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A cerca de estacas que parou a cavalaria Takeda
Em junho de 1575, na planície de Shitaragahara, Oda Nobunaga fincou uma paliçada atrás de um riacho e pôs os arcabuzeiros para atirar protegidos.
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Cavalaria Takeda diante das estacas de Nagashino
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Um arcabuz de mecha do século XVI dispara uma vez a cada vinte ou trinta segundos nas mãos de um atirador treinado. O tiro sai, e depois vem a liturgia: limpar, medir a pólvora, socar a bala, escorvar, soprar a mecha, apontar de novo.
Um cavalo a galope, no mesmo intervalo, cobre entre duzentos e trezentos metros. A conta se resolve sozinha. Entre o primeiro disparo útil e o contato do primeiro cavaleiro cabem, no melhor cenário, dois tiros por arma.
Por décadas, foi essa aritmética que manteve a arma de fogo numa função de apoio no Japão. Ela era ruidosa, cara, sensível à chuva e lenta demais para segurar uma carga sozinha.
Quem quisesse mudar a conta tinha três alavancas, e nenhuma delas era melhorar o arcabuz. A primeira era aumentar o tempo de exposição do atacante, esticando o percurso que ele precisava vencer sob fogo.
A segunda era proteger o atirador, porque um homem recarregando com uma lança apontada para o peito não recarrega coisa nenhuma. A terceira era organizar os disparos em turnos, de modo que a linha nunca parasse de atirar por inteiro ao mesmo tempo.
As três alavancas não pedem tecnologia nova. Pedem terreno, madeira e disciplina de formação, três coisas que qualquer exército da época conseguia reunir com semanas de trabalho e um número grande de camponeses requisitados.
O que faltava era o motivo. Preparar posição fixa exige saber, com antecedência, onde o inimigo vai atacar e ter certeza de que ele vai atacar mesmo. Fortificação no lugar errado é só um monte de estacas cravadas num campo vazio.
Por isso a peça central de qualquer plano desse tipo nunca é a arma. É a isca: alguma coisa que o adversário não possa deixar passar, colocada exatamente na frente da posição preparada.
Em junho de 1575, na província de Mikawa, existia uma isca assim, e ela estava com quinhentos homens dentro dela havia semanas.
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I A batalha de hoje
O castelo cercado e a planície com um riacho
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No fim da primavera de 1575, o castelo de Nagashino, no leste da província de Mikawa, estava sob cerco havia semanas. A guarnição, comandada por Okudaira Sadamasa, tinha cerca de quinhentos homens e uma posição forte sobre a confluência de dois rios.
Do lado de fora, o exército de Takeda Katsuyori mantinha o cerco com uma força estimada em quinze mil homens, incluindo a cavalaria que dava fama à casa de Kai.
A guarnição resistia, mas o depósito de mantimentos já tinha sido perdido num ataque noturno, e a conta de dias restantes era curta o bastante para que um mensageiro atravessasse as linhas a nado pedindo socorro.
O socorro veio grande. Oda Nobunaga e Tokugawa Ieyasu marcharam juntos e pararam a cerca de quatro quilômetros do castelo, na planície de Shitaragahara, sem tentar romper o cerco de imediato.
As forças em campo ficavam mais ou menos assim:
| Exército Oda e Tokugawa: | cerca de 38 mil |
| Exército de Takeda Katsuyori: | cerca de 15 mil |
| Arcabuzeiros na linha de estacas: | cerca de 3 mil |
| Guarnição do castelo de Nagashino: | cerca de 500 |
| Extensão aproximada da paliçada: | cerca de 2 km |
Os números variam de crônica para crônica, e o total de arcabuzeiros é o ponto mais disputado pelos historiadores. O que as fontes concordam é na proporção: um lado tinha muito mais homens e muito mais armas de fogo concentradas num setor só.
Entre os dois exércitos corria o Rengogawa, um riacho pequeno, de leito encaixado e margens de barranco. Não era obstáculo para deter ninguém. Era obstáculo suficiente para quebrar o ritmo de um cavalo em carga.
Atrás do riacho, do lado Oda, o campo subia numa elevação suave. Foi ali que os homens de Nobunaga passaram os dias anteriores fincando madeira, em três linhas escalonadas, com passagens deixadas de propósito.
Na madrugada de 28 de junho, uma força destacada contornou as posições Takeda pelo sul e tomou o forte que sustentava o cerco no monte Tobigasu, cortando a linha de retirada do exército sitiante.
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"Mil arcabuzeiros foram escolhidos e postos à frente da linha de estacas."
Ōta Gyūichi, em Shinchō Kōki, século XVI
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Ao amanhecer, sob chuva fina que tinha caído durante a noite, o exército Takeda deixou as posições de cerco e formou para atacar a linha de estacas em campo aberto.
O combate durou boa parte do dia. Os esquadrões de cavalaria de Kai atravessaram o riacho em ondas sucessivas e chegaram até a madeira, onde a carga perdia velocidade e o cavaleiro virava alvo parado a poucos metros do cano.
No fim da tarde, o exército Takeda recuou pelas montanhas com uma fração do que tinha trazido, e boa parte dos generais veteranos herdados da geração anterior ficou no campo.
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II Quem estava em campo
Katsuyori, Nobunaga e a herança pesada de Kai
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A batalha de Nagashino foi decidida por uma escolha de posição, e a posição foi escolhida por quem tinha menos pressa dos dois lados.
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Takeda Katsuyori tinha 29 anos e comandava a casa havia dois. Ele herdou de Takeda Shingen um exército respeitado, uma cavalaria com reputação construída em vinte anos de campanha e um corpo de generais que servia ao pai desde antes de ele nascer.
Herdou também um problema difícil de resolver por diplomacia. Um herdeiro que assume no lugar de um comandante lendário precisa provar valor em campo, e os vassalos veteranos avaliam cada decisão dele contra a memória de quem veio antes.
Katsuyori já tinha entregado resultado. No ano anterior havia tomado o castelo de Takatenjin, uma praça que o pai tentara e não conseguira. A vitória reforçou a autoridade dele e, ao mesmo tempo, elevou a régua de tudo que viesse depois.
Oda Nobunaga tinha 41 anos e comandava a coalizão mais rica do Japão central. O ponto que mais importa na conta de Nagashino não é o exército dele, é a receita: Nobunaga controlava rotas de comércio e centros de produção de armas de fogo, entre eles a cidade de Sakai.
Arcabuz não é só arma, é logística. Cada disparo consome pólvora, chumbo e mecha, e uma linha de milhares de armas atirando durante horas gasta um suprimento que poucos senhores da época conseguiam comprar e transportar.
Tokugawa Ieyasu tinha 32 anos e era o dono do problema local. Mikawa era território dele, Nagashino era um castelo da fronteira dele, e a guarnição sitiada era formada por vassalos que tinham trocado de lado recentemente para servi-lo.
Dentro do acampamento Takeda, a discussão foi real e está registrada nas crônicas. Generais veteranos como Baba Nobuharu e Yamagata Masakage defenderam recuo ou combate em terreno favorável, longe da posição preparada do inimigo.
Contra a prudência pesavam três fatos. O exército estava longe de casa, a linha de retirada tinha acabado de ser cortada no monte Tobigasu, e recuar diante de um herdeiro recém-empossado carregava um custo político alto entre os próprios vassalos.
Havia ainda a leitura da chuva. Tinha chovido durante a noite, e mecha úmida falha. Um comandante podia razoavelmente apostar que metade da linha de fogo inimiga não ia funcionar quando o momento chegasse.
As duas apostas eram claras. Katsuyori apostava que a carga de cavalaria, que tinha decidido campos por vinte anos, ainda chegava inteira do outro lado de um riacho raso.
Nobunaga apostava que ele viria, e por isso pôs semanas de trabalho de terraplenagem e carpintaria numa planície onde ainda não havia batalha nenhuma para lutar.
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III O plano
A paliçada, o riacho e os turnos de disparo
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O plano de Nobunaga: não levantar o cerco de Nagashino, e sim obrigar o exército Takeda a sair das posições de cerco e atacar uma linha fortificada escolhida com antecedência.
O plano de Katsuyori: romper o socorro em campo aberto com a arma que a casa de Kai sabia usar melhor que qualquer rival, e depois voltar para tomar o castelo.
A decisão que mudou a conta: transformar a distância de carga em tempo de exposição, e o tempo de exposição em número de disparos por atacante.
O primeiro passo foi escolher a planície. Shitaragahara ficava perto o bastante do castelo para ameaçar o cerco e longe o bastante para que o combate acontecesse onde o exército de socorro quisesse, não onde o sitiante já estava instalado.
O segundo foi usar o riacho. O Rengogawa não parava ninguém, mas obrigava o cavalo a descer o barranco, atravessar e subir do outro lado, e cavalo que faz manobra desse tipo chega no alto sem velocidade de choque.
O terceiro foi fincar a madeira. Estacas amarradas em três linhas escalonadas, com passagens estreitas deixadas de propósito, funcionavam ao mesmo tempo como barreira contra o cavalo e como funil que empurrava o atacante para onde o fogo estava concentrado.
O quarto foi proteger o atirador. Com a paliçada à frente e lanceiros nos vãos, o arcabuzeiro podia executar a recarga inteira sem interrupção, que é a única condição em que a arma entrega volume de fogo constante.
O quinto foi organizar os turnos. As crônicas descrevem grupos alternando disparo e recarga em rodízio, de modo que sempre houvesse uma parte da linha pronta a atirar enquanto a outra preparava a próxima carga.
O sexto foi cortar a saída. A tomada do forte no monte Tobigasu, de madrugada, encerrou o cerco por trás e tirou do exército Takeda a alternativa barata de simplesmente ir embora sem combater.
O sétimo foi esperar. O exército de socorro não avançou, não provocou e não tentou romper linhas. Ficou parado atrás da própria construção, deixando o custo do primeiro movimento inteiramente com o outro lado.
O oitavo apareceu quando a carga chegou. Cada onda de cavalaria atravessava o riacho, subia a elevação, encontrava madeira e parava, e a parada acontecia dentro do alcance útil de uma linha inteira de canos apoiados. As ondas seguintes ainda atacaram sobre terreno congestionado pelas anteriores.
No fim da tarde, o que sobrou do exército Takeda recuou para a província de Kai. A casa continuou existindo por mais sete anos, mas nunca reconstruiu o corpo de generais veteranos que tinha entrado naquele campo pela manhã.
O que decidiu Nagashino não foi a arma de fogo. Foi a geometria montada antes do primeiro tiro, que esticou a distância de carga até caber mais recarga dentro dela.
O detalhe que arruína a leitura fácil é que os dois lados conheciam o arcabuz, e o exército Takeda também tinha os seus. A diferença esteve em quem escolheu o terreno e quem aceitou lutar no terreno do outro.
A régua serve fora de Mikawa. Vantagem raramente nasce de um recurso melhor, nasce do arranjo que faz o recurso comum render duas ou três vezes mais.
"Você está apostando na sua melhor arma ou no lugar onde ela vai ser usada?"
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Guia Batalha do Dia · Novo
O Narrador da Mesa
A Curva da Virada que faz qualquer história sua prender o jantar até o fim.
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Quiz da edição
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Quantos homens tinha a guarnição do castelo de Nagashino, comandada por Okudaira Sadamasa, durante o cerco Takeda?
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