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A boiada que voltou contra os songai
Em março de 1591, em Tondibi, o gado solto contra os arcabuzes marroquinos ouviu a primeira descarga e girou.
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Tondibi, margem do Níger, 1591
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Um para sete. Era a proporção entre os soldados de Judar Paxá e o exército songai na margem do rio Níger, pela conta do cronista Abd al-Rahman al-Sadi no Tarikh al-Sudan (Crônica do Sudão), escrito por volta de 1655. Para o atirador marroquino parado na fileira, a conta chegava de outra forma: cada tiro dele precisava segurar sete lanças.
A coluna tinha saído de Marrakech em outubro de 1590, por ordem do sultão Ahmad al-Mansur, do Marrocos. Cruzou o Saara pelo oeste, de poço em poço, com milhares de camelos carregando água, pólvora, chumbo e canhões desmontados. A marcha levou cerca de quatro meses, e parte dos soldados ficou na areia, vencida pela sede e pelo calor.
O alvo era o Império Songai, o maior estado da África Ocidental naquele século, com capital em Gao, na curva do Níger. Os songai mandavam em Tombuctu, nas rotas do ouro que subiam para o Mediterrâneo e no sal que descia das minas de Taghaza, no deserto. Al-Mansur queria o ouro na fonte, sem intermediário.
O askia (título dos reis songai) Ishaq II soube que a coluna vinha. Conselheiros propuseram entupir os poços da rota do deserto. A ordem não chegou a tempo ou não foi cumprida, e a crônica de al-Sadi não diz qual das duas hipóteses aconteceu. Os marroquinos acharam água e seguiram.
Ishaq resolveu esperar em Tondibi, uma planície a uns 50 quilômetros ao norte de Gao. Reuniu cavalaria, arqueiros, lanceiros e uma arma que nenhum exército marroquino tinha enfrentado: uma boiada, que seria tocada contra a linha inimiga antes da carga.
Os marroquinos, por sua vez, levavam outra arma que o gado songai nunca tinha ouvido: o arcabuz (espingarda de mecha, carregada pela boca), que disparava com estrondo e nuvem de fumaça branca.
A primeira seção mostra o que a boiada encontrou pela frente naquela manhã de março e por que ela girou sobre os cascos.
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I A batalha de hoje
O estouro que girou
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A Batalha de Tondibi, travada em 13 de março de 1591 entre o exército marroquino de Judar Paxá e as tropas do askia Ishaq II, decidiu em uma tarde a sorte do Império Songai. Os marroquinos tinham alcançado o Níger em Karabara no começo do mês e descido a margem até achar os songai formados na planície.
A aposta songai era o gado. Pastores tocariam cerca de mil bois, na conta de al-Sadi, contra os atiradores, para quebrar as fileiras e abrir passagem à cavalaria. A boiada correu, ouviu as primeiras descargas e deu meia-volta, pisoteando as próprias linhas songai.
A ficha do confronto:
| Data: | 13 de março, em 1591 | | Local: | planície de Tondibi, margem esquerda do rio Níger, a uns 50 km ao norte de Gao, no atual Mali | | Comando marroquino: | Judar Paxá, a serviço do sultão Ahmad al-Mansur | | Comando songai: | o askia Ishaq II, rei do Império Songai desde 1588 | | Efetivos: | cerca de 4 mil marroquinos contra perto de 27 mil songai, pela conta de al-Sadi, que muitos historiadores julgam inflada | | Fontes: | Abd al-Rahman al-Sadi, Tarikh al-Sudan (c. 1655); John Hunwick, Timbuktu and the Songhay Empire (1999) |
Judar pôs os arcabuzeiros no centro, em fileiras cerradas, a cavalaria nas alas e os canhões à frente. Do lado songai, a cavalaria pesada esperava atrás da boiada, pronta para entrar pela brecha que o gado deveria abrir.
O estrondo fazia parte da arma marroquina. Bois criados na savana nunca tinham ouvido uma descarga de centenas de arcabuzes, e os cavalos songai também não. Os animais que vinham na frente frearam, os de trás empurraram, e a manada inteira virou.
Com os bois correndo contra a própria tropa, a cavalaria songai atacou desordenada. As descargas derrubaram os primeiros cavaleiros antes que as lanças alcançassem a linha. Os arqueiros songai atiravam de longe demais para ferir as fileiras e não conseguiram fechar a distância.
Ishaq II deixou o campo com a maior parte da cavalaria e atravessou o Níger para o sul. A infantaria ficou para trás.
A retirada do askia não foi covardia aos olhos da corte songai. Um rei capturado entregaria o império inteiro, e Ishaq ainda tinha homens e terras ao sul do rio para reagrupar a resistência.
Uma parte da retaguarda songai, segundo al-Sadi, amarrou as pernas umas às outras, ajoelhada atrás dos escudos, para não poder fugir. Esses homens combateram no lugar até caírem.
Ao cair da tarde, o campo era marroquino. Judar seguiu para Gao, que os moradores já tinham esvaziado em boa parte, e dali para Tombuctu.
As baixas marroquinas foram pequenas, pelos relatos de al-Sadi. As songai não têm número confiável: a crônica fala em muitos mortos na retaguarda, sem cifra que os historiadores aceitem, porque ninguém contou os corpos na planície.
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II Quem estava em campo
Um eunuco andaluz e um rei sem tempo
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Em Tondibi, um sultão enriquecido por resgates portugueses mandou um ex-cativo espanhol contra um rei que tinha subido ao trono durante uma guerra civil.
Ahmad al-Mansur reinou no Marrocos de 1578 a 1603. Subiu ao trono depois da Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, a mesma em que o rei português Dom Sebastião desapareceu. Os resgates pagos pelos nobres portugueses capturados encheram o tesouro marroquino e compraram armas de fogo em quantidade.
O sultão
Quando al-Mansur propôs cruzar o Saara, seus conselheiros em Marrakech disseram que nenhum exército tinha feito a travessia. Ele respondeu que caravanas de mercadores a faziam todo ano, e que um exército bem abastecido também passaria. Depois da vitória, ganhou o apelido de al-Dhahabi (o Dourado).
O comandante
Judar Paxá nasceu em Cuevas del Almanzora, na Andaluzia, Espanha. Capturado ainda menino, foi castrado, convertido ao islã e criado na corte marroquina. Paxá era um título de governador e general. Tinha pouco mais de trinta anos quando recebeu o comando.
Boa parte dos seus atiradores eram andaluzes e renegados (cristãos europeus convertidos ao islã), muitos falando espanhol entre si. Os descendentes desses soldados, casados com mulheres da região, formaram mais tarde os arma (de ar-rumat, "os atiradores"), uma elite que governou Tombuctu por gerações.
O askia
Ishaq II tomou o poder em 1588, depois de derrotar uma revolta dentro da própria família real. Herdou um império grande, mas rachado entre facções da corte, e um exército montado para guerras contra vizinhos armados de lança e arco.
A guarnição de cada cidade songai era pequena, e a força principal só se reuniu quando os marroquinos já estavam perto do rio. Ishaq não teve tempo de testar a boiada contra armas de fogo.
Os songai conheciam a pólvora de ouvir falar, por mercadores do norte, mas não tinham arcabuzes nem artilharia. A cavalaria deles era a mais forte da região, e contra reinos vizinhos a boiada já tinha funcionado como abertura de ataque.
Do lado marroquino, Judar tinha a vantagem de ter visto tiros durante a vida toda na corte, e a desvantagem de comandar homens exaustos, longe de qualquer reforço, a meses de casa.
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