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A ala esquerda que girou sobre o vazio
Em setembro de 1631, os saxões largaram a linha em Breitenfeld e Gustav Horn teve de inventar um flanco novo com o inimigo já em marcha.
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Planície de Breitenfeld, setembro de 1631
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Zero em trinta e seis. Era a conta de derrotas atribuída a Johann Tserclaes, conde de Tilly, ao cabo de trinta e seis batalhas campais e mais de três décadas de serviço nos exércitos católicos. Em 17 de setembro de 1631, numa planície de campo arado entre as aldeias de Breitenfeld e Podelwitz, ao norte de Leipzig, aquela conta mudou antes do sol baixar.
A campanha tinha chegado ali por um caminho de cidades tomadas. Magdeburgo caíra em maio daquele ano, saqueada e incendiada durante o assalto do exército da Liga Católica, e o episódio empurrou os príncipes protestantes indecisos para o lado sueco com uma pressa que nenhum embaixador tinha conseguido produzir antes.
A Saxônia era o maior dos indecisos e assinou tarde. João Jorge I, príncipe eleitor de Saxônia, vinha evitando compromisso militar havia anos, e só fechou aliança com Gustavo II Adolfo, rei da Suécia, em 11 de setembro de 1631, quando o exército de Tilly já tinha entrado no seu território e cobrado alojamento e comida das aldeias.
Leipzig abriu os portões dois dias depois. A guarnição capitulou em 15 de setembro e o exército aliado marchou atrás dos imperiais com dois corpos que nunca tinham combatido lado a lado: os suecos vinham de um ano de campanha contínua na Pomerânia e no Brandemburgo, e os saxões tinham sido recrutados às pressas e nunca postos em linha de batalha.
A manhã do dia 17 começou com duelo de artilharia e vento contra os aliados. Por duas horas as baterias trocaram tiros sobre o campo arado e seco, o vento do noroeste empurrou poeira e pólvora queimada na cara da linha sueca e saxã, e nenhum dos dois comandantes mandou a infantaria avançar. A primeira seção mostra o que veio depois desse duelo, por que metade da linha aliada desapareceu do campo em menos de uma hora e o que a ala esquerda sueca fez com o espaço aberto ao lado dela.
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I A batalha de hoje
O buraco aberto na primeira hora
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Gustav Horn, barão de Björneborg e marechal de campo do exército sueco, comandava a ala esquerda da linha aliada em Breitenfeld, a posição encostada no contingente saxão, a articulação entre dois exércitos recém-aliados.
Posição de junta é a mais frágil de qualquer linha de batalha. Enquanto os dois vizinhos seguram, ela não existe como problema; no instante em que um dos dois sai, ela vira a ponta descoberta de tudo que ficou.
A ficha do confronto:
| Data: | 17 de setembro de 1631, com a infantaria entrando no meio da tarde | | Local: | planície entre Breitenfeld e Podelwitz, ao norte de Leipzig, eleitorado da Saxônia | | Comando aliado: | Gustavo II Adolfo, rei da Suécia, com Gustav Horn na ala esquerda e Johan Banér na ala direita; João Jorge I, eleitor de Saxônia, com o próprio corpo | | Comando imperial: | Johann Tserclaes, conde de Tilly, com Gottfried Heinrich, conde de Pappenheim, na cavalaria | | Efetivos: | cifras disputadas, sem confirmação administrativa nos registros do século XVII | | Fontes: | Robert Monro, Monro, His Expedition with the Worthy Scots Regiment (Monro, a expedição dele com o digno regimento escocês, 1637), e o Theatrum Europaeum (Teatro da Europa, 1633) |
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"A poeira era tão grande que nos sufocava, e mal enxergávamos uns aos outros na linha."
Robert Monro, Monro, His Expedition with the Worthy Scots Regiment, 1637.
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Pappenheim abriu o combate sem esperar ordem. A cavalaria da ala esquerda imperial saiu do lugar por conta própria e caiu sobre a ala direita sueca de Johan Banér, que recebeu carga atrás de carga durante boa parte da tarde sem ceder terreno.
Do outro lado do campo, a cavalaria imperial atacou os saxões. A tropa recém-recrutada de João Jorge I resistiu pouco, quebrou formação e fugiu, levando junto o próprio eleitor, que só parou em Eilenburg.
A fuga saxã não abriu uma brecha na linha aliada: apagou metade dela. Onde havia um corpo inteiro de exército ao lado de Horn, restou campo aberto, artilharia abandonada e o flanco esquerdo sueco exposto.
Horn não recuou para reformar atrás, que era o gesto do manual e teria entregue o campo. Ele girou a linha da própria ala em torno do ponto onde ela se prendia ao centro sueco, como uma porta abrindo, montou frente nova apontada para o vazio com os esquadrões da segunda linha, e conseguiu fazer aquilo porque as brigadas suecas eram pequenas, de seis a oito centenas de homens, e mudavam de direção em minutos.
Os terços imperiais chegaram ao flanco e encontraram linha formada. A infantaria da Liga Católica avançou em diagonal pelo campo para aproveitar a fuga saxã, marchou os últimos metros sob mosquete disparado em salvas e peças leves carregadas com metralha, e travou onde esperava não encontrar nada.
Com a esquerda segurando, Gustavo Adolfo atacou pela direita. A cavalaria de Banér e a infantaria do centro tomaram a bateria principal imperial, viraram os canos e passaram a bater as formações de Tilly com a artilharia dele.
O exército da Liga se desfez no fim da tarde. Tilly saiu do campo ferido e escoltado, a infantaria perdeu a ordem entre a artilharia tomada e a pressão nos dois flancos, e os restos marcharam para Halle durante a noite, sem canhão e sem bagagem.
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II Quem estava em campo
O velho general contra o rei do norte
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Os dois exércitos chegaram à planície de Breitenfeld com escolas de guerra separadas por quase um século: a Liga Católica trazia o quadrado espanhol de infantaria, massa densa de pique e mosquete que ganhava por peso e por permanência, e a Suécia trazia unidades pequenas, artilharia leve que andava junto e cavalaria treinada para carregar de espada, sem rodar disparando pistola.
Johann Tserclaes, conde de Tilly, tinha setenta e dois anos em 1631 e comandava tropa desde a década de 1590, nos exércitos espanhol, imperial e da Liga Católica. Ele vencia por método: formava quadrados profundos, ocupava o terreno alto, aguentava o desgaste e deixava o adversário se gastar contra a massa parada.
Gustavo II Adolfo tinha trinta e seis anos e um exército montado em cima de outra ideia. O rei sueco dividia a infantaria em brigadas pequenas, colocava mosqueteiros entre os esquadrões de cavalaria, arrastava peças de regimento de três libras que dois homens moviam a braço, e organizava a linha em duas fileiras de unidades, com a segunda funcionando como reserva viva, pronta a entrar por conta própria.
O lado imperial do campo
O comando da Liga tinha um subordinado difícil de segurar. Gottfried Heinrich, conde de Pappenheim, respondia pela cavalaria da ala esquerda, era conhecido pela pressa em atacar e puxou o combate antes da hora escolhida por Tilly, o que desencaixou cavalaria e infantaria imperiais logo na primeira fase.
O grosso da infantaria imperial vinha de anos de vitória seguida: veteranos da Boêmia, do Palatinado e do norte da Alemanha, pagos com contribuição cobrada das regiões ocupadas, acostumados a vencer em formação fechada e pouco exercitados em mudar de frente no meio da luta.
Do lado aliado, a assimetria estava dentro da própria linha. O corpo sueco tinha um ano de campanha nas costas, e o saxão tinha semanas de vida: recrutas levantados no verão de 1631, oficiais novos, nenhum combate campal anterior, postos a formar a metade esquerda de uma linha de batalha contra o exército mais experiente da Europa central.
O rei sueco tinha desenhado a linha contando com o pior. A disposição escalonada das brigadas e a segunda linha mantida solta atrás davam ao comando a capacidade de refazer um flanco sem parar o resto, e foi essa reserva que Horn usou quando o vizinho dele evaporou.
O exército sueco daquela tarde falava vários idiomas. Boa parte da infantaria era contratada na Alemanha, na Escócia e na Inglaterra, e um desses contratados, Robert Monro, oficial do regimento de Mackay, publicou em Londres, em 1637, o relato de quem estava na linha.
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