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ED 020

A encosta que o cerco de Viena deixou às costas

Em 12 de setembro de 1683, o exército de socorro cruzou a mata do Kahlenberg com artilharia leve e desceu sobre o acampamento otomano.

Exército de socorro descendo a encosta arborizada do Kahlenberg sobre o acampamento otomano diante das muralhas de Viena, em setembro de 1683.

Hussardos poloneses descendo o Kahlenberg

 

Todo cerco cria duas frentes, e só uma delas costuma receber trabalho. O exército que cerca uma cidade cava para frente: as trincheiras avançam em ziguezague na direção da muralha, as baterias apontam para a cortina que se quer derrubar, os paióis ficam logo atrás das peças.

Quem cava assim fica com as costas descobertas. Existe remédio conhecido, a linha de circunvalação, um segundo muro de terra voltado para fora, que protege o sitiante de qualquer exército que venha socorrer a praça.

Ela custa quase tanto trabalho quanto o ataque em si, e é a primeira economia de quem tem pressa. Cada dia gasto cavando para fora é um dia a mais que a cidade ganha para reforçar a brecha por dentro.

A segunda variável do problema é o relevo. Cidade com montanha coberta de mata a poucas horas de marcha tem uma ameaça e uma proteção guardadas no mesmo lugar.

Mata fechada em encosta íngreme não passa artilharia de sítio. Peça pesada de cerco exige estrada firme, juntas de bois, pontes que aguentem o eixo e uma coluna de munição andando atrás em carroça.

Daí sai a conta que quase todo sitiante faz: um exército que não consegue arrastar canhão pesado por aquele terreno não vai atacar por ali. Se vier, virá pela estrada boa, fácil de vigiar com um punhado de cavaleiros.

A conta se rompe no dia em que alguém aceita chegar sem canhão pesado. Quem faz essa troca abre mão de poder de fogo e compra posição: aparece no alto, de onde se enxerga o acampamento inteiro, e desce contra obras que foram construídas olhando para o outro lado.

A vantagem, nesse arranjo, é geométrica antes de ser numérica. Trincheira é uma escavação com dono e com direção; ela não gira. Um parapeito que protege quem olha para a muralha não protege ninguém contra quem vem pelas costas.

O preço aparece do outro lado da conta. Quem desce a serra com peças leves precisa vencer no mesmo dia, porque não tem munição para um segundo, não tem linha de abastecimento pela mata e não tem como recuar encosta acima diante de cavalaria.

No verão de 1683, uma capital europeia estava havia dois meses com trincheiras encostadas nas suas muralhas, e a mata de montanha mais próxima ficava a poucas horas de marcha do acampamento que a sitiava.

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I  A batalha de hoje

Sessenta dias de cerco e uma tarde de descida

Em 12 de setembro de 1683, o exército de socorro cristão amanheceu na crista do Kahlenberg, cerca de 480 metros acima do Danúbio, olhando para baixo, para o acampamento otomano estendido diante das muralhas de Viena.

Dentro da cidade, a guarnição estava reduzida a poucos milhares de homens em condições de combate, depois de sessenta dias de bombardeio, guerra de minas e tifo.

O cerco tinha começado em 14 de julho. Desde então, os sapadores otomanos avançaram galeria por galeria contra as obras externas do lado sudoeste, o único trecho onde o terreno permitia trabalho de mina em escala.

As forças em campo ficavam mais ou menos assim:

Guarnição de Viena no início do cerco:cerca de 15.000
Exército otomano diante da cidade:cerca de 90.000
Exército de socorro no Kahlenberg:cerca de 75.000
Cavaleiros na carga do fim da tarde:cerca de 18.000
Duração do cerco:60 dias
Altura da crista do Kahlenberg:cerca de 480 m

Os números variam conforme a fonte, e o total otomano é o ponto mais disputado, porque parte das crônicas soma tropas auxiliares e trem de bagagem ao efetivo de combate. O que as versões concordam é na proporção: os dois exércitos de campo tinham tamanhos comparáveis, e a guarnição sitiada já não contava.

No começo de setembro, as minas já tinham aberto brecha no revelim diante do castelo, e a guarnição respondia com contraminas cavadas no escuro, cada uma disputando poucos metros de terra por vez.

O acampamento otomano era uma cidade de lona. Tendas, mercado, oficinas, currais e uma estrutura de abastecimento que vinha subindo o Danúbio havia semanas, tudo montado no terreno aberto entre a mata e as muralhas.

"O vizir fugiu com tanta pressa que levou consigo apenas um cavalo."

Jan III Sobieski, em carta a Maria Kazimiera, 1683

A descida começou de madrugada, pelo flanco esquerdo, junto ao rio, com a infantaria imperial abrindo caminho entre vinhedos em terraço, muros baixos de pedra e aldeias que precisavam ser tomadas casa por casa.

O avanço custou horas. Por boa parte da manhã e da tarde, a batalha foi um trabalho de infantaria em terreno fechado, sem espaço para formação grande e sem nenhum papel para cavalaria.

Quando a encosta finalmente abriu na planície, no meio da tarde, a ala direita ainda estava inteira no alto, parada, esperando exatamente o terreno que acabara de aparecer.

 
 

II  Quem estava em campo

O vizir apressado e o rei eleito da Polônia

Viena foi decidida meses antes do primeiro tiro, quando duas cortes que raramente se entendiam assinaram um tratado prevendo qual delas marcharia se a outra fosse atacada.

Kara Mustafa Pasha era grão-vizir desde 1676 e comandava a campanha com autoridade quase total. A tomada de Viena era o objetivo declarado, e ele preferiu o cerco formal ao assalto imediato, aposta razoável contra uma praça mal guarnecida.

O exército otomano reunia janízaros de infantaria, sipahis de cavalaria, contingentes vassalos da Moldávia, da Valáquia e da Transilvânia e a cavalaria ligeira tártara, que operava longe do acampamento, cortando estradas e queimando o campo em volta.

Dentro da cidade, o comando cabia a Ernst Rüdiger von Starhemberg, que ficou com uma guarnição pequena, subúrbios demolidos pelos próprios defensores para tirar cobertura ao atacante e uma população civil presa atrás das muralhas.

O imperador Leopoldo I tinha deixado Viena antes do cerco fechar, com a corte, rumo a Passau. A decisão foi impopular, e foi ela que permitiu que a negociação diplomática do socorro continuasse enquanto a cidade resistia.

O tratado de Varsóvia, assinado em março daquele ano entre o imperador e a Polônia, era a peça que faltava. O papa Inocêncio XI bancou parte da conta em dinheiro, o que tornou possível reunir contingentes que sozinhos não teriam saído do lugar.

"Viemos, vimos, Deus venceu."

Jan III Sobieski, em carta ao papa Inocêncio XI, 1683

O exército de socorro chegou remendado. Carlos V de Lorena trazia as tropas imperiais, o eleitor da Saxônia e o da Baviera trouxeram os contingentes alemães, e Jan III Sobieski chegou com a cavalaria polonesa, incluindo os hussardos de lança longa.

O comando geral coube a Sobieski, decisão prática antes de honorífica: ele era rei coroado, o que resolvia a hierarquia entre príncipes, e era o único ali com experiência recente de campanha contra exércitos otomanos.

Do lado de dentro do acampamento sitiante, a informação disponível dizia que o socorro chegaria pela estrada do sul e que ainda levaria dias para se juntar. A cavalaria tártara tinha sido encarregada de vigiar as passagens, e não trouxe aviso a tempo.

As duas apostas eram claras. Kara Mustafa apostava que a brecha cairia antes de qualquer exército de campo aparecer em ordem de batalha diante dele.

O outro lado apostava que uma coluna sem trem de sítio conseguiria atravessar uma serra arborizada e aparecer no alto antes de ser detectada, o que era um problema de marcha, não de combate.

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III  O plano

Deixar os canhões pesados e ganhar a encosta

O plano de Kara Mustafa: tomar a cidade por mina e brecha antes que o socorro se reunisse, mantendo todo o esforço voltado para a muralha.

O plano do exército de socorro: cruzar o Wienerwald pelo norte com artilharia leve, ocupar as alturas do Kahlenberg e descer sobre um acampamento fortificado na direção errada.

A decisão que mudou a conta: trocar poder de fogo por posição e aceitar uma batalha que precisava terminar antes do anoitecer.

O primeiro passo foi escolher o caminho. Em vez da estrada aberta ao sul do Danúbio, a coluna atravessou a mata de montanha a noroeste da cidade, terreno que ninguém considerava rota de exército.

O segundo foi deixar o trem de sítio para trás. Passaram a serra apenas peças leves, desmontadas e carregadas por homens e mulas nos trechos piores, sem uma única boca de fogo pesada.

O terceiro foi inverter a ordem de marcha. As tropas que desceriam primeiro atravessaram primeiro, para que a coluna chegasse ao alto já arrumada na ordem em que ia combater, sem precisar se reorganizar à vista do inimigo.

O quarto foi tomar a crista de noite. Nos dias 11 e 12 de setembro, os destacamentos de vanguarda ocuparam o topo e as capelas do Kahlenberg, de modo que o ataque começasse de terreno já dominado.

O quinto foi descer devagar. A infantaria pagou a manhã inteira em terraços de vinhedo, muros de pedra e aldeias, escolhendo custo em tempo em vez de custo em desordem.

O sexto foi guardar a cavalaria. As alas polonesas ficaram paradas no alto por horas, sem entrar na luta de terreno fechado, esperando que a encosta abrisse em campo onde uma carga pudesse ser feita em linha.

O sétimo foi a carga. No fim da tarde, com a planície à vista, cerca de dezoito mil cavaleiros desceram pelo flanco direito sobre o acampamento, contra tropas que estavam de costas para aquele lado.

O oitavo foi não deixar o cerco respirar. A guarnição saiu pelas portas ao mesmo tempo, prendendo os homens das trincheiras entre a muralha que eles atacavam e a encosta de onde vinha a descida.

O acampamento caiu inteiro antes do anoitecer, com tendas, provisões, animais, artilharia de sítio e a bagagem do comando. O exército otomano recuou para leste, na direção de Győr, deixando as obras do cerco prontas e vazias.

Viena não precisou de segundo dia de batalha, que era exatamente a condição imposta pela decisão de subir a serra sem canhão pesado. O que a coluna não tinha em munição, precisou cobrar em velocidade.

O que decidiu Viena não foi a diferença de tamanho entre os dois exércitos, e sim a direção para a qual as obras do cerco apontavam.

O detalhe que arruína a leitura fácil é que a mata protegia os dois lados. Ela escondeu a aproximação da coluna de socorro e também teria triturado essa mesma coluna, se a descida tivesse sido detectada com um dia de antecedência.

A régua serve fora da Áustria. Esforço concentrado numa frente só constrói, sem querer, uma segunda frente onde não há nada: quanto mais fundo alguém cava na direção do objetivo, mais desprotegido fica o lado que ele parou de olhar.

"O seu esforço está todo virado para a muralha, ou alguém pode descer pela encosta que você deixou de vigiar?"

 
 
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Quem assumiu o comando geral do exército de socorro cristão que desceu o Kahlenberg contra os otomanos em 1683?

ACarlos V de Lorena
BErnst Rüdiger von Starhemberg
CJan III Sobieski
DKara Mustafa Pasha

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