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Batalha do Dia   Batalha do Dia
ED 007

A encosta que escondeu a infantaria em Waterloo

Em 1815, Wellington deita a linha atrás da crista de Mont-Saint-Jean, e a artilharia francesa passa a tarde batendo num alvo que não enxerga.

Infantaria britânica deitada atrás da crista lamacenta de um platô enquanto a artilharia francesa dispara do outro lado do vale, em Waterloo, 1815.

A linha aliada deitada atrás da crista

 

Canhão de 1815 é arma de linha reta. O tubo liso arremessa uma bola de ferro maciço em trajetória quase plana, e o artilheiro aponta pelo olho, na direção do que consegue enxergar. Sem alvo visível, a peça atira em cima de um palpite.

A bala nem precisa acertar de primeira. O tiro rasante bate no chão à frente da tropa, volta a subir e segue varrendo terreno. Numa planície seca e dura, uma bola de doze libras abre corredor numa formação inteira.

Chão molhado cancela o quique. A bola afunda na lama e para onde caiu, e a peça perde metade do efeito, que vinha do salto. Sobra o acerto direto, e acerto direto exige linha de tiro limpa até o alvo.

Daí a régua velha da defensiva. Uma dobra de terreno de poucos metros entre o canhão e a tropa apaga a linha de tiro: a bala que passa por cima da crista segue reta e cai no vazio lá atrás, e a que bate na crista para na terra.

Há uma exceção no arsenal da época. O obus dispara em arco alto e larga a bomba atrás de uma elevação, mas a peça é imprecisa, o estopim é cortado a olho, e nenhum exército de 1815 tinha obus em número para bater uma frente de quilômetros por cima de um morro.

Esconder a tropa cobra seu preço. Quem se deita atrás da elevação abre mão da vista do vale, desiste de castigar o inimigo enquanto ele atravessa a planície, e aceita que o combate comece a poucos passos, quando o atacante aparece no alto.

Em troca, ganha o que não entra na tabela de baixas. Tropa escondida não pode ser contada. O general do outro lado não sabe quantos batalhões tem à frente nem onde está a reserva, e ataca no escuro um terreno que enxerga inteiro.

Numa lombada de terra ao sul de Bruxelas, num domingo de junho de 1815, um general britânico aceitou a troca e mandou o exército deitar no chão.

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I  A Batalha de Hoje

A tarde de 18 de junho de 1815 em Mont-Saint-Jean

Um exército aliado ocupa uma elevação baixa na estrada de Bruxelas, e a maior concentração de artilharia do dia aponta para ela. Veja o que a crista fez com o tiro francês.

Wellington pôs o grosso da infantaria na contra-encosta do platô de Mont-Saint-Jean, atrás da crista e da estrada de Ohain, e mandou os batalhões deitarem no chão. Da posição francesa, a linha aparecia como uma fileira fina de tiradores e algumas peças no alto.

A frente tinha cerca de quatro quilômetros, de Hougoumont à direita até Papelotte à esquerda, com a fazenda de La Haye Sainte no meio. Esses três pontos fortificados eram o que o francês conseguia ver e medir.

O vale entre as duas cristas media pouco mais de mil metros. Napoleão montou a grande bateria na lombada de La Belle Alliance, com algo em torno de oitenta peças, entre elas os doze libras que ele chamava de suas filhas queridas.

Choveu da tarde anterior até quase o amanhecer, e o ataque ficou para depois das onze da manhã, à espera de piso que aguentasse o rodado das peças.

A grande bateria abriu fogo por volta de uma da tarde. O bombardeio caiu na crista e na encosta da frente, e boa parte das balas passou por cima e enterrou na lama do outro lado.

"Toda a arte da guerra, e na verdade toda a arte da vida, consiste em descobrir o que não se sabe a partir do que se sabe; era o que eu chamava de adivinhar o que estava do outro lado da colina."

Arthur Wellesley, duque de Wellington, em The Croker Papers, 1885.

A brigada holandesa-belga de Bijlandt passou a manhã à frente da sebe, e foi a formação que mais sentiu o bombardeio antes de ser recolhida para trás da crista.

Por volta das duas, a infantaria de D'Erlon desceu ao vale em colunas largas para tomar a crista à esquerda do centro aliado. Subiu contra uma linha que só apareceu a poucos passos, levou a descarga de perto e foi varrida pela cavalaria pesada.

Às quatro da tarde, Ney leu o vaivém de feridos e prisioneiros no alto do platô como início de retirada e lançou a cavalaria contra a posição. Os esquadrões venceram a subida e acharam uma vintena de quadrados formados e à espera, e as cargas se repetiram por mais de uma hora sem infantaria junto.

La Haye Sainte caiu no fim da tarde, com a guarnição da Legião Alemã do Rei sem munição de rifle. Os franceses puxaram peças leves até perto da crista e bateram o centro aliado à queima-roupa.

O relógio corria contra eles. Os prussianos de Blücher apareceram pelo leste no meio da tarde, e o ataque final da Guarda Imperial subiu a mesma encosta cega no começo da noite, contra uma linha que só se levantou para atirar.

 
 

II  Quem Estava em Campo

Setenta e três mil franceses contra uma linha deitada

O placar dizia setenta e três mil franceses e duzentos e cinquenta canhões contra sessenta e oito mil aliados e cento e cinquenta e seis peças. A conta que mandava era outra: quantos daqueles canhões tinham linha de tiro até a infantaria que precisavam quebrar.

O exército de Wellington não era britânico. Pouco mais de um terço vinha das ilhas, e o resto era holandês, belga, hanoveriano, de Brunswick e de Nassau, boa parte recrutada havia poucos meses.

Wellington tinha quarenta e seis anos e seis anos de campanha na Península nas costas. A contra-encosta não era invenção daquela manhã: ele já tinha usado a mesma dobra de terreno em Vimeiro, em Talavera e sobretudo em Bussaco, em 1810.

Napoleão tinha quarenta e cinco anos e havia três meses tinha voltado ao comando. O Exército do Norte era veterano, e o plano da campanha era bater prussianos e anglo-aliados separadamente, antes de os dois se juntarem.

Dois dias antes, em Ligny, os franceses tinham empurrado Blücher para trás, e Grouchy seguiu com trinta e poucos mil homens no encalço dos prussianos. Foi essa fração do efetivo que faltou no campo quando a tarde apertou.

A artilharia francesa tinha vantagem de número e de calibre. Duzentas e cinquenta bocas de fogo contra cento e cinquenta e seis é diferença que costuma decidir batalha em campo aberto.

O terreno anulou parte da vantagem. Da lombada de La Belle Alliance se enxerga o vale e a encosta da frente, e nada do que existe atrás da crista aliada.

A estrada de Ohain corre no alto da posição aliada, encaixada entre barrancos e sebes em vários trechos. Servia de parapeito pronto e de caminho lateral coberto para mover batalhão de um setor para o outro sem aparecer.

A chuva entra na conta do lado de quem se escondeu. Solo mole engole a bala em vez de devolvê-la, e o quique saiu do jogo no dia em que o francês mais precisava dele.

O terreno de hoje já não é o de 1815. Entre 1823 e 1826, os holandeses ergueram o Monte do Leão no ponto onde o príncipe de Orange foi ferido, e a terra do aterro saiu da própria crista aliada.

O relevo que fazia a tática funcionar ficou vários metros mais baixo ali, e a frase atribuída a Wellington ao rever o lugar, de que tinham estragado o campo dele, resume o que a obra fez com a posição.

A régua serve longe de Bruxelas. Quem compara arsenal compara o que dá para contar, e o que decide costuma ser quanto daquele arsenal tem linha de tiro até o alvo que importa.

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III  O Plano

Entregar a vista para guardar o terreno

O plano francês: quebrar o centro aliado com fogo antes do choque. Bater a linha durante uma hora com a grande bateria e mandar as colunas subirem para tomar a crista e a estrada de Bruxelas.

O plano aliado: não estar onde o fogo cai. Segurar o alto com tiradores e artilharia, manter o grosso da infantaria deitado na contra-encosta e mostrar a linha só quando o atacante chegasse à crista.

A ordem que mudou a geometria: deitar os batalhões atrás do morro e usar os três pontos fortificados à frente, Hougoumont, La Haye Sainte e Papelotte, como quebra-mar para desorganizar o ataque antes da subida.

Vale medir o que a ordem custou a quem executou. A tropa passou a tarde deitada na lama, sob um tiro que não via partir e não podia responder.

O comandante também abriu mão de informação. De trás da encosta ninguém enxerga o vale, e a linha depende do que o general vê do alto e manda dizer no meio da fumaça.

O quadrado é a segunda metade do desenho. Infantaria em quadrado segura cavalaria, mas vira alvo grosso para artilharia. Escondida na contra-encosta, ela forma o quadrado sem ser vista e sem ser batida enquanto forma.

Foi o que aconteceu às quatro da tarde. A cavalaria francesa venceu a crista sem infantaria e sem canhão junto, e encontrou os quadrados prontos, com os artilheiros aliados abrigados entre eles.

O ganho não é o morro, é o tempo de exposição. Quem ataca uma contra-encosta atravessa o vale sob fogo, chega ao alto sem fôlego e com a formação desmanchada, e só então vê o que tem pela frente.

A crista não ganhou o dia por ser alta. Ganhou por transformar uma vantagem de artilharia num problema de visão: duzentos e cinquenta canhões atirando com força total contra um terreno onde quase não havia gente.

A contra-encosta depende de três condições: dobra de terreno alta o bastante para cortar a linha de tiro, tropa disciplinada para ficar parada sob fogo que não responde, e observação na crista que mande a ordem a tempo.

Faltando uma das três, a posição deixa de ser abrigo. Sem altura, o fogo alcança; sem disciplina, a linha se desfaz antes do contato; sem olho no alto, a infantaria só descobre o ataque quando ele já está em cima.

O preço apareceu no fim do dia. Sem La Haye Sainte, o centro aliado ficou quase uma hora exposto a canhão leve à distância curta.

A conta final passou de quarenta mil homens fora de combate nos dois lados, num campo de poucos quilômetros quadrados. Napoleão abdicou quatro dias depois.

Fora do campo o teste é o mesmo. Vantagem de recurso só vale onde alcança o alvo, e quem escolhe o terreno decide quanto do arsenal do outro lado vai servir para alguma coisa.

"Quanto da força que hoje aponta para mim tem linha de tiro até o que realmente importa?"

 
 
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