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A ala de Valente prensada contra os carros godos

Em agosto de 378, a cavalaria de Alateu e Safrax voltou do pasto e fechou a infantaria romana contra o círculo de carros de Adrianópolis.

Cavalaria goda descendo sobre a ala esquerda romana contra o círculo de carros em Adrianópolis, 378

A ala romana contra os carros, Adrianópolis, 378

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Um soldado em cada 3. Pela conta de Amiano Marcelino, oficial romano que escreveu a história do Império nos anos 390, foi a fração do exército do imperador Valente que saiu viva da planície de Adrianópolis, na Trácia, em 9 de agosto de 378. Para os outros 2 de cada 3, a tarde terminou encurralada entre os carros de boi dos godos.

A manhã tinha começado com outra conta. Os batedores romanos estimaram em cerca de 10 mil os godos acampados ao norte da cidade, e Valente acreditou no número. Amiano registra a estimativa e diz que ela estava errada, porque deixava de fora a cavalaria.

Os cavaleiros dos greutungos, um dos povos godos, estavam longe dali, pastando os animais e buscando forragem às margens de um rio. Quem os comandava eram Alateu e Safrax. Fritigerno, o chefe que guardava o acampamento, mandou chamá-los às pressas.

Para ganhar tempo, Fritigerno enviou emissários de paz, e um deles era um padre cristão. As conversas atrasaram o ataque romano por horas, enquanto os godos punham fogo no mato seco em volta da planície. A fumaça e o calor castigavam soldados que marchavam desde o amanhecer sem comida e sem água.

O acampamento godo era um círculo de carros, as carroças de transporte encostadas umas nas outras como uma muralha de madeira. Amiano descreve a roda tão redonda que parecia feita num torno de carpinteiro. Dentro dela ficavam as mulheres, as crianças, o gado e o saque de 2 anos de guerra.

Valente tinha ainda outra escolha. Graciano, o sobrinho que governava a metade ocidental do Império, vinha em marcha com reforços e pedira por carta que o tio esperasse. O conselho de guerra se dividiu, e o imperador decidiu atacar sem ele.

Abaixo, a batalha em ficha, os homens que a comandaram e o desenho que fechou a ala esquerda romana contra as rodas.

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I  A batalha de hoje

Uma tarde de agosto na Trácia

A Batalha de Adrianópolis foi travada na tarde de 9 de agosto de 378, poucos quilômetros ao norte da cidade de Adrianópolis, hoje Edirne, na parte europeia da Turquia. Opôs o exército do Império Romano do Oriente, comandado pelo imperador Valente, aos godos tervíngios de Fritigerno, reforçados pelos greutungos de Alateu e Safrax e por um grupo de alanos (povo nômade das estepes).

Em Adrianópolis, o exército de um imperador romano em campanha foi cercado e desfeito numa só tarde, e o próprio imperador ficou no campo.

A ficha do confronto:

Data:9 de agosto de 378
Local:planície ao norte de Adrianópolis, na Trácia (hoje Edirne, na Turquia)
Comando romano:imperador Valente, com os generais Sebastiano e Trajano
Comando godo:Fritigerno, com Alateu e Safrax à frente da cavalaria greutunga
Efetivos:Amiano não dá o total de nenhum dos lados; os batedores contaram 10 mil godos, número que ele mesmo diz estar abaixo do real
Fontes:Histórias (Res Gestae, em latim), de Amiano Marcelino, livro 31, escrito por volta de 390; História Nova, de Zósimo, início do século VI

A guerra começou 2 anos antes, no rio Danúbio. Em 376, milhares de godos empurrados pelos hunos (povo de cavaleiros vindo das estepes da Ásia) pediram a Valente terra dentro do Império. O imperador aceitou os tervíngios de Fritigerno, que atravessaram o rio em barcos, jangadas e troncos escavados.

A travessia virou fome nos acampamentos da margem sul. Lupicino e Máximo, os oficiais romanos encarregados de receber os refugiados, desviaram os mantimentos e venderam comida a preço abusivo. Amiano conta que famílias godas entregaram os próprios filhos como escravos em troca de carne de cachorro.

Em Marcianópolis, cidade da atual Bulgária, Lupicino convidou Fritigerno para um banquete e mandou atacar a escolta dele. O chefe godo escapou com vida, e a revolta se espalhou pela Trácia. Os greutungos, que não tinham licença para entrar, cruzaram o Danúbio aproveitando a desordem.

Em 377, numa batalha sem vencedor perto de um lugar chamado Ad Salices (Junto aos Salgueiros, em latim), os romanos não conseguiram expulsar os godos. Valente, que estava em guerra contra a Pérsia, acertou uma trégua no leste e trouxe o exército para a Trácia.

Em junho de 378, o general Sebastiano atacou com uma tropa escolhida um bando de saqueadores godos perto de Adrianópolis e o destruiu. A vitória deixou o imperador confiante e convenceu parte do conselho de que os godos podiam ser batidos sem ajuda do Ocidente.

O combate do dia 9 durou da tarde até a noite. Terminou com a infantaria romana cercada, Valente desaparecido e os sobreviventes fugindo no escuro, protegidos por uma noite sem lua.

No dia seguinte, os godos cercaram Adrianópolis, onde tinham ficado o tesouro e as insígnias do imperador. As muralhas aguentaram o assalto, e os godos voltaram a saquear a Trácia.

 
 

II  Quem estava em campo

Um imperador com pressa e dois chefes a cavalo

Quatro homens decidiram Adrianópolis: um imperador que não queria dividir a vitória, um chefe godo que negociava enquanto esperava reforço e dois comandantes de cavalaria que chegaram na hora certa.

Flávio Júlio Valente nasceu em 328 em Cíbalas, na Panônia (região que hoje fica na Croácia), filho de um oficial do exército. Em 364, o irmão mais velho, Valentiniano I, foi aclamado imperador e entregou a Valente a metade oriental do Império.

O imperador com pressa

Valente tinha um sobrinho mais jovem e mais celebrado. Graciano, filho de Valentiniano, vencera os alamanos (povo germânico do alto Reno) em Argentária, em maio de 378, e a fama da vitória chegou ao leste antes dele. Amiano diz que Valente queria um triunfo só seu.

O general Ricomero trouxe a carta de Graciano pedindo espera. O comandante da cavalaria, Vítor, de origem sármata (povo iraniano das estepes ao norte do mar Negro), aconselhou aguardar o exército do Ocidente. Sebastiano e os cortesãos pediram ataque imediato, e Valente ficou com eles.

O chefe que negociava

Fritigerno liderava os tervíngios desde a travessia de 376. As fontes não registram quando ele nasceu nem o que lhe aconteceu depois da guerra; o nome dele some dos relatos poucos anos após a batalha, e nenhum autor antigo conta como.

Sócrates de Constantinopla, historiador da Igreja do século V, escreve que Fritigerno tinha adotado o cristianismo ariano (a corrente que Valente seguia, para a qual o Filho era inferior ao Pai) para ganhar o apoio do imperador numa disputa contra outro chefe godo, Atanarico.

Na manhã da batalha, Fritigerno mandou o padre com uma carta pedindo a Trácia para o seu povo. Depois ofereceu paz em troca de um refém nobre, e Ricomero se apresentou para ir. Ele ainda estava a caminho quando a luta começou.

Os cavaleiros que voltaram

Alateu e Safrax eram regentes dos greutungos em nome de Viderico, um rei menino. Tinham fugido para o Danúbio depois que os hunos derrotaram o reino greutungo, e o Império nunca lhes deu permissão para cruzar o rio.

Junto com eles vinha um grupo de alanos, cavaleiros que tinham fugido dos hunos pelo mesmo caminho. Amiano compara a chegada deles ao campo a um raio que desce de montanhas altas.

A guarda que atacou sem ordem

Os escutários (a guarda imperial de escudos) estavam sob o comando de Bacúrio, príncipe da Ibéria, reino do Cáucaso na atual Geórgia, e de Cássio. Avançaram contra os carros sem esperar a ordem de Valente e abriram a luta antes que a troca de reféns terminasse.

 

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III  O plano

Rodas atrás, cavalaria pela frente

O plano romano: marchar da cidade até o acampamento godo, abrir a linha em frente ao círculo de carros com a cavalaria nas pontas e a infantaria no meio, e atacar antes que o inimigo juntasse a força toda.

O plano godo: segurar os romanos com conversas e fumaça até a volta de Alateu e Safrax, e lutar com as costas nos carros, que serviam de muralha e de depósito.

A decisão que mudou a conta: atacar no próprio dia 9, sem esperar Graciano, um inimigo contado pela metade.

O primeiro passo foi a marcha. O exército deixou a bagagem e o tesouro em Adrianópolis e andou 8 milhas romanas, cerca de 12 quilômetros pela conta de Amiano, sob o sol de agosto, até avistar os carros por volta das duas da tarde.

O segundo passo foi a linha. A ala direita romana chegou primeiro e entrou em formação. A esquerda vinha atrás, ainda espalhada pela estrada, e ocupou a posição às pressas, com a cavalaria correndo para alcançar a infantaria.

O terceiro passo foi o choque antes da hora. Os escutários de Bacúrio e Cássio bateram nos carros e foram repelidos. Nessa hora, Alateu e Safrax desceram com os greutungos e os alanos e caíram sobre os romanos que ainda se arrumavam.

O quarto passo foi a prensa. A ala esquerda romana avançou até encostar nos carros e ali ficou sem a cavalaria que devia cobri-la. Amiano escreve que ela desabou como um dique rompido. A infantaria se espremeu tanto que os soldados mal conseguiam erguer a espada, e a poeira tapava o céu enquanto as flechas chegavam de todos os lados.

Valente buscou abrigo entre duas legiões que ainda resistiam. Quando os guardas dele se dispersaram, o imperador ficou sem escolta, e a noite sem lua encerrou a perseguição.

Amiano registra 2 versões para o fim de Valente e não escolhe entre elas. Na primeira, uma flecha o derrubou entre os soldados comuns. Na segunda, os guardas o levaram ferido para uma casa de campo, os godos puseram fogo nela sem saber quem estava lá dentro, e um único sobrevivente contou a história.

Sebastiano e Trajano ficaram no campo, com 35 tribunos (oficiais que comandavam unidades), pela lista de Amiano. O mesmo autor deu a medida da perda: “Nenhuma batalha, a não ser a de Canas, foi registrada nos nossos anais com tamanho massacre.” (Amiano Marcelino, Histórias, livro 31, escrito por volta de 390)

Teodósio, general escolhido por Graciano para governar o Oriente em 379, não conseguiu expulsar os godos. Em 382, assinou um tratado que os assentou ao sul do Danúbio como federados (povo aliado com terra dentro do Império e obrigação de lutar por ele).

“Quanto custa esperar um dia quando o inimigo foi contado pela metade?”

Valente não teve túmulo.

 
 
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