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Batalha do Dia   Batalha do Dia
ED 011

A fumaça que fingiu uma frota em Samar

Em outubro de 1944, treze navios de escolta avançam soltando fumaça e torpedos contra os encouraçados japoneses ao largo das Filipinas.

Contratorpedeiros americanos soltando cortina de fumaça diante de encouraçados japoneses, ao largo da ilha de Samar, em outubro de 1944.

Cortina de fumaça entre a escolta e os encouraçados

 

Vantagem no mar só existe depois de reconhecida. O almirante com o dobro de canhões precisa saber que tem o dobro, e a informação chega por vigia, telêmetro e radar, filtrada por trinta quilômetros de ar salgado.

Por causa dessa filtragem, fumaça é arma, não fuga. A cortina não para projétil nenhum. Ela apaga a referência de que o telêmetro precisa, quebra a correção de tiro salva a salva e transforma o que está atrás dela num palpite.

O palpite tem viés conhecido, e o viés aponta para cima. Comandante que perde o alvo de vista conta mais navio do que existe, porque subestimar custa a esquadra inteira e superestimar custa só tempo.

A conta não é nova. Esquadra em inferioridade usa cortina desde o vapor a carvão, e o manual da época já mandava o contratorpedeiro fumar entre o inimigo e o que precisava ser protegido, mesmo sob fogo.

A cortina cobra caro de quem a produz. O navio queima óleo em regime sujo, entrega a própria posição pelo rastro, cega o próprio artilheiro e fica preso a um rumo previsível enquanto desenrola a nuvem atrás da popa.

Há um limite pior. Fumaça sozinha adia, e minuto adiado não afunda ninguém. Para a leitura errada virar decisão do outro lado, alguém precisa sair de dentro da cortina fazendo o que só uma força grande faria.

É aí que o torpedo entra na conta. Ele não precisa acertar: basta o rastro obrigar um encouraçado a guinar, e a guinada joga fora a solução de tiro que levou vinte minutos para ser construída. Cada guinada devolve distância e tempo ao lado mais fraco.

Na manhã de 25 de outubro de 1944, ao largo da ilha de Samar, nas Filipinas, treze navios americanos feitos para escoltar comboio passaram duas horas e meia executando essa conta na frente de vinte e três navios japoneses.

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I  A Batalha de Hoje

Duas horas e meia diante do Yamato

Às 6h45 de 25 de outubro de 1944, o vigia de um porta-aviões de escolta americano relatou mastros em pagode no horizonte norte. Veja o que a escolta fez com as duas horas e meia seguintes.

A escolta não correu para o sul nem esperou reforço: soltou cortina de fumaça, mandou contratorpedeiro de casco fino atacar de torpedo e jogou avião desarmado em cima da coluna japonesa, até o comando do outro lado concluir que enfrentava a frota principal americana. A ordem japonesa foi meia-volta, com o caminho aberto.

A unidade se chamava Taffy 3 e estava ali para dar cobertura aérea ao desembarque em Leyte. Nenhum comandante americano esperava encouraçado inimigo naquele quadrante.

Às 6h59 saiu a primeira salva do Yamato, a cerca de trinta quilômetros. As colunas de água subiram coloridas de vermelho, verde e amarelo, porque cada encouraçado japonês tingia o próprio projétil para enxergar a própria correção de tiro.

O contra-almirante Clifton Sprague virou a formação para leste, mandou lançar todos os aviões, mandou fazer fumaça e correu para uma pancada de chuva a sudoeste. O pedido de socorro saiu em linguagem clara, sem cifra, para ganhar minutos.

A fumaça veio de duas fontes ao mesmo tempo: preta, das caldeiras em regime sujo, e branca, dos geradores químicos na popa. A pancada de chuva das 7h15 cobriu a formação por cerca de quinze minutos.

Antes de qualquer ordem, o contratorpedeiro Johnston guinou sozinho para cima da coluna. O comandante Ernest Evans fechou a distância para nove quilômetros, despejou duzentos tiros de 127 mm e soltou os dez torpedos contra o cruzador pesado Kumano, que perdeu a proa.

Às 7h16 veio o sinal de Sprague para os pequenos atacarem de torpedo. O Hoel foi para cima do encouraçado Kongō e depois do cruzador Haguro, e o Heermann encaixotou o Yamato entre dois rastros paralelos.

O navio de Kurita não tinha para onde guinar sem cruzar um dos dois rastros, e correu para o norte por cerca de dez minutos. A capitânia da frota japonesa passou aquele trecho da batalha se afastando dela.

"Em nenhum combate de toda a sua história a Marinha dos Estados Unidos mostrou mais bravura, fibra e determinação do que naquelas duas horas da manhã ao largo de Samar."

Samuel Eliot Morison, em Leyte, June 1944 to January 1945, 1958.

O contratorpedeiro de escolta Samuel B. Roberts, com dois canhões de 127 mm, chegou a cinco quilômetros do cruzador Chōkai e disparou mais de seiscentos tiros contra a superestrutura e a torre de popa.

No ar, a conta era parecida. Muitos Avenger e Wildcat tinham subido armados para apoio a tropa em terra, e faziam passagem seca sobre as pontes só para obrigar o artilheiro japonês a baixar a cabeça.

O porta-aviões Gambier Bay ficou para trás da cortina, levou fogo de cruzador a curta distância e afundou às 9h07, o único porta-aviões americano perdido para tiro de canhão naval na guerra.

Às 9h11 o vice-almirante Takeo Kurita mandou o sinal de reunir ao norte. Pouco depois do meio-dia desistiu do golfo de Leyte e voltou para o estreito por onde tinha entrado de madrugada.

A conta da manhã ficou em quatro navios americanos perdidos no combate de superfície, o St. Lo perdido para ataque aéreo suicida às 10h51 e cerca de mil e cem homens de Taffy 3 na lista de baixas. Do lado japonês, três cruzadores pesados no fundo.

 
 

II  Quem Estava em Campo

Casco fino contra o maior canhão do mar

O placar dizia vinte e três navios japoneses, quatro deles encouraçados, contra treze americanos sem blindagem de combate. O número que mandou naquela manhã foi outro: o que o estado-maior japonês achou que estava vendo do outro lado da fumaça.

Taffy 3 era uma unidade de escolta, e cada peça dela tinha sido feita para outra guerra. Os seis porta-aviões eram cascos de navio mercante com pista em cima, dezessete nós e meio de velocidade máxima e um único canhão de 127 mm na popa.

A escolta trazia três contratorpedeiros da classe Fletcher, o Johnston, o Hoel e o Heermann, com cinco canhões de 127 mm, dez tubos de torpedo e trinta e cinco nós de máquina.

Vinham ainda quatro contratorpedeiros de escolta, entre eles o Samuel B. Roberts, com dois canhões, três tubos e vinte e quatro nós. Nenhum navio do grupo tinha canhão maior que 127 mm.

No comando estava o contra-almirante Clifton Sprague, com a insígnia no Fanshaw Bay. Robert Copeland, do Roberts, avisou a tripulação pelo alto-falante que entrava numa luta contra probabilidade esmagadora, da qual não se esperava sair.

Do outro lado vinha a Força Central do vice-almirante Takeo Kurita: os encouraçados Yamato, Nagato, Kongō e Haruna, seis cruzadores pesados, dois cruzadores leves e onze contratorpedeiros.

O Yamato carregava nove canhões de 460 mm, com projétil de mil quatrocentos e sessenta quilos. O projétil de 127 mm do outro lado pesava vinte e cinco quilos e não atravessava blindagem de encouraçado em ângulo nenhum.

Kurita chegou ali depois de três dias ruins. Perdeu dois cruzadores pesados na passagem de Palawan no dia 23, entre eles a própria capitânia, e o encouraçado Musashi no dia 24.

A força atravessou o estreito de San Bernardino de madrugada e achou a saída sem vigilância. Quando o contato apareceu, partiu para a perseguição sem formar linha de batalha, e cada navio chegou na hora que a máquina dele permitiu.

A munição também estava errada para o alvo. Boa parte dos encouraçados tinha carregado projétil perfurante, com espoleta calibrada para blindagem grossa, e o projétil atravessava o casco fino dos porta-aviões de escolta sem detonar.

A vantagem americana era estreita: direção de tiro por radar, que enxerga dentro da fumaça, contra telemetria óptica, que não.

As duas listas de falta se encaixaram. Um lado não conseguia ver o que atacava, o outro não conseguia furar o que atacava. Sobrou disputar a estimativa.

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III  O Plano

Vender uma frota que não existia

O plano japonês: romper para o golfo de Leyte e destruir a frota de invasão parada ali, com os transportes e os navios de desembarque, antes que a cobertura pesada americana voltasse.

O plano americano: não existia plano para o encontro. A escolta improvisou com o que tinha à mão: ganhar tempo e produzir, dentro da fumaça, os sinais de uma força que ela não era.

A ordem que mudou a geometria: fumaça de caldeira e fumaça química ao mesmo tempo, todos os torpedos do grupo contra a coluna e todo avião no ar, mesmo desarmado, sobre as pontes japonesas.

Vale medir o que a ordem custou. Ataque de torpedo com contratorpedeiro é entrar de proa no alcance útil do inimigo e ficar lá por minutos, sem poder responder de igual para igual.

A aposta se pagou na manobra, não no dano. Encouraçado que vê rastro guina para alinhar a proa com o torpedo, e a guinada joga fora a solução de tiro construída salva a salva nos vinte minutos anteriores.

O comando japonês somou o que enxergava: cortina numa frente larga, rastro de torpedo vindo de várias direções, avião chegando sem parar e tráfego de rádio americano em linguagem clara pedindo força pesada.

A soma saiu alta. O estado-maior estimou trinta nós em navios que faziam dezessete e meio, e velocidade de trinta nós, em 1944, só existia em porta-aviões de esquadra.

Kurita relatou depois ter combatido porta-aviões rápidos e cruzadores. Nenhum porta-aviões rápido e nenhum cruzador estavam ali.

A escolta não parou os encouraçados pelo poder de fogo. Parou porque encheu duas horas e meia com sinais que só uma frota grande produziria, e o outro lado comprou a conta.

A manobra depende de três condições: o inimigo depender do que enxerga, o defensor ter uma arma que obrigue manobra e não só algo que esconda, e o engano custar ao inimigo um tempo que ele não tem.

Faltando uma das três, a cortina vira adiamento. Sem torpedo, o encouraçado atravessa a fumaça no mesmo rumo. Com reconhecimento independente, a estimativa se corrige sozinha. Sem pressa, o inimigo espera a nuvem passar.

O resultado estratégico veio inteiro. Kurita virou a menos de oitenta quilômetros da entrada do golfo, os transportes em Leyte continuaram descarregando, e a frota japonesa nunca mais operou como força de superfície organizada.

Evans recebeu a mais alta condecoração americana em caráter póstumo, e a unidade ganhou citação presidencial. Kurita comandou a academia naval até o fim da guerra e passou o resto da vida dando respostas diferentes sobre a meia-volta.

Longe de qualquer mar, a régua continua servindo. O adversário não decide contra a sua força real, decide contra a força que ele consegue medir, e a medição dele é território disputável.

"Quanto da sua força o outro lado mede sozinho, e quanto você deixa ele medir?"

 
 
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