda do comando. Harold morreu na crista com os irmãos Gyrth e Leofwine, e a tradição registrada pela Tapeçaria de Bayeux associa o fim dele a um ferimento no olho. Sem rei e sem linha, o fyrd se dispersou pelo bosque ao norte no escuro.

Guilherme foi coroado em Westminster no Natal de 1066. A aristocracia inglesa foi substituída por normandos em vinte anos, o levantamento fundiário do Domesday Book registrou a troca de donos em 1086, e o francês normando entrou na língua e no direito.

Uma formação que depende de todo mundo ficar parado não é vencida pelo ataque mais forte: ela é vencida por quem descobre o que faz um pedaço dela querer sair sozinho do lugar.

"Qual vantagem sua depende hoje de ninguém do seu time morder uma isca que parece vitória fácil?"

A parede de escudos nunca mais foi montada na Inglaterra.

 
 

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